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domingo, 9 de julho de 2017

Em louvor da Velhice (criativa e irreverente) : David Hockney


Tenho, para mim, que a velhice é, normalmente, mais do mesmo, passado. Ou como dizia o outro: é chegar ao fim do dia, e ver que nada aconteceu. Mas há curiosas excepções, mais raras ainda com artistas ou criadores. Estou a lembrar-me, por exemplo, de Herberto Helder que inflectiu, de forma poderosa, a sua poesia, nos últimos anos de vida. Menos, talvez Picasso, mas, com certeza, Matisse. Sá de Miranda é outro bom exemplo. Porque, na maioria dos casos, o que sobra é uma penumbra habituada, uma sombra pálida do que se fez, já sem o fulgor e pujança madura dos melhores anos. Como que uma desistência direccionada ao apagamento. Júlio Pomar disse, numa relativamente recente entrevista, que já andava cansado...


David Hockney (1937), que hoje faz 80 anos, é também um bom exemplo dessa vitalidade criativa que se renova, teimosamente, apesar da idade. Em 2012, em Colónia (Alemanha), tive a felicidade de ver uma exposição das suas últimas obras, que me surpreendeu pela frescura e qualidade estética, até mesmo, pela inflexão profunda do itinerário que tinha seguido até ali. É certo que ele tinha voltado à infância, voltara às paisagens juvenis da Inglaterra (East Yorkshire), onde tinha decorrido a sua adolescência, para pintar de novo. Alguns dos vídeos-instalações eram surpreendentes. E deixaram-me fascinado. Não os esquecerei tão cedo, como soberbas realizações de velhice ou maturidade tardia. E de apuramento estético, naquilo de que um criador é capaz.


É canónica e foi consensual a teoria de Leon Battista Alberti (1404-1472), durante muito tempo, para que o centro de um quadro organizasse os motivos de tal forma que obrigasse ou fizesse convergir o olhar do espectador para o tema central da obra. Muito poucos pintores, e ainda assim muito raramente, desafiaram esta teoria sobre a perspectiva, ou "desmanchar(am) a regra" - como disse, em verso e muito bem, o meu amigo António.
David Hockney tem, presentemente, no Centre Pompidou, uma exposição das suas obras, patente ao público até 23 de Outubro de 2017. A propósito da mostra, concedeu a Le Monde (22/6/2017) uma interessante entrevista em que explica a sua glosa (Annonciation 2) sobre o quadro de Fra Angelico (1395-1455), "A Anunciação a Maria", pintado em 1437. Recriando o interesse do presumível espectador pelo lado esquerdo, onde acrescentou uma paliçada diferente, e pelo lado direito, com o negro da noite. Por outro lado, modificou a posição da paliçada, de modo a alargar o campo de visão do observador. Levando-o para outros caminhos. A geometria do quadro de David Hockney é também totalmente diferente da de Fra Angelico, et pour cause...


Hockney refere também na entrevista que o que vinha pintando, natural e inconscientemente, numa tendência de inversão das perspectivas, se lhe esclareceu com a leitura da obra de Pavel Florenski (1882-1937), "A Perspectiva Inversa", em que o teórico russo advogava uma concepção da pintura totalmente contrária às ideias renascentistas do italiano Leon Battista Alberti. Daí os seus vídeos- instalações dos últimos anos, que, pelo seu movimento contínuo, obrigavam à participação acompanhada do olhar do observador.


Terminemos com uma nota mais ligeira, e de humor, de David Hockney que, quase no final da entrevista a Philippe Dagen, em Le Monde, afirma:
"Sim, eu sou um pintor feliz, e continuo a fumar. Na minha idade, não faria muito sentido parar: já não arrisco grande coisa. Sabe o que dizem na Califórnia? Que a opção, em breve, será entre fumar e a imortalidade. A imortalidade..."

domingo, 21 de dezembro de 2014

Divagações 78


As representações religiosas em pintura, da Natividade à Crucificação, de tão vistas e reproduzidas, deixam-me, normalmente, indiferente e não conseguem já despertar-me a mínima emoção ou um qualquer prazer estético. Por outro lado são raros, nessas representações pictóricas, os laivos de originalidade ou de algum pormenor que ultrapasse o estereotipo.
Como aqueles poemas de circunstância de grande parte da pobre poesia portuguesa dos séculos XVII e XVIII, que dizem sempre o mesmo, expressando a banalidade sentimentalesca através dos jargões vazios de uma época de artifícios.
Ainda me agradam um mínimo, no entanto, pela sua rústica simplicidade, algumas pinturas de Giotto (1266?-1337) e de Fra Angelico (1395-1455) sobre o Natal. Daí, este céu azul vazio, de Giotto, povoado de estrelas ingénuas, que escolhi para ilustrar o poste.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Divagações 54


Enquanto a lua sobe, em círculo perfeito, horizontal o casario ribeirinho imóvel se mantém sobre as águas nocturnas do Tejo. Há um espelho pressentido e líquido que não reflecte nada, porque o azul é profundo, escuro, e só poderá ser quebrado pela imaginação. O silêncio, não fosse o ar estar limpo, não deixaria que algumas vozes, raras, incomodassem a noite.
Do livro sobre a pintura de Fra Angelico (c. 1395-1455) que li a eito, nos últimos dias, ressuma das imagens uma escassez essencial, que despreza o acessório e o secundário, para sublinhar o mais humano, ou o sagrado. Há nas suas tábuas ou murais, um rente ao dizer (Eugénio de Andrade), que me fascina, como se o íntimo prémio e a generosa dádiva estivesse - e estaria para ele - no além-Terra.
A rudeza nua da paisagem, que lembra alguns quadros de Hogan (1914-1988) sobre Monsanto, antigo, quase incomodam. São, pelo menos, pinceladas avaras e cruéis, sobre o campo italiano que, dificilmente e mesmo no século XV, seria tão ermo e tão despovoado de vegetação. Porque são raras as paisagens frondosas nos quadros de Fra Angelico.
O que é que ele, simples, concentrado e essencial, nos quereria dizer?

sexta-feira, 15 de março de 2013

Idiotismos 14 a)


A expressão popular emprenhar pelos ouvidos vem explicada no livro "Nas Bocas do Mundo" (Planeta, 2010), de Sérgio Luís de Carvalho. E seria uma alusão ao "processo de gravidez da Virgem Maria que, de acordo com a crendice popular, teria emprenhado pelo ouvido com o anúncio que lhe é feito por um arcanjo. Se não engravidou por vias «humanas», logo, deduziu o povo..."
Mas o facto também é referido nos Evangelhos apócrifos do Pseudo Mateus e no de Arménio da Infância. Assim, no momento em que a Virgem ouviu a Anunciação, o verbo divino penetrou pelo ouvido (Evangelho Arménio da Infância, V:9). Hoje em dia, no entanto, o seu significado ampliou-se muito, valendo pelo facto de alguém dar crédito a fantasias, ou encher-se de verdades fictícias contadas por um alcoviteiro.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pinacoteca Pessoal 19 : Fra Angelico



"A Anunciação" foi um dos temas predilectos de Guido di Pietro Trosini (1387?-1455), frade dominicano e pintor italiano, mais conhecido por Fra Angelico. Pintou várias, mas esta, em imagem, do Museo di San Marco, em Florença, é a que eu prefiro. Talvez pela excessiva sobriedade (quase diria pobreza) de elementos decorativos, nudez de cenário e tratamento da luz. Sucinta geometria e precaridade de efeitos na sua rígida simplicidade que poderia ser apelidade de "franciscana". O fresco está pintado sobre uma parede de cela do Mosteiro de S. Marcos, onde Fra Angelico foi monge. Além do anjo Gabriel e da Virgem, pode ver-se, à esquerda, S. Pedro. O fresco terá sido pintado entre 1441 e 1443. O frade-pintor morreu quando estava a trabalhar numa capela particular, no Vaticano. João Paulo II beatificou-o em 1982.