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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Memória 133



Das minha cantoras de ópera preferidas, Mirella Freni (1935-2020), uma semana depois de falar dela, aqui no Arpose ( Um CD por mês 10 [3/2/20]), pela última vez, faleceu em Modena (Itália), cidade onde nascera.
Recordámo-la, agora, numa ária de ópera de W. A. Mozart.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

De Inverno, o nº 8


Com a grande qualidade gráfica a que nos habituou, saiu recentemente o oitavo número da revista Electra. O núcleo duro desta edição aborda  a Memória e o Esquecimento, temas que me são caros e que, previsivelmente, serão tratados com a competência devida, por quem de direito.



terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Uma reflexão sobre a memória, de Paul Valéry (1871-1945)


Porque será que o ser humano que envelhece vai perdendo muitas vezes a memória mais recente e reencontra as suas memórias mais antigas?
Como um quadro antigo que vai deixando aparecer as suas estruturas iniciais de base.
Como se o que é mais recente fosse pintado de forma mais ligeira e que o presente do homem envelhecido fosse cada vez mais superficial - desinteressado, enquanto que as lembranças do passado ou a sua sensibilidade readquirissem a força e intensidade primitivas.

Paul Valéry, in Mauvaises Pensées et autres ( B. de la Pléiade, vol. II, pgs. 842/3).

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Memória 133


A imagem reproduz, da Revista Vértice (nº 450/1, 1982), e do volume em homenagem ao escritor Carlos de Oliveira (1921-1981), a folha do livro de curso de licenciatura (Histórico-Filosóficas) concluída em Coimbra, no ano de 1947, e correspondente ao poeta. E em que colaboraram alguns dos seus ilustres amigos e confrades da escrita.


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Memória 132 (sobre poesia, em geral)


Calhou, recentemente, ter adquirido, usado, Entre Duas Memórias (1971), de Carlos de Oliveira (1921-1981), que era o nº 21 dos Cadernos de Poesia, das Publicações dom Quixote. A pequena colecção, em tamanho, mas prestigiada em qualidade, tinha-se iniciado com Micropaisagem, em Novembro de 1968, livro de poesia inovador, também de Carlos de Oliveira.


Sobre o Lado Esquerdo (1968), da Iniciativas Editoriais, rompera já com um tipo de discurso com ressaibos neo-realistas que predominava ainda e se arrumava uniforme, ou pelo menos coerente, no volume Poesias (1962), da Portugália, volume 3 da colecção Poetas de Hoje, que abrangia toda a obra poética de Carlos de Oliveira, até Cantata (1960).


O revisitar dos poemas do escritor criou-me, agora, algumas perplexidades. Normais e justificadas, porque a inovação se atenuou com o tempo, menos claras porque a leitura me pareceu mais árida e abstractizante, mais experimental e menos agradável ao meu acompanhamento pessoal.


E constato, objectivo. Que, com os anos, me mantive equidistante e próximo da poesia de Eugénio de Andrade, me aproximei incomparavelmente, nos últimos anos (dele e meus), dos poemas finais de Herberto Helder. E me afastei, infelizmente, dos versos de Carlos de Oliveira. Salve-se, embora, o prosador de Finisterra ou de Uma Abelha na Chuva
Nem tudo se perdeu!

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Faz agora uma semana, a 10 de Junho....


Agora que o coro de vozes excitadas serenou e o silêncio do tempo tomou conta dos dias, talvez seja  a melhor altura de dar voz ao António, que conheceu e entrevistou Agustina Bessa-Luís, e a quem pedi, desafiando-o, a dar o seu testemunho. E, afortunada e amavelmente, João Menéres, que com ela privou e que faz dos seus dias um testemunho perene de vida, com os seus belos instantâneos ( é só ver o blogue Grifo Planante... ), com generosidade me cedeu uma fotografia inédita de Agustina e me autorizou a reproduzi-la aqui no Arpose, chegou, assim, o momento de voltar a lembrá-la.
Aos dois, António e João, o meu muito e muito obrigado.
Seguem a foto de João Menéres e o texto de António de Almeida Mattos:



A última vez que vi Agustina foi no café duma Fnac, há já muitos anos. Pouco depois foi-me morrendo.
Tive a sorte de conviver um pouco com ela e com o marido (Alberto Luís), seu quase escrivão de puridade, homem discreto, atento, distinto, mas também um bom desenhador.
Agustina era uma mulher de armas e de letras, com um humor por vezes contundente, brilhante para uns, para outros não.
Era muito feminil, coquete, com uns olhinhos miúdos muito vivos e buliçosos como se de uma ave que prepara, vertical, um voo picado e certeiro.
Foi Maria da Glória Padrão quem me ensinou muito sobre a escritora.
Não li tudo de Agustina. Como quem guarda, avaro e prevenido, uma garrafa de vinho especioso para uma data que o mereça. Mas li o bastante para saber que Agustina tinha um saber, um dom de adivinhar quase de vidente.
Uma das vertentes da sua grandeza está em tratar temas que conheço de perto, algo regionais na sua intensidade, e esse micocosmos em que se debruça, pela sua humanização concentrada, se alargar ao mundo inteiro.
Dália Dias refere que Agustina tinha uma imensa atracção pelo caos, no sentido de Criação.
Uma vez, no mercado do Bom Sucesso, perguntou à vendedeira o preço de um qualquer artigo.
- Não sabe ler? Está lá escrito!
- Os meus Pais não me mandaram à escola - respondeu Agustina.
Não precisou. Dentes de Rato era uma menina sábia, que se tornou Mulher férrea na disciplina, livre e ousada na criação do mito, que nunca esqueceu ser criança. Quer na inocência, quer na perversidade.

sábado, 25 de maio de 2019

Memória 131 (de uma Colecção)


Os tempos leveiros de espírito que vamos vivendo, talvez ajudem a explicar a inexistência, que eu saiba ou me lembre, actualmente, de uma colecção de ensaística com a qualidade desta da Ática, em imagem, que se prolongou por quase três décadas, em Portugal.
Mas também a Sá da Costa, a Verbo, a Editora Ulisseia tinham as suas colecções de estudos e ensaios que, não sendo propriamente académicos, ajudavam os leitores a pensar e a desenvolver o sentido estético e crítico.


Hoje, as editoras estão mais preocupadas e interessadas em promover obras de auto-ajuda, para uma população cada vez mais carecida de competências e infantilizada, biografias pífias de pivots televisivos para consumo bisbilhoteiro do populacho, ou ficções paupérrimas de publicistas que fazem da sua exposição pública o ganha pão da sua actividade mercenária. O ensaio deixou de estar na agenda da edição e também, talvez, do público leitor.


Dos ensaístas aqui representados, apenas José-Augusto França (1922) sobrevive. Mas é sempre um reencontro enriquecedor revisitar Sena, Mourão-Ferreira e Prado Coelho nas páginas memoráveis destes ensaios da Ática.


quarta-feira, 8 de maio de 2019

Divagações 146


A recordação é linear, do ponto de vista visual, e passa muitas vezes pela fotografia unidimensional, naquilo que diz respeito a pessoas já desaparecidas ou que não vemos há muito. Na sua forma estática mental de representação.
Da memória, podem chegar palavras soltas ou frases, de um encontro inesquecível, mas o tom de voz, no seu timbre único e pessoal, perde-se quase sempre. Bem como o tacto ou a pele das coisas, se esquece.
Raramente o filme é animado, quero eu dizer, a lembrança não tem movimento próprio na memória, ao contrário dos sonhos que o possuem quase sempre. Quanto ao sabor, há alguns, raros, que nunca mais se esquecem e nos chegam, misteriosamente, ao palato da memória, de forma inesperada, quase intempestiva.
Isto, no que diz respeito aos 5 sentidos na memória - segundo me parece.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Memória 130


Se um livro pode valer uma vida (assim Il gattopardo, por Lampedusa), também para recordar Agnès Varda (1928-2019), falecida ontem, me basta lembrar Cléo de 5 a 7 (1962).
Por isso é dessa época o retrato dela que preferi usar. Em vez de lhe chamar avó da Nouvelle Vague.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Memória 129


Em país de poetas, há muitos destes vates esquecidos que, pela minha bitola, são de segunda ou terceira linha e que as histórias da literatura, mais rigorosas e/ou resumidas, nem sequer registam no seu Cânone. Com os múltiplos versejadores, hoje incensados, vai acontecer o mesmo, dentro de 40 ou 50 anos - é a lei do Tempo.
Assim acontece com José Simões Dias (1844-1899), considerado por alguns como um romântico tardio, que teve algum nome e importância enquanto vivo mas que, actualmente, nem sequer os universitários de Humanidades devem conhecer, e que dedicou a Camões, esta singela quadra, a propósito de uma página de Os Lusíadas:

Se um dia o velho enfermo do occidente
Quiser saber se ainda é vivo ou não,
Poise sobre este livro a mão tremente,
E sentirá bater um coração!

Simões Dias, que era de família modesta e frequentou o Seminário, veio a ter uma vida amorosa pouco feliz. Também enveredou pela política e foi deputado bem sucedido. A sua obra poética está inteira nestas Peninsulares (em imagem, acima) que, à data da sua morte, já contava 5 edições.
O que muito pouca gente saberá, decerto, é que se lhe deve o nosso actual "Dia de Camões" ( e das Comunidades), que ele propôs para 10 de Junho, e como membro do Parlamento, na altura, fez votar, em 1879, como então denominado "dia de gala nacional".
Mesmo que só por isso bem merece ser lembrado...

sexta-feira, 1 de março de 2019

Memória 128


Creio que é hoje que faz anos Tânia Achot (1937?), discreta e notável pianista (ouvir poste seguinte...), especialista de Chopin, mas com amplo repertório que inclui Schumann e Liszt. Nascida na Rússia, de ascendência arménia, passou a sua juventude em Teerão (Pérsia).
Foi também esposa do pianista português Sequeira Costa.
Numa conversa, em vídeo registada, que lhe ouvi há dias, confessava-se um pouco saturada da leitura de ficção e prosa, inclinando-se, presentemente para a poesia e a filosofia, quanto a leituras preferidas. Nietzsche, sobretudo. Esse cansaço da prosa, que eu também sinto, levou-me a lembrá-la, hoje e aqui.
Merecidamente, aliás.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Divagações 142


Se algumas, raras, vezes um poste pode ser uma discreta vontade de diálogo com outro poste que vimos e lemos num blogue alheio, a maior parte deles resulta de uma vontade pessoal de tomar posição perante um facto, uma pessoa, um acontecimento que não nos deixou indiferentes.
Por outro lado, romper o nosso silêncio encasulado pode resultar de um irreprimível desejo de partilha com os outros (ainda que anónimos) de uma emoção ou sensação demasiado agradável que não pode só restringir-se às restritas paredes do nosso pequeno universo.
Eugénio de Andrade exprimiu isso, em verso, de uma maneira admirável e para sempre: "...De coisas que te dou/ para que tu as ames comigo..."
Não tenho grande memória para a Música. Melhor dizendo, consigo reconhecer e situar uma melodia, às vezes, quando a volto a ouvir, mas tenho enorme dificuldade em me lembrar, por exemplo, de quem a interpretou, quando e onde.
Se tenho a certeza que vi, ao vivo, execuções de Braga Santos e de Stravinsky, este último no Coliseu, já não estou seguro de ter assistido a interpretações de Maria João Pires, muito embora seja altamente provável tê-la ouvido na Gulbenkian, nos anos 60 ou 70.
Tudo isto para deixar escrito, aqui no Arpose, o nome de Sequeira Costa (1929-2019), que ontem nos deixou. E que era um homem discreto e sério, para além de ser um notável pianista português.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Osmose 102


Tenho para mim, de forma empírica e nada científica, que a pintura abstracta começa a aparecer com o desenvolvimento da psicologia e a crescente importância da psicanálise. Até aí, a expressão figurativa permitia, seguramente, denunciar estados de espírito bem definidos. Mas que dizer de estados de alma indistintos, vagos, difíceis de se exprimirem? Porque, de algum modo, qualquer observador perante uma tela abstracta procura sinais, ainda que pouco concretos, que lhe permitam descriptar e interpretar o sentido do quadro.



Com frequência, o meu olhar se cruza, muitas vezes, com uma inapropriada caderneta de cromos, com mais de 60 anos, que amigas mais velhas me foram preenchendo com bonecos que vinham em pequenas tabletes de chocolate. Quando esse caderno de significados/caderneta estava completo as meninas Coelho (de seu apelido) ofereceram-mo, para meu gáudio e grande alegria infantil.
E, quando o meu olhar, agora, se fixa nessa antiquíssima e tosca caderneta, vem-me à memória, distintamente, a primitiva e original sensação de alegria. Que não saberei identificar melhor ou descrever em pormenor.


Tão vaga e pura como a que, às vezes, experimento perante uma pintura abstracta.
Porque as palavras também nem sempre conseguem circunscrever a alma, nem o tempo e a memória.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Memória 127


O Circo, como espectáculo e como ambiente, desperta-me memórias desencontradas. Duas notas marcantes e exemplificativas: a alegria que me provocavam os palhaços, na minha infância, e, à saída, ver as míseras condições em que se albergavam os artistas, nas suas tendas mal agasalhadas. Também reparava, às vezes, nas meias rotas das trapezistas... Um misto, pelo menos em Portugal, de miséria dissimulada por lantejoulas e cores berrantes das indumentárias circenses.



O circo moderno nasceu de uma escola de equitação, criada em 1768, nas margens do Tamisa, por Philip Astley (1742-1814), a que ele foi acrescentando, para maior diversão do público, alguns palhaços, trapezistas, mágicos. A actividade, em geral, atingiu o seu primeiro apogeu em finais do século XIX e inícios do XX, como testemunham esquissos e telas de Seurat, Toulouse-Lautrec e Picasso, entre outros.
Nos anos 70, entrou em crise mas, num golpe de rins notável, a criação de escolas de circo obstou a um desemprego maciço. A inauguração de Le Cirque du Soleil (1984) foi também um bom sinal de futuro.


Alguns países europeus vão celebrar, durante 2019, com várias iniciativas, os 250 anos do circo moderno, tal como o conhecemos. E há toda uma nova bibliografia a ser publicada, sobre esta temática, sobretudo no Reino Unido.
E, muito embora, se clicarmos The Circus, no Google, nos apareça, intensivamente (malditos algoritmos!), o disco da Britney Spears e um filme sobre as eleições norte-americanas de 2016, deixando para terceiro plano as actividades circenses, o Circo há-de continuar!
Para alegria das crianças.





terça-feira, 20 de novembro de 2018

Memória 126


Desculpe-se este "bis" recente de Paco Ibáñez (1934), aqui no Arpose, mas ele faz hoje 84 anos. E, por outro lado, canta aqui uma interessante canção de Georges Brassens (1921-1981). Assim se celebra a memória de dois grandes cantautores.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Aznavour



Não, não é este Que c'est triste Venise, ou La Bohème, nem muito menos La Mamma, para mim a canção mais emblemática de Charles Aznavour (1924-2018), que faleceu, hoje, em França. Creio ser, entre tantas de que gosto do seu repertório, o Il faut savoir, por várias razões pessoais de juventude.
Foi por Agosto de 1964 que eu soube que o seu apelido de infância era, na verdade, Aznavourian  que, como quase todos os apelidos arménios, terminava em ian. Os progroms turcos sobre os arménios provocaram um êxodo maciço do povo, sobretudo para França. Foi o caso dos seus pais. Como, também, dos pais de quem me contou a história, nessa altura.
Depois, há nomes e figuras que, colados à nossa adolescência, quando desaparecem de cena vão corroendo, inevitavelmente, a nossa fantasiosa crença e utopia inconsciente sobre a imortalidade humana, própria. Charles Aznavour, para mim, era um desses nomes. Feito de boas memórias.

sábado, 22 de setembro de 2018

Memória 124


O Stencil teve grande uso e voga até, pelo menos, meados dos anos 90. Mais barato que as fotocópias, na altura, e de fácil reprodução em quantidade, fazia as vezes de jornal político clandestino para as organizações de extrema-esquerda e maoístas, principalmente. Mas também era usado como arma de arremesso e denúncia anónima de instituições laicas.


É o caso deste O Escândalo das Letras (EoL), de Abril de 1989, que se destinava a incomodar a nossa república literária, ou beliscar, mordaz, alguns bonzos ou figuras instaladas em certas instituições literárias. Com 12 páginas stencilizadas, este pasquim interessante, é hoje, certamente, um documento raro. Não haverá, por aí, muitos exemplares sobreviventes que possam vir a ser consultados.


Por essa razão, aqui deixo algumas imagens do exemplar nº 0, para se fazer a ideia de uma época e das motivações, efémeras, que o justificaram, na sua origem panfletária.

com envoi fraterno para A. de A. M..

domingo, 2 de setembro de 2018

Atalhos e traições da memória


Graham Greene (1904-1991) gostava muito de Brighton e muitas vezes lá ia, ficando por uns dias, a saborear a estadia. Uma das suas primeiras ficções intitulava-se até Brighton Rock (1938). Desta cidade, à beira-mar, disse em Ways of Escape: "No city before the war, not London, Paris or Oxford, had such a hold on my affections". Isso não impediu que, nas suas memórias, não cometesse vários erros de pormenor, nomeadamente, em relação a números de autocarros da cidade, ou datas. Refere, por exemplo, que com 6 ou 7 anos, em 1911, teria visto, num cinema local, o filme Sophy of Kravonia, baseado numa história de Anthony Hope. Ora, o filme foi realizado apenas em 1920, o que invalida essa visão antecipada do escritor britânico...
A memória parece ter uma imaginação autónoma, por vezes, criando assim ficções improváveis. Não me atrevo, eu, a dizer, por exemplo, que filmes terei visto na Alemanha ou na Inglaterra. E vi, tenho a certeza. Posso, no entanto afirmar, garantidamente, que o primeiro filme que vi em Lisboa, da primeira vez que vim à Capital, foi "A Colina da Saudade", em 1956, no Cinema Tivoli, realizado por Henry King, com Jennifer Jones e William Holden. A música, Love is a Many-Splendored Thing, ficou-me para sempre na memória. Quase outro tanto, poderia dizer do único filme que vi em Paris, num salão de cinema, ronceiro e sujo. Em relação à data, ou foi 1963 ou 1964, mas em Setembro, de certeza. De seu título Les Diaboliques (1955), numa realização de H. G. Clouzot (1907-1977), com boas interpretações de Simone Signoret e Paul Meurisse.
Era um filme policial de qualidade, e impressivo, baseado num polar da dupla Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Cujas imagens, de grande realismo visual, me ficaram na memória. Apesar de já se terem passado cerca de 55 anos...

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Memória 123


Eu creio que terá sido em finais dos anos 50 que eu assisti à primeira Ópera, completa e ao vivo. Improvavelmente, integrada nos Festivais Vicentinos, no pátio dos Paços dos Duques de Bragança, numa cálida noite de Verão, em Guimarães. Ia, na presidência da autarquia, o esclarecido e culto Dr. Castro Ferreira, pai do meu grande amigo Chico, já falecido. Provavelmente, no programa cultural previsto para esse ano, teria sido ajudado a concebê-lo por outro médico, de grande craveira intelectual, embora mais discreto de feitio - o Dr. Carlos Saraiva. Também ele pai de outro grande amigo meu, felizmente, este, ainda vivo e de boa saúde, que é da minha colheita cronológica, em idade.
Sabia eu lá, noviço e adolescente, quem era Gioachino Rossini (1792-1868)!? A ópera era, nada mais nada menos, que "O Barbeiro de Sevilha", de que eu gostei imenso, na altura. Mais tarde, talvez em 1963 ou 1964, já em Lisboa, ali pela Av. Miguel Bombarda, Rossini viria a cruzar-se comigo, de forma avassaladora, através de um LP maravilhoso. Com as suas aberturas de ópera, mais famosas e tonitruantes. Até porque vibravam em uníssono com a minha tumultuosa juventude, como todas sempre abertas ao excesso, ao heroísmo, ao tom épico da vida a acontecer. Vim a saber depois, que Rossini fora também um homem generoso, amigo do seu amigo, gastrónomo nato. E bom cozinheiro.
Descobri, ainda mais tarde, que o grande compositor italiano tinha, também, composições musicais de grande finura e sensibidade, como esta:

Acrescente-se, porém, que também os grandes génios podem errar. Rossini, bissexto de nascimento (29 de Fevereiro de 1792), encontrou-se, em 1822, com Beethoven, que lhe deu um conselho prudente, assim: "Ah! Rossini. Então foi você que compôs «O Barbeiro de Sevilha». Dou-lhe os meus parabéns. É uma obra que será sempre tocada e cantada, enquanto houver ópera em Itália. Mas não tente compor nada que não seja opera buffa; qualquer outro estilo não vai bem com a sua natureza."

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Memória 122


Para um país pequeno, como é Portugal, o desaparecimento de três figuras carismáticas nacionais, no pequeno espaço de pouco mais de uma semana, é uma perda irreparável. Por razões que não vem ao caso, não falei delas, na altura própria. Mas relembro, hoje, as mortes recentes de Rosado Fernandes (1934-2018), António Arnaut (1936-2018) e do pintor Júlio Pomar (1926-2018), todas acontecidas neste mês de Maio. Vidas plenas, exemplares nas suas áreas, deixaram-nos obras significativas das suas passagens pela terra.
Das três personalidades, talvez Rosado Fernandes seja o mais controverso, por aliar uma, por vezes, agressiva emotividade, quase sempre de cariz político e ideológico, a uma sensibilidade e erudição ancoradas num profundo conhecimento da Antiguidade Clássica, em que foi mestre e catedrático jubilado, respeitado pelos seus pares. 
E lembro-o porque me senti próximo, recentemente, da sua memória. Enquanto consultava, na sala de leitura dos Reservados, da Biblioteca Pública de Évora, inúmeros manuscritos do século XVIII, estava rodeado, nas três das quatro paredes que me acolhiam, por estantes ocupadas pelos livros que tinham sido da sua biblioteca pessoal. E que ele doara, generosamente, à B. P. E..