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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Manoel de Barros (1916-2014)

Uma das grandes singularidades do poeta brasileiro Manoel de Barros, tal como Guimarães Rosa (1908-1967), seu amigo, é que conseguia insubordinar as palavras da língua portuguesa, de forma a criar, nos seus poemas, virtualidades insuspeitadas, mas extremamente originais e novas. Para o caso, um poema seu: 



11

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou - eu não

aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre

portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que

compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,

que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.

Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas.


Manoel de Barros, in Retrato do Artista quando Coisa (1998).

quarta-feira, 20 de maio de 2020

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Manoel de Barros (1916-2014)


                                             5

A  água passa por uma frase e por mim.
Macerações de sílabas, inflexões, elipses, refegos.
A boca desarruma os vocábulos na hora de falar
E os deixa em lanhos na beira da voz.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Mais um poema de Manoel de Barros


Garça


A palavra garça em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.


Manoel de Barros (1916-2014), in Poemas Rupestres (2004).

quinta-feira, 8 de março de 2018

O poema 10 da "Biografia do Orvalho", de Manoel de Barros


10

A menina apareceu grávida de um gavião.
Veio falou para a mãe: O gavião me desmoçou.
A mãe disse: Você vai parir uma árvore para
a gente comer goiaba nela.
E comeram goiaba.
Naquele tempo de dantes não havia limites
para ser.
Se a gente encostava em ser ave ganhava o
poder de alçar.
Se a gente falasse a partir de um córrego
a gente pegava murmúrios.
Não havia comportamento de estar.
Urubus conversavam sobre auroras.
Pessoas viravam árvore.
Pedras viravam rouxinóis.
Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos.
Só as palavras não foram castigadas com
a ordem natural das coisas.
As palavras continuam com os seus deslimites.


Manoel de Barros (1916-2014).

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

De Manoel de Barros (Brasil, 1916-2014)


VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função
de um verbo, ela delira.
E pois.
Em poesia é a voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em torno de uma fotografia


Por que se calam os poetas?
Eu diria que por várias razões, como dizia Camus, a propósito do suicídio, que ele apontava ter, normalmente, mais do que um motivo. Mas voltando à questão inicial, creio que os poetas emudecem por já ser ralo e intermitente o fiozinho de água que lhes resta (como disse, poeticamente, Vergílio Ferreira, por outras palavras), por amor ao silêncio (referido por Eugénio de Andrade, num arroubo confessional, em entrevista), mas por desencanto, também. E tão só pela simples desaparição física - método mais frequente e natural.
Pensei, hoje, em Antonio Gamoneda, em Echevarría, em Manoel de Barros, como poetas que me apetecia reler. Como poderia ter pensado em Sá de Miranda ou Ruy Belo. Porque me vão sempre dizendo coisas novas, apesar de os já ter lido muitas vezes. E também me lembrei de um Amigo.
A fotografia serviu apenas para fechar o círculo virtuoso.

para A. de A. M..

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Manoel de Barros (Brasil, 1916-2014)


A Disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso a menos.
Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.

Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.

Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância
aos passarinhos do que aos senadores.


Manoel de Barros, in Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

De Manoel de Barros (1916-2014)



Desejar ser - 9


A ciência pode classificar e nomear os órgãos do sabiá
mas não pode medir os seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar:
divinare.

Os sabiás divinam.


Manoel de Barros, in Compêndio para uso dos pássaros.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Morte do poeta brasileiro Manoel de Barros


Quando morre um poeta da minha estimação, fica-me um vazio por saber que não mais vai haver novos poemas dele - para eu ler. Assim me aconteceu com a morte de Eugénio de Andrade. Como se fora um dialecto da língua materna que se interrompesse para sempre.
Manoel Wenceslau Leite de Barros (1916-2014), brasileiro e grande poeta da língua portuguesa, faleceu hoje, a pouco mais de um mês de completar 98 anos, deixando-nos, embora, uma obra vasta.
A sua poesia tinha a frescura da infantil descoberta comovida do mundo e das palavras, ainda que velhas, mas escolhidas e escritas pela mão de um adulto, com um enorme domínio das raízes da língua. E, por isso, ele sabia dizer coisas tão simples e profundas como estas:

Poesia não é para compreender mas para incorporar.
Entender é parede: procure ser árvore.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

De um conselho (poético) de Manoel de Barros


O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até à quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.

Manoel de Barros, in O guardador de Águas.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Um poema do Brasil


Infantil

O menino ia no mato
E a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do
menino.
E ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: mas se a onça comeu você, como é que
o caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando meu corpo
e eu desviei depressa.
Olhe, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.

Manoel de Barros (1916), in Tratado geral das grandezas do ínfimo.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Pinacoteca Pessoal 78


Há muitas coisas, neste mundo, que merecem e pedem para ser vistas, ou conhecidas, mas nem sempre as descobrimos por nós mesmos. Alto-Douro, a poesia de Manoel de Barros, Max Liebermann estavam lá, na sua singularidade, mas foi através dos outros e da sua atenção que eu dei por eles e os vim a instalar no lugar dos meus afectos.
Não fora um lindo postal de parabéns, que há dias recebi da Bélgica, e ainda hoje eu nada saberia do pintor alemão, de ascendência judaica, Max Liebermann (1847-1935). Impressionista, mas incluído também no primeiro Modernismo germânico, é considerado um bom retratista da sua época, não só pela representação humana, mas também pelas suas telas que têm por motivo cenas de lazer, preferidas pelos seus contemporâneos.
É nesta temática que se insere o quadro do Museu de Hannover (Niedersächsisches Landesmuseum), de 1901, intitulado "Jogo de Ténis na Praia", da imagem. A primeira tela é um auto-retrato.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A global discrepância, ou pequenas interrogações metafísicas


É curiosa a quantidade de visitas brasileiras que vem ter ou debruçar-se nos postes sobre Manoel de Barros - poeta brasileiro, ele também, e grande - ou sobre os poucos poemas que, aqui no Arpose, transcrevemos. Será que os livros dele se esgotaram, no Brasil? Ou será que os blogues brasileiros não falam dele, suficientemente?
Também há alguns, mas frequentes, visitantes franceses que têm por costume vir aos postes de E. M. Cioran, que por aqui vão aparecendo no Blogue. Serão luso-descendentes? 
Estou a pensar, seriamente e quando tiver tempo, visitar os blogues do Burkina Faso, para ver o que eles dizem (de novo) sobre Camões...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Dois Amigos


Há dias, descobri com agrado que Manoel de Barros (1916), insuficientemente conhecido e grande poeta brasileiro, fora grande amigo de João Guimarães Rosa (1908-1967). Sabê-lo, no entanto, foi como se uma evidência, para mim. Porque há neles, uma comum inocência humilde, mas forte, de querer decifrar o mundo, por outras palavras. Ou por o querer dar a conhecer, ao leitor, por palavras novas, mesmo que inventadas para se ajustarem melhor a misteriosas realidades. Um, pela poesia, o outro por uma prosa, tantas vezes, poética.
A simplicidade é, muitas vezes, desvalorizada; mas será bom pensar que ela só acontece através da sabedoria da experiência, e pela ousadia de repensar tudo de novo. Ou noutra perspectiva diferente da que aprendemos de forma automática e que, inconscientemente, nos parece inata e verdadeira, em absoluto. Só assim a Arte, seja qual for a sua expressão, consegue avançar por novos caminhos. Em literatura, através da reconquista de velhas palavras que deixámos de usar, ou que usamos, todos os dias, de forma adormecida e mecânica.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

3 (ditos pelo Autor) + 1 poema de Manoel de Barros (1916)


 IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz a sua primeira lagartixa,
é quando um trevo assume a noite
e um sapo engole as auroras.

Manoel de Barros, in O Livro das Ignorãças (1993).

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Outro poema de Manoel de Barros


Poderoso pra mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre
as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.

sábado, 10 de agosto de 2013

Outro poema de Manoel de Barros


Escrever nem uma coisa
Nem outra -
A fim de dizer todas -
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vagalumes.

Manoel de Barros (1916), in O Guardador de Águas (1989).

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Mais um poema (prosaico) de Manoel de Barros


Manoel de Barros, in Poemas Concebidos sem Pecado (Rio de Janeiro, 1999).

terça-feira, 4 de junho de 2013

Mais um poema de Manoel de Barros (1916)


9.

De noite passarinho é órfão
para voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direcção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol.