O livro Reinado e Ultimos Momentos de D. Pedro V, de José Maria de Andrade Ferreira (1823-1875), teve logo duas (3?) edições no próprio ano da morte (1861) do jovem rei português, talvez pela grande simpatia que o monarca despertava nos seus súbditos. Nele se traçam também alguns aspectos da sua personalidade. Assim:
"El-rei era até affavel. Possuia, como poucos, o dom de se ensinuar de modo que não havia resistir-lhe, tratando sempre com summa cortezia e affabilidade a todos que o procuravam, excogitando os assumptos da conversação que sabia agradarem mais às pessoas com quem fallava, deixando sempre o tom de superioridade, que mais ou menos transpira na urbanidade quasi sempre estudada de quem se acha colocado em posição eminente. (...) Era extremamente delicado no tracto intimo e não poucas vezes lhe acudiam aos labios ditos galantes e chistosos. Não desgostava da satyra engraçada e commedida, e occasiões havia em que, estimulado pela facecia de qualquer dialogo agradavel, o retrucava com alguns epigrammas. Então ria-se mas còrava de subito, e reprimia-se logo, como se quizesse censurar á sua gravidade habitual este natural desafogo do génio motejador. (...) D. Pedro V era muito lido. Conhecia a música a fundo, tocava piano, era notavel na esgrima e desenhava com excessiva facilidade. Do seu lapis facil ficaram muitas caricaturas notáveis pela graça e rapidez do traço. (...) Comia pouco de ordinário e não gostava e até motejava dos desvarios da phantasiada culinaria francesa. (...) Uma coisa singular: D. Pedro V, que era um principe tão methodico em todas as suas coisas, tinha sempre em grande desordem os papeis e livros do seu gabinete d'estudo." (pgas. 23/8)

