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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Recuperado de um moleskine (37)

 


É sempre uma tentação voltar ao Largo, à procura do que sei já estar extinto. Por vezes o instinto é um caminho à parte, ou um atalho estranho que se impõe de nenhures. A praça quase poderia ser o centro de uma aldeia interior, no seu formato irregular e hexagonal. Duas ou três árvores despidas por Janeiro. Com vento, ouvem-se as ondas a bater no cais desmoronado, lá ao fundo. E há tudo o que poderia fazer falta numa vila pequena: farmácia, tabacaria, café, mercearia, o posto de correio... Volto à paisagem e sossego ao ver-te sorridente na fotografia da memória, embora a luz, agora, seja do Sul, limpo, e nem haja vestígios de rio ou mar pelo cenário ermo e vazio. Depois, há sempre a tentativa de atenuar ou expiar a culpa, ainda que ela nem sequer exista. Afinal, que sabemos nós da ficção que, por vezes, nos invade brutalmente a realidade de viver, seja por via da dor, da saudade ou daquilo que é irremediável? Que sirva de exorcismo o que não tem remédio... Fique a rocha bruta a brotar do rio, e as águas à nossa frente, logo pela manhã. Tudo o resto é extático, irremediável, fixo no passado, já sem história à vista.

domingo, 10 de junho de 2018

Passeios 7: Impressões da Invicta


Embora julgando ter um razoável sentido de orientação no espaço, há cidades portuguesas que me enervam e nas quais evito conduzir. Uma delas é o Porto. Saindo da Avenida da Boavista, tudo se complica.

Com efeito, depois da chegada arrumei o carro numa garagem de amigos e passei a usar o “andante” ou as próprias “patinhas”.

Da zona da Foz, reproduzida acima, apanhei a carreira 207. Uma maravilha ! Foram 40 minutos bem passados, podendo observar do pobre ao rico, num giro pela cidade sem a ansiedade do trânsito. Apreciei tudo, até as “mulheres da vida”, a secar umas “leggings” num banco do Jardim de S. Lázaro após uma carga de água, que também apanhei a caminho da Biblioteca Pública.

De tarde, e com o tempo melhor, ainda deu para descer a Rua de Diu, olhando para o edificado e o Mar ao fundo.


É sempre com enorme gosto que caminho por certas zonas da Invicta, olhando para casas e “casinhas” tão diferentes do Sul. Parece tudo mais “mossiço”, janelas e portas com madeiras maciças e que casam com pormenores de acabamento que encantam.

Resulta, no entanto, dessa junção, certamente ditada pelo tempo e o uso, um objecto sólido que não dispensa o encanto da beleza.


Post de HMJ, dedicado a I.A.M e A.A.M

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Primavera no Largo



A tarde primaveril e amena convidava à dispersão pela calçada portuguesa. Falou-se da Foz, do Algarve, da Praia do Meco. Por ordem inversa, na contiguidade: Francisco Sousa Tavares, Cândido Guerreiro (sem lhe dizer o nome) e Sophia. De provocação, generosidade e heroísmo. E, eu tinha defronte o chafariz - que, de útil, passou a monumento seco -, onde um rosto imóvel de pedra me fitava e uma boca aberta que já não era fonte. À noite, em casa, vieram as palavras:

...e a sede foi secando pelas fontes
onde as bocas sorveram o vazio.

Daí veio o Juan Ramón Jimenez. Depois o comentário. Eugénio e Sophia para fechar o rectângulo do Largo soalheiro ("...estes dados reunem-se sempre para formar uma nova coerência.", T. S. Eliot). Também o meu interlocutor dissera: "Estamo-nos a atropelar na conversa...", e eu pensara: tal é a força da Primavera e da amizade. Ficou-me também uma zoada de italiano e espanhol na esplanada, mas o mais forte foi o riso que rimos e o bem que estavamos falando de coisas tão dispersas que iam de Lagos a Matosinhos, depois dos filetes de linguado com arroz de pimentos vermelhos. Com um Evel branco, muito fresco. Do passado ao futuro que ia acordando, imperceptível, da morte do presente. A Primavera no Largo...

P. S. : para "c. a. ", em diagonal.