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sábado, 28 de novembro de 2020

Ideias fixas 61


Eu creio que é do muito frequentar que se ganha a noção da diferença e do grau de qualidade. Alguma teoria ou guias da especialidade podem ajudar-nos, e muito. Mas há miolos altamente preguiçosos, almas que puxam para o chinelo, natural e fatalmente. Com essa corrente dominante, creio que não há nada a fazer... 

sábado, 1 de junho de 2019

Osmose 106


Dizia, em 1959, com a crueza sincera juvenil do espírito - ele que já ia em avançada maturidade corporal - dizia (repito) Vinicius de Moraes (1913-1980), assim, em início de poema:

As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental...

Não teria, decerto de todo, o poeta brasileiro, assimilado a lição pessoana, ou talvez dela discordasse, o que veio a contribuir para que ele fosse um grande poeta menor da língua portuguesa. E do amor.
Mas bem o compreendo eu que, sendo adolescente e desprovido de sentido crítico, achava os desempenhos cinematográficos de Virginia Mayo, Doris Day, Mylene Demongeot, uma maravilha...
Em contrapartida, era Simone Signoret que eu achava uma bruxa, em "As Feiticeiras de Salém" (The Crucible, 1957), e mal dava pela grande actriz que já era Katherine Hepburn.
Só com os anos, ou com a chegada da maturidade podemos compreender, inteiramente, que o feio também pode ser belo.
Assim Soutine, assim Bacon, por exemplo, em matéria de pintura.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Por assim dizer


Há quem se intimide com pequenas coisas, quem faça cerimónia em dizer não. Ateus há, que nunca entraram numa igreja, da mesma forma que os analfabetos, em princípio, nunca tiveram a experiência de franquear as portas de uma livraria - o que é lógico, a menos que se trate de alguma senhora de limpeza, iletrada, que lá vá exercer a sua higiénica função.
Mas também existem pessoas que, perante objectos e factos, observam um prudente respeito, quase sagrado, e nunca se perguntem da sua qualidade, da justificação da sua criação, do valor estético (ou não) inerente. Como, inexplicavelmente, há seres humanos que, perante uma música que foi gravada, um livro que foi publicado, uma estátua, um quadro, lhes atribuam o valor incontestável de tabu. Uma indiscutível autoridade. Só por existirem, no concreto da sua realidade.
Creio ser este, para além do hipócrita respeitinho português, um dos factores responsáveis pelo atraso de mentalidades e pela falta de sentido crítico nacional.
Dixit. 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Critérios


Não sei que escola pedagógica da modernidade fez difundir, de forma acrítica, a inefável teoria de que se deveria estimular a auto-estima das crianças no sentido e com o objectivo do seu desenvolvimento harmonioso e do seu equilíbrio humano. Num país, como o nosso, em que o sentido crítico dos cidadãos sempre foi deficitário, creio que esse princípio foi tragicamente pernicioso. Qualquer pequeno rabisco de uma criancinha era aplaudido como obra-prima; incentivavam, nas escolas, pequenos seres a fazerem poemas que, independentemente do seu valor, eram sempre saudados, entusiasticamente. E assim por diante... Lá fora, creio que se fez o mesmo. Criaram-se países virtuais apenas habitados por génios. Para si mesmos, sem qualquer sentido de realidade e de grau.
Hoje, no Calhariz, vi um frenético jovem estrangeiro a fotografar, sistematicamente, tudo o que mexia ou estava parado: bocas de incêndio, cãezinhos, vitrinas de pastelaria, o celebrado eléctrico 28, caixotes de lixo... Sem qualquer critério, em suma. Que, depois, irá publicar, talvez, no seu popular Blogue, sempre muito visitado. Mais um génio para "de entre família", como dizia o Pessoa, sempre actual, ainda hoje.
Um pouco de modéstia, outro tanto de sentido crítico e uma boa dose de bom senso não fariam mal a ninguém e seriam salutares, no sentido de separar o trigo do joio, o lixo daquilo que, realmente, se deve recordar. Evitando esta exposição excessiva de mau gosto, este protagonismo medíocre de banalidades, esta assustadora falta de critério.
Em contraponto. Quando abordaram Jacques Brel para que viesse a integrar a prestigiada e séria colecção "Poètes d'Aujourd'hui" ( da Pierre Seghers), o belga ficou varado, corou e achou que as suas canções não eram dignas de tamanha honra. Tentando demovê-lo, o representante do editor perguntou-lhe: "Que vous manque-t-il pour devenir un poète?" E Brel, em toda a sua simplicidade, respondeu: "Y croire!"