Os frutos, inteiramente portugueses, eram de Sabrosa (Trás-os-Montes); o engenho e a arte foram de HMJ, pela sua transformação doméstica em uvada, ladrilhos de marmelo em calda e figos de compota. Ficou um resto para irmos petiscando, ao natural e em cru (excepto os marmelos...).
Faltaram os Covilhetes de Vila Real (já tinham ido todos...) e as Cristas de Galo vilarrealenses, recheadas a Toucinho do Céu, dentro de envólucros, que pareciam de massa tenra. E, esses, vieram, por oferta amiga, da Pastelaria Gomes, que eu recomendo, indubitavelmente. Se lá forem.
Em três manchas rochosas acachapadas à terra, bem perto da Sabrosa vinhateira e do pequeno centro xistoso evocativo de Miguel Torga, marca terreno, em toda a sua rudeza, o chamado Santuário de Panóias. Pelas inscrições romanas e gregas se fica a saber ter sido mandado fazer, entre os séculos II e III D. C., pelo senador Gaius Calpurnius Rufinus. Para celebrar os Deuses Severos, que tinham em Serápis, o nome maior. As aberturas geométricas, nas rochas, destinavam-se à imolação dos animais, para aplacar a ira dos deuses. E por ali correu sangue de pacíficas vítimas, sacrificadas pelos humanos primitivos.
Eramos apenas 4 os visitantes, a calcorrear o terreno agreste. Que a horda dos turistas, na sua algazarra babélica e lumpen, se tinha ficado, felizmente, pela invasão desordenada de Aveiro e dos seus moliceiros, com passeios fluviais de 45 minutos, a 10 euros. E o silêncio sagrado abençoava Panóias. Também nas redondezas se tinham acabado de colher as uvas brancas: a Formosa, a Viosinho, a Fernão Pires, a Códega do Larinho... Mas as tintas, esperavam e espreitavam ainda, por entre as parras verdes, através do que pareciam os seus olhos de cachos negros: Tinta Roriz e Touriga Nacional, principalmente.
Também nós viríamos a sacrificar, à mesa, mais tarde, e em Vila Real, alguns nacos de vitela, civilizadamente. Acompanhados por um divino e aromático branco duriense da região, bem fresco. Em ágape solene, fraternalmente amiga, mas laica...
Em vez de "aos molhos", as que comi recentemente deveriam chamar-se, com mais propriedade, "tripas viajantes". Eu explico. De uma rez bovina que crescera pelos pastos verdes transmontanos, foram as tripas para Vila Real onde, numa cozinha especializada, foram trabalhadas, quero eu dizer, lavadas em várias águas e, depois de temperadas, lardeadas com toucinho e salpicão (provavelmente, as que comi, com nacos de presunto do bom), e refogadas. Devidamente acondicionadas, foram levadas para o Porto, e logo metidas no congelador. Passados dias, o meu amigo António levou-as de viagem até ao Algarve, e depois para Lisboa, onde as recebi. Finalmente seguiram para a Outra-Banda, onde foram comidas. Foi estreia, porque nunca tinha provado estas tripas à moda de Vila Real. E eram muito boas e tenras, acompanhadas que foram por um arroz malandrinho de nabiças. Embora a tradição recomende arroz branco, simples.
Mas fizemos ainda mais uma estreia na refeição. Um tinto do Dão da Casa da Passarela, 2008, que, com os seus 13,5º, esteve de feição equiparada e justa. Ao preço de 2,95 euros, numa recente feira de vinhos, valeu bem mais que o preço dado. Com Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen e Tinta Roriz, quase totalmente domados, os seus taninos brandos asseguram-no, vivinho, por mais 2 anos. Mas macias e saborosas eram, realmente, as Tripas aos Molhos, de Vila Real. O seu a seu dono: obrigado, António!
P. S. : vai o vídeo para se perceber melhor a confecção da iguaria.
Estas "Legendas de Portugal", de Rocha Martins, são uma das boas memórias de leitura que fiz, na pouco extensa, mas bem escolhida biblioteca do meu Tio Jorge, poveiro de gema e aquariano exemplar, trabalhador e viajante por necessidade. Li os fascículos entre o final da infância e o início da juventude, com enorme prazer. Estas leituras ajudaram-me a criar um patriotismo saudável, um gosto ameno pela História de Portugal, e uma ética. Nas imagens das capas: D. João II e Carlota Joaquina, mulher do rei D. João VI. D. João II, como legenda, foi associado, por Rocha Martins, à cidade de Setúbal. A rainha Carlota Joaquina, a Vila Real.