Mostrar mensagens com a etiqueta Álvaro de Campos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Álvaro de Campos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de março de 2012

Pessoana e lisboeta


Procurei-os, em vão, aos patos selvagens sobre o rio. Mas as nuvens carregadas, que depois deram em chuva, devem tê-los afastado para longe. Mesmo as gaivotas eram escassas e fugidias sobre as águas escuras.
O travo da dessaborida dobrada vinha-me ainda no gosto desencantado, ao começo da tarde. Reforçada que fora, por nós, com sal e pimenta, nada adiantou à confecção desajeitada da cozinha. Ainda perguntei se a cozinheira estava de folga ou férias, mas não me souberam responder. Vinha, ao menos, quente, como recomendava o Eng. Álvaro de Campos: "...Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria."
O Cais do Sodré estava mais conforme ao "ano da morte de Ricardo Reis", com a chuva desalmada caindo. E, no Chiado global, começaram a surgir, não se sabe donde mas como sempre, os oportunos indianos e paquistaneses a vender os pequenos guarda-chuvas extensíveis a cinco euros cada. Devem ter herdado, por trespasse, o negócio dos chineses que, entretanto, se sumiram para as bandas da EDP...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Melancolia e "Spleen"


Às vezes, ao ler algumas "search words" que, via Google, acabaram por vir ter ao Arpose, em busca de resposta, fico possuído de um estranho spleen, alguma melancolia inesperada, quase tristeza. Por trás dessas perguntas, porventura, desesperadas ou "search words" tão desconexas e tolas (: "porque razão a uniao europeia ainda não adotou uma lingua comum" (sic), "ainda há juízes em berlim lenda" (sic), "ranking cabra ri hugo michaelis sequeira santos" (sic)) escondem-se, talvez, preocupações existencialistas, metafísicas sofredoras, angústias filosóficas tremendas... Mas penso que, também, aí coexiste a iliteracia, a preguiça corporal e mental, a ignorância, a incapacidade de raciocinar, alguma leveza adolescente, a cabeça desarrumada de tanta gente, neste mundo...
E dá-me para a melancolia, para o spleen, até para me lembrar, com alguma tristeza, dos últimos versos de "A Tabacaria" de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos): "...e o universo / Reconstruiu-se sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu."

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Álvaro de Campos lido por E. M. Cioran


A 19 de Janeiro de 1970, E. M. Cioran (1911-1995) anotou, no seu diário ("Cahiers / 1957-1972"), o seguinte:
"Abro as «Poesies» d'Alvaro de Campos (Pessoa), e dou por
«Seja o que for, era melhor naoter(sic) nascido.»
Seja como for, melhor fora não ter nascido.
É um erro acreditar que há uma relação directa entre o sentimento de infelicidade e a questão do nascimento. A incriminação feita ao nascimento tem raízes profundas: e ela terá lugar, mesmo quando não houver ressentimento contra a existência. É que o fenómeno de nascer encarado em si mesmo é tão ofensivo para a razão, tão pesado de consequências e tão estranho em si, e fora de outras considerações, que é mais fácil aceitá-lo como uma anomalia do que como uma evidência. Eu não regresso a ter nascido. Além disso que outrém também tenha nascido, não me provoca nenhuma admiração. Todos os «nascidos» me perturbam."