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sábado, 8 de março de 2025

Citações DVIII

 

Os gatos e as crianças assemelham-se, eles raramente largam os maus costumes adquiridos na infância.

Abbé de Saint-Cyran (1581-1643), in Lettres a sa nièce.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Lembrar Eugénio (1923-2005)


Acerca de gatos

Em abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.


Eugénio de Andrade, in O Sal da Língua (1995).

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Recuperado de um moleskine (30)


... em discretos pés de lã, mal pressentidos, os pequenos felinos silenciosos inspeccionam os recantos, vigiam o seu próprio espaço, assegurando a sua posse, e deslocam-se, subtis, por toda a casa. Mais raramente há um arrufo entre eles, com ameaça levantada de patas em que as unhas se descarnam como lâminas afiadas.
A Miki vem recolher dos humanos, ciclicamente, algum afago, ou com blandícia vem rodear e roçar as nossas pernas, de rabo alçado como se fora uma cobra vertical em contorções medidas. De todos, só Il Divo (assim o nomeio, para mim) totalmente nos ignora, olímpico e distante. Assumindo uma postura altiva e imponente, a que o seu pêlo angorá, e a enorme mancha branca, no peito, dá contornos de juba leonina em miniatura. Domésticos e domesticados, quase nunca miam.
Só o ruído longínquo da tempestade, se se repetirem os trovões, poderá perturbar a sua segurança altiva, transformando-os, por momentos, em simples gatos ansiosos, possuídos pela desordem das emoções, a que nem a presença dos humanos dá qualquer serenidade animal, em relação à Natureza.
Eles lá saberão porquê...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Os gatos de R. J.

De gatos, e na intimidade, só me lembro da "Violeta", da minha estimada tia Ermelinda. Gata sibilina e traidora, que me deixou 3 arranhadelas soezes, na infancia. E muito poucas saudades, apenas memórias doridas e sangrentas.
Mas estes pequenos felinos germanicos sao de outra estirpe, mais aristocrática, domada e subtil. Todos negros, excepto o Thom (Rodrigues, para mim) que é mosqueado e um pouco doente: bronquite, estomago delicado - velhice, enfim.
De pelo alinhado, naturalmente para trás ("Nunca se deve afagá-los a contra-pelo" - diz-me R. J.), macios e silenciosos no andar, filósofos sonolentos quando imóveis, devem sonhar muitas vezes com a burrice humana. Porque pragmáticos e soberanos, nada cedem do que lhes é essencial. E raramente miam, só por necessidade de algum mimo, em zonas próprias e corporais sem acesso autónomo. Ou algum petisco que desejem, felinamente.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Gatos, gansos e panteísmo

Vai o Arpose, cada vez mais, panteísta, porque é difícil ir resistindo ao verde já raro, que tenta subsistir por entre o amarelo predominante e o castanho escuro do que vai morrendo, o ocre da terra e o azul palidíssimo do céu. Porque, depois, além das pegas gordas que pousam no cocuruto dos abetos, sempre verdes, há os gatos, quase sempre presentes. Uns atrevidos (Thom, a quem eu chamo: Rodrigues), outros ronronando sonolentos e misteriosos; e, ainda, a blandiciosa "Molly" que, noutra mais tenra idade, terá sido agressiva e valquiriana, q.b..
Mas tenho, absolutamente, que lembrar os gansos. As suas penas macias e pródigas, que nos aquecem, de noite, em édredons levíssimos,  quase celestiais no aconchego e quentura. E, imperdoável seria, eu esquecer, no dia de chegada, a tenríssima perna de ganso, assada, com a inevitável couve roxa saborosa. Troquei as "Knödel" (uma espécie de pequenas bolas de puré), pelas batatas fritas, que prefiro. E, na dúvida, dos vinhos, atirei-me a uma "kölsch", bem fresca, que o restaurante era "cosy", e estava aquecido, como devia.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Adagiário XCI : ainda os gatos


1. A bom gato, bom rato.
2. Bocado que leva o gato, nunca mais volta ao prato.
3. Gato que a cobra morda, tem medo à corda.
4. Gato pede miando, mas come rosnando.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O desamor aos animais


É da história: o amor é um sentimento, quase sempre, fugidio. E a necessidade pode muito - já lá dizia Almeida Garrett. A crise, por outro lado, tem muita força. Diz o povo: vão-se os anéis, fiquem os dedos. Já aqui dei conta, em 3/1/2011 (Os cavalos irlandeses e a crise), que os irlandeses tinham abandonado 20.000 cavalos à sua sorte: uns morriam à fome, outros iam sendo abatidos...
Vejo hoje nos jornais portugueses que a Liga Portuguesa dos Direitos dos Animais tem para adopção 250 animais, que lhe foram entregues pelos anteriores donos. A maior parte são gatos. Aqui, na zona outrabandista, também já se nota o aumento das matilhas e dos gatos vadios. E a procissão ainda vai no adro. Ao contrário do que dizia Júlio Dantas, n' "A Ceia dos Cardeais", não é assim tão diferente o amor em Portugal...

domingo, 18 de setembro de 2011

Os gatos de Doris Lessing


Nunca fui muito à bola com gatos. O meu gato primordial, aliás gata, chamava-se "Violeta" e deixou-me alguns arranhões na memória. Por isso, quando vi o livro no alfarrabista, como era de Doris Lessing (1919), prémio Nobel de 2007, folheei-o, mas voltei a pousá-lo na estante. Mais tarde, decidi arriscar e comprei-o. Tem por título "Gatos e mais gatos" (Particularly Cats and More Cats), foi traduzido, para a Cotovia, por Maria Isabel Barreno e publicado em 1995. Fiz bem tê-lo comprado, porque se lê lindamente. Fala de gatos persas, africanos e londrinos, com a minúcia inteligente e o pormenor atento de quem os conheceu e conviveu com eles. A leitura deste magnífico livro quase me fez começar a gostar de gatos -julgo que não posso fazer melhor elogio à obra de Doris Lessing. Aqui vai, por isso, um bocadinho para quem goste de gatos (ou não), e para aguçar o apetite:
"...A minha gata era uma jovem de origem indistinta, branca e preta, garantida como limpa e dócil. Era um bicho bastante simpático, mas eu não a amava; não sucumbi. Estava, em resumo, a proteger-me a mim própria. Achava a gata neurótica, ansiosa, agitada; o que era injusto, porque a vida num gato da cidade é tão pouco natural que ele nunca aprende a ser independente como um gato de quinta. Aborrecia-me porque ela esperava que voltássemos para casa - como um cão; precisava de ajuda humana para ter gatinhos. E quanto aos hábitos alimentares, ganhou a batalha na primeira semana. Nunca comeu, nem uma vez, outra coisa que não fosse fígados de vitela mal passados e pescada mal cozida. Onde arranjara esses gostos? Perguntei ao seu ex-dono, que também não sabia. Deixei-lhe comida de lata, e restos da mesa; mas só mostrou interesse quando nos viu comer fígado. E só comia fígado cozinhado em manteiga, nada mais. Uma vez decidi levá-la à submissão pela fome. «É ridículo que um gato tenha que ser alimentado, etc., etc., quando noutros lugares do mundo há pessoas a morrer à fome, etc.» Durante cinco dias dei-lhe comida de gato, restos da nossa comida. Durante cinco dias ela olhava reprovedoramente para o prato, e ia-se embora.Todas as noites eu deitava fora a comida cediça, abria nova lata, voltava a encher a tijela do leite. Ela vagueava por ali, inspeccionava o que eu lhe dera, abalava. Ficou mais magra. Devia ter muita fome. Mas, por fim, fui eu quem cedeu.  ..."(pgs. 24/25).