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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Mann em França

 

O jornal Le Monde dá notícia de um aparente interesse inusitado, em França, pela obra do escritor alemão Thomas Mann (1875-1955), prémio Nobel de Literatura, em 1929. Mas que provavelmente se deve à cessação dos direitos de autor. Duas traduções de Buddenbrooks e três de Der Tod in Venedig, uma das quais na "poche", estão aí, para testemunhar este entusiasmo editorial. Será que, em Portugal, assistiremos ao mesmo fenómeno? A grande qualidade do escritor, quanto a mim, justificá-lo-ia.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

3 perspectivas sobre a tradução

 "... ou o tradutor deixa o autor em paz... e traz o leitor até si; ou ele deixa o leitor em sossego e leva o autor até ele."  Friedrich Schleiermacher (1768-1834).

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" A tradução é uma espécie de leitura. "  Maurice Merleau-Ponty (1908-1961).

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" A tradução é totalmente um género próprio, mas por alguma razão permanece como uma tendência para explicar por analogia. Um tradutor é como um actor desempenhando um papel, um músico interpretando uma peça musical, um mensageiro que, algumas vezes, deturpa a mensagem. " Eliot Weinberger (1949).

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A propósito da tradução

 

No primeiro volume desta antologia de poesia alemã (capa em imagem), de René Lasne, na sua versão para francês, André Meyer, no prefácio, refere: On peut dire que la traduction d'un poème se décompose en deux temps: il faut d'abord tuer l'óriginal et ensuite le ressusciter. La première opération est à la portée de tout philologue scrupuleux, mais la seconde exige  des dons de créateur. ... Traduzindo para português: " Pode dizer-se que a tradução de um poema se decompõe em dois tempos; em princípio é necessário destruir o original e em seguida ressuscitá-lo. A  primeira operação está ao alcance de um filólogo escrupuloso, mas a segunda requer os dons de um criador. ..."

Comentário pessoal: eu acrescentaria um pequeno acréscimo subjectivo, à citação. A versão numa outra língua exige alguma "adivinhação" ou, melhor dizendo, intuição para chegar correctamente à intenção do poeta, nos versos originais. Sem isso o resultado nunca será satisfatório.

sábado, 27 de agosto de 2022

Tradução, segundo Agustina



Toda a tradução simplifica uma relação amistosa; a palavra precisa de ser registada no coração, para poder ser transmitida.

Agustina Bessa-Luis (1922-2019), in Caderno de Significados (pg.45).

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

(In)Tradução


Estaco, frustrado, perante um simples, mas grande poema composto por 5 versos, de René Char (1907-1988). Percebo-o, traduzo-o literalmente, mas o poema fica muito aquém do original na minha versão para português - é de expressão menor, e francamente abortado. Falta-lhe fogo e alma, palavras gémeas para atingir, ao menos, um paralelo fulgor aproximado, da criação do poeta francês.
Talvez mais tarde, ou noutro dia lhe consiga captar alguma da grandeza original. Entretanto, e como dizia Fernando Echevarría:
                                             A língua, sustenida, imóvel pensa.


sábado, 26 de janeiro de 2019

Sobre traduzir


Numa entrevista recente, Javier Marías (1951) reflecte, entre outras coisas, sobre a sua actividade de tradutor como sendo uma via de consolação. Em tempos, diria eu, de defeso e de esterilidade criativa própria, sobretudo. E o escritor acrescenta que é como que se houvesse um rascunho inicial, sobre o qual é necessário trabalhar, aperfeiçoando.
O fazer sua a voz dos outros tem aspectos muito próximos da criação, numa euforia porventura menos febril e por caminhos mais definidos. Como também alguém já disse que, mais que bem conhecer o idioma de que se traduz, é absolutamente obrigatório dominar amplamente a língua (sua, na maior parte dos casos) para que se verte.
Importa muito menos, porém, que o estado de espírito do tradutor se coadune com o teor do texto, ou possa ser paralelo à energia criativa original que o desencadeou. Há sempre qualquer coisa de caótico, inconsciente ou não domável, por inteiro, no fenómeno e forças da criação. A reordenação faz-se, normalmente, numa fase posterior, mais consciente.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Miscelânea, a propósito de Proust


As cartas de leitores ao Director, no TLS, têm-se multiplicado, ultimamente, a propósito da recente tradução do título, para inglês, de Du Côté de chez Swann, de Marcel Proust (1871-1922). Cada um dá a sua sentença e alvitre: de To Swann's Way até Toward's Swann's Place, passando pelo sintético Over at Swann's, entre muitos outros. Neste aspecto, tenho dificuldade em tomar partido...
Como por vezes me divido, também, perante uma obra (de arte?) extravagante, cujas qualidades estéticas se me não impõe, de imediato, ou me surpreendo perante os preços exorbitantes que algumas telas, de pintores conhecidos, atingem em leilões, e vou compreendendo inteiramente que alguém, criterioso nos seus juízos, se aconselhe com especialistas sobre assuntos que não domina, antes de tomar posição.

Ao que parece, assim acontecia com Proust, como nos diz Gautier-Vignal, no seu livro Proust connu et inconnu, no que à Música clássica dizia respeito. O escritor francês procurava, quase sempre, a opinião avisada de Reynaldo Hahn sobre compositores contemporâneos, sobretudo.
Não admira, por isso, que tivessem frequentes contactos pessoais e até trocassem correspondência. O que verdadeiramente me surpreende é que, num leilão recente em Paris, um bilhete-carta de Marcel Proust para Reynaldo Hahn, datado de Março de 1896, essa missiva tenha sido arrematada pela astronómica quantia de 8.125,00 euros. Será mesmo um valor justo, ou haverá pessoas que não sabem como gastar o seu dinheiro excessivo?

agradecimentos cordiais a H. N..

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Simenon-Maigret em português


Com as capas acusando a marca do tempo, embora o miolo se apresente em boas condições, O Cão Amarelo, de Georges Simenon (1903-1989), terá sido a segunda obra do escritor francês a ser traduzida para português, provavelmente em 1939. E com a garantia de ser uma versão de Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), para a Empresa Nacional de Publicidade (ENP). O primeiro livro traduzido de Simenon foi Condenado à Morte (1932, Clássica Editora).
Só não refiro o preço por que o adquiri, hoje, no alfarrabista, para não ferir susceptibilidades e provocar invejas - porque foi muito barato, por diversas circunstâncias...

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Mais uma tradução para memória futura


Mais uma tradução de Simenon (Le Chat), feita por um poeta - António Barahona da Fonseca.
Como é habitual norma da Bertrand, no livro não consta a data da edição... A capa é de José Cândido.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Interlúdio 42


Sem maldade, mas para memória futura.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Citações CLXVII


E uma boa tradução como esta* não é uma mera tradução, para o tradutor é dar o original através de si próprio, e encontrar-se a si mesmo através do original.

T. S. Eliot, na Introdução a Ezra Pound - Selected Poems.

* T. S. Eliot refere-se às traduções que Ezra Pound fez sobre poesia chinesa.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Traduzir, segundo D. Mourão-Ferreira e Valery Larbaud


Na introdução às Poesias de Guilevic, editadas pela Editora Ulisseia, em 1965, David Mourão-Ferreira, com a prática de tradução que lhe assistia, escreveu o seguinte:
"... O que mais interessa, aliás, numa tradução de poesia, é obter uma série de correspondências - de ritmo, de tom, de atmosfera, de sentido -, ainda que para tal se tenha de entrar em guerra aberta com o Dicionário. Valery Larbaud, que discorreu como ninguém mais, sobre «a arte e o ofício» do tradutor, sublinhou a importância, entre todos os outros, do «Dicionário da nossa memória», observando, nomeadamente, que, por mais contrário que pareça toda a lógica, «uma única e mesma palavra, empregada pelo Autor em duas diferentes passagens não será sempre traduzível pela mesma palavra nas duas passagens correspondentes».

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Os trabalhos de tradução


Margaret Jull Costa (1949) é justamente reconhecida, na Inglaterra, pela qualidade das suas traduções, sobretudo do português (Eça, Pessoa, Lobo Antunes, Lídia Jorge...) e do castelhano. Há pouco tempo, foi galardoada com o Oxford-Widenfeld Translation Prize, pela sua versão para a língua inglesa de "A Viagem do Elefante", de José Saramago.
Numa recente recensão crítica no TLS (nº 5770), aborda a sua própria experiência, ao longo dos últimos anos, mas também a de alguns colegas que, com acutilância, definiram as questões principais, as condições necessárias e o perfil de um tradutor rigoroso. Bernard Turle, por exemplo, refere que um tradutor terá de ser, simultâneamente: "um diplomata, actor, tradutor e espião".
Por sua vez, M. J. Costa cita e admira a perspicácia de Simon Leys, outro competente tradutor, que caracteriza a tradução desta forma: "A busca da expressão exacta e natural é a procura por aquilo (texto) que não mais pareça uma mera tradução. Por isso lhe é pedido que dê ao leitor a ilusão de que ele teve acesso ao texto original. O tradutor ideal é um homem invisível."

sábado, 26 de outubro de 2013

Traduzir


A propósito da saída de mais um volume da Library of Arabic Literature, edição bilingue (inglês e árabe) de obras importantes da cultura muçulmana, sob o patrocínio do Abu Dhabi e da New York University Press, o penúltimo número do TLS (5767) traz um artigo de Lydia Wilson (do Departamento de Filosofia Árabe Medieval, da Universidade de Cambridge), muito interessante. A estudiosa inglesa, além de referir algumas das obras traduzidas, que vão de relevantes textos Sufi, a tratados de medicina, poesia e até o livro de gastronomia Scents and Flavors the Banketer Savors, de Ibn al-Adim, Lydia Wilson - dizíamos - tece algumas considerações pertinentes sobre a tradução, que achei que valeria a pena verter para português e deixar aqui no Blogue. Seguem:
Traduzir é uma luta, e o resultado inevitavelmente um compromisso entre o literal e o lúcido; uma luta para preservar as associações de palavras e as referências culturais (muitas vezes impossível, por exemplo, nos trocadilhos e jogos de palavras). Se a tradução é literal e espera-se que o seja, em parte, e desejável, de algum modo, os resultados podem ser desajeitados e muitas vezes incompreensíveis - como o provam versões de pessoas impreparadas. A substituição mecânica, de palavra por palavra, sacrifica o sentido e torna-se disparatada, muitas vezes, como se pode ver nas traduções do Google. ...

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Traduzir


O tema não interessará a muita gente, mas para mim é importante, porque aborda o problema da tradução em poesia.
Um livro de poemas de Octavio Paz (1914-1998), traduzido para inglês por Eliot Weinberger (1949), teve, no TLS de 12 de Julho, uma recensão crítica desfavorável por parte de Dominic Moran. Nessa crítica, eram postas em causa algumas opções de Weinberger, no seu trabalho de tradutor. No penúltimo TLS (nº 5756), aparece uma carta ao director (em imagem), em que E. W. diz das suas razões. Passo a traduzir a parte mais significativa:
"...O vosso indignado correspondente Dominic Moran (Julho 12), por exemplo, pensa que eu não sei a diferença entre "coxa" e "perna". Eu sei, mas estava a traduzir um longo poema de Octavio Paz, não estava a escrever um dicionário  bilingue, e as palavras que escolhi tinham o objectivo de servir uma estrutura específica de som e ideias e imagens. O seu sucesso ou falhanço como tradução não se baseia em palavras isoladas tiradas do contexto, mas numa rede de conexões entre todas as palavras.
Além disso, o vosso correspondente aparentemente crê que o artigo definido e o indefinido têm o mesmo peso no Espanhol como no Inglês: se eles aparecem ou não aparecem no Espanhol, deveriam aparecer ou não aparecer na tradução Inglesa. Na verdade, este é um dos problemas mais difíceis ao traduzir poesia Espanhola. Pelo menos metade do meu tempo é gasto a tirá-los, a voltar a pô-los, e a voltar a retirá-los. (...) As palavras mais pequenas são as mais difíceis. Qualquer pessoa consegue traduzir substantivos, sejam eles coxa ou perna."

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Traduzir Camus


Para quem tiver um mínimo de experiência em traduções, será fácil perceber que, muitas vezes, é bem mais difícil encontrar a palavra exacta de substituição do que perceber o sentido de uma frase, e traduzi-la quase fielmente para outra língua. Tanto em prosa, como em poesia.
A propósito da terceira (?) tradução para inglês do romance "L'Étranger", de Albert Camus, uma recensão crítica favorável, de Shaun Whiteside, no TLS, aborda a questão da tradução de Sandra Smith, para a Penguin, bem como algumas questões e dificuldades daí derivadas. Vamos ao concreto, com exemplos comparativos, considerando também a tradução que António Quadros fez, para a Livros do Brasil (Colecção Miniatura, nº 48). Assim começa o romance:
- "Aujourd'hui, maman est morte." (Texto original de Camus, em francês)
- "My mother died today." (Tradução de Sandra Smith, para inglês)
- "Hoje, a mãe morreu." (Versão portuguesa de António Quadros).
Nos dois casos de tradução, verifica-se uma fuga à familiaridade do vocábulo "maman" (que, usando de secura, seria: mère), original, para uma objectividade mais fria e impessoal: mother (em inglês) e mãe (em português). Terá sido o mais correcto e justo? - é o que me pergunto. Até porque, na versão inglesa de Sandra Smith, ao longo do romance, a tradutora irá usar, várias vezes: Mama. E o TLS regista que, nas anteriores traduções inglesas, se teriam usado as palavras mum e mom, acompanhando mais fielmente essa tal familiaridade que Camus usou.
Dir-se-á que são problemas de "lana caprina", estes, que aqui levanto. Mas penso que são estes pequenos casos que podem fazer toda a diferença entre uma boa e uma menos boa tradução.

domingo, 12 de agosto de 2012

Citações CVII : Steiner


"A tradução pode corporizar um acto de agradecimento ao original. Deve celebrar a sua própria dependência da fonte. Concentra escrúpulo e fé, embora recriada ou anárquica nos seus instintos."

George Steiner, in TLS 5705 (3/8/2012).

terça-feira, 12 de julho de 2011

Traduções


É George Steiner (1929) quem o diz: "O texto implica, entre o autor e o respectivo leitor, a promessa de um sentido". Ora, existe, por vezes, um intermediário, um terceiro elemento: o tradutor, sempre que se trata de um livro numa versão produzida para outra língua. Cuja responsabilidade é enorme.
Recentemente li, em tradução de Victor Palla (1922-2006), um magnífico conto de William Faulkner (1897-1962), com o título "Os Velhos". E, pela exemplaridade limpa da tradução, bem como através do tema, recordei-me de uma novela de Hemingway, "O Velho e o Mar", traduzida, impecavelmente, por Jorge de Sena. São dois relatos, em prosa, cuja escrita eu apelidaria de profundamente "masculina" - se me for permitido classificá-los assim.
O conto de Faulkner ilustra, metaforicamente, a iniciação de um adolescente no mundo dos homens adultos, mediante a caça e abate de um veado. "O Velho e o Mar" encaro-o como uma parábola sobre a Vida. O sonho e o vazio final. O gigantesco peixe em luta com o pescador e que chega a terra, depois de apresado, apenas como um esqueleto, devorado pelos outros peixes, no regresso.
São sobretudo duas excelentes traduções que asseguram a tal "promessa de um sentido" de que fala Steiner.

domingo, 13 de março de 2011

Olhóó desastre !!!


Era assim (com as palavras do título deste poste) que os ardinas, em Portugal e aqui há uns bons anos, costumavam apregoar a venda dos jornais, para aguçar a curiosidade dos putativos compradores, na rua. Claro que o faziam apenas naqueles dias em que algum acidente de grandes proporções tingia de vermelho sanguíneo as notícias a negro dos jornais.
Ora eu, hoje, ao passar revista às visitas do Arpose tive um "sobressalto cívico" (como diz o nosso PR) e fiquei consternado. Não é que um simpático cidadão ou cidadã de Taipé (Taiwan) teve a infeliz ideia de pedir ao Google que traduzisse para chinês o poste do Arpose "Macau: um inventário de Bocage", que eu coloquei em 1 de Abril de 2010, no Blogue. Ninguém me poderá tirar da alma este sentimento de culpa terrível! Estou a ver o pobre do utente a ver traduzido (Abade de) Jazente por "laid prostrate" - como o Google já fez uma vez; as palavras do poste Uma Sé transformar-se-ão provavelmente, na cabecita louca do Google, em qualquer coisa chinesa que signifique, em inglês, "A If"; e nem consigo imaginar como será traduzido aquele início de verso bocagiano "Nh's e chins cristãos", do soneto do poste.
Estragaram-me o dia... Só peço a deus que o utente da Ilha Formosa (Taiwan), que requereu a tradução ao Google, repare na data do poste do Arpose: 1 de Abril de 2010. E que, naquela ilha do Oriente, a data seja também o dia das mentiras. Se não for este o caso, o utente de Taipé, perante a desastrosa tradução googlesca, irá ficar, no mínimo, com os olhos em bico...