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sexta-feira, 31 de maio de 2019

Os mecanismos de substituição


Admito que não tenha sido por acaso que se convencionou, para hoje, celebrar-se o Dia dos Irmãos que, ontem no jornal Público e em crónica, Guilherme d'Oliveira Martins, afectuosamente, lembrou. Cair a data, no signo dos Gémeos, terá alguma razão de ser. Embora se a crismássemos de Dia da Fraternidade, a opção talvez fosse mais ampla. Até porque há quem não tenha tido irmãos.
A exemplo de Ulisses, o homérico homem dos mil ardis, quem os não tem, pode sempre inventá-los. Ou escolhê-los, que ainda será melhor. Foi o que fiz, desprovido que fui, por sangue, de fraternas presenças. Duas figuras humanas, com o tempo, foram crescendo a meu lado e ganhando o meu afecto crescente e natural, talvez por íntima afinidade e delicada proximidade de sentimentos. Cabe-me, por isso, lembrá-las com ternura. A Fernanda, que irei rever, hoje, e o António, que sempre, memorialmente, me acompanha.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Osmose 82

                                                                                                                                     para a Fernanda 


As palavras entalam-se entre a boca e o coração, sem solução à vista. Todas são pequenas e todas são excessivas para definir esse buraco negro que é a morte. Que é sempre dos outros, porque o silêncio eterno e definitivo nunca permitirá que falemos da nossa.
Os poetas mais dotados serão talvez capazes de a imaginar e antecipar em versos densos, mas indecisos, provavelmente errados, não na rima, mas na conclusão. O silêncio tem sempre pouco a dizer, mesmo que cheio de memórias, que se apagam.
Porque continuaremos a comer, a adormecer, talvez com mais insónias, por entre os pesadelos, a sorrir, talvez com menos vontade, a amar pequenas coisas, na sucessão dos dias. A viver, finalmente, embora com menos verdade - porque chamam por nós, não sei de onde. Talvez da terra.
Mas ninguém regressa, nem se reencontra mais. Por isso são frustes os sinais de afecto entre os sobreviventes: um beijo, um abraço apertado, uma carícia terna. E todas as palavras são inúteis.