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quarta-feira, 12 de março de 2025

Curiosidades 110

 

Cruzei-me, inesperadamente, com a palavra muleta, não no sentido usual do termo, mas como embarcação antiga e regional do Tejo, que tinha esse nome. Datando muito provavelmente dos séculos XVI-XVII era uma embarcação muito curiosa de pesca de arrasto à vela. Destinava-se à captura, principalmente, de azevias, linguados e solhas, no Tejo e no Sado.



Sob o patrocínio da C. do Barreiro, foi construída uma muleta nos moldes tradicionais, nomeada Álvaro Velho, e que proporciona passeios fluviais, desde o ano de 2022, entre 13/7 e 28/9.

domingo, 12 de junho de 2011

O Sado, como pretexto


Os jornais de hoje referem: 1."Manifestantes querem encher Rossio de pessoas deitadas no chão"; 2."Em Espanha, após acampamento de 4 semanas, os jovens desmontam as tendas". Até aqui, o que se pode concluir é que a taifa ou aduar luso vai com imenso atraso, em relação ao aduar castelhano, ou a capacidade de inovação e originalidade portuguesa continua a ser incipiente. Continuamos a imitar, mal, e usamos moldes usados e estafados que foram pioneiros do outro lado do Mediterrâneo: na Tunísia, no Egipto, há muitos meses atrás. E com boas razões, à partida: combatiam ditaduras corruptas. Na Península Ibérica (ver poste "As novas taifas", de 20/5/2011, aqui no Blogue), estes movimentos juvenis, com alguns séniores à mistura, parece terem apenas motivações lúdicas, festivas, para entreter o ócio e spleen adolescente. Ou, então, para os 2 ou 3 minutos de fama, na Tv. Com algumas movimentações algo injustificáveis como, recentemente, estes jovens espanhóis que tentaram impedir a tomada de posse do presidente da câmara de Madrid, bloqueando os acessos. São tiques de pressão intoleráveis numa democracia e que prenunciam uma visão dogmática, quase ditatorial, nos propósitos. Se estes jovens querem destruir o sistema político, em si, que concorram (serão assim tantos?) a eleições, como partido, democraticamente, e que façam implodir o sistema, por dentro. Depois, pelas roupas de marca, pelos telemóveis topo de gama que os vejo a usar, não me parecem sofrer grandes dificuldades. Serão, provavelmente, os novos infantes da esquerda-caviar...
Demos, no entanto, um pequeníssimo espaço à dúvida metódica da  (minha) idade e da excepção. Por vezes, as excepções acontecem. Por exemplo: ao contrário de todos, ou quase todos os rios portugueses, que têm um percurso Norte-Sul, o Sado, que nasce na serra da Vigia, vem desaguar a Setúbal. Talvez para evitar o barrocal algarvio. Mas, seja como for, o rio Sado, por excepção, tem um percurso Sul-Norte...aliás, como as movimentações das taifas e aduares que vieram de África para a Península Ibérica. Voilà!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A dieta do Ermita



Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), que foi, no século, conhecido por Agostinho Pimenta, era irmão de Diogo Bernardes e terá nascido em Ponte da Barca. O rio Lima, o Tejo e, finalmente, o Sado aparecem referidos na sua obra, mas é a Arrábida o cenário mais marcante dos seus poemas. Foi na serra que viveu os últimos anos da sua longa vida, e aí morreu a 14 de Março de 1619. Tinha vestido o hábito de capuchinho em 3 de Maio de 1560. Teria escrito poesias profanas, antes. Mas o que dele se conhece é, grandemente, de índole religiosa. A sua curta obra foi editada, pela primeira vez, em 1771. Em 1918, Mendes dos Remédios juntou-lhe o chamado "manuscrito conimbricense", o "manuscrito portuense" da Biblioteca Municipal do Porto, e fez publicar as "Obras de Fr. Agostinho da Cruz", em Coimbra. Em 1971, Aguiar e Silva, no seu livro "Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa", expurgou ou pôs, em dúvida, algumas das poesias que eram atribuídas ao frade capuchinho. Mesmo assim, o que dele fica, dá para perceber a fina sensibilidade de Poeta que foi, e o seu ritmo fluído, original e intenso. Da elegia V ("Ao fim da vida") retiramos alguns tercetos, onde também fala de vários mariscos, entre eles as perceves que, julgo, pela 1ª vez aparecem na poesia lírica portuguesa:


"...Tudo me cansa, já, tudo me peja,
E pouco basta já para suster
O pouco que da vida me sobeja.

A praia tem marisco que comer
Ameijoas, berbigões na branca areia,
Que facilmente posso revolver.

A pedra que dos mares se rodeia,
Cheia de lapas pardas aparece,
De negros mexilhões inda mais cheia.

A vermelha santola não falece,
Outro com seu pé curto revirado,
Seu não, antes de cabra me parece.

E, quando se mostrar muito alterado
O mar, que seu marisco me defenda,
O bosque está daqui pouco afastado.

Quer suba a planta nele, quer se estenda,
Escolherei no ramo o mais maduro
Fruto sem dano alheio e sem contenda..."