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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Produtos Nacionais 23


Os frutos, inteiramente portugueses, eram de Sabrosa (Trás-os-Montes); o engenho e a arte foram de HMJ, pela sua transformação doméstica em uvada, ladrilhos de marmelo em calda e figos de compota. Ficou um resto para irmos petiscando, ao natural e em cru (excepto os marmelos...).
Faltaram os Covilhetes de Vila Real (já tinham ido todos...) e as Cristas de Galo vilarrealenses, recheadas a Toucinho do Céu, dentro de envólucros, que pareciam de massa tenra. E, esses, vieram, por oferta amiga, da Pastelaria Gomes, que eu recomendo, indubitavelmente. Se lá forem.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sacro e profano (2)


Não seria decerto como nas igrejas da antiga Goa, em que os espaços para as diversas castas indianas eram estanques. Mas da casa senhorial, neste caso, havia um passadiço por onde as gentes do palacete acediam, ao alto, na capela. Criados e povo entravam pela porta da rua, chapeada, para ouvir missa. Quando lha abriam para o serviço divino.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sacro e profano (1)


Em três manchas rochosas acachapadas à terra, bem perto da Sabrosa vinhateira e do pequeno centro xistoso evocativo de Miguel Torga, marca terreno, em toda a sua rudeza, o chamado Santuário de Panóias. Pelas inscrições romanas e gregas se fica a saber ter sido mandado fazer, entre os séculos II e III D. C., pelo senador Gaius Calpurnius Rufinus. Para celebrar os Deuses Severos, que tinham em Serápis, o nome maior. As aberturas geométricas, nas rochas, destinavam-se à imolação dos animais, para aplacar a ira dos deuses. E por ali correu sangue de pacíficas vítimas, sacrificadas pelos humanos primitivos.
Eramos apenas 4 os visitantes, a calcorrear o terreno agreste. Que a horda dos turistas, na sua algazarra babélica e lumpen, se tinha ficado, felizmente, pela invasão desordenada de Aveiro e dos seus moliceiros, com passeios fluviais de 45 minutos, a 10 euros. E o silêncio sagrado abençoava Panóias. Também nas redondezas se tinham acabado de colher as uvas brancas: a Formosa, a Viosinho, a Fernão Pires, a Códega do Larinho... Mas as tintas, esperavam e espreitavam ainda, por entre as parras verdes, através do que pareciam os seus olhos de cachos negros: Tinta Roriz e Touriga Nacional, principalmente.
Também nós viríamos a sacrificar, à mesa, mais tarde, e em Vila Real, alguns nacos de vitela, civilizadamente. Acompanhados por um divino e aromático branco duriense da região, bem fresco. Em ágape solene, fraternalmente amiga, mas laica...

sábado, 26 de abril de 2014

Regionalismos transmontanos (35)


1. Escano - banco comprido de madeira com encosto, junto à lareira.
2. Escarolado - diz-se do pão que tem o miolo separado da côdea.
3. Escarrapachar - mostrar, evidenciar. Bater. Sentar.
4. Escorrichar - tirar a última gota, esvaziar o líquido totalmente. (Conheço na forma: escorropichar.)
5. Esgúvio - escorregadio.
6. Esmechar - tornar seco, mirrar.

domingo, 16 de outubro de 2011

Mercearias Finas 39 : Coelho na abóbora, tinto Douro e jerimus

O coelho era português, e manso, as abóboras de Constância e o vinho tinto duriense (d'Eça 2009), de Sabrosa, que não tendo pujança excessiva, compensava com uma elegância inesperada e acolhedora nos seus 13,5º graus aveludados, já. Marcado, absolutamente, pelo aroma e sabor inconfundíveis da Touriga Nacional - eflúvios de violeta cálida, envolvida em fumos de tabaco e chocolate. A garrafa foi toda, e quase pedia mais...


O coelho foi aconchegado e assado no forno (como manda o "Chico Elias", de Tomar), no interior de uma cucurbitácia média, mas nutrida. Para não ficar sozinho fizeram-lhe a cama e rodearam-no de aipo, cebola, um cheirinho de salsa, pequenas tiras de pimento rútilo, algumas rodelas de chouriço, três ou quatro gotas de piri-piri. No útero róseo-alaranjado da abóbora, quentinho, adormeceu - e fez-se.


Entretanto, as cabaças pequenas e mais jovens, que não chegaram a ser cantil de romeiros e peregrinos, secas, ou mera decoração de mesa, foram sofrendo tratos de polé, em vida e sumarentas, até adquirirem uma consistência de polme maleável, poroso e amarelado - daí, talvez, o nome de abóboras manteiga. Fritas se transformaram em "bolinhos de jerimu", com polvilhos leves de fino açúcar e canela. Puro esplendor divino, como manã bíblico, que se desfazia na boca.
Gastronómico domingo, digno de deuses!

A HMJ, pela confecção perfeita; a AVP, pela sábia indicação do vinho d'Eça 2009, tinto.