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quarta-feira, 12 de março de 2025

Curiosidades 110

 

Cruzei-me, inesperadamente, com a palavra muleta, não no sentido usual do termo, mas como embarcação antiga e regional do Tejo, que tinha esse nome. Datando muito provavelmente dos séculos XVI-XVII era uma embarcação muito curiosa de pesca de arrasto à vela. Destinava-se à captura, principalmente, de azevias, linguados e solhas, no Tejo e no Sado.



Sob o patrocínio da C. do Barreiro, foi construída uma muleta nos moldes tradicionais, nomeada Álvaro Velho, e que proporciona passeios fluviais, desde o ano de 2022, entre 13/7 e 28/9.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Algumas notas soltas para um fim de tarde


Ameníssimo fim de tarde, apenas quebrado pela soada macia das teclas vibrando (Chick Corea) e pelas velozes andorinhas que quebram ao longe no horizonte, de negro, o róseo beira-rio a tender para o acinzentado que antecede a noite.
Quantos anos foram precisos, quantas mortes, desde Chicago, para que o 1º de Maio se celebrasse, alegre e livremente, neste nosso mundo de desigualdades. E, entretanto, pelas notícias, terão morrido 3 pessoas, no mar da Nazaré e da Caparica, hoje...
Para este fim de tarde prefiro, no entanto, e pelas cores, lembrar-me, só intimamente, de algumas aguarelas de Turner, e dispensar, de todo, qualquer imagem neste poste. Que só iriam distrair-me de olhar as águas e as primeiras luzes que se começam a acender no Seixal, num conúbio afectuoso com a primeira noite de Maio.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Situar o horizonte


A paisagem subjacente. A linha paralela junto ao rio, em frente, é quase rasa. Vem do Montijo, e só pelo Barreiro se interrompe, por algumas chaminés altas, fabris, no horizonte da terra ribeirinha, que acaba pelo Seixal. Em segundo plano, ao fundo e atrás, a linha sobe em direcção ao céu, por alturas de Palmela e do seu castelo roqueiro, seguindo, depois, crescente em direcção à Arrábida, que não vejo.
É na direcção de Palmela, mais próximo de mim, embora distante ainda, que eu posso ver, por entre mansardas e telhados lisboetas, num rectângulo muito irregular, o Tejo. Que vai azul cobalto, e corre tranquilo, sem ondulação aparente. E por inteiro, se não fora um cacilheiro que lhe fendeu as águas, numa linha branca de espuma, seguindo diagonal na direcção do Barreiro.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Recuperado de um moleskine (9)


As nuvens intercaladas mais parecem gretas milenares de um vulcão extinto e silenciado. Mas face a esta laranja afogueada, que vai nascendo, crescendo e subindo, de Leste, haveria que contrapor-lhe alguma música mais suave, para poder entrar no dia, mais devagar.
Para a direita, a Arrábida está envolta numa neblina de algodão macio, e o Seixal ribeirinho vai pelo cinzento azulado, com as águas. As aves fazem silêncio e nem se vêem. Nuvens glaucas apagam, por momentos, o incêndio solar. E um azul, lavado e claro, vai-se caldeando no pós-cénio e ataviando o dia para entrar.
É então que, surrealmente e à la Serna, me vem à voz e do fundo de mim mesmo, perante estas mudanças, no horizonte, uma definição de molusco: simbiose de gelatina e músculo, visível ao lusco-fusco.
Inexplicavelmente...

sexta-feira, 18 de julho de 2014

De três palavras que aprendi hoje


Os últimos raios de sol marmoream de branco, ao longe, o casario do Seixal, em contraste com o azul quase cinzento, ao fundo, da Arrábida. O Tejo vai de verde, para o mar.
E eu aprendi hoje o significado de mais três palavras, que encontrei pela leitura de Histórias de Reis e Príncipes, de Alberto Pimentel. Como as não conhecia, foi ao dicionário saber-lhes o significado. Assim:
- Barjoleta - bolsa grande ou mochila;
- Alcoveta - alcoviteira (desta suspeitei o significado);
- Apolegar - premir com os dedos, palpar. 
Não se pode dizer que delapidei o meu tempo, por inteiro...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Paisagem da manhã, no terceiro dia


As cores começaram a ganhar alguma nitidez apenas hoje, depois da penumbra leitosa que ensombrou tudo, nos dois primeiros dias do ano. Já a serra da Arrábida se tintou, irrealmente, de azul escuro e o casario ribeirinho do Seixal escolheu o branco para se afirmar, ao longe. Algum verde se espalhou, disperso e vegetal, por entre as construções humanas outrabandistas. Só o Tejo parece um lago gelado e quieto, sem perturbações crispadas de vento. Mais um espelho, mas baço ou embaciado da humidade ou chuva persistente que caiu.
Também o céu tenta, com dificuldade, reconquistar o azul que perdeu, mas que se encontra recoberto de fiadas e fiadas de nuvens brancas, numa mancha difícil de vencer.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Coerência, é repetirmo-nos...


Os 26º à ombreira da noite, quando no Seixal, ao longe, ainda havia reflexos de Sol, prenunciavam um fim de tarde calmo, de que Eugénio de Andrade se fez eco num poema, ao falar das tardes tranquilas de Setembro.
Foi quase à boca da noite, pouco antes do jantar, que me chamaram a atenção e eu dei, no horizonte, pelos primeiros estorninhos deste ano. Se as andorinhas anunciam a Primavera, os estorninhos sobre o Tejo estão a chamar pelo Outono irremediável.
Os pêssegos já perderam o sabor e apodrecem depressa, os figos já aparecem menos sobre as bancas, é um risco comprar meloas portuguesas, nesta altura. As castanhas estão aqui, estão a aparecer e a deitar fumo sobre as ruas lisboetas. As uvas já vão maduras e doces sobre as mesas. E os diospiros só lá para Novembro, os bons e translúcidos, portugueses, evidentemente.
Vieram entretanto os estorninhos, ainda em grupos pequenos de 5 ou 6, mas vieram. Para ficar...

domingo, 30 de outubro de 2011

Às revoadas


A noite virá mais cedo, hoje, com a mudança da hora. Três focos, que parecem de incêndio, brilham ao longe: um junto ao Castelo de Palmela, os restantes dois semeados pelo casario raso do Seixal. É o sol que se reflecte, nos seus últimos brilhos, em espelhos de acaso, antes de desaparecer. Também os estorninhos revoluteiam incessantes e intensos, aproveitando a última luz, sobre o Tejo. Revoadas do fim de Outubro a que já me habituei, todos os anos, por esta época. Os estorninhos devassam os ares, provavelmente, em busca dos insectos desprevenidos que pairam sobre as águas do rio. O céu, de azul pálido vai ficando róseo, e depois cinzento até ficar escuro. Tudo isso é natural.
O que não é natural, e eu estranho, são as súbitas revoadas (que costumam durar de 2/3 dias a uma semana) de visitas que caem como bandos de estorninhos, convergindo, massificadamente, sobre um poste do Arpose. Nestes últimos três dias, o "ai Jesus!" tem sido um poste de 10 de Julho de 2010, intitulado "Vergílio Ferreira sobre a Arte". A voracidade tem sido imensa. As visitas caem às dezenas sobre as palavras sábias do escritor. Porquê? Para quê esta súbita voragem sobre um poste que tem mais de um ano? Talvez nunca o venha a saber.
O que sei, de real e concreto, é que são 18,30hrs., e já é noite.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Nocturno de Lisboa


O segredo é querer pouco. Mesmo  que  o alto de Palmela se apague, ao longe, na neblina.
As boas notícias até parece que vêm do rio, como lâminas nocturnas que, embora frias, trazem alegria. Chega-se a um ponto em que, da margem, o que podemos e queremos levar é unicamente o essencial. E não ficarmos sozinhos, com a memória toda a pesar na travessia. Sem ninguém que carregue um pouco dela, no seu peso mais íntimo, partilhando os desastres, as alegrias, as vergonhas e os triunfos efémeros do tempo. O Seixal, o Barreiro e o Montijo tremulam de luzes muito frágeis. O Tejo é uma mancha muito escura e, hoje, não será o Letes definitivo. Caronte afastou-se na sua barca, com o negócio perdido.
O segredo é querer muito pouco, cada vez menos. Só o essencial.

para o António, afectuosamente. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ao lusco-fusco


Primeiro, a neblina fecha de todo o que antes fora o tufo verde e alto de Palmela. Há uma linha branca, como um sulco, traçada por um barco sobre o verde-escuro do Tejo. Acendem-se as primeiras luzes no Seixal e no Barreiro: vejo-as ao longe. As andorinhas despedem-se com a aragem fresca e o declinar da luz. Ficarão, por certo, as gaivotas até mais tarde. Ou pela noite fora, altas, sobrevoando o rio, nas suas aéreas manchas esbranquiçadas.