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sexta-feira, 1 de maio de 2026

1 poema, em versão portuguesa

 



I, 2

A morte, às vezes, toca-nos os cabelos,
até nos despenteia
mas não entra.

É  um grande pensamento que a faz parar?
Ou talvez sejamos nós que pensamos
algo maior do que o próprio pensamento?


Roberto Juarroz (1925-1995), in Poesía Vertical.


sexta-feira, 19 de abril de 2024

Versão de um poema de Roberto Juarroz (1925-1995)


 
112

Talvez nos pudéssemos fixar
para sempre sobre um pensamento.

E até pode ser que a eternidade consista
em nos concentrarmos, sem mais nada à volta,
nesse pensamento mais denso
como se lá ficasse como uma planta desperta
colonizando para sempre o seu minúsculo espaço.

Morrer não seria senão nada
mais que um último esforço de atenção,
o abandono total de todos os outros pensamentos.


(Poesía Vertical, IV, 26)

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Um poema de R. Juarroz

 

Cavo um poço
para procurar uma palavra soterrada.
Se a encontro
o poço ficará aberto na minha voz para sempre.

A busca pelo sepultado
obriga a adoptar os vazios que soçobram.


Roberto Juarroz (1925-1995), in Poesía Vertical.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Mais um poema de R. Juarroz, em versão portuguesa



Há olhares que ajudam a tarde a ser noite.
Silêncios que ajudam as árvores a crescer.
Imobilidades que fazem a água correr.

O homem pode aprender a ajudar as coisas.
Talvez elas então possam também
ajudá-lo a morrer.

                                                               (VI, 96)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

De Roberto Juarroz (1925-1995), em versão portuguesa

 


Séptima Poesía Vertical
              (1982)
1

Usar a própria mão como almofada.
O céu faz o mesmo com as nuvens,
a terra com os seus torrões
e a árvore que vai caindo
com as próprias folhas.

Só assim se pode ouvir
a canção sem distância,
a canção que não entra pelo ouvido
porque está no próprio ouvido,
a única canção que se não repete.

E cada homem necessita
de uma canção intraduzível.

domingo, 21 de março de 2021

Ainda...

 


Em geral, o poema nasce em mim do encontro inexplicável e insólito de duas palavras que pareciam não se reunir. Essa surpreendente conjunção entra então num plano de contemplação activa. Desse modo vão-se integrando numa espécie de organismo verbal cujo desenvolvimento exige uma entrega total, uma disponibilidade plena e uma fidelidade sem atenuantes.

Roberto Juarroz (1925-1995), in Poesia e Criação (pgs.85/6).

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Últimas aquisições (31)

 


É uma muito jovem editora. Bons escritores, textos de qualidade, grafismo original - promete! Dá pelo nome de SR TESTE Edições, e a colecção: Fulgor Quotidiano. Estou certo que não me vou arrepender da compra dos dois livrinhos...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Dois tercetos de Roberto Juarroz, traduzidos


1
Falha-me a memória
porque recordo demasiado.
Lembro-me, por exemplo, que não fui.

...
10
As distâncias não medem o mesmo
de noite e de dia. Às vezes,
há que esperar pelo escuro.



Roberto Juarroz (1925-1995), in Poesia Vertical.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Roberto Juarroz (1925-1995)


94

Não há regresso.
Mas existem alguns movimentos
que se assemelham a um retorno
como o relâmpago à luz.

É como se fossem
formas físicas da memória,
um rosto que volta a formar-se por entre as mãos,
uma paisagem submersa que se reinstala na retina,
há que procurar medir de novo a distância que nos separa da terra,
voltar a comprovar que os pássaros ainda nos seguem, vigilantes.

Não há retorno.
No entanto,
tudo é uma invertida esperança
que vai crescendo para trás.


Roberto Juarroz, in Poesia Vertical (1987).

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Mais um poema de Roberto Juarroz


8
Pensar é uma incompreensível teimosia,
qualquer coisa como prolongar o perfume de uma rosa
ou perfurar com raios de luz
a espessura das trevas.

É também ultrapassar alguma coisa
através de uma insensata manobra
desde um barco acidentalmente submerso
até a uma navegação sem barcos.

Pensar é insistir
por uma solidão sem regresso.


Roberto Juarroz (1925-1995), in Poesia Vertical (1987).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Roberto Juarroz (Argentina, 1925-1995)


9.

Penso que neste momento
talvez nada no universo pensa em mim,
que apenas eu me penso,
e se agora morresse,
nada, nem eu me pensaria.

E por aqui começa o abismo,
como quando adormeço.
Só eu próprio me sustenho, e me abandono.
Contribuo para cobrir de ausência tudo.

Talvez seja por isso
que pensar num homem
é o mesmo que salvá-lo.


Roberto Juarroz, in Poesía Vertical.