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terça-feira, 19 de abril de 2022

D. Duarte, por Rui de Pina



O retrato em palavras é relativamente sucinto e vem no capítulo III da Crónica d'El-Rei D. Duarte (1391-1438), de Rui de Pina. E diz assim:

"... e portanto é de saber que El-Rei D. Duarte foi homem de boa estatura do corpo, e de grandes e fortes membros: tinha o acatamento da sua presença mui gracioso, os cabelos corredios, o rosto redondo e algum tanto enverrugado, os olhos moles, e pouca barba; foi homem desenvolto e costumado em todalas boas manhas, que no campo, na côrte, na paz e na guerra a um perfeito Príncipe se requeressem: cavalgou ambas as selas da brida e de ginêta melhor que nenhum do seu tempo: foi mui humano a todos, e de boa condição: prezou-se em sendo mancebo de bom lutador, e assim o foi, e folgou muito com os que em seu tempo bem o faziam: foi caçador e monteiro, sem míngua nem quebra do despacho e aviamento dos negócios necessários: foi homem alegre, e de gracioso recebimento (...) foi mui piedoso, e manteve mui inteiramente sua palavra como escrita verdade: amou muto a justiça: foi homem sesudo e de claro entendimento, amador de ciência de que teve grande conhecimento, e não por decurso d'escolas, mas por continuar d'estudar e ler por bons livros (...) no comer, beber e dormir foi mui temperado, e assim dotado de todalas outras perfeições do corpo e d'alma."

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Bibliofilia 20 : Folhetos de Cordel e Entremezes



Não sou grande conhecedor de entremezes nem de folhetos de cordel. Tenho, sim, vários folhetos de poesia do séc. XVIII, e outros de José Daniel Rodrigues da Costa, já do séc. XIX. Os primeiros entremezes parece terem tido origem nos sécs. XIV/XV. Rui de Pina fala deles na sua crónica sobre D. João II. Segundo Luiz Francisco Rebello, a palavra portuguesa entremez provém do francês "entremetz".
Quando me ofereceram, ontem, por um preço módico, estes dois folhetos que se reproduzem, não resisti a comprá-los. Após leitura ligeira, fazem-me lembrar pequenos "libretos" de revista à portuguesa, "avant la lettre". Não têm grande qualidade literária, nem indicam os nomes dos seus autores, mas são divertidos. Têm 16 páginas, cada um. E a tipografia, onde foram impressos, é a mesma (Typ. de Mathias José Marques da Silva, na Rua do Ouro, em Lisboa). Creio que, pelo menos um ("Novo Entremez/ intitulado/ O Gallego Lorpa e os Tolineiros."), terá algum interesse sociológico sobre o período em que foi editado.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Memória 22 : D. João II



D. João II nasceu a 3 de Maio de 1455 e veio a falecer " sem pai, nem mãe, sem filho, nem filha, sem irmão, nem irmã, e ainda com muito poucos, fora de Portugal, no Reino do Algarve em Alvor muito pequeno lugar", em 1495, como escreveu Garcia de Resende na sua Crónica.
Rui de Pina compõe-lhe assim o retrato: "Foi El-Rei D. João II homem de corpo, mais grande, que pequeno, mui bem feito, e em todos os seus membros mui proporcionado; teve o rosto mais comprido, que redondo, e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos, e corredios; e porém em idade de trinta e sete anos, na cabeça, e na barba era já mui caão, de que mostrava receber grande contentamento, pela muita autoridade que a sua Dignidade Real suas caãs acrescentavam: e os olhos de perfeita vista, e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e magoas de sangue, com que nas cousas de sanha, quando era dela tocado, lhe faziam o aspeito mui temeroso. E porém nas cousas d'honra, prazer, e gasalhado, mui alegre, e de mui Real, e excelente graça: o nariz teve um pouco comprido, e derribado algum tanto sem fealdade. Era todo mui alvo, salvo no rosto que era corado em boa maneira. E até à idade de trinta anos foi muito enxuto de carnes, e depois foi nelas mais revolto. Foi Príncipe de maravilhoso engenho, e subida agudeza, e mui místico para todas as coisas; e a confiança grande que disso tinha, muitas vezes lhe fazia confiar mais de seu saber..."