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sábado, 19 de abril de 2014

Aceitar ou não aderir


Foi Samuel T. Colerige que, no início do séc. XIX, cunhou pela primeira vez o conceito de suspension of disbelief (suspensão da descrença) caracterizando-o como: a capacidade (ou não) de um escritor conseguir introduzir suficiente interesse humano e verosimilhança de realidade numa obra de ficção, de forma a que o leitor suspenda, em si, a atitude de desconfiança sobre a inverosimilhança de uma narrativa.
A cerrada marcação psicológica, e até o aspecto físico, que Georges Simenon imprimiu, subtilmente, à sua personagem Maigret, em quase uma centena de livros, torna extremamente difícil ao leitor aceitar o desempenho visual e de interpretação, em filme ou séries televisivas, de vários actores que encarnaram a figura do célebre comissário francês.
E, embora na maioria dos casos os actores tenham aparência tranquila e voz  pausada, alguma corpulência e robustez, algo escapa a uma sobreposição credível, que permita aceitar, por parte do espectador, a verosimilhança da personagem. De Jean Richard a Bruno Crémer, de Albert Préjean a Gino Cervi ou Michael Gambon, franceses ou não, todos eles falham em criar essa tal suspension of disbelief de que falava Coleridge.
Para mim, o único que quase conseguiu encarnar, parcialmente, o comissário Maigret, terá sido Jean Gabin.
E, mesmo assim...

sexta-feira, 21 de março de 2014

Ainda sobre Poesia, e com Eugénio


Há séculos, pelo menos 9, que os portugueses se exprimem, também, através da poesia. Mas raramente se interrogam sobre ela e sobre a criação. Ao contrário dos poetas ingleses, por exemplo, que muito teorizaram sobre ela: de Wordsworth e Coleridge até T. S. Eliot.
Mas Eugénio de Andrade, algumas vezes, falou sobre poesia, com palavras justas e sábias, que o saber da experiência lhe dava. Numa ocasião, a uma pergunta/acusação (do entrevistador) sobre a dureza dos seus juízos a propósito de jovens poetas, respondeu assim:
"...A juventude não precisa de piedade, mas de verdade. Há muito jovem que me pede ajuda onde não há ajuda possível, pois ninguém pode viver por eles a sua própria vida, remontar às fontes do ser. Porque a poesia é a perpétua procura dessas águas. Quando não é isso, é uma inútil cantilena com que se embalam as horas, com que alguns espíritos superficiais enganam a vida. Num tempo degradado como o nosso, todas as fontes estão ocultas. A tarefa do poeta é desocultá-las. Tudo o que nos saia das mãos sem esse sabor original são só palavras a mascarar a palavra, miséria que nos impede até de ouvir a magnífica e alta música do silêncio."

sábado, 8 de março de 2014

Breves reflexões sobre Poesia, desenvolvidas a partir de uma ideia de Coleridge


Para S. T. Coleridge (1772-1834), a celebridade e importância de um poeta assentava em dois factores essenciais: solidez da sua fama, através dos tempos, e a contínua leitura da sua obra, apesar das modas; e ainda a sua influência sobre poetas posteriores.
A questão dos temas, mais constantes da obra, também terá uma importância fulcral. A poesia religiosa, pela dessacralização crescente da sociedade e cultura europeias, perdeu grande parte da sua actualidade e importância, quer nas leituras, quer em estudos.
Um exemplo português pode ajudar a perceber e corrobora essa ideia: a prevalência de interesse sobre a obra de Diogo Bernardes (1530?-1605), em detrimento da do seu irmão Fr. Agostinho da Cruz (1540-1619). Muito embora a boa qualidade dos seus versos seja muito semelhante.