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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Do tom


Os encómios, de leituras minhas recentes, que convergiam para A Ilustre Casa de Ramires, como obra preferida de V. S. Pritchett e Costa Pimpão, da bibliografia de Eça de Queiroz, levaram-me a repegar no volume e retirá-lo, da estante da biblioteca, levando-o para a mesinha de cabeceira. Até porque era o único romance de Eça de que eu não tinha a certeza absoluta de ter lido até ao fim. Depois, aquele carimbo circular da Livraria Académica, de Manaus, só poderia ter vindo do meu Tio Jorge, que andara pela Amazónia dos Brasis, em tenra e, muito provavelmente, difícil juventude... 
Foi, efectivamente, o reencontro confirmado. Com aquele atmosfera bem disposta, de gozo e de ironia, que faz reconhecível o tom ou estilo do "pobre homem da Póvoa de Varzim". Tal como a ambiência melodramática é a marca de água da escrita de Camilo, embora temperada, algumas vezes, por uma ironia mais sofrida. Para não falar do tom pungente de algumas obras de Raul Brandão, mais anoitecido ainda na prosa minhota de Tomaz de Figueiredo. Em contraponto com a algarvia claridade do tom de Teixeira Gomes, sulista e solar.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sobre a Língua (portuguesa) e seus cultores


Eu respeito os frades, e não receio plagiar Eça de Queiroz afirmando que faz falta em cada geração um Castilho, imitador de frades; mas a Língua não faz profissão e não pode viver eternamente encapuchada no recolhimento de uma cela monástica. Herculano, mestre da prosa narrativa, mas propenso ao estilo tonítruo e oratório, tinha a mão um tanto pesada para esta tarefa. Coube a Garrett essa operosa e espinhosa missão, que nunca será suficientemente agradecida. Nem todos os autores se dispunham a descer num café do Cartaxo para o descrever, e levantar daí a mão para nos iniciar nos encantos da charneca ribatejana.

Álvaro J. da Costa Pimpão (1902-1984), in Gente Grada (pg. 24).

Nota pessoal: Álvaro Júlio da Costa Pimpão, tendo sido reitor de Liceu, foi depois leitor de português em Bordéus, vindo mais tarde a tornar-se professor catedrático da Universidade de Coimbra. Tive-o como mestre de Teoria da Literatura, creio que em 1963. Como episódio curioso posso informar que usava cerca de duas aulas para analisar a forma como Eça descrevia os modos diversos do bater das horas de relógio nos seus romances...

sábado, 13 de setembro de 2014

Aquilino


Lembro-me bem que, aqui há muitos anos atrás, no mês de Agosto e na Póvoa de Varzim, havia, frequentemente, duas pessoas que eu conhecia ( um médico e um advogado, vimaranenses) a lerem, frente ao mar e sentados em cadeiras de lona, Aquilino Ribeiro. Eu sabia que eram livros do Escritor, porque as capas da Bertrand eram iguais e inconfundíveis.
Hoje, passa mais um aniversário do seu nascimento (13 de Setembro de 1885). Como costumo fazer, com os meus autores predilectos, fui relê-lo - Camões, Camilo, Eça e alguns mais. Relembrei, pelo menos, duas coisas. Aquilino dá como autênticas, das conhecidas, 3 cartas de Camões. É uma posição intermédia: Hernâni Cidade concede 5, Costa Pimpão, apenas duas.
E, depois, a propósito do "rostinho de tauxia de uma dama lisboeta" (que vem na carta da Índia), refere, em nota de pé de página o saboroso provérbio: "Da pita a preta, da pata a parda, da p... a sarda". E por aqui o deixo, e me fico.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Os defensores do Templo


No passado dia 10 de Junho, e na BNP que abriu propositadamente para o efeito, o Prof. Dr. João Alves Dias deu-nos notícia da existência, muito fundamentada, de uma nova versão do primeiro poema impresso de Luís de Camões, incluído no Colóquio dos Simples e Drogas da Índia, de Garcia de Orta, editado pela vez primeira em Goa, no ano de 1563. A comunicação do Investigador serviu de bom prefácio à exposição que a BNP inaugurou. Tive o grato prazer de assistir.
Hoje, no DN, Vasco da Graça Moura saíu-lhe à estocada, pelo feito.
Camões sempre teve os seus Sumo-sacerdotes que, mal ou bem, lhe defenderam o Templo. Refira-se que os bons pastos são poucos e muitos os pastores...
Quando Jorge de Sena, nos anos 60, começou a estudar Camões, o Sumo-sacerdote Pimpão, saíu-lhe ao caminho de cajado em punho, verberando-lhe a ousadia. E tentou fazer-lhe a vida negra, até no Brasil.
Entre a generosa inclusão de Hernâni Cidade e a usura exclusiva de Costa Pimpão, vão dezenas e dezenas de páginas, e  a obra camoniana tem dado para tudo, pela sua grandeza.
O mesmo vai acontecendo com a pessoana da arca sem fundo. Também aqui há alguns Sumo-sacerdotes.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Carta da Índia, de Luís de Camões


Pequena terra a nossa em que os pastores são muitos, e as ovelhas poucas. E cada um dos Mestres procura um cantinho protegido do prado para a sua preciosa ovelha. Nos anos 60, quem apascentava Luís de Camões, em Coimbra, era o Prof. Dr. Álvaro Júlio da Costa Pimpão que tinha, como seus assistentes, Vítor Aguiar e Silva e Ofélia Milheiro Caldas (ou agora, Ofélia Paiva Monteiro), especialista ou pastora de Garrett. Ora, nesta ortodoxia pacífica reinante e salazarista, não é que aparece um engenheiro, vagamente poeta, a falar e estudar Camões!?... Desaforo, desrespeito. E houve uma intensa guerra surda que se prolongou para o Brasil universitário quando Jorge de Sena para lá foi. Histórias antigas...que acabam numa introdução de Vítor Aguiar e Silva às "Obras - Edição Fac-Símile da Edição de 1595" de Francisco de Sá de Miranda (Braga, Universidade do Minho, 1994). É um subtil ajuste de contas do antigo assistente de Costa Pimpão, com esse intrometido Poeta. Só que Jorge de Sena tinha falecido em 1979. E, embora eu preze a competência científica e saber de Aguiar e Silva, achei este ajuste, no mínimo, deselegante e sem que permitisse um contraditório.
Ao que eu vinha, era falar das Cartas de Camões - poeta que sempre foi uma "ovelha" muito apetecida nos meios académicos. À obra do nosso Poeta uns lha acrescentaram, outros lha diminuíram, em nome de um cânone mais justo ou mais purista. Hernâni Cidade atribui a Luís de Camões cinco cartas, enquanto Costa Pimpão, apenas, garante duas. Há, no entanto, uma convergência: é a chamada "Carta da Índia" que em Pimpão é a primeira e, em Hernâni Cidade, a segunda. É uma carta muito viva e saborosa (aquela referência às mulheres na Índia...), e o Luís andava a pedi-la. Aí vai, sem mais, e em digitalização da obra de Costa Pimpão.