
Sendo agnóstico, mas tendo sido católico praticante quase até ao fim da minha adolescência, o "meu" Papa de referência é João XXIII. E nasci ainda e durante o Papado de Pio XII. Sempre achei Paulo VI excessivamente "florentino" e diplomata, para o meu gosto. João Paulo I foi apenas a promessa de um sorriso, de tão breve. João Paulo II incomodou-me, sobretudo, pela exposição da sua agonia, em público, e o seu "ronco", quase final, pela Praça de S. Pedro, quando já não conseguia falar - e o quis fazer. Era preferível, sem dúvida e no meu entender, um apagamento discreto e gradual, humildemente cristão. Evitando aquela exposição que sempre me fez lembrar os pedintes, na rua, a mostrar as suas chagas. Havia algo de exibicionista, em tudo aquilo. E o "voyeurismo" da nossa sociedade do espectáculo é o que se sabe.
Ontem li, no "Público", um artigo de opinião do ex-director do jornal, José Manuel Fernandes, intitulado "É arriscado escrever sobre estas coisas. Não estão na moda", sobre o actual Papa. Tirando um ou outro pormenor, estou de acordo no essencial. Daí, sendo eu agnóstico, avaliar o ainda curto Papado de Bento XVI, de forma positiva. É um Papa do espírito, ao contrário de João Paulo II que foi um papa do corpo e da carne. E este período pascal é uma boa altura para que um Papa que pensa e pensa, muitas vezes, connosco, seja bem acolhido ou, pelo menos, escutado. Quanto ao resto já sabemos, a Igreja é sempre lenta e morosa quanto a mudanças. Há que ter paciência e caridade...