
Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), que foi, no século, conhecido por Agostinho Pimenta, era irmão de Diogo Bernardes e terá nascido em Ponte da Barca. O rio Lima, o Tejo e, finalmente, o Sado aparecem referidos na sua obra, mas é a Arrábida o cenário mais marcante dos seus poemas. Foi na serra que viveu os últimos anos da sua longa vida, e aí morreu a 14 de Março de 1619. Tinha vestido o hábito de capuchinho em 3 de Maio de 1560. Teria escrito poesias profanas, antes. Mas o que dele se conhece é, grandemente, de índole religiosa. A sua curta obra foi editada, pela primeira vez, em 1771. Em 1918, Mendes dos Remédios juntou-lhe o chamado "manuscrito conimbricense", o "manuscrito portuense" da Biblioteca Municipal do Porto, e fez publicar as "Obras de Fr. Agostinho da Cruz", em Coimbra. Em 1971, Aguiar e Silva, no seu livro "Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa", expurgou ou pôs, em dúvida, algumas das poesias que eram atribuídas ao frade capuchinho. Mesmo assim, o que dele fica, dá para perceber a fina sensibilidade de Poeta que foi, e o seu ritmo fluído, original e intenso. Da elegia V ("Ao fim da vida") retiramos alguns tercetos, onde também fala de vários mariscos, entre eles as perceves que, julgo, pela 1ª vez aparecem na poesia lírica portuguesa:
"...Tudo me cansa, já, tudo me peja,
E pouco basta já para suster
O pouco que da vida me sobeja.
A praia tem marisco que comer
Ameijoas, berbigões na branca areia,
Que facilmente posso revolver.
A pedra que dos mares se rodeia,
Cheia de lapas pardas aparece,
De negros mexilhões inda mais cheia.
A vermelha santola não falece,
Outro com seu pé curto revirado,
Seu não, antes de cabra me parece.
E, quando se mostrar muito alterado
O mar, que seu marisco me defenda,
O bosque está daqui pouco afastado.
Quer suba a planta nele, quer se estenda,
Escolherei no ramo o mais maduro
Fruto sem dano alheio e sem contenda..."