Há livros que nos agarram logo nas primeiras linhas. Sirva de exemplo Camilo e as suas Cenas Contemporâneas, que abrem assim:
Os meus amigos de certo não sabem o que é caçar coelhos na neve?
Não admira. ...
Mas não há muitos Camilos. Tenho, no entanto, para mim que o interesse, ou não, de um livro, para o leitor, se esclarece nas primeiras 10 páginas, quando muito ao acabar o primeiro capítulo. Raramente as coisas se alteram radicalmente depois - os dados estão lançados, a relação de agrado ou penoso sacrifício de leitura começa a ser fatal.
Com este A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (1964), eu fui caridoso: li atentamente até à página 66, apesar das metáforas serem puxavantes (...o meu rubor, que teria bastado para acender um charuto a um palmo de distância...[pg. 30]) e foleiras, muitas vezes, do estilo ser banal, a construção das personagens, muito frágil; depois, comecei a ler salteado e com batota, até à página 78. E agora estou a pensar desistir, por aborrecimento.
Mas estou quase certo de que quem gostou do filme "O Clube dos Poetas Mortos" (1990) e da novela "O Clube Dumas" (1993), de Pérez-Reverte, é muito bem capaz de vir a gostar deste A Sombra do Vento (2001), primeiro livro da quadrilogia muito badalada de Zafón. Como gostaram dele, nas Correntes da Escrita, de 2006, na Póvoa de Varzim. É tudo uma questão de ar do tempo, de leveza e tema, de estilo...

