domingo, 30 de julho de 2023

Mercearias Finas 191



Vieram quatro, até porque estavam baratas, a 6,50 euros o quilo, ao preço da sardinha, ao lado. E eu de há muito (40 anos?) que tinha vontade de voltar a provar fanecas que, na infância e juventude, eram frequentes na minha mesa de refeição vimaranense. Vamos ver como se comportam, estas. Para já o acompanhamento está escolhido: um branco de Pias, da família Margaça, do ano passado, com 13º, lotado com Arinto, Antão Vaz e Verdelho, posto a abeberar e refrescar no frigorífico. Mas também um arroz malandrinho de tomate coração de boi se prepara por companhia. Assim:



E ainda aprendi uma coisa curiosa, entretanto, é que, sendo um gadídeo, a faneca ainda é da família do bacalhau. Quem diria, tão pequena ela é!?...

sexta-feira, 28 de julho de 2023

O que o tempo nos faz...


 

Quando em 1984 (?) li A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera (1929-2023), foi um deslumbramento. De tal modo que comprei e li os 3 ou 4 livros do escritor checo que sairam em seguida nas editoras portuguesas, traduzidos. Depois, passou-me...
E, a notícia do seu falecimento recente, nem sequer me impeliu a registar, no Arpose, o seu obituário. Faço-o agora, por uma questão de justiça à memória. Melancolicamente, vale a pena referir que ser muito actual não será talvez o melhor indício de longevidade para um artista.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Ideias fixas 78



Às vezes, talvez por sonhos contíguos e esquecidos recentes, acordamos para coisas novas. Frases que nunca dissemos ou pensamos. É possível que daqui nasça, em bruto, a originalidade de cada um. Ou até um poema.

Jean Sibelius (1865-1957)

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Um poema (inédito) de António de Almeida Mattos


Da origem da vida se conforma
te sendo a mão a forma de carinho
que possa revelar o núbil ninho
onde tudo começa; se transporta
o querer que pelo corpo e nervos
entra, mais fundo e longe no voar
acima de conceitos e de medos.
Seja denso e fluído no tocar.


A. de Almeida Mattos (1944-2020), in  Lúcido Alerta (livro parcialmente inédito). 

terça-feira, 25 de julho de 2023

Bibliofilia 206



É uma edição estimada, esta de 1780, das Cronicas... de Duarte Nunes de Leão (c. 1539-1608), uma vez que se trata da segunda impressão, sendo a original de 1600, e que também possuo (ver Bibliofilia 174, de 23/4/2019). Em dois volumes, bem encadernados em carneira não contemporânea, com alguns raros picos de traça, inicialmente a obra terá sido vendida por Sérgio Trémont, alfarrabista já falecido, que teve o seu estabelecimento na rua de Cedofeita, no Porto.
Posteriormente, estes agora meus exemplares foram adquiridos, pelo final do século passado (Junho de 1999), num leilão de José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária do Calhariz), por Esc. 23.000$00.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Da colecção Vampiro



A partir de hoje, ficaram-me a faltar 63 títulos para completar a colecção Vampiro, no seu antigo formato (680 números). Um pouco maltratado (e usado) este número 331, Crime... com Elas, de Mickey Spillane (1918-2006), acabou por me ser oferecido pela dona da loja, dado o seu estado pouco estimado.
Com Lesley Charteris e Peter Cheyney, Spillane pertence àquele número de escritores policiais que eu considero de terceira ordem de qualidade e que sempre descurei comprar. Os livros são mais feitos de violência e pancadaria do que de verdadeira e inteligente trama policial. Daí que estes e mais três ou quatro nomes destes escritores policiais preencham, em grande parte, os vazios que me faltam na Vampiro.

domingo, 23 de julho de 2023

Uma fotografia, de vez em quando... (174)




Mais conhecido por Weegee, o fotógrafo Arthur H. Fellig (1899-1968) nasceu na Ucrânia, tendo-se fixado, a partir de 1914, com a família, nos E. U. A. Em 1935 passou a trabalhar como fotojornalista deixando um testemunho notável sobre a vida das grandes metrópoles, marcadas pela violência, mas também pelo seu lado miserável e, por vezes, insólito como esta foto (abaixo) de 1944.



sábado, 22 de julho de 2023

Osmose 132

 

Por vezes, contentámo-nos com pouco. Ganhei o dia só porque consegui adquirir na sexta-feira, à tarde, e por apenas 5 euros, o penúltimo livro que me faltava das traduções portuguesas das obras de W. G. Sebald (1944-2001), de quem o colega Javier Marías (1951-2022) dizia que talvez fosse, na altura, o melhor escritor contemporâneo. Depois deste O Caminhante Solitário (Teorema, 2009), fica-me a faltar apenas Os Anéis de Saturno (Quetzal, 2013), dado que Vertigo (1990) tenho e li-o na edição inglesa original.
Escusado seria reafirmar que W. G. Sebald é um dos meus autores de eleição...

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Da retórica


Como é que essa tropa fandanga que, até hoje, nunca conseguiu sinalizar ou identificar a origem de uma única fuga de informação (de justiça) no seu interior, será capaz de instruir em tempo útil, conveniente e profissionalmente, um processo judicial externo, de forma isenta e capaz?

Citações CDLXIX

 

Os generais que morrem na guerra cometem uma falta capital e profissional.

Henri Jeanson (1900-1970), in diálogos do filme Fanfan la Tulipe (1952).

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Os mercenários da justiça à portuguesa



Congratulei-me e sorri ao saber que Rui Rio tinha feito esperar, 3 horas matinais (das 7 às 10), os descamisados mentais do MP, até lhes abrir a porta de casa, para a devassa matutina.

É evidente que a dignidade de um ex-presidente de um grande partido não se compadece com o caricato de aparecer em pijama na porta da rua, e perante visitas, ainda que foleiras.

Será que os agentes do MP foram tão cedo para ganhar umas horitas extras? 
E a dona gaga, que terá ela a dizer sobre isto?

interlúdio 92

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Divagações 188


Não terá sido há muito que me deparei num livro com três palavras, cujo significado eu desconhecia. Duas delas eram: canevada (aguaceiro...) e estrezilhado (apertado...).
Não tenho grandes dúvidas que, nos últimos tempos, o léxico português, no seu uso do dia a dia, se foi reduzindo substancialmente. Não chegamos ainda aos 50 vocábulos por que se expressa a média dos adolescentes norte-americanos, por entre vários grunhos... mas, porventura, com o tempo, talvez o consigamos. Diminuinará assim grandemente o nosso horizonte cognitivo mental e cultural. Mas já hoje, por vezes, temos dificuldade em identificar, por uma só palavra, alguns objectos ou actos, utilizando para o efeito paráfrases para os nomear.



E assim chegamos à terceira palavra que eu desconhecia e que dá pelo nome de asseio, pelo menos, em Castelo de Vide, ilustrada pela imagem acima. Pois trata-se de um pequeno receptáculo, para servir azeitonas, com um espaço junto para depositar os caroços. Este nosso asseio terá sido comprado em Estremoz ou em Reguengos de Monsaraz, há um bom par de anos. E tem tido bom uso.

Um poema de F. G.



Das Guerras - III

Falemos acerca das cerejeiras de Kudan, no Japão. 
É uma colina onde estão os corpos dos que morreram.
Nela há muito que crescem as cerejeiras. Todos os anos,
com a passagem das estações, vêmo-las em flor. Talvez
na sua seiva passe o espírito dos que apenas receberam
o silêncio que se segue aos combates. Eram soldados;
tinham por isso de matar. Obedeciam a ordens. A morte
era para eles uma cerimónia e se depois partiram
para Kudan é porque a vida já não lhes pertencia. Outrora
ao amadurecerem as cerejas, principiavam a colhê-las,
mas compreenderam que as iam depois perder. O tempo
passou por ali mais depressa. Agora que idade têm?


Fernando Guimarães (1928), in Das Mesmas Fontes (pg.24).

domingo, 16 de julho de 2023

Metamorfoses...



Foi ontem o labor e a transformação.

sábado, 15 de julho de 2023

Fernando Guimarães (Porto, 1928)



Tenho para mim - teoria subjectiva, claro - que a produção de qualidade dos poetas raramente atinge a sua velhice, ao contrário dos pintores e dos romancistas. Há excepções, porém, e Sá de Miranda é um bom exemplo.
Sobrevivente dos grandes poetas nascidos no século XX, portuense, Fernando Guimarães (1928), acaba (Fevereiro) de publicar mais um livro, aos 95 anos. De boa e inovadora qualidade, pelo que já li (pg. 26).

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Recuperado de um moleskine (42)



A felicidade não existe, tal como deus, é uma benévola ficção humana. Mas há aproximações, breves, e coincidências agradáveis que agem como paliativos úteis. Ou noções muito chegadas daquilo que parece ser o bem estar físico ou mental. No fundo, um certo equilíbrio.
Cruzam-se por exemplo, no tempo contíguo, um filme inglês (Glorious 39), não tanto pelo enredo, mas pela ambiência e sensações favoráveis que trasmite (ou desperta?). Uns anos familiares, ao longe. Inesperadamente se associaram, incontroláveis em si, factores orgánicos inconscientes, mas harmoniosos.
Disto se vai fazendo crença, ausência de dor, a estabilidade humana, de vez em quando. Para prosseguir docilmente a caminhada.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

William Yeates Hurlstone (1876-1905)

Desabafo (79)


É frequente algumas criaturas confundirem descrições narrativas ou banalidades do dia a dia com reflexões ou pensamentos, assim as classificando; assim como há também uns e umas generalistas que fazem equivaler, simploriamente, entretenimento com cultura, numa simplificação de tolos de aldeia.
Não há dúvida que são uns felizardos...

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Citações CDLXVIII



No amor, não há desastre mais terrível do que a morte da imaginação.

George Meredith (1828-1909), in The Egoist (1879). 

terça-feira, 11 de julho de 2023

Protocolo

 

Deu-nos a honra e o privilégio da sua visita a secretaria geral da Presidência da República, hoje, pelas 9h43.

Retro (115)

 


Outros tempos... Altíssimos.

Nada se recolhe do passado, senão memórias esbatidas, talvez algumas curtas palavras mas, o mais das vezes, só o silêncio ocupa entretanto os espaços já vazios e libertos para sempre.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

domingo, 9 de julho de 2023

O bom selvagem...


Estávamos nós, serenamente, no ripanso aprazível e guloso de um almoço de sardinhas assadas e de um entrecosto muito bem grelhado, quando, na mesa ao lado, um pivete de 3 ou 4 anos começou a bater na mãe por uma qualquer desintelingência sem importância de monta. A reacção da progenitora foi nula - apanhou apenas. Quando o pai chegou, pouco depois, o pirralho começou a gritar com ele, pelo mesmo motivo - nada de acção ou resposta paterna, também...
Só faço votos para que, mais tarde, o catraio selvagem quebre alguns ossos dos progenitores, na devida proporção da boa educação que recebeu, e como recompensa. Lá dizia o anarco-surrealista, em jeito de provérbio extravagante: "bate na tua mãe enquanto é nova", para não lhe partires a ossatura frágil (acrescentava eu) quando for velha.

sábado, 8 de julho de 2023

José Mattoso (1933-2023)



Há pessoas que ficam connosco, pois nos ensinaram alguma coisa. José Mattoso é um nome na memória. 

Mais 4 "greguerías" zoológicas de J. G. R.

 

1. O porco-espinho: espalitou-se.
2. As focas beijam-se inundadamente.
3. A zebra se coça contra uma árvore, tão de leve, que nem uma listra se apaga.
4. Seu leque gagueja: o pavão arremia, às vezes, como o gato no amor.

João Guimarães Rosa (1908-1967), in Ave, Palavra (pgs. 67/70).

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Militária e improvável, fragmento



...Já o anspeçada, que era um pouco tosco, esbaforido e vindo a correr do interior do quartel para a parada, nos gritou, dramático: " Inté já roubaram o manjor!", quando nós, embora tolerantes compreensivos e caridosos, rompemos a rir, desapiedados, e às gargalhadas...

Frederico de Freitas (1902-1980)

quinta-feira, 6 de julho de 2023

O separar das águas



Para um observador mais atento há, quase sempre, pequenos sinais de futuro no presente. O último Colóquio, na temática principal, dedica os artigos importantes a Eduardo Lourenço (1923-2020) e a Eugénio de Andrade (2023-2005), a propósito dos dois centenários de nascimento que se celebram este ano.
Porém há uma diferença de tomo*: o ensaista ocupa, em folhas de texto, muito mais do dobro das páginas que abordam o poeta, na publicação da Fundação Gulbenkian. Apraz-me lembrar Pessoa que dizia: "Como a família é verdade!". E tem peso, acrescentaria eu. 
Estão definidos, quanto a mim, os tempos de eternidade de cada um dos artistas nos arquivos do futuro...

* embora não fizessem como a BNP que, indesculpavelmente, omitiu por completo a celebração do centenário do Poeta.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Uma louvável iniciativa 63


Em tempos, já em Coimbra e na Faculdade de Letras, eu tivera uma oportunidade semelhante e aprazível. Numa ampla mesa da cave e por decisão superior havia uma grande quantidade de publicações universitárias, entre elas da revista  Biblos, que podíamos escolher e levar gratuitamente para casa. Trouxe uma abada, nessa altura.



Desta vez, foi na Universidade Nova de Lisboa que, no terceiro e quarto pisos de um dos blocos (de Ciências Sociais, mais exactamente) havia duas mesas com publicações disponíveis e gratuitas, que podíamos trazer. Vieram dez volumes, connosco.


E já os começamos a ler...


terça-feira, 4 de julho de 2023

Um folheto invulgar



Com 12 páginas apenas, este belo e não frequente folheto, de um dos meus poetas de referência e gosto, que me foi oferecido. Grato reconhecimento ao Amigo ofertante.



segunda-feira, 3 de julho de 2023

Grandes tiradas



Eis um potencial candidato em tirocínio para meteorologista. Quem perde são os museus nacionais... Ou não?

Citações CDLXVII



De todos os países do mundo, a França é talvez aquele onde é mais simples ter uma vida complicada e mais complicado ter uma vida simples.

Pierre Daninos (1913-2005), in Les Carnets du Major Thompson (1954).

sábado, 1 de julho de 2023

Dicotomias


Dentro das classificações e dicotomias em que podem caber os seres humanos, actualmente, creio que se podem agrupar as pessoas em dois tipos distintos: os que usam sapatos e os que calçam ténis (dantes conhecidos pobremente por alpergatas ou sapatilhas). Acontece que o primeiro dos grupos está em vias de extinção...

Adagiário CCCLV

 

A quem Deus quer bem, o vento lhe apanha a lenha.