Eu creio que muita gente terá, em determinada altura da juventude, sonhado ser dono de uma ilha.
Léo Ferré (1916-1993), também. E conseguiu concretizar o sonho em 1960, tendo adquirido a ilhota Du Guesclin, na Bretanha (França). Que veio a habitar e onde, pelo menos, escreveu e compôs a canção La Mémoire et la Mer. Após a morte do cantautor monegasco, por desavenças nas partilhas, a ilhota acabou por ser vendida. Mas os novos proprietários não só restauraram o edificado, como perpetuaram a memória de Ferré, nesse espaço geográfico.
Saído há pouco mais de um mês, este número especial de Le Monde, dedicado ao cantautor Léo Ferré (1916-1993), não deixa por mãos alheias a qualidade gráfica e dos textos a que o jornal francês nos habituou.
Desde 1984 que este anarca monegasco, por nascimento, é um dos meus cantores de língua francesa e de eleição. De Léo Ferré destacaria três das minhas canções preferidas: Ton Style e Tu ne dis jamais rien (ambas de 1971) e ainda Avec le Temps (1972), que já constam no registo do Arpose.
Aqui deixo também uma curiosa foto de 3 amigos: Brel, Ferré e Brassens, da esquerda para a direita.
Termino, algo defraudado (excepto pela qualidade da escrita), a desfolhada de Lettres à Anne (Gallimard, 2016), nas suas 1.280 páginas. Mas de que é que eu estava à espera? Segredos do poder, confidências demasiado humanas, retratos inescapáveis de alguns homens públicos? Nada disso aparece, as cartas de François Miterrand são inócuas, quase diria, cuidadosas, talvez por precaução futura ou para não enfastiar a jovem enamorada (Anne Pingeot) com aspectos políticos ou com minudências burocráticas do estado. Inesperadamente, nem sequer encontrei referências a Mário Soares. E, quanto a Portugal, apenas aparece um curto apontamento favorável sobre o Porto (pg. 1116), no dia de S. João, de 1977.
Retive alguns sinais do gosto pessoal de ambos, ou de cada um, através de uma notação cinéfila: LesParapluies de Cherbourg (Jacques Demy), na página 323. E quanto à música clássica as referências abundam. No que diz respeito à música ligeira, não consegui saber qual era a interpretação preferida da canção Anyone who had a heart (Cilla Black?, Dionne Warwick?, Dusty Springfield?). Resta-me a consolação indubitável de que Jechante pour passer le temps, poema de Aragon, refere certamente a versão de Léo Ferré, que aqui fica.
Os desígnios de um poema ou os motivos de criação de uma pintura podem ter origens muito diversas, que não a banal, abstracta inspiração. Bem como as leituras ou descodificações podem ser abusivas por serem de explicação alheia. Em última análise, só os próprios autores é que poderiam confirmar, ou não, a legitimidade da interpretação. Em 1866, Gustave Courbet (1819-1877) pintouoquadro L'Origine du Monde, por encomenda do diplomata turco Khali-Bey, obra que foi provocando alguns escândalos e polémica, posteriormente, mas que está, hoje, exposta no Musée d'Orsay, serena e tranquilamente, desde 1995.
Ao ouvir, recentemente e pela enésima vez, o belo poema e canção de Léo Ferré (1916-1993), Cette Blessure, associei-a de imediato à famosa tela de Courbet. Poderei estar errado, mas mantenho a ideia e afirmação. A fonte de inspiração (?) terá sido a mesma ou, pelo menos, próxima ou idêntica...
P. S.: amigavelmente, e a quem o merece, aconselho o acompanhamento e uma leitura atenta do lindíssimo poema de Léo Ferré.
* para meros efeitos estatísticos, aqui fica registado ser este o poste número 10.000, do Arpose.
Agora, que a guerra de palavras entre Ocidente e Oriente sobe de tom. Agora que um pequeno gesto tresloucado pode provocar um cataclismo de proporções inimagináveis. Agora, em que até a Rússia e a China fazem o papel de moderados e sensatos, apelando à calma e à diplomacia... Agora.
Indeciso entre o canadiano Cohen e o monegasco Ferré, para fechar a noite, optei pelo velho anarca falecido que, no passado dia 24 de Agosto, se fosse vivo, teria completado 100 anos. Não chegou lá, mas as suas canções ainda têm vida...
E que MR me desculpe ter-lhe roubado uma canção francesa, que poderia vir a constar da sua rubrica, no Prosimetron.