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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Palavras de anteontem


Viriato Soromenho-Marques (1957) em clarividente entrevista, ao jornal Público, em 9/2/2020.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Palavras


De algum modo, as palavras valem o significado que lhe queiramos dar, intimamente. Desde que não se afastem em excesso da sua origem e parentesco iniciais. Mas há sempre um amplo halo significante em volta delas que permite, por exemplo, a respiração alargada de um poema, com possíveis interpretações diferentes, entre vários leitores.
Nesse capítulo, o cerne da verdadeira grande poesia reside na sua riqueza de associações que a experiência diversificada, de cada um, lhe pode dar. A identificação perfeita, entre o que o poeta escreveu e o leitor leu, nunca será conseguida ou atingida, muito provavelmente. E talvez nem seja isso o que o autor pretende. Mas tão só vir a descobrir-se numa outra realidade alheia.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Idiotismos 29


Os anos que eu levei até saber que o curioso toponímico Marateca (concelho de Palmela) poderia ter-se originada na simples expressão: Mar até cá...
Das cores dos cavalos, entre outras, conhecia eu, baio (crina e rabo pretos), de cor isabel (entre o branco e o amarelo). Mas quando dei pelo poema de Alberti, cantado por Ibañez (poste de 1/3/2015), estranhei o verso: "/Galopa, caballo cuatralvo/". Esclareci a dúvida num competente dicionário espanhol. Um cavalo assim, teria as quatro patas em pelagem branca. Quanto ao termo português (Quatralvo, que eu não conhecia) os 2 dicionaristas, que eu consultei, não coincidem inteiramente. Se Houaiss regista como cavalo com pintas brancas nas quatro patas, já Moraes refere: "diz-se do cavalo malhado de branco até aos joelhos". A Coudelaria de Alter, talvez melhor que os dicionaristas, pudesse resolver com rigor esta questão... 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Balanço


A colheita nocturna, imaterial, por entre o ruído, a música e o silêncio do dia que está para acabar, nem sempre é inútil, sendo embora escassa.
De hoje, diria que as palavras terão sido poupadas e não excessivas ou dissipadas, para além daquelas que são sempre necessárias ao quotidiano e à sobrevivência, nomeadamente, a burocrática. Gastas, perdulariamente, foram poucas. E um homem não tem assim tantas coisas novas a dizer ao longo de uma vida. Às vezes até parece que já tudo foi dito. E o silêncio é a forma mais sábia de viver, para além das palavras úteis para ir subsistindo, no dia a dia. 
Para além do silêncio, que quebramos tantas vezes para ocupar espaço, só a música tem expressão superlativa. O resto, e em excesso, tem sempre uma tentação redundante de eco ruidoso e inútil. Muitas vezes, para nos ouvirmos.

sábado, 17 de novembro de 2012

A magia das palavras e os costumes no Barroso


Não será para desprezar o sentido mágico das palavras, onde por vezes se reconhece a origem, mas poucas, a razão. E não será apenas na construção da poesia, mas nos exorcismos, nas imprecações, nos solilóquios da comunicação com os animais ou, simplesmente, nas orações, nos mais íntimos diálogos. A invocação ao divino é uma constante etnográfica ancestral. Em abono, refira-se esta interessante "Oração para rezar após se ter amassado o pão", oriunda da região do Barroso (Trás-os-Montes), e pronunciada quando a farinha de centeio, já amassada para fazer pão, ficava a levedar:

S. Mamede te levede,
S. Vicente te acrescente,
S. João faça bom pão,
O Senhor te cubra de benção
E te ponha virtude
Que eu da minha parte
Fiz o que pude
Pelo poder da Virgem Maria
Um Padre Nosso e uma Avé-Maria.

domingo, 19 de agosto de 2012

As palavras ainda, por causa de "bisegre"


Suscitado por um comentário surgido no Prosimetron, a propósito do uso "indevido" do vocábulo "bisegre", apetece-me hoje discretear sobre a vida, evolução e, por vezes, morte das palavras. Nem todos saberão, por exemplo, que, no Minho, às nêsperas lisboetas se chama magnório ou magnólio; e que "nêspera", a Norte, é um outro fruto, de Outono/ Inverno, de cor escura, miolo farinhento e também castanho-escuro, e um pouco insonso. Quem terá sido o criador da expressão "cantar à capela"? Quem se terá lembrado da palavra "andante" para nomear o metropolitano portuense? Quem terá autorizado, criativamente, que "pingo" seja, no Sul, denominado "garoto"? Mas é precisamente esta liberdade vocabular, este borbulhar vulcânico e esta criatividade sempre viva que faz a riqueza de uma língua. E escuso-me a falar do enriquecimento enorme que os brasileiros trazem ao nosso idioma comum.
Nos meus tempos de juventude, usava-se "pipi da tabela" para apelidar, depreciativamente, alguém que tentasse, mesmo sem meios ou condição, andar à moda, de forma exibicionista e exuberante. Por outro lado, "pips", definia alguém elitista no trajar, mas de bom gosto, e que vestisse bem. Mas estas expressões acabaram por morrer, no tempo. Hoje, "bètinho" corresponde, de algum modo, ao "pipi da tabela" do meu tempo. A língua procura, sempre, novos vocábulos, actualizados, para caracterizar, tiques e vícios eternos.
Será que "bètinho" vai durar muito tempo? Penso que não. E o que são 30 ou 40 anos na vida de uma língua? Muito pouco, com certeza. E, depois, ainda há os dialectos "de família" que são de um universo geográfico muito mais restrito. E estão muito mais sujeitos a desaparecer. Ou evoluir.
Nem todas as palavras terão a força intrínseca de sobrevivência e as metamorfoses por que vão passando, algumas, permitem-lhes, talvez, a vida "eterna" nesta fervilhante e vulcânica, sempre amada, língua portuguesa.

sábado, 11 de agosto de 2012

Afectos


Há palavras que, de tanto gostarmos delas, quase as fazemos nossas. Uso maneirinha, mas intimamente acrescento-lhe, sempre, um pouco de ternura, ao dizê-la e saboreá-la, embora o seu significado seja, simplesmente: pequena (e harmoniosa de formas).
A minha amizade com o António passa também, e muito, pelo amor comum à língua portuguesa, e pelo gosto das palavras; pela curiosidade de novos (velhos) vocábulos, por lhes saber a família, o passado e de onde vieram. Como, às vezes, o passado de uma mulher nos torna curiosos de saber mais.
Sobre a mesa de trabalho, tenho um pequeno papel com duas palavras escritas que o meu Amigo, ontem, me deu a conhecer. Não lhe vieram de livros, nem por pesquisa que tivesse feito. Ouviu-as ele de pessoas simples, que as usaram com propriedade, e ele tomou nota. Depois transmitiu-mas com o significado próprio que lhes foi atribuído. São elas: farrascão e forrejo.
Farrascão, ouviu-a ele de uma alentejana que a integrou na frase: "Ontem, comi um farrascão de pão!"
Houaiss não regista o vocábulo, mas ambos chegamos à conclusão de que a palavra valia por: um grande naco de pão. Noutra refeição, que foi acompanhada de salada (alface, agrião...), uma conviva apelidou o acompanhamento de: forrejo. Houaiss regista como "cevada que se sega em verde para, misturada com outros grãos, alimentar" o gado. Ora, aqui, o significado foi alargado aos humanos...
E aqui ficam as duas palavras, para que se não percam da memória.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Curiosidades 57


Um estudo recente, que data de há poucos anos (o facto já aqui foi referido), concluiu que o adolescente médio americano tem um conciso vocabulário que não vai muito além das 50 palavras. Neste inquérito, não devem ter sido incluídos os grunhidos, naturalmente. ( Como é que estaremos, em Portugal?)
Por outro lado, um livro recente de Mark Pagel (Wired for Culture), citado pelo TLS, refere que, nas pouco mais de 7.000 línguas, com dimensão significativa a nível mundial, há apenas 100 a 200 palavras, e não mais, que conseguem ter correspondências exactas, nestes diversos idiomas. São vocábulos que preenchem as necessidades básicas comuns de todos os seres humanos. Independentemente da geografia particular e cultural de cada povo ou etnia.
Igloo, coco, broa, por exemplo, saem fora deste núcleo duro mundial.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O uso rigoroso das palavras


Como quase sempre acontece, quando um facto noticioso vem para ficar, começa a criar-se um "dialecto" ou jargão jornalístico que, normalmente, deve pouco ao rigor, mas é intensivamente utilizado nos jornais e pelos pivots pouco rigorosos, mas sensacionalistas, dos canais televisivos. E vai criando raízes...
O vocabulário, que se tem vindo a associar a esta crise económico-financeira que nos atravessa e vai continuar a atravessar a Europa - hoje, foi a vez da Itália -, deixa-me, por vezes, perplexo. Um dos jargões utilizados é: "o nervosismo dos mercados" (ou dos investidores). Ora, o que realmente sucede é: o "nervosismo dos Governos", perante as investidas dos especuladores e outros vampiros, e a ausência de uma estratégia concertada por parte das altas instâncias da UE (Barroso, Rompuy, Merkel - medíocres actores secundários). Outro dos termos inabilmente utilizados é: "risco de contágio". Recordemos - tudo começou na Islândia, uma ilha que não tem fronteiras, senão o mar. Depois a Irlanda, outra ilha. Depois, as agências de ratos atacaram a Grécia que, objectivamente, não "contagiou" nenhum país vizinho; e Portugal que, até hoje, ainda não contaminou a Espanha, nem o Oceano Atlântico.
Quem introduz o vírus são as agências de ratos que, como se sabe, como animais rasteiros, são os maiores propagadores de doenças pela Humanidade, desde que o mundo é Mundo.  

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

As palavras, ainda


As palavras têm vida incerta e evolução imprevista, muitas vezes. Umas irradiam, crescem, abarcam novos sentidos, coisas diversas na sua dinâmica própria. Outras concentram-se e intensificam o seu domínio. E outras ainda, simplesmente, perdem a utilidade, ficam no tempo - morrem. E nunca mais ressuscitam, a não ser fugazmente pela curiosidade de um antiquário ou algum arqueólogo de coisas perdidas, mais persistente.
Para mim, Chico, na sua vocalização, lembra-me, logo à partida e de imediato um amigo. De infância, que se chamava Francisco José, mas o Cardeal Saraiva (Obras Completas, IX, 1880, pg. 125) ensina mais do que isto. Aqui vai:
" Chico - Este vocábulo, nas antigas línguas, ou dialectos da Espanha, significava o que é pequeno. Assim (por exemplo), as pequenas ilhas, que há nas costas da Galiza se chamavam cicas. A serra que divide o Algarve do Alentejo se chamava monte-cico, donde fizemos Monchique. Os Galegos chamam chiquitos os meninos pequeninos. Os pequenos porquinhos chamam-se chicos, e chiqueiro o lugar em que se recolhem. Finalmente ajuntamos cico e cica a alguns vocábulos como terminação diminutiva, e dizemos cou-cica, lugar-cico, etc., por cousinha, lugarzinho, etc."

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O abuso das palavras


O plano da linguagem do dia-a-dia obriga ao uso, muitas vezes por câmbio, abusivo, exagerado e insensato de palavras, para expressarmos um mesmo grau de veemência, ou "qualidade" expressiva, em relação ao Outro. Como num restaurante aonde vai chegando mais gente e onde se vai falando cada vez mais alto, para nos ouvirmos, até se chegar a um ruído quase insuportável.
As palavras vão assim perdendo a sua força própria com o uso inapropriado. E com o abuso que fazemos delas. E, com elas, perdem também força a expressão dos nossos sentimentos, das nossas reflexões, dos nossos próprios argumentos. Como na poesia, em que poema após poema, o poeta repete o jogo malabar da experiência adquirida e do fogacho iluminado sobre o vazio inócuo.
Há, creio, no geral, três possíveis alternativas: ou recuperar palavras antigas que, há muito, já não usávamos, nos casos em que afirmação pessoal se quer autêntica; ou a utilização de novos vocábulos que nos vão ganhando sabor na sua descoberta e aplicação selectiva. Para que os sentimentos, as reflexões e os nossos argumentos possam ganhar um peso diferente ou uma nova pureza.
A terceira alternativa é, cada vez mais, aproximarmo-nos do silêncio.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Words, words, words (W. Shakespeare)



Somos também feitos de palavras. Que nos denunciam, nos marcam, que nos definem uma ética, um modo de ser, uma origem. E, muitas vezes, são o rosto mais profundo de uma atitude interior.
Herdei muitas palavras, antes de conquistar e me apropriar das minhas, e que me são próprias. Algumas das palavras herdadas não sei, já, de onde vieram - imagino que são do pequeno dicionário doméstico de infância, um triângulo quase todo de sangue: Guimarães, Braga e Vieira do Minho. Mas também houve pessoas que me deixaram apenas o silêncio sem palavras, um silêncio povoado de sorrisos ou de gestos confiantes e cúmplices.
Falarei apenas de algumas dessas palavras herdadas. Começarei por "bisegre" que é uma ferramenta de sapateiro, mas que se integrou, em mim, com o significado de: miúdeza ou coisa sem valor. Veio-me de uma Senhora octogenária, minhota, que ainda é viva. "Matarroano", que creio não existir em dicionário, com o significado de rústico, tosco, grosseiro - herdei-a de um amigo transmontano. A dupla "tropa-fandanga" ouvi-a, pela primeira vez, a um alentejano de Mértola, que passara pela vida militar. Adoptei-a também com o significado de grupo desorganizado e caótico. Depois, há palavras de intensidade afectiva. Como "estima" que eu conhecia, de há muito, mas que, em Maio de 1980, foi usada por alguém, com uma intensidade e claridade, totalmente novas para mim. Também a herdei, e guardo, e, quando a uso, faço-o com grande parcimónia e extremo respeito. Foi uma palavra que me foi crescendo, ao longo do tempo, no interior do coração.

P. S. : para H. N., que também pesa as palavras que usa.