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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Eugeniana, mínima


A revista Colóquio, propriedade da Fundação Gulbenkian e que, de 1959 até 1970, abarcava conjuntamente temas de Artes e de Literatura, em 1971, cindiu-se em duas, de modo a privilegiar melhor uma vocação mais especializada. Este primeiro número da Colóquio-Letras, saido em Março, inclui, entre outras colaborações, 2 poemas de Eugénio de Andrade (1923-2005), acompanhados de um desenho de Dordio Gomes (1890-1976).


Não sendo dos seus poemas maiores, na minha modesta opinião, Eugénio de Andrade viria a inclui-los nas reedições (aumentadas) da obra Mar de Setembro que fora, inicialmente, publicada em 1961 e, sucessivamente, reeditada. Em 1990, o livro contava já 8 edições.
Contrariamente ao que lhe era habitual, o Poeta manteve, passados 19 anos, a versão original do poema "Alba", que aparecera na Colóquio. Quanto a "Tema e variações em tom menor", veio a reduzir-lhe o título para "Variações em tom menor", e apenas substituiu, no último verso um substantivo: morte pura por chama pura.
Assim ficou a versão definitiva.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Versões


É um pormenor sem importância, talvez. Mas atesta as transformações por que passa um poema, até à sua versão final. Ou aquela que um Poeta acha mais concorde e perfeita.
Por outro lado, é pouco provável que venha a ser feita, alguma vez, uma edição crítica da obra de Eugénio de Andrade (1923-2005), muito embora grande parte do seu acervo se encontre na BPMP. Mas também dele, ultimamente, pouco se tem ouvido falar ou, melhor dizendo, da sua poesia.



Em Jan./Fev. de 1960, a Revista Vértice (nº 196-197) publicou um pequeno conjunto de poemas de Eugénio de Andrade, com o título Improvisos de Outono. O segundo poema, que é um dos que eu mais aprecio do Autor, tinha inicialmente 6 versos, como pode ver-se, na imagem acima. E não tinha qualquer dedicatória, na sua versão primeira. 




Cerca de dois anos depois, Eugénio de Andrade publica na Delfos a sua primeira Antologia (25 de Novembro de 1961). O poema (pg. 206) é então dedicado ao amigo e crítico literário Óscar Lopes. Passa a intitular-se Passo e Ardo... E os 6 versos iniciais são reduzidos para cinco. Desaparece o Sol doirado?, substituído por Luz?. Bem como se altera a ordem das palavras no 2º verso, que não terá ainda, aqui, a sua versão definitiva. 




Todo o ano de 1966, Eugénio de Andrade passa, a pente fino, a sua obra - conforme o referiu em carta. Aperfeiçoando os poemas, modificando-os de acordo com uma maior exigência de maturidade. De novo desaparece a dedicatória, e a quintilha perde, mais uma vez, o seu título anterior, passando a ser designada por Quase nada. O segundo verso é também alterado: desaparece Música?, substituída por Água?. E a ordem das palavras sofre modificações. Os Poemas virão a ser publicados pela Portugália, em Novembro de 1966, na celebrada colecção: Poetas de Hoje.
O poema teve deste modo a sua redacção definitiva. É assim que ele vai aparecer nas futuras edições da IN-CM (Abril de 1980) e de "O Jornal/Limiar", em 1990. Entre a primeira versão e a última, no entanto, tinham decorrido quase sete anos ( o que faz lembrar Camões...). Por essas reconfirmações de 1980 e 1990 se estabeleceu o ne varietur do poema.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Pinacoteca Pessoal 109



O sobreiro, a que os alentejanos chamam chaparro, é uma das mais emblemáticas árvores nacionais e, também, das mais longevas. Predomina no Alentejo e Algarve e, embora com menor mancha florestal, no Ribatejo. É por ela que somos o primeiro e maior produtor mundial de cortiça, que dele se extrai. E da bolota muito porco preto se alimenta, na planície alentejana.
A árvore inspirou, pelo seu aspecto singular e sugestivo na paisagem, inúmeros pintores portugueses, desde o rei D. Carlos (1863-1908), até, mais recentemente, o alentejano Dordio Gomes (1890-1976), que se radicou no Porto, e aí veio a falecer. São deles as imagens de sobreiros que acompanham este poste. Quer na sua forma naturalista ou clássica, quer numa visão mais modernista.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

E. de A.


Outono - pássaro de melancolia
num céu sem cor que não promete nada;
mar de insónia onde o teu corpo paira
como o perfume da terra molhada.


Eugénio de Andrade, in Os amantes sem dinheiro (1950).