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segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Pinacoteca Pessoal 208

 

Por vezes os genes artísticos propagam-se para as gerações seguintes. Ou, ao menos, o sentido estético sucede-se de forma familiar. O pintor amarantino António Carneiro (1872-1930), que teve dois filhos, parece ter transmitido a vocação artística a ambos. Ao mais velho, Cláudio (1895-1963), o lado musical; ao mais novo, Carlos Carneiro (1900-1971), parece tê-lo dotado de gosto e engenho para a pintura. Deste último, ainda lhe cheguei a ver algumas mostras vimaranenses, muito agradáveis.




As paisagens de António Carneiro, muitas delas marinhas, estão marcadas por uma serena suavidade transcendente que, de algum modo, definem um estilo expressionista (?) e parecem querer ganhar a alma de quem as vê.


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Esquecidos (18)

 

Soube, há pouco tempo, que um colégio lisboeta de referência, em relação à literatura portuguesa do século XIX, incluia no seu programa escolar apenas o estudo de Eça de Queiroz. Quanto ao século XX são contemplados unicamente Pessoa e Saramago. O panorama  público de ensino não será muito diferente... Perde-se assim um enquadramento e contexto temporal e cronológico de autores, bem como se soterram no esquecimento a maioria dos escritores nacionais. Mas creio que também Teixeira de Pascoaes (1877-1952), um mal-amado, nunca pertenceu ao cânone português das escolas. Muito embora tivesse merecido importantes estudos de Jacinto do Prado Coelho, Jorge de Sena, Mário Martins, Alfredo Margarido, entre outros ensaístas.
Prado Coelho refere a infância como sendo o tema central na sua obra poética, eu optaria antes pela temática da morte como omnipresente nos seus versos. Não sendo um modernista, a poesia de Pascoaes retém acentos de algum romantismo e, sobretudo, sinais de um simbolismo original e panteísta que difere muito do estilo da obra excessivamente marcada e artificiosa de Eugénio de Castro (1869-1944).
Como contributo de lembrança, aqui deixo um poema de Terra Proibida (1899):

Hora Final

Aí vem a noite... Sente-se crescer...
E um silêncio de estrelas aparece.
Quem é, quem é, meu Deus, que empalidece
E se cobre de cinzas, no meu ser?
Alma que se desprende numa prece...
Que suave e divino entardecer!
Como seria bom assim morrer...
Morrer, como a paisagem desfalece,
Morrer quase a sorrir, devagarinho.
Ser ainda do mundo pobrezinho
E já pairar, sonhando, além dos céus,
Morrer, cair nos braços da ternura;
Morrer, fugir, enfim, à morte escura,
Sermos, enfim, na eterna paz de Deus!

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Antologia 10



6ª lição

A nós nos lemos quando estamos lendo
na habitual penumbra desta sala.
(...)

Fernando Echevarría. in Poesia, 1980-1984.

domingo, 27 de janeiro de 2019

No MNAC, pela manhã dominical



Batem as 10, no "sino da minha aldeia" que foi de Pessoa, ali pelo largo do S. Carlos, por onde o Sol foge à responsabilidade de ser dia, no céu desta manhã dominical ainda pardacenta. E a rua está quase quieta acompanhando de perto as margens do silêncio. Somos dos primeiros a entrar no MNAC.
Para os seus anos de vida, Carlos Relvas (1838-1894) trabalhou imenso, em fotografia. O acervo que o Museu, da rua Serpa Pinto, expõe, é amplamente significativo e documenta, de forma eloquente a sua obra, que cobre uma boa parte do século XIX português. A exposição temporária foi muito bem concebida.
A paisagem, só por si e erma de figuras humanas, apenas pela cor esbatida e pátina do tempo pode denunciar uma época, porque é eternamente semelhante - não tem modas, nem a volubilidade dos adereços que se vão alterando com os anos. As paisagens de Relvas quase podiam ser de hoje...

Não posso dizer o mesmo das pinturas de António Carneiro (1872-1930), nem dos quadros de Marques de Oliveira (1853-1927), que denunciam, pelos ademanes e indumentárias das suas personagens, o tempo em que foram feitas.
Ficaram-me na memória três tabuínhas de Pousão (1859-1884) tão encantadoras como as que há no  Museu Soares dos Reis, do Porto. Até me apetecia roubá-las. E trazê-las comigo...
O MNAC está melhor, desde a última vez que lá fui, mas a iluminação é deficiente e desleixada. E a representação artística, de pintura e escultura portuguesa, a partir dos anos 70 do século XX, deixa muito a desejar, pela pobreza do acervo. Há que ir, para complemento, ao C. A. M., da Gulbenkian... 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Só para marcar o ponto...


É evidente que Vasco Fernandes (1475-1542) domina a cena, com o seu monumental S. Pedro, em Viseu. E tenho que destacar uma magnífica marinha de mar bravo, pintada por António Carneiro (1872-1930). Mas o acervo de Columbano (1857-1929) não é de desprezar, no Museu Grão Vasco. Do atelier (em imagem) aos estudos para as pinturas do Parlamento, mais o excelente retrato de Ramalho Ortigão. E ainda umas 4 tabuínhas, com paisagens de Bruges (?), que me ficaram na retina...

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sem título


9.
Vai sendo tempo de largares o Verão
soltá-lo no caminho mais estreito
à boca do Outono ou numa praia
onde já não passe mais ninguém.

Alberto Soares, in Escrito para a Noite (pg. 37).

quarta-feira, 6 de março de 2013

Motivos


Anos a fio, desejei ter por casa uma marinha, para que, sempre que me apetecesse, pudesse lembrar o mar, através da sua representação pictórica. Não um mar à Turner, excessivamente experimental e vanguardista - queria um mar clássico e convencional, apenas.
Acabei por me contentar com uma pequena tabuínha, de autor desconhecido, que comprei, improvavelmente, num alfarrabista, onde três ou quatro rochedos ocres são lambidos pela espuma branca das ondas e o areal é uma fímbria magra e estreita de hesitante limite.
Nem todos os artistas são atraídos pelas águas, mas António Carneiro (1872-1930), por exemplo, tem uma pequena tela do mar nortenho português, maravilhosa (Arpose: "Primavera", 21/3/2010), em tons róseos de manhã fria, verde azul e escuro, e branco da espuma das ondas - era uma marinha assim que eu gostaria de ter.
Pelo contrário, João Hogan (1914-1988) pintou, obsessiva e intensamente, Monsanto na sua aridez de camadas sobrepostas de terras e rochas, quase sempre sem pessoas, como se pretendesse sublinhar os tempos e, quem sabe, talvez a solidão. Como dizia Eugénio de Andrade: "Não se escolhe, é-se escolhido."

domingo, 21 de março de 2010

Primavera


Na primavera quando as tardes se arredondam
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar...

Ruy Belo

P.S.: para "c. a.", que teve nostalgia do mar da Arrábida, este mar de António Carneiro (1872-1930), possívelmente nortenho, com palavras de um poeta do Sul.