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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O gosto e a idade


Já gostei muito de Lorca, numa idade em que seria natural tê-lo como referência, em poesia. Depois, o destino trágico e injusto iluminou a sua curta vida do tom próximo de epopeia que fascina a aventura sonhada dos dias da juventude de cada um. Se, e quando, esses sonhos existem.
Mas, lentamente, fui-me, com a idade, afastando dos seus versos. O lugar de eleição foi sendo ocupado primeiro por Jiménez, de quem o Eugénio me falou, e, depois, num outro registo, chegou-me Quevedo, na forma avassaladora do soneto Desde la Torre:

Retirado en la paz de estos desiertos,
con pocos pero doctos libros juntos,
vivo en conversación con los difuntos
y escucho con mis ojos a los muertos.
...

A minha idade madura ia procurando o realismo objectivo da vida, a exigência simples, o mínimo essencial que prescinde de mimos e fantasias do acessório, cultivando, no fundo, uma sobranceria irónica pela tona dos dias e pela ligeireza das ambições excessivas, que são sempre poluentes.
Eu acho que Paco Ibáñez percebeu isso, ao musicar (no vídeo do poste anterior), em tons muito diferentes, as palavras sensuais de Lorca e os versos terrestres de Quevedo. A secura essencial dos trinados aplicados a Quevedo contrasta com os requebros utilizados para os versos de Lorca.
Sabiamente.


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Uma dedicatória


Com Francisco de Aldana, J. Ramón Jiménez, Antonio Machado e Gamoneda, Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645) é um dos meus 5 poetas espanhóis preferidos. Amigo e confrade do nosso Francisco Manuel de Melo, é ainda mais atrevido na sátira, polifacetado e, talvez, melhor poeta. E um conceptista de fino recorte literário.



Um prefácio pode ser fastidioso, uma dedicatória, simplesmente, banal, na sua louvaminha bajuladora e servil. Esta dedicatória(-prefácio) de Los Sueños, de Quevedo, é, pelo menos, singular e original. Procurei traduzi-la, embora de forma livre, respeitando a intenção do Autor.
Assim, segue:

Dedicatória
A nenhuma pessoa de todas quantas Deus criou no mundo

Tendo considerado que todos dedicam os seus livros com dois fins, que raras vezes se repartem: o primeiro, para que tal pessoa ajude às despesas da impressão com a sua bendita esmola; o outro, para que apoie a obra contra os detractores; e considerando, por eu ter sido detractor ou murmurador durante muitos anos, que isso de pouco serve senão para despertar a compaixão por quem é visado: do néscio, que se persuade que os mal-dizentes têm autoridade, e do presumido, que paga com o seu dinheiro esta lisonja, decidi-me a escrevê-la a trouxe-mouxe e a dedicá-la às pessoas tontas e loucas, suceda o que vier a suceder. Quem o (livro) comprar e resmungar, antes de mais diz mal de si, porque gastou mal o seu dinheiro, e não do autor que o fez gastar mal. E digam e façam o que quiserem os Mecenas, porque como nunca os vi a andar à pancada com os murmuradores, sobre si digo ou não digo que os vejo muito apagados no apoio e desmentidos de todas as calúnias que fazem aos seus protegidos, sem terem em conta o dolo do livro, e prefiro atrever-me a enganar-me. Façam todos  o que quiserem do meu livro, pois eu já disse o que queria dizer de todos. Adeus, Mecenas, que aqui me despeço da dedicatória.
                                                                                                                                Eu.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Símbolos, dissimulações, necessidades...


Aí pelos anos 70 do século passado, e na empresa multinacional onde eu trabalhava, havia um pequeno jornal interno, mensal, onde, entre outras coisas publicadas, era costume fazer breves entrevistas aos colaboradores. As pequenas conversas davam, também, direito a fotografia. Desses retratos, que recordo, bem à vontade a grande maioria dos entrevistados aparecia a falar ao telefone (fixo). Creio que pretendiam (ou pretendia-se) dar a ideia que eram funcionários muito activos, sempre ocupados, diligentes no seu trabalho diário. Hoje, o telefone terá dado lugar, seguramente, ao emblemático computador pessoal, nas fotografias...
A acolher, como rigorosa, uma informação, que li recentemente, um sexto da humanidade é míope; e, entre os que lêem e/ou utilizam computador, o número sobe para cerca de 24% dos seres humanos - considerável, a miopia!
Os óculos, que atenuam esta debilidade humana, são uma invenção recente, se compararmos os anos com a idade do Mundo. Terão surgido, apenas, no século XIII, em Itália, pela primeira vez - o seu inventor é desconhecido, embora se aventem várias hipóteses. A primeira pintura em que aparecem óculos, usados pelo cardeal Hugo de Saint Cher, surge no ano de 1352, num quadro do pintor Tommaso da Modena (1326-1397).
Por curiosidade, posso informar, com alguma garantia de rigor, que o primeiro artista, neste caso poeta, a aparecer retratado com óculos, terá sido Quevedo, num quadro de Juan van der Hamen (1596-1631), que dizem ser cópia de um outro de Velásquez, anterior. Não sei se esse adereço útil acrescentava, ao grande poeta castelhano, um halo simbólico de sabedoria, ou se provocava, na altura, estranheza ou exotismo, nos observadores. Seria talvez, pelo menos, um sinal de distinção e singularidade. Não teria, com certeza, a mesma carga simbólica, do omnipresente cachimbo nas fotografias de grande parte dos intelectuais do passado século XX. Nem sequer o volume e importância objectiva do telefone e do computador, em anos recentes, para sublinhar a hiper-actividade simulada dos colaboradores, numa empresa de sucesso, destas, portuguesas.


sábado, 10 de janeiro de 2015

Na Gulbenkian, até 25 de Janeiro


Um Goya monocromático, escurecido, pretextando a caridade de Santa Isabel de Portugal, duas muito belas imagens de estatuária religiosa, uma delas sobre a mesma Santa, com panejamentos delicados em movimento; e um Santo António mavioso no seu sono de bondade, sob a protecção do Menino. Retratos impressivos de Van der Hamen, que me lembraram o de Quevedo, magnífico. Tudo isto não será notícia, para quem já viu a exposição "Tesouros dos Palácios Reais de Espanha", na Gulbenkian.
Mas convém destacar o grande "Cavalo Branco", logo de início, visto pelo olhar único, e oblíquo para a esquerda, de Diego Velázquez, que, se não fosse um sacrilégio, eu diria que faz o contraponto (olhar oblíquo, para a direita) da púdica "Vénus ao espelho", único nu - de costas ainda por cima - que o grande pintor espanhol, de ascendência portuguesa, pintou em toda a sua vida. Foram estas, em breve inventário, as obras em que me detive, pela sua beleza. E que trouxe, na memória.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Breve nota sobre efemérides e imortalidade


Será talvez um dia auspicioso para o nascimento de poetas, esta data de 17 de Setembro. Nada menos de 4 respiguei eu de várias fontes informativas:
Francisco de Quevedo, em 1580.
Guerra Junqueiro, no ano de 1850.
Em 17/9/1883, nasceu William Carlos Williams. 
Finalmente, José Régio, em 1899.
Também se diz que, depois da morte, os poetas (e outros artistas) terão de passar vários anos no limbo, até serem redescobertos, e ressuscitarem, nalguns casos.
Sobre Quevedo, não tenho eu dúvidas. Quanto a Junqueiro e Régio, tão conhecidos em vida, rezemos-lhes pela alma, a ver se ressuscitam...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Quevedo


Olhei os muros desta pátria minha,
outrora fortes, hoje derrubados
pelo curso da idade tão cansados
por onde se esmorece a valentia.
Saí ao campo, vi que o sol bebia
os ribeiros, do gelo libertados;
e do monte, queixosos iam gados,
que em sombras lhes cerrou a luz do dia.
Entrei na minha casa; envelhecida
a velha habitação já só ruínas;
meu cajado mais curvo e menos forte.
Vencida pela idade vi Espanha
que fora minha, não senti mais nada
e digna de ser vista só a morte.

Nota: Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645) acompanhou, ao longo da sua vida, o apogeu e grandeza de Espanha, mas também, com grave preocupação a  progressiva decadência. A sua obsessão pessoal para com a morte, física, e prévia debilidade corporal aliam-se, neste soneto, de forma admirável.

sábado, 27 de março de 2010

Ducentésimo : quase uma fábula



Quando Fernanda passou no exame de 4ª classe, o Tio Joaquim deu-lhe uma gaiola grande com um canário-flauta, daqueles que cantam muito bem. O primeiro cuidado da menina, logo que acordava, era ir ver o pequeno pássaro verde-amarelo e castanho que desde que o sol nascia começava a trinar. Aprendeu a cortar-lhe as unhas, a esperar a muda da pena, a borrifá-lo de água fresca, no Verão, para que ficasse mais luzidio e limpo. Depois, ficava a vê-lo espanejar-se das gotas de água que perlavam as suas penas. Todas as semanas limpava e lavava o fundo da gaiola, para que tudo ficasse asseado. E soprava com cuidado a caixinha dos minúsculos cereais para que as cascas vazias saíssem e ficassem apenas as que ainda tinham miolo. A menina foi crescendo e o canário, envelhecendo. Entretanto, o Tio Joaquim morreu. Quando Fernanda fez catorze anos, na festa de aniversário, o primo Pedro deu-lhe, de presente, uma canária muito jovem. Era airosa, elegante e esguia, de um amarelo puríssimo e total, mas - como todas as canárias - não cantava.

Fernanda tinha aprendido e visto, em casa do Tio Joaquim, como ele aproximava em duas gaiolas um casal de canários, para habituá-los à presença, um da outra, e reciprocamente, para depois virem a acasalar. Sempre em gaiolas isoladas, durante algum tempo. E, depois, o Tio Joaquim abria as duas portinholas que havia em cada uma das gaiolas para que, finalmente, as pequenas aves coabitassem. A menina colocou então as duas gaiolas, uma junto à outra, e esperou. A princípio, a canária era esquiva e assustadiça. Piava e fugia para o lado oposto à gaiola do velho canário. Este, pelo contrário, mostrava-se agressivo e avançava, ameaçador, até às grades junto da gaiola da jovem e bela vizinha. E passou-se assim uma semana. Gradualmente, o canário foi ficando mais tranquilo e a canária amarela mais curiosa e contígua. Até que Fernanda concluiu que era tempo de juntá-los, na mesma e única gaiola. E assim fez.

No fim dessa semana, os Pais e Fernanda tiveram que deslocar-se a outra cidade, para fazer uma visita de família. A menina reforçou a ração de paínço e milho alvo na gaiola e abasteceu, com mais um recipiente de água, a nova casa dos passarinhos. Iam estar fora dois dias e ela não queria que lhes faltasse nada.

Fernanda, logo que regressaram a casa, correu para a cozinha para matar saudades dos canários. Já perto, só via a canária, muito repimpada, no poleiro. Aflita, subiu a um pequeno banco vermelho, e deparou-se-lhe, então, o pequeno corpo do seu querido canário, inerte, no fundo da gaiola. Tinha morrido. Duas lágrimas caíram-lhe dos olhos, mas logo uma divina ira adolescente a possuiu. E metendo a mão pequena pela portinhola da gaiola de arame, retirou dela a esbelta canária amarela, e furibunda deu-lhe um grito. O coração da canária batia, agora, descompassado, entre os dedos de Fernanda. E os pequenos olhos da avezita começaram a abrir e a fechar veloz e ritmicamente. Emocionalmente exausta, a menina largou então a canária no interior da gaiola, mas a canária adornou, definitiva, também e, depois de vários espasmos, ficou também inerte junto ao corpo morto do velho canário.

Os canários são pássaros muito sensíveis e nervosos. Muito mais tarde, quando veio a ler a "Carta de Guia de Casados", de Francisco Manuel de Melo, ao deparar-se com o que o escritor diz sobre os três tipos de casamento (jovem com jovem, velha com jovem e velho com moça - casamento da morte, lhe chama, neste caso), Fernanda lembrou-se, com saudade e tristeza, do casal de canários da sua adolescência e apercebeu-se que tinha feito "justiça" com suas próprias mãos, e com o seu grito. Mas, entretanto e para sempre, nunca mais quis ter canários...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ironias de Quevedo



Na "Origen y difinición de la necedad, con anotaciones a algunas necedades de las que se usan", Quevedo (1580-1645) escreveu:


"Que não se leve dinheiro pelo enterro dos poetas, nem dos músicos, nem dos valentes porque se esforçam mais em morrer do que todos os outros, em enterrá-los."