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quinta-feira, 25 de maio de 2023

Osmose 130


Há tempos e textos que, por vezes, nos encantam. Não serei muito sujeito a fascínios excessivos e inexplicáveis, mas sei reconhecer e admirar a qualidade de um parágrafo, a concisão de um pensamento ou a nitidez de uma descrição, a forma justa, precisa e realista de narrar um acto. De alguma forma, é isto que sinaliza um bom romancista, um poeta, um artista profissional na sua obra. Ou um homem atento à vida, pelo menos.
A página 258 de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, fez-me parar na leitura para pensar melhor estas palavras assim ditas (ou escritas), do escritor brasileiro:

Não iríamos, por fraqueza, responsabilizar o capitão moreno de voz frágil: ele apenas descobrira as nossas tendências, empregara o meio conveniente para transformá-las em acção. Reside nisso talvez o domínio que certos indivíduos exercem sobre a turba; o seu prestígio vem da faculdade quase divinatória de conhecer aspirações e interesses escondidos, juntar grãos de pólvora derramados nos espíritos, chegar-lhes um fósforo em cima. Certo não nos mexeremos à toa: o mais longo discurso incendiário, profuso de razões, não ressoa cá dentro - e permaneceremos calmos, frios; meia dúzia de palavras curtas nos arrastam.

Eu creio que seria muito difícil conseguir dizer melhor. Este facto bem difícil de descrever: o poder encantatório das palavras ou o timbre contagiante de uma voz.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Antologia 14



...
Arriei perto, senti a maciez fofa dos panos: aquilo parecia colchão. Ignoro se veio comida, suponho que todos ficaram sem alimento. De cócoras, deitados, zumbiam à luz fraca da lâmpada muito alta. Exposição humilhante era a sórdida latrina, completamente visível. Sobre o vaso imundo havia uma torneira; recorreríamos a ela para lavar as mãos e o rosto, escovar os dentes. As dejecções seriam feitas em público. A ausência de porta, de simples cortina, só se explicava por um intuito claro da ordem: vilipendiar os hóspedes. Nem cadeiras, nem bancos, inteiro desconforto, o aviltamento por fim, a indignidade. Alguém teve ideia feliz: conseguiu prender uma coberta em frente à coisa suja, poupou-nos a visão torpe. Isso nos deu alívio: já não precisávamos fingir o impudor e o sossego de animais.
...

Graciliano Ramos (1892-1953), in Memórias do Cárcere (pg. 175).




 

domingo, 3 de abril de 2022

Evocação (atrasada)



William Hurt (20/3/1950 - 13/3/2022), para melhor se definir, dissera um dia, recentemente:

"Não sou um actor. Sou simplesmente um homem que gosta de representar. Sou o que sou. Não sou ninguém. Não existo. Só o trabalho existe. O trabalho vale mais do que o actor."