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sábado, 31 de agosto de 2024

Diálogo de final de Agosto



O patrocínio de Cícero (103-43 a. C.) impunha-se até por questões geriátricas, na conversa. Antes, viera o nome e dois poemas de Eugénio. Ao tribuno romano, seguiu-se, naturalmente, Beauvoir por causa de La Vieillesse, na minha opinião, obra bem mais conseguida na caracterização dessa idade. Lembrei-me também do mau envelhecer de Yeats. No diálogo de amigos, Camilo foi referido, nas leituras recíprocas; do outro lado, Sara, de Olga Gonçalves. E releituras que já íamos fazendo, por este final de Agosto.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

3 ideias francesas sobre a Juventude



A juventude não ama os vencidos.

Simone de Beauvoir (1908-1986), in Les Mandarins



É a febre da juventude que mantém o mundo à temperatura normal. Quando a juventude arrefece, o resto do mundo começa a bater os dentes.

Georges Bernanos (1888-1948), in Les Grands Cimetières sous la lune.



O signo da juventude é talvez uma vocação magnífica para as felicidades fáceis.

Albert Camus (1913-1960), in Noces.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Osmose 125



É minha convicção, de há muito, que um (bom) poeta pouco produz de qualidade, na velhice. Haverá raras excepções, como talvez Herberto Helder mas mais pelo registo diferente ou insólito dos poemas dos últimos livros, em relação ao estilo anterior a que estávamos habituados, seguramente.
Ora, em Conta-Corrente 2 (1977-1979), Vergílio Ferreira (1916-1996) vem em meu socorro, corroborando a minha ideia, parcialmente e de algum modo, ao escrever: "...E contei que a Simone de Beauvoir, no seu livro La Vieillesse, e segundo as estatísticas, dá os limites da criatividade em cada sector cultural. Assim o pintor é quem dura mais, pintando praticamente até à idade mais avançada; o matemático e o físico cessam pelos trinta e poucos anos, o romancista acabará aí pelos sessenta mais ou menos." (pg. 18)

sábado, 23 de janeiro de 2021

Bibliofilia 185



Publicaram-se 20 números, alguns duplos, da revista cultural luso-francesa Afinidades, entre 1942 e 1946. Hoje o conjunto completo vende-se, quando aparece nos alfarrabistas, entre 200 e 300 euros. Eu tenho apenas 6 volumes, um dos quais é duplo (7/8), mas dá para ver a sua qualidade, bem como o nível dos seus colaboradores, de várias nacionalidades: Paul Valéry, T. S. Eliot, Ribeiro Couto, Fidelino de Figueiredo, Éluard, Aragon, Saint-Exupéry... 



Presença constante é a de Lionel de Roulet (1910-1990), redactor,  ex-aluno de Sartre e diplomata, que viria a casar com a pintora Hélène de Beauvoir (1910-2001), irmã mais nova de Simone de Beauvoir. Hélène colaborou também com frequência na revista, escrevendo recensões a exposições de pintura e abordando pequenos estudos sobre arte moderna. A pintora francesa, além de dar aulas no Instituto Francês, publicou um curioso anúncio no número 5 de Afinidades, já em Lisboa. Onde viveu, creio, até 1946.



Como curiosidade julgo interessante referir que a Universidade de Aveiro possui um acervo de 84 telas de Hélène de Beauvoir, que lhe foram cedidas pela própria pintora francesa, em jeito de gratidão pelo convite que lhe fora feito pela instituição para lá fazer uma exposição. 



terça-feira, 26 de maio de 2020

Sociedades secretas e passagem de testemunhos


A italiana e mafiosa palavra omertá vem à colação a propósito do tema, mas não só. Ao longo da minha vida, os velhos de minha estimação e proximidade sempre me referiram o enfraquecimento da sua memória, alguns a puerilidade crescente das emoções, também a insegurança, a perda de forças e o cansaço progressivo, o balbuceio da voz e a cada vez mais difícil procura de expressão, outros o tédio do dejá vu e a repetição mesma dos grandes acontecimentos. Mais raros, me confidenciaram outras fraquezas mais íntimas, perdas de controlo, reacções infantis, incontinências...
Quando chegou a minha idade biológica de velhice, humildemente, procurei informar-me e preparar-me um pouco mais: li Cícero, Beauvoir... E todos eles eram omissos. Nenhum foi capaz de me informar,( malandros!), da fraqueza das pernas que sobrevém inexorável e fatalmente com os anos!
( Para que não me acusem de corporativismo, aqui fica o aviso aos mais novos. )

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Coreografias literárias

"... Uma noite, no Vikings, comi frango com airelas enquanto uma orquestra tocava a melodia em voga: Pagan love song. Sabia que o festim não me houvera maravilhado se não fosse excepcional. A própria modéstia de meus recursos servia a minha felicidade. ..."

Simone de Beauvoir (1908-1986), in pg. 14 de La force de l'âge (1960).




Comentário: quero crer que a canção homónima, que encantou Simone de Beauvoir, tenha sido menos kitsch do que esta coreografia do filme de Robert Alton (1906-1957), com o mesmo título, em que entrava Esther Williams (1921-2015) que, normalmente, representava a nadar...



Últimas aquisições (16)


Nem sempre acertámos nas compras. E isso acontece com muitas coisas, até com livros. A obra de João Gaspar Simões (1903-1987), de 1941, A Unha Quebrada é um conjunto de novelas fraquinhas e muito datadas na sua inocência romanesca - juvenil, em suma. Tem no entanto uma curiosa capa de Roberto Araújo. Comprei-a por engano e por coscuvilhice nobre julgando tratar-se da efabulação da ruptura de Isabel da Nóbrega (1925) com o também crítico literário do DN que, afinal só vem a ser tratada, como tema de base e desforço, por Gaspar Simões, em As Mãos e as Luvas, de 1975. Fui assim punido pelo destino e bisbilhotice... A desatenção cronológica fez o resto.
Apesar da tradução ser brasileira, foi compensadora, entretanto, a compra de Na Força da Idade (1961), em 2 volumes,  usados, de Simone de Beauvoir (1908-1986). Com o que dei pelos 3 livros pouco mais poderia comprar do que um maço de cigarros. No conjunto, acabou por valer a pena a aquisição conjunta.


segunda-feira, 15 de abril de 2019

Uma questão de género?


A questão não é metafísica e nem terá grande importância, afinal.
Conheço razoavelmente a obra de Simone de Beauvoir (1908-1986), menos, a de Sartre (1905-1980). O mesmo poderei dizer das suas biografias, que se entrelaçam. É sabido que ambos tiveram uma vida amorosa e sexual diversificada, plural, livre e heterodoxa, ainda que dupla, temporariamente, mantendo no entanto constante uma ligação entre si.
A pergunta que me faço é pela diferença do que sei. Não consigo dizer sequer um nome das ligações amorosas de Sartre, embora saiba que teve várias, uma delas até proposta por Simone, numa espécie de ménage à trois. Ao contrário, se me perguntarem o nome de algum dos amantes de Simone de Beauvoir, de imediato me ocorrem logo três apelidos: Bost, Algren, Lanzman.
Pergunto-me a razão do facto e da diferença, embora me ocorram algumas hipóteses possíveis. Não muito satisfatórias, porém, do meu ponto de vista.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Lembrete 65


Na segunda metade do século XX, Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma das poucas mulheres importantes e influentes, no plano das ideias, pelo menos, a nível europeu. Com particular incidência nos anos 60/70.
Quem, por essa altura, andava pelos 20/30 anos, com certeza que se lembra dela ou das suas causas. E talvez tenha lido alguma obra da sua autoria, fosse ela de ficção, ensaio ou mesmo autobiográfica.
Fez bem Le Monde dedicar-lhe um Hors-Série. Pena que o dossiê, do jornal francês, seja composto de pequenos flagrantes, curtos extractos literários, algumas cartas (não inéditas), breves crónicas, em vez de três ou quatro trabalhos de fundo sobre a sua vida e obra. Talvez uma concessão democrática à corrente dominante da ligeireza actual...
Mesmo assim, aqui venho lembrar a publicação recente deste número sobre Simone de Beauvoir.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Uma fotografia, de vez em quando... (110)


São suficientemente conhecidas as fotos que Alberto Diaz Gutiérrez, mais conhecido por Alberto Korda (1928-2001), tirou, com a sua Leica, a Che Guevara.  A sua obra, aliás, constitui a mais completa iconografia da Revolução Cubana, sobretudo no seu período inicial, áureo e idealista.



Mas este cubano dedicou-se, inicialmente, à publicidade e à fotografia de Moda, para ganhar a vida. Até que a História se cruzou com ele...

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Mary McCarthy (1912-1989)


À excepção de John Updike, dos autores norte-americanos, é talvez Mary McCarthy a escritora mais representada na minha biblioteca. Acontece que, em finais dos anos 60, estive para fazer um trabalho universitário sobre a sua obra e só à última da hora optei antes por Updike.
Numa das suas últimas entrevistas, Mary McCarthy, perguntada se posta perante uma escolha de voltar a re-viver, faria tudo na mesma, terá respondido que escreveria mais, mas leria menos.



Mulher de fortes convicções, a escritora teve uma polémica intensa com Simone de Beauvoir, figura que detestava, aliás. A emulação entre as duas é atestada por dois livros que, com diferença de apenas um ano, publicaram. Em 1957, McCarthy editou Memories of a Catholic Girlhood e Beauvoir, no ano seguinte (1958), fez editar Mémoires d'une Fille Rangée. Por outro lado, a norte-americana cultivou, com grande fidelidade, uma forte amizade com a filósofa Hannah Arendt, cuja evidência é testemunhada pela volumosa correspondência, recentemente publicada.
Os direitos cívicos e a guerra do Vietname foram duas das grandes causas em que também se empenhou intensamente.



Depois de alguns anos de relativo apagamento, a obra de Mary McCarthy parece suscitar um renovado interesse revelado pela publicação da sua obra completa (The complete fiction), em dois volumes, pela Library of America. O que não deixa de ser uma boa notícia.


domingo, 11 de dezembro de 2016

Sartre, as idades e a velhice


(...) Aos trinta anos havia um futuro, como havia aos cinquenta. Talvez aos cinquenta esse futuro estivesse mais limitado do que aos trinta; não era eu que o podia ajuizar. Mas a partir dos sessenta e cinco, sessenta e seis anos, já não há futuro. Naturalmente, existe o futuro imediato, os cinco anos próximos; mas mais ou menos eu já disse tudo quanto tinha para dizer; em linhas gerais eu sabia que já não tinha muito para escrever e que dez anos depois tudo estaria acabado. Recordava-me da velhice do meu avô, uma velhice triste; quando tinha oitenta e cinco anos, estava acabado, mas sobrevivia, não sabíamos porquê. (...)

Jean-Paul Sartre (1905-1980), in Cérémonie des Adieux suivi..., de Simone de Beauvoir.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Excertos de um diálogo


Simone de Beauvoir - Era essa, precisamente, a pergunta que lhe queria colocar: porque prefere os jovens? Há gente que detesta os jovens, Koestler era um, e Merleau-Ponty também não os apreciava muito. Você, pelo contrário, é-lhes favorável. Porque é que lhe agrada estar com eles?
Jean-Paul Sartre - Porque sobre um grande número de coisas, eles não têm o seu pensamento, a sua vida, completamente definidos; por isso discutimos como duas pessoas que têm vagas opiniões e tentam conciliar os seus pontos de vista; enquanto com os velhos é muito diferente. Têm opiniões definitivas, e eu também; ...

in La cérémonie des adieux (Paris: Gallimard, 1981).

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Instantâneos dos subúrbios


Pergunto-me o percurso que terá feito esta moeda de 2 euros, da Eslováquia, que me apareceu no porta-moedas. Turista que cá a deixou ou português que de lá a trouxe?
Mas, antes, a vizinha-condómina que teve de declinar a minha boleia no elevador, porque o seu gato felpudo e doméstico se empenhava teimosamente em a acompanhar à rua. E ela não queria.
Na manhã soalheira, levo ainda a memória da agonia de Sartre contada pela Simone de Beauvoir, da leitura da véspera (La cérémonie des adieux), acompanhada por 2 ou 3 retratos de Picasso que vi (Nusch Éluard e Marie-Thérèse Walter), maravilhosos.
A dois passos da tabacaria onde vou comprar o jornal, na esplanada dum café, um pré-adolescente mascarado ensaia uma pindérica dança da chuva para marcar o Halloween. Só nos faltava mais esta: já da Escola se começam a ouvir os gritos estridentes das criancinhas. Mais a música barata, que se espalha no ar, de mais uma festa apátrida de buliçosos carneirinhos.
Viva o Internacionalismo popular!
(Se ao menos pedissem pão por Deus, estas criaturinhas desnaturadas...)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Pequena história (43)


Eu creio que as mulheres, de uma forma geral, são mais discretas sobre os casos e o seu passado amoroso; e os homens, mais gabarolas...
Ao ler A América dia a dia, de Simone de Beauvoir (1908-1986), fui verificando que as alusões directas a Nelson Algren (1909-1981) são mínimas e muito pouco explícitas. O escritor norte-americano, posteriormente ao caso que os reuniu, deu com a língua nos dentes, de forma algo desabrida e até desagradável. O amor, quando corre mal, transforma-se, por vezes, em ódio ou desencanto grosseiro.
Foi a irmã, Hélène (1910-2001), que deu a notícia, a Simone de Beauvoir, da morte de Algren. A escritora francesa não terá reagido, nem manifestou emoção alguma, aparentemente, na altura. Mas, ao que dizem, quando foi a sepultar levava ainda no dedo o anel que Nelson Algren lhe tinha oferecido, em 1949.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Da leitura (16)


                                                                                                                                              3 de Março
Cidades construídas em colinas à borda de água vi eu muitas. Por diferentes que sejam Marselha, Argel, Lisboa, Nápoles, todas elas têm um traço comum: as suas colinas foram utilizadas como elemento arquitectónico; as ruas adaptam-se-lhes às curvas, trepam em espirais, de modo que quase de toda a parte se vê o mar; o plano, complicado nos mapas, apresenta-se na realidade como natural e simples. (...)

Simone de Beauvoir, in A América dia a dia (pg. 139).

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Uma velha balada escocesa medieval


Esta antiga balada celta, Lord Randall, levada por emigrantes escoceses para os E. U. A., acabou por ser ajustada instrumentalmente, adaptada e integrada no folclore norte-americano. Entre vários, foi interpretada pelo cantor Harry Belafonte. É referida, em América dia a dia (Arcádia), por Simone de Beauvoir que a ouviu, numa das suas deslocações por terras americanas.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Há 46 anos...


Se eu disser que, em Braga, há 46 anos, amanheceu com céu limpo e foi um dia de calor, estou a falar verdade e com rigor. O passado, na nossa memória, regula-se e baliza-se por acontecimentos marcantes da nossa vida. Se me lembro que em 5/7/1970 esteve calor, isso é apenas um aspecto secundário de uma data importante, na minha vida. Que desencadeia um antes e um depois.
Acabei de ler, recentemente, o livro em imagem, na tradução portuguesa da Bertrand que me parece fraca e desleixada (houve, pelo menos 3 frases de que não percebi o sentido, a tradutora usou "repetidor" em vez de repetente, etc....), e cuja revisão foi descuidada, porque o livro apresenta inúmeras gralhas. Mesmo assim estas Memórias resistem, pela qualidade intrínseca do texto de Simone de Beauvoir (1908-1986).
O que me surpreendeu mais, no entanto, foi a minúcia com que S. de B. reconstruiu os tempos de infância e adolescência, numa altura em que já tinha 50 anos. Tudo me leva a crer que houve uma efabulação da realidade, consciente ou não. E que a ficção acabou por preencher os hiatos da memória, nesta autobiografia pormenorizada.  Como, muitas vezes, também a nós acontece...

Da leitura (13)


A minha experiência humana era ainda curta; por falta de uma boa luz e palavras apropriadas não abrangia tudo. A natureza mostrava-me, visíveis, tangíveis, uma grande quantidade de maneiras de existir das quais eu nunca me tinha aproximado. Admirava o isolamento magnífico do carvalho que dominava o parque-paisagem; entristecia-me a solidão acompanhada das ervas. Conheci as manhãs ingénuas e a melancolia crepuscular, os triunfos e os declínios e as renovações e as agonias. Alguma coisa em mim um dia concordaria com o perfume das madressilvas. Todas as tardes me sentava entre as mesmas urzes e olhava as ondulações azuladas das Modédières, todas as tardes o Sol se punha por detrás da mesma colina: mas os vermelhos, os rosas, os carmins, os púrpuras e os violetas nunca se repetiam. Nas pradarias imutáveis zumbia de madrugada até à noite uma vida sempre nova. Face ao céu que muda, a fidelidade distinguia-se da rotina e envelhecer não era necessariamente uma negação.
De novo era única e desejada; era preciso o meu olhar para que o vermelho da faia encontrasse o azul do cedro e o prateado dos álamos. Quando partia, a paisagem desfazia-se, não existia para mais ninguém: não chegava a existir.

Simone de Beauvoir, in Memórias de uma menina bem-comportada (pgs. 129/30).

quarta-feira, 30 de março de 2016

As palavras e os factos


"...Valéry tinha razão quando comparava a arquitectura à música. Ao entrar na Catedral de Soissons - reconstruída imediatamente após a guerra 14-18 - senti uma alegria análoga à que por vezes me dá a música.  ..."

Simone de Beauvoir, in Balanço Final (pg. 164).


P. S.: diz-se que uma imagem vale mil palavras, mas há frases que são uma mais valia sobre a imagem.