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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Imoralidade



Foi, certamente, pela mão de um “pessimismo antropológico” atribuído, em terras lusas, aos luteranos que criei, desde cedo, uma aversão profunda àqueles “católicos romanos”, ostensivamente caridosos e beatos e de rosto compassivo, mas de alma desprovida de qualquer ética.
Assim, e civicamente, ao atingir a idade própria que me permitia decidir livremente, oficializei, administrativamente, a linha que há muito me separara dos “crentes do parecer e de fachada”, optando por uma postura mental na defesa do “ser” e, também, do “tempo”.
Ora, o que me fez recordar essa opção longínqua foi um episódio – desumano e deprimente – que presenciei, hoje, num Centro de Saúde, bem no coração de Lisboa. Uma senhora, a caminho dos 80 anos, de aspecto frágil e com reacções pausadas, com apresentação respeitável, pediu à funcionária que o médico lhe passasse a receita dos seus medicamentos. Encontrando-se o médico de férias, surgiu-se-lhe a hipótese de a receita ser passada por outro médico, demorando ca. de 7 dias. Uma questão de prazos ... O pior estava para acontecer. Feito o pedido, a funcionária pediu 3,00 euros pela receita a levantar no prazo de uma semana (!). A senhora, mantendo a sua postura, disse: “não tenho esse dinheiro, porque, passei na Caixa (Geral de Depósitos ?) e, ainda, não tenho lá a pensão (!)” Segurei a minha carteira à espera da solução “administrativa” para o caso e, sobretudo, para evitar uma humilhação de um ser humano carente dos cuidados elementares. A solução foi o pagamento do valor da receita (!) no acto de entrega. A mim, ficou-me a revolta para o resto do dia e um reencontro com o Purgatório de Dante.
De facto, não sei como, quando e onde, o Senhor Ministro da Saúde confessa tais pecados – da sua responsabilidade – escondendo os seus actos benevolentes para com as PPP’s na área da saúde.
O episódio permitiu, no entanto, consolidar a minha opção antiga de não pertencer a semelhante confraria de falsos “cristãos”, nem a outras. E, embora não crente, gostava de ver algumas figuras, com actos imorais praticados ao longo da vida, numa expiação dos seus pecados semelhante à imagem pictórica que a seguir se reproduz.


Post de HMJ

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Processo (1)


Se o infeliz utente não tiver, ou tiver perdido o seu Médico de Família, o procedimento a levar a cabo, é mais ou menos este:
a) Dirige-se ao Centro de Saúde, em que se integra, e faz uma inscrição; ser-lhe-á marcada a data de uma consulta para cerca de um mês e meio depois - dando-lhe um papelinho comprovativo. Informam-no, na altura, para que no dia aprazado chegue um pouco antes das 8h00 da manhã, para efectuar uma reinscrição.
b) No dia aprazado, o utente chega 15 minutos antes, mas já há cerca de 40 companheiros, aguardando, no vestíbulo de entrada e na rua, em fila desordenada. Metade terá mais de 60 anos, mas há apenas um banco de madeira com quatro, sentados. Dois ou três folheiam o jornal que compraram, alguns contemplam os azulejos do séc. XVIII, nas paredes, que representam movimentadas cenas de caça (veados, javalis, lobos...) da época. É preciso dizer que este Centro de Saúde está instalado num velho palácio lisboeta que já conheceu melhores dias...
c) Dois minutos antes das 8h00, um Segurança fardado desce as escadas, com um rolo numerado nas mãos. Outro Segurança acompanha-o, na rectaguarda - talvez seja guarda-costas... Os utentes aproximam-se, nervosamente, como pombas a quem vai ser dado milho ou migalhas de pão. Recebem, então, os papelinhos afortunados.
d) Na posse do precioso número, o utente sobe as escadas e dirige-se para a Secretaria a fim de efectuar a nova inscrição. Mas o computador não pega e o burocrata, atrás do balcão, começa a impacientar-se, enquanto o utente espera, calado e resignado. Finalmente, cerca de 5 minutos depois, o computador começa a trabalhar e a inscrição é feita. Mais um papelinho, pedem-lhe 5,00 euros e revelam ao paciente o misterioso nome do médico que o irá atender mas...só 5 horas, depois, ou seja, às 13h00. E dizem-lhe para chegar um bocadinho antes. Vamos a ver...como diz o cego.