domingo, 30 de setembro de 2012

Falar por falar

A velhice é, e em muitos casos, uma cristalização. De gosto, de hábitos atávicos, como se o desligar gradual de funções se fosse fechando à novidade e a novas experiências. Mas também se manifesta, com frequência, por um amolecimento do sentido crítico e das nossas circunstâncias mais agressivas.
Recentemente, fiz duas leituras serôdias (em relação à data de saída dos livros: 1993), que me agradaram, de uma forma geral: "O Caderno Vermelho", de Paul Aster, e "O Velho que lia romances de amor", de Luis Sepúlveda. Ambas as obras se lêem muito bem. O primeiro é uma forma superior de literatura light, para mim, sem dúvida.
Quanto ao livro de Sepúlveda, não pude deixar de pensar em "A Selva", de Ferreira de Castro, e em Gabriel García Márquez , até porque lhe explora o filão onírico da mitologia sul-americana. Para ser justo há que dizer, também, que "O Velho que lia..." é muito mais colorido e luxuriante que "A Selva", do escritor português. Bem escrito, no entanto, não consegue criar a atmosfera que a obra de Ferreira de Castro transmite e exsuda para o leitor, em geral.
Tinha-me esquecido de dizer, e para regressar ao princípio, que velhice é, também, algumas vezes, intransigência. Ou caturrice.


O estado da nação


Os dislates, zigue-zagues, erros e disparates têm sido tais e tantos, que só de um ponto de vista muito geral, e quase abstracto, poderíamos definir a situação, abarcando a perspectiva total do desnorte. Vasco Pulido Valente, hoje, no jornal Público, consegue uma síntese "feliz" e, como sempre, avinagrada:
"...O mal começa na ideia abstrusa e popularuncha (?) de um governo de 10 ministros e um enxame de secretários de Estado, que estabeleceu um labirinto de autoridade e competências, em que toda a gente se perdeu e, com uma ou duas excepções, só cinco ou seis pessoas sabem com certa segurança o que andam a fazer. ..."

sábado, 29 de setembro de 2012

Macau e Auden

A melhor forma de lembrar um Artista será, quanto a mim, (re-)visitar-lhe a obra. Por isso, resolvi traduzir um poema de W. H. Auden, hoje que passa mais um aniversário da sua morte (29/9/1973). Não será um dos seus melhores poemas, mas fala de uma ex-colónia portuguesa. Auden escreveu-o com 31 anos.

Macau

Uma semente da Europa Católica, fez-se raiz
Por entre algumas colinas amarelas e o mar,
Suas alegres casas de pedra um exótico fruto,
Uma bizarria Luso-Sínica.

Imagens barrocas do Santo e Salvador
Prometem fortunas aos jogadores quando morrerem,
Igrejas lado a lado com bordéis asseguram
Que a fé pode perdoar a natureza.

Uma cidade assim indulgente não deve recear
Os pecados mortais por que morrem os mais fortes
E são despedaçados pernas e braços e governos:

Os sacros relógios darão as horas, os vícios infantis
Serão defesa bastante das poucas virtudes das crianças,
E nada de sério pode acontecer por aqui.

                                                                Dezembro 1938

Muzio Clementi (1752-1832) : Minuetto Pastorale

Incursões Culinárias 20: Marmelada



No início de Setembro falei no ARPOSE da agricultura a propósito de ofertas várias: abóboras, maçãs e uma enorme caixa de tomates. Lembro-me de ter feito um comentário sincero, mas porventura inoportuno, para uma das ofertantes, dizendo que apenas me faltavam marmelos para fazer marmelada. A oferta seguinte não demorou, veio anteontem, 4,5 kg de marmelos.
Para a feitura da marmelada escolhi uma receita de Maria Odette Cortes Valentes, do seu livro Cozinha Regional Portuguesa, p. 154. 
O resultado consta da única foto, acima, que o "Google" me deixa transmitir aos leitores. Queria acrescentar a receita, digitalizada, bem como uma foto das tigelas numa outra perspectiva. "Encravanços" do mundo virtual ou tentativas de extorsão para pagar uma "mesada" ao Picasa (!)

Post de HMJ, dedicado a MR com um fim-de-semana doceiro

Sobre o Porto


Se aqui há um mês mo tivessem perguntado, eu diria: - Sim, sim, já li tudo o que Eugénio escreveu. E acrescentaria, talvez: - Excepto "Narciso", que ele renegou, e que publicou muito jovem, ainda.
Mas estava enganado. Por desfastio comprei, num alfarrabista, o volume "À Sombra da Memória" (1993), que reúne textos em prosa de Eugénio de Andrade. Evocações, palavras de agradecimento aquando de homenagens, reflexões sobre poesia. Cerca de metade dos textos não os conhecia eu. E li-os deliciado. Prosa enxuta, simples, da melhor que se escreveu no séc. XX português. Ora, atente-se no início de "A Cidade e a Poesia", em que ele fala do Porto:
"As cidades são como as pessoas, têm os seus segredos, e às vezes guardam-nos bem guardados. Há quem goste muito do Porto e há quem o deteste. Queria falar desta cidade «tão masculina» sem nenhum peso de erudição, que é coisa tão inimiga da poesia, que só Borges, que eu saiba, lhe conseguiu arrancar alguns versos dignos da sua prosa. Também não me parece leal contrapor-lhe outras cidades, e menos ainda Veneza. Toda a gente sabe que se Veneza não cheirasse a água podre seria incomparável, mas cheiro por cheiro antes o de Marraquexe. Marraquexe cheira a cavalos, que é cheiro de homens. Há quem goste do Porto, dizia eu; Marguerite Yourcenar - ninguém sabe, porque foi a mim que o disse - andou por aqui fascinada com a Ribeira e as encostas da Sé. Isto de gostar não tem explicação fácil. O mais simples é, se nos pedem razões, dizê-lo com as palavras de Montaigne: Parce que c'était lui, parce que c'était moi. Mas não só o amor tem estranhos mecanismos, os do ódio não lhe ficam atrás. ..."

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Outono das aves


Sempre me perguntei para onde vão as aves, nestes tempos de borrasca - que as não vejo.
Das andorinhas, sei eu que já foram para Sul. Mas o que será feito dos pardais que, ainda há uma semana, chilreavam, ao fim da tarde, a aconchegar-se no interior da árvore frondosa, ali defronte? Melros, hoje, não vi nenhum, nem mesmo as gaivotas apareceram. Apenas, o crocitar de (2?) corvos invisíveis.
Mas também eu já não páro na varanda a leste, senão alguns minutos, até os pés imóveis se harmonizarem com o frio da tijoleira. Em breve, só espreitarei do interior, para saber das rosas, dos 9 limões e do loureiro juvenil, muito rijo e direito.
Talvez os estorninhos já tenham começado a sobrevoar Lisboa, nos seus voos vertiginosos e densos. No domingo tenho que os procurar com atenção. E vem-me à memória Mafra e os versos de Outono de Gastão Cruz:

Dos castanheiros a folhagem árida
já desce no ar morto que se move
dentro da palidez do céu de outono
sobre as aves imóveis...

Interlúdio 17


Dedicada, especialmente, com compaixão e ternura, ao visitante de ontem, do staff inefável da JP Morgan Chase & Co., de Londres. Esta canção de Paul McCartney, de inspiração escocesa.

Citações CXI : Rivarol


Não se deve contar demasiado com a sagacidade dos leitores; é necessário explicarmo-nos algumas vezes.
....
A política é como a esfinge da fábula: ela devora todos os que não explicam os seus enigmas.

Antoine de Rivarol (1753-1801).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O impossível acontece

Os tempos que correm, em Portugal, não serão propícios ao humor. É preciso uma grande dose de abstracção da realidade, ou um acontecimento hilariante inesperado para nos provocar um sorriso ou arrancar-nos uma gargalhada.
Devem ter estranhado, os que me leram até aqui, eu ter feito alinhar, neste poste, duas imagens tão díspares. Mas eu vou explicar, até para se ver o desnorte em que isto anda.
Às 15h40, de hoje, o Arpose recebeu um(a) visitante da JP Morgan Chase & Co., de Londres. E sabem onde foi parar e ler? Ao poste intitulado "Finalmente, o célebre e incomparável...(Professor Karamba)", de 3/10/2011.
Estamos mesmo entregues à bicharada!...

Flaubertiana : letra B

Na sequência natural da selecção anterior do "Dicionário das ideias feitas", de Gustave Flaubert, seguem-se as escolhas que fiz, de palavras iniciadas por B. Aqui vão:

Banqueiros - todos ricos. Árabes, lobos cervais.
Basbaques - os parisienses são todos uns basbaques, embora em dez habitantes de Paris nove sejam da província. Em Paris não se trabalha.
Basílica - sinónimo pomposo de igreja. E sempre imponente.
Beethoven - não pronunciar Bitovan. Desfalecer, mesmo assim, quando executam uma das suas obras.
Buffon - enfiava punhos de renda para escrever.
Bufos - são todos da Polícia.

Johann Kapsberger (1580?-1651)


Idiotismos 5

Não será muito conhecida ou, pelo menos, creio que é de uso muito restrito e regional, a expressão Estar em agraço que, no fundo, terá o mesmo valor de Estar com os azeites, ainda hoje usada. E esta última também eu a conheço. O significado é: estar mal disposto.
Mas a primeira expressão será mais antiga e já Camões a usara nos Anfitriões (1587) com o mesmo entendimento: "...Tanto vos levo em capelo/ já que estais tanto em agraço" (versos 147/8). Alexandre de Carvalho Costa, no livro que tenho vindo a usar nesta rubrica, cita Marques Braga que refere que "agraço" é uva verde e, por isso, ácida ou azeda. O que faz todo o sentido.
Quanto a estar com os azeites talvez se fundamente também na acidez do azeite. Será? Porque faria muito mais sentido dizer-se: está com os vinagres... É tudo uma questão de tempêros.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O laboratório e a chaminé

É interessante e, no mínimo, objectiva, a citação do gastrónomo Brillat-Savarin (1755-1826), que Julio Camba, em "La Casa de Lúculo", refere. Aqui vai:
"Estou tentado em acreditar que o olfacto e o gosto não formam mais que um sentido, sendo que a boca é o laboratório e o nariz a chaminé, ou, para o dizer com mais exactidão, em que uma serve a degustação dos corpos tácteis e o outro a degustação dos gases."

Emily Dickinson, um poema vertido para português


Apercebi-me que as pessoas desapareciam
Quando era somente uma criança, -
Imaginei que fossem de visita a lugares remotos,
ou se estabelecessem em regiões inóspitas.

Agora que visitei esses lugares, eu sei,
Até porque me fixei nessas regiões selvagens,
Que não tinham senão morrido, - um facto
Recusado pela criança pequena ainda.


Nota: o poema, que foi retirado de informação avulsa (e não de livro), não tem, aí, e no inglês original, as maiúsculas insólitas que são, habitualmente - bem como a pontuação pessoal e muito própria -, uma das marcas de água mais característica da poesia de E. D.. Do facto, aqui me penitencio.

Brian Crain : Autumn


Instantâneos de Outono, com interrogações


As moscas impertinentes e raivosas abatiam-se, em voo picado, sobre coisas e gentes, com persistência reiterada e teimosia selvagem (kamikaze moribundas?). De nada valia enxotá-las, porque regressavam sempre. O vento vinha do mar.
O empregado muito jovem (abandono escolar?), com brinco de pirata do séc. XVIII, começou a perder o norte e as estribeiras com a chegada do sétimo e oitavo clientes. O homem vinha acompanhado e era parecidíssimo com o José Mattoso (seria primo?), embora mais jovem, nada franciscano e mais ofegante.
Vinha a dizer para a jovem: "Parece-me uma história muito pouco isenta" (Ramos e Loff?).
Eu já tinha acabado o café, quando o vento começou a soprar mais forte e a chuva ameaçava. Saí apressado em direcção a casa (iria lá chegar sem me molhar?).

Da janela do aposento 16: "Os Trabalhos e os Dias"




Julgo que cada leitor terá títulos de livros que fazem parte da sua memória. Ou porque gostou particularmente de um livro, ou simplesmente porque se encantou com um determinado conjunto de palavras que servem para associações diversas, como é o caso. Sempre gostei do título em epígrafe – em tradução portuguesa – de um livro de Hesíodo, sobretudo pelo facto de se debruçar, numa das partes, sobre os trabalhos agrícolas, dando conselhos sobre a agricultura.
Com efeito, acontece que, com alguma frequência, me lembro da obra de Hesíodo, nomeadamente quando me começo a dedicar a tarefas um pouco fora do comum, sem explicação aparente para determinada inclinação momentânea. Hoje, com o dia “de capacete”, resolvi dedicar-me a uma tarefa há muito adiada, i.e., a costura. Com os dias que correm, convém não perder a prática de ensinamentos do passado, apostando na independência e auto-suficiência. Por outro lado, um caso recente de pirataria de uma imagem do ARPOSE para capa de um disco publicitado no Youtube, fez-me lembrar de uma tarefa adiada.
De facto, a boneca retratada no “post” do ARPOSE de 18.9.2012 apresenta-se com uma vestido que, embora o tivesse comprado, nunca me convenceu do ponto de vista estético, achava-o rústico demais para os traços delgados do objecto. Manias! Na altura da compra do vestido, decidi-me pelo preço, já que os vestidos “de marca” da boneca custam entre 30,00 a 40,00 euros, decisão autoritária que muitos pais rejeitam relativamente aos filhos. Opções de vida e fonte de endividamentos!
Portanto, “os dias” cinzentos, a convidar a ficar em casa, levou a “trabalhos” de feitura, entre outros, de um vestido para a boneca, tomando como modelo uma saia comprada, há anos, na parte antiga da cidade de Coblença. Do modelo ao resultado final, levei várias horas:


De permeio, recorri aos ensinamentos antigos de costura, recebidos na escola e em casa que, em tempos adversos, dão jeito para além de levantarem a “auto-estima” (!) perante o resultado final. A boneca ficou, de acordo com o meu gosto, sóbria, de cores adequadas ao seu perfil. Gostei da experiência, porque nunca tinha feito um vestido de boneca. No passado ensinaram-me, e bem, a costura de “roupa de casa, branca”, saias e blusas para gente crescida, porque a “bonecada” é do domínio do supérfluo.


Cá está a boneca, de novo, com autoria (= copyright) na vestimenta e na imagem (!)

 Post de HMJ, lembrando A.W. e L.J.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Rameau : abertura de "Castor e Pollux"


Jean-Philippe Rameau nasceu a 25 de Setembro de 1683.

Mercearias Finas 60 : o teleósteo maravilhoso


Não se pode dizer que, no Norte, aqui há 40/50 anos, e nas terras interiores, a oferta de peixe fosse muito alargada. O bacalhau, sempre, as sardinhas e carapaus, sobretudo no Verão; a pescada, e mais raramente, os pargos e os linguados. Não havia muito mais, no dia a dia. Semanalmente, passava um homem de bicicleta que se fazia anunciar tocando um cornetim de som desagradável: num pequeno cabaz, na retaguarda do velocípede, trazia peixes do rio, que eu detestava - tinham pouco sabor e muitas espinhas, finíssimas e traiçoeiras.
Mas por Agosto, anualmente, era a desforra e variedade. Lembro-me, especialmente, do "patêlo", que era uma espécie de raia pequena, muito saborosa. E que, em vez de espinhas, tinha cartilagens quebradiças e flexíveis. Frito e com batatas fritas e/ou arroz de tomate, era o meu prato de peixe preferido, na Póvoa de Varzim. Mas, era sabido, a partir de Setembro lá voltava a escassez.
Por isso, só em finais dos anos 80, travei conhecimento com o Peixe-galo e com a excelência dos seus filetes, acompanhados de um  malandrinho e verde arroz de grelos. A "vernissage" foi no "1º de Maio", ao Bairro Alto, num jantar com a minha amiga B., que tinha a preocupação e faculdade de me descobrir e indicar bons restaurantes. Admirei então aquelas lascas brancas e onduladas, consistentes e saborosas, ficando devoto fiel. E, embora, não seja muito frequente nas ementas de restaurantes, sempre que há, opto.
Ora, há dias, num pequeno mercado outrabandista, o que é que eu vejo, na banca da nossa peixeira de referência? Um magnífico, e único, Peixe-galo, no esplendor da sua feiura de teleósteo, a 9,20 euros o quilo. Não hesitei um segundo, mas perguntei: "Pode prepará-lo em filetes?" A peixeira respondeu, surpreendida: "Mas ele é bom, é grelhado!" Embatuquei, mas assim veio e assim foi - grelhado e maravilhoso, a saber a mar. Com arroz de tomate e pimento vermelho. Acompanhado de perto, na excelência, por um Chardonnay, 13,5º, da colheita de 2011, produzido pela Casa Santos Lima.
Ah! esquecia-me de dizer que a sobremesa foi uma tarte de maçã-reineta, que HMJ aprimorou na perfeição. E que vai em imagem, para que conste.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O táxi desgovernado


Só muito raramente reservei táxis, com antecedência, conhecendo a capacidade dos motoristas. O habitual é não podermos escolher, mas submetermo-nos à regra das prioridades e do acaso, que funciona por si.
Mas já tive alguns arrependimentos. Já dentro do táxi, aperceber-me que o motorista conduzia mal e perigosamente. E, de uma vez, ter ficado com a sensação que o motorista estava embriagado ou era maluco.
É normal, salutar e necessário que os governados tenham um mínimo de confiança nos governantes. Até podem não ser da nossa preferência política, mas é importante que tenham, mesmo que aparente, alguma credibilidade. E também nem é necessário acreditarmos em todos, basta que tenhamos fé em alguns...
Ora, a sensação que tenho, hoje, é que o táxi vai totalmente desgovernado. E que põe em risco, seriamente, a minha vida.

Explicação de instrumentos musicais antigos


Perguntar não ofende

No jornal Público de hoje, Correia de Campos escrevia:
"...Quando um dos manifestantes da vigília de sexta-feira declarava que não pedia mais do que os ladrões do BPN tinham obtido, convertia em bronze o repúdio da odiosa vigarice do banco falido. ..."
Também eu tive ocasião de ouvir o desabafo do popular, na TV. Mas agora, pergunto:
- Alguém me saberá dizer o que é feito de Oliveira e Costa, Dias Loureiro & Companhia?

Surrealista, e esquecido - António Mª. Lx. (1928-1953)


H

Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos  no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos.


António Maria Lisboa, in Ossóptico e outros poemas.

3 reis e 1 consorte, vistos por um monárquico


Como se sabe, Ramalho Ortigão (1836-1915) foi um monárquico convicto, até ao fim dos seus dias. Mas esse facto nunca o impediu de usar de humor e sentido crítico em relação aos reis portugueses. Em "Perfis e Costumes", Ramalho faz uma apreciação bem disposta sobre 4 representantes da Monarquia portuguesa, assim:
"...D. Pedro fôra um bravo militar, que - como ele próprio escrevia ao marquês de Resende - nos constitucionalizou à força: Sois mon frère ou je te tue.
D. Miguel foi um rei-esbirro, assim como o irmão foi um rei-soldado; acamaradava a dois caceteiros, o José da Polícia e o João Sedvém, êle tinha êste ideal fixo: organizar uma boa sociedade exclusivamente composta de frades e de toureiros, e rachar o resto à bordoada.
D. João VI era um príncipe feito de lombo de porco e marmelada, - um ventre sempre cheio, quási sempre constipado, constantemente polvilhado de rapé e enformado nuns calções sujos.
Enfim Malherbe veio. Chegou o Senhor D. Fernando (Augusto Francisco António).
Um pouco menos rei que os seus predecessores, rei apenas por afinidade, esta circunstância tornava-o simpático. ..."

para MR, em jeito de geminação, por ter falado da morte de D. Pedro IV, no Prosimetron.

domingo, 23 de setembro de 2012

René Aubry : Le bal des patineurs


Regionalismos minhotos (22)


Hoje inicia-se a selecção de reginalismos minhotos começados pela letra P. Tenho de dizer que não tinha conhecimento de nenhum dos que escolhi, a não ser o nº 3. Provavelmente, muitos deles sumiram-se no esquecimento, com o tempo. É preciso não esquecer que o livrinho, donde os retirei, data de 1922. Seguem:
1. Pachada - parche, emplastro.
2. Pachochudo - gordo.
3. Pachoucho - pateta, imbecil.
4. Pajança - pachorrento, bonacheirão, deselegante.
5. Palhoço - chapéu de palha ordinário.
6. Pampeiro - pé de vento, tufão.

Divagações 30

Emissário do Outono, o visitante nocturno trouxe-nos a notícia que já chovia em Lisboa. Clássica, e como no hábito antigo, começara de Norte para Sul. O tipógrafo renano, na sua sabedoria de rios e campos, costumava dizer que a chuva demora sempre, um bom bocado, para atravessar um rio. No seu caso, falava do Reno.
Porque a chuva outrabandista tardou quase uma hora, para vencer o Tejo. Já o emissário outonal tinha partido, deixando a memória do Cardeal-Rei, nas páginas a imprimir, sobre a mesa. Já tinhamos, nós, fechado a luz, quando ela se fez ouvir, fragorosamente, sobre as ruas e as terras ressequidas.

A par e passo 10

A memória é o juiz do escritor. Ela deve ressentir se o seu Homem concebe e fixa as formas inesquecíveis; e avisá-lo. Dizer-lhe: não fiques por aqui, porque eu sinto que não sou capaz de guardá-las.
...
Acontece sobre muitos assuntos que os homens se compreendem entre eles bem melhor do que se compreendem a si mesmos. As mesmas palavras obscuras para o solitário que se perde no seu sentido, são claras para um outro.
...
O novo não tem atracções irresistíveis senão para os espíritos que pedem à simples mudança a sua máxima excitação.
...
O que há de melhor no novo é que ele responde a um desejo antigo.

Paul Valéry, in Tel Quel I (pgs. 194, 201, 204).

sábado, 22 de setembro de 2012

Memória 73 : Anna Magdalena Bach


Anna Magdalena Bach, que nasceu a 22 de Setembro de 1701, foi a segunda esposa de Johann Sebastian Bach, de quem teve 13 filhos. Faleceu em 1760, dez anos depois do Compositor.

Ilustrar ou não ilustrar

Tanto quanto me lembro, na infância, preferia que os livros que lia fossem ilustrados. E ficava um pouco desapontado, quando as histórias infantis não tinham imagens, até para orientar a minha imaginação, ao longo da leitura. Muito embora me recorde que algumas ilustrações me deixaram uma impressão desagradável.
Não era desta opinião o escritor J. R. R. Tolkien (1892-1973) que, num trabalho que fez (On Fairy Stories, 1947), escreveu: "Embora possam ser boas em si, as ilustrações acrescentam pouco às histórias de fadas. A radical distinção entre toda a arte (drama incluído) e a verdadeira literatura (...) é que a literatura funciona de espírito para espírito (mind)..."
Embora Tolkien também fosse um razoável artista amador (ilustrou, por exemplo, o seu livro para crianças The Hobbit),  The Lord of the Rings só, episodicamente e em edições especiais, teve imagens. Só depois da sua morte, a editora Allen and Unwin começou a imprimir a sua obra mais conhecida, quase sempre ilustrada com imagens.

Comic Relief (55)


A última semana

Nos últimos oito dias, do ponto de vista político, assistimos a inúmeras declarações que primavam por uma linguagem de pau, entre a banalidade burocrática e o disparate dissimulado por belas palavras. Entretanto, o discurso popular agudizava-se nas ruas. Do semi-cerco ao Palácio de Belém, aquando da reunião do Conselho de Estado (Porque terá saído Mário Soares a meio, cerca das 20h00?) retive uma frase de um manifestante, que falava bem e tinha o discurso arrumado. Disse ele: "A polícia está cá fora, mas os ladrões estão lá dentro" - as generalizações são sempre injustas, foi o que pensei. E lembrei-me de 1975.
Creio que terá sido Karl Marx, no seu trabalho sobre o 18 Brumário que postulou que a História, normalmente, se repete, a primeira vez, como tragédia, a segunda vez, como farsa. Em 1975, o general Costa Gomes, Presidente indigitado, veio, cá fora e pessoalmente, arengar e serenar a multidão de manifestantes. Convenhamos que era um militar de craveira, e estava habituado a multidões. O seu sucessor, ontem, mandou um porta-voz de 3ª classe, cujo nome desconheço, ler um curto comunicado de 7 pontos, em linguagem de pau, aos jornalistas, já muito tarde. Não sei a que horas os sitiantes/manifestantes debandaram.
Mas os petardos já começaram a arder nas praças e nas ruas.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sobre Poesia, em geral, e Antonio Machado, em particular

Donde vêm os poemas? Se eu tivesse que dar uma resposta simples, diria que são provocados por um conflito interior que procura um equilíbrio exterior; que resultam do desejo humano de perpetuar um momento ou, nebulosamente, de uma violência íntima que exige expressão concreta. E do desejo, na sua forma mais ampla. Seja como for, os temas matriciais ou arquétipos com que se exprime um poema, não serão muitos e penso que os cinco dedos de uma mão chegarão para contá-los. Não os vou referir.
Há pouco mais de dois anos e meio (6/2/2010), traduzi para o amigo blogue Prosimetron um poema, de que gosto muito pela simplicidade aparente, de Antonio Machado (1875-1939). Tentei, cumulativamente, traçar uma explicação pessoal para o desenvolvimento criativo da poesia, assim: a Torre seria a Giralda (Sevilha), a dama seria Leonor Izquierdo (mulher do poeta, que morreu muito jovem), e o cavaleiro seria a Morte. Esqueci-me de referir, na altura, o peso da tradição, ou seja, o que fica do que passa.
Recentemente, tive conhecimento de uma canção sefardita, castelhana, do séc. XII, onde os genes do poema de Antonio Machado se podem, quase todos, encontrar. Não sei se o Poeta a conhecia. A canção está, aqui, num poste de 19/9/2012, e chama-se: En la mar hay una torre. Se substituirmos a dama pela pomba (paloma), a praça pelo mar e o cavaleiro pelo marinheiro, a sobreposição do tema é evidente. Porque, também, o desejo, instintos e preocupações do Homem se perpetuam, interminavelmente...
Segue o poema traduzido, de Antonio Machado, para cotejo:

A praça tem uma torre,
a torre tem um balcão,
o balcão tem uma dama, 
a dama uma branca flor.
Passou lá um cavaleiro
- quem sabe porque passou! -
e levou consigo a praça,
com sua torre e balcão,
com o balcão e a dama,
a dama e a branca flor.

Revivalismo Ligeiro LXXVIII : John Cale


A foleirice e o desemprego

Ontem, o Chiado era uma algazarra gárrula e alarve de capas e batinas pretas praxando uns púberes caloiros e caloiras à futrica. O alarido foi pela noite adiante como, de tarde, já os tinha visto no Metro, suados e bebidos, bem agasalhados nos seus trajes negros académicos - que, em Lisboa, são de recentíssimo uso. Exibem-nos como quem mostra ténis Nike para identificar o estatuto...
Quando, nos anos 60, deixei Coimbra para vir estudar para Lisboa, foi uma libertação poder abandonar a capa, a batina e o colete negros, e voltar a trajar à civil. Era no tempo em que  as etiquetas das marcas, discretamente, vinham no avesso da roupa, fosse ela qual fosse. Por outro lado, o ambiente universitário de Lisboa era muito mais arejado do que o de Coimbra, fechado e quase reaccionário nas atitudes e praxes.
Mas, também nisto, a globalização estandardizou tudo. Até nos costumes académicos.
E, ontem, ao ver aquele negrume juvenil, não pude deixar de pensar, melancolicamente, que era uma espécie de luto antecipado pelo desemprego que os espera, dentro em breve...

Arte islâmica no Louvre

A notícia vem em "Le Nouvel Observateur" de 13 de Setembro de 2012: o Museu do Louvre inaugurou uma nova ala, inteiramente dedicada à Arte Islâmica, no dia 18 de Setembro. A decisão foi tomada em 2003, ainda na Presidência de Chirac, tendo a construção do espaço demorado cerca de 8 anos a completar. São mais de 3.000 peças, algumas de incalculável raridade e beleza que, por motivos de falta de espaço, nunca foram mostradas ao público. De livros a objectos de culto religioso, de armas a espelhos e cofres pequenos, de peças em jade (imagem) até cristal de rocha, o conjunto é um dos maiores e melhores acervos do mundo, neste tema. Para quem possa, a não perder.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Flaubertiana : letra A



Este "Dicionário de Ideias Feitas", de Gustave Flaubert (1821-1880), que foi traduzido por João da Fonseca Amaral, para a Editorial Estampa, em 1974, com ilustrações interessantes de Martim Avilez, lê-se desportiva e alegremente.
Se não tem a graciosidade castelhana imaginosa e lírica, por vezes, das Greguerías de Gómez de la Serna, possui um humor prosaico, muito gaulês, que também me agrada. Por isso, aqui vão transcritas algumas definições de Flaubert:

Academia Francesa - Denegri-la, mas, se possível, tudo fazer para ser nela admitido.
Alabastro - Serve para descrever as mais belas partes femininas.
Alcorão - Livro de Maomé onde só se fala de mulheres.
Alho - Mata os vermes intestinais e dispõe para os combates do amor. Esfregaram com eles os lábios de Henrique IV, quando este veio ao mundo.
Almoço (de rapazes) - Exige ostras, vinho branco e anedotas picantes.
Arte - Leva ao hospital. Para que serve, se pode ser substituída pela mecânica, que faz melhor e mais depressa?

Brian Crain : Wind


Mercearias Finas 59 : a casta Antão Vaz, alentejana


Não sei quem terá sido Antão Vaz, cujo nome e apelido vieram a denominar a mais nobre e emblemática casta de uvas, branca, alentejana e que, normalmente, atinge o seu esplendor na região da Vidigueira. Dizem que produz bem, é resistente e equilibrada no amadurecimento. Mas é preciso algum cuidado ao usá-la em vinhos estremes (monocastas) porque, há anos, em que a Antão Vaz torna os vinhos demasiado untuosos, e quase enjoativos. Nestes casos, a única decisão a tomar é beber esse vinho branco a acompanhar sobremesas, por exemplo, de doces de ovos: um Rançoso de Mourão, uma Encharcada, até uma Sericaia alentejana, com ameixas de Elvas. O sabor untuoso atenua-se bastante.
Para não arriscar, é fazer como a Adega Cooperativa de Borba, que compõe o seu lote de vinho branco com o Roupeiro, o Rabo-de-Ovelha ou Perrum a acompanhar a casta Antão Vaz. E o vinho, embora modesto, fica saboroso. Ao contrário, a Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito arrisca, quase todos os anos, o seu monocasta de Antão Vaz, sob a marca Vila Gamas. Às vezes, quase atinge a perfeição. Não será o caso da colheita de 2011, muito embora seja muito superior à de 2010. Como o Verão ainda se recomenda, com alguma força, e a quem gosta de quebrar a regra, este 2011 com 12,5º, poderá fazer boa companhia a um Ossobuco, com uma boa cama de cebola, pimento vermelho, alho francês...eu sei lá!...
Além disso, este branco alentejano e aromático, de cor citrina, poderá comprar-se pelo módico preço de cerca de 2,30 euros. Não se pode pedir mais a um Antão Vaz, monocasta.

Desatinos, ou o estranho mundo do ciberespaço

Um dos casos mais curiosos e recentes veio desaguar ao Arpose, repetidamente. Em cerca de 2 dias, alguém (?) muito obstinado, clicou obsessivamente como search words: "castanhas assadas maria judite de carvalho" (sic). Provavelmente, a escritora terá algum conto em que se fala de castanhas, não sei. Mas o Google, na sua infinita sabedoria mecânica, indicava sempre um poste que aqui fiz sobre castanhas assadas, onde não há qualquer referência a Maria Judite de Carvalho. Entretanto o chorrilho habitual de disparates, entre search words dos cibernautas e respostas do motor de busca, tem-se intensificado. Aqui vão alguns exemplos, dos últimos tempos:
1. Search words: "pastas elásticas com estampas religiosas"; Google sugere: poste "Cromos 22: Alice no País das Maravilhas", colocado no Arpose, em 29/10/2011.
2. Search words: "imagens da filha mais velha de fernão dias mulher de borba gato isabel paes"; indicação do Google: poste "Isabel de Portugal e Borgonha", de 12/7/2010.
3. Search words do cibernauta: "pis de israel louvores"; motor de busca aponta: "Citações II: Tomasi di Lampedusa", em 2/12/2009.
4. Search words: "denise filipa oliveira henriques empregada da bertrand"; o Google sugere: poste "Produtos Nacionais 1: Loja dos Açores"...
Com tanta cabeça desarrumada e tanta resposta ou sugestão parva, como é que o mundo há-de andar bem?

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Citações CX


Se as pessoas não acreditam que as matemáticas são simples, é porque não se apercebem até que ponto a vida é complicada.

John von Neumann (1903-1957).

Canção sefardita (séc. XII) : En la mar hay una torre


Apontamento banal

Quatro ou cinco pombas debicavam, meticulosamente, algumas - poucas - migalhas, no chão da esplanada, quando entrei. Não havia muita gente, e os homens estavam em minoria: três, para quatro mulheres. Dessas, uma devia ser caprichosa, porque mandou refazer, por 2 vezes, o prato de cozido à portuguesa, que o empregado de leste, obedientemente, cumpriu. Outra, no início dos 70 (disse-o depois), tinha uma garridice desajustada: uma blusa vermelho-vivo, quase transparente, de uma só alça, deixava adivinhar o peito pesado e flácido. Uma flor artificial ungia-lhe os cabelos negros, pintados. Completava o trajo com umas calças vaporosas com desenhos alacres de capulana.
A meio do almoço, entrou em diálogo com a balzaquiana da mesa da frente, que a olhava de soslaio e que, provavelmente curiosa, lhe avançou a idade, na terceira ou quarta frase, a despropósito: "Tenho 48 anos!" Ao que, a das calças "capulanas", lhe retorquiu em desafio: "Pois eu já vou em 71." Entretanto, atrás de mim, o sr. Moreira, que parece um judeu quinhentista dos que aparecem em Nuno Gonçalves, mantivera-se calado. E eu, também, falsamente envolvido na leitura do TLS, depois do café.
Quando saí, as pombas continuavam, afanosamente, à cata de migalhas. Para elas, o almoço devia ser bem mais difícil de arranjar.

Hermann Hesse - o eu e os outros



Walter Benjamin refere, em relação a Hermann Hesse (1877-1962), o aspecto ambivalente do escritor, entre o místico contemplativo e o seu olhar "agudo", como se fosse de um americano. Numa outra perspectiva, o editor Peter Suhrkamp, que também se encontrou com ele, em 1936, fala desse homem alto e magro que tinha o rosto crestado e de profundas rugas, que mais parecia um jardineiro ou um alpinista habituado a subir montanhas e a suportar a inclemência solar.
Ora, estas observações peculiares, presenciais e ao vivo, permitem não só refazer um retrato, mas também - e não menos importante - detectar as diferenças e ambivalências dos seres humanos ao ver os outros. Ou seja, denunciam emissor e receptor, na sua circunstância mais subjectiva. A visão que temos sobre os outros é, sempre e apenas, um ângulo determinado das múltiplas perspectivas do que pode ser um homem. Reforçando a complexidade humana do ser e do ver.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Alain, sobre o culto dos mortos


A referência a Le culte des morts vem na página 154 de Propos de Bonheur. Traduzindo:
"O culto dos mortos é um belo costume; e a festa dos mortos está situada como deve ser, na altura onde se torna visível, pelos sinais bastante claros, que o sol nos abandona. Estas flores secas, estas folhas amarelas ou vermelhas por sobre as quais passamos, as noites longas, e os dias preguiçosos que parecem tardes, tudo isto faz pensar na fadiga, no repouso, no sono, no passado. O fim de um ano é como o fim de uma jornada e como o fim de uma vida; ..."

Coincidência ...


Quando nos despedimos, ontem, de uma estudante alemã que, durante um mês, teve o privilégio de viver - e conviver - com os portugueses para aprofundar a sua aprendizagem da língua e do país, estava longe de prever qualquer coincidência entre a sua partida e acontecimentos posteriores.
Um facto triste e não imaginado foi o falecimento de Luiz Goes (ou Luís Góis). Assim como ela se preparou com o estudo da gramática portuguesa para enfrentar o "falar ao vivo", houve quem me tivesse proporcionado, e bem, há mais de quarenta anos, uma aprendizagem suplementar, fornecendo discos de fados de Coimbra e canções de José Afonso. 
Hoje, e recordando esse tempo a propósito da morte de Luiz Goes, tentei recuperar algo da memória musical do passado, entrando no "Youtube" à procura de discos do fadista. E foi assim que descobri esta maravilha - ou mistério virtual - de coincidência sem par:


O que se vê na imagem é, de facto, uma fotografia da minha autoria, inserida na capa do disco "Chamo-te Nina", tirada a uma boneca que faz parte do meu universo há muitos anos!
Ele há coisas ... !

Post de HMJ

Luís Gois (1933-2012)


Na sua forma mais ortodoxa e pura, Luís Gois era, para mim, a Voz do Fado de Coimbra. Faleceu hoje.

Um poema de juventude, de J. R. Jimenez


Tuas pernas eram finas e teus peitos pequenos...
todo o teu encanto nos olhos sombrios
os teus cabelos longos de luto me envolviam
em cascata amena sobre o campo triste.

Abraçados a mim, teus braços de menina,
de mate moreno, palidamente tíbios
como talos de rosa, retinham-me a alma
para que respirasse teu aroma divino...

A carne não foi gala daquele amor sem tédio...
a tua nudez suave era só um motivo
para que nossas almas imensas, mas leves,
se perdessem, sonhando, nos seus dois infinitos.

J. R. Jimenez, in Libros Ineditos de Poesia 1 (pg. 49).

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Em sequência dos rios: L. Einaudi - I due fiumi


O Reno, segundo Victor Hugo

Algum estranho encanto o Reno terá exercido sobre Victor Hugo (1802-1885), para ele o superlativizar tanto, mesmo no confronto com rios franceses. Não sei donde virá este louvor, na obra de Hugo, porque a referência vem num guia turístico (Bords du Rhin, 1909?), em língua francesa. Assim segue, em tradução:
"O Reno reúne tudo; é rápido como o Loire, serpenteia como o Mosa, tão tortuoso como o Sena, límpido e verde como o Somme, histórico como o Tibre, real como o Danúbio, misterioso como o Nilo, com palhetas de ouro como um rio da América, coberto de fábulas e fantasmas como um rio da Ásia."

4 instantâneos lisboetas


1. Uma pomba escanzelada, de penas já arrepiadas pela morte, escolheu um canto do peitoril da janela, no primeiro andar. Está de costas para a rua, roçagando a pedra áspera, como se não quisesse que a vissem, nos momentos finais. Ou para recentrar a sua solidão animal. E não ter saudades da terra.

2. No jacarandá, cinco tufos de flores lilazes anunciam o Outono, lá do alto. A memória biológica (Brasil) continua a fazê-lo florir duas vezes por ano. Pela nossa Primavera, e pela Primavera americana - nosso Outono. Árvore feliz que tem duas juventudes, cada ano. Mas também duas mortes, temporárias.

3. Ainda na Av. D. João V, numa das últimas casas, antes de chegar ao Rato, um casal estrangeiro, de pé, apanha sol, na varanda. Ela, em trajes sumários, loura, ele, peito ao léu, já cor de lagosta. A praia citadina inventada, um pouco a despropósito.

4. No limiar do Outono, a juventude despede-se de nós, à boca do Metro. Mas deixou-me um Einaudi, para ouvir. E quase fico feliz, por momentos. O sol ainda brilha, embora anunciem chuva, para amanhã.

Adagiário CI


O provérbio reza, mais ou menos, assim, em tradução:
"Com esperança no remédio duvidoso, não se deve tentar o perigo certo."
O adágio está inserido num incunábulo espanhol (1493?), impresso em Saragoça (?), por Pablo Hurus (?). Como se vê, a sua proveniência está cercada de dúvidas (ou interrogações). Como os tempos que correm. A que se pode aplicar, na sua ambiguidade, este provérbio de origem castelhana.

domingo, 16 de setembro de 2012

Albéniz / Bolet


Há que traduzir, reverter e actualizar





"Me duele España; soy español, español de nacimiento, de educación, de cuerpo, de espiritu, de lengua y hasta profesion y oficio; español sobre todo y ante todo."

Miguel de Unamuno (1864-1936).

Um desapiedado retrato de Neruda, por J. R. Jimenez


"Sempre considerei Pablo Neruda (porque não Neftalí Reyes, porquê Gabriela Mistral e não Lucília Godoy?) como um grande poeta, um grande mau poeta, um grande poeta da desorganização; o poeta dotado que acaba por não compreender nem utilizar os seus dotes naturais. Neruda parece-me um torpe tradutor de si mesmo e dos outros, um pobre explorador dos seus filões e alheios, que às vezes confunde o original com a tradução; como se não soubesse completamente o seu idioma nem o idioma que traduz. Por isso naquilo que escreve, bom ou mau, há uma aparição evidente com as falhas do ignorado. Ouvi Rafael Alberti dizer que ele gosta de ler livros estrangeiros que não compreende de todo. Creio que ele supre com algo melhor, seu, aquilo que não entende do outro. Mas Alberti é mais lince que Neruda, que é o assimilador universal. ..." (1939)

Juan Ramón Jimenez, in Españoles de Tres Mundos (pg. 115/6).

As palavras dos outros

"Desde Vasco Gonçalves que Portugal não era governado por gente tão perigosa."

Pedro Adão e Silva, ao jornal "Expresso".

sábado, 15 de setembro de 2012

Interlúdio 16


Duas obras-primas


Às vezes, por milagre, a gente lembra-se do serviço público. E a RTP, também. A ofensiva massacrante do cinema americano, na sua forma mais indigente, violenta e rural, quase tomou conta de todos os ecrans. E, o que sobra para o cinema europeu, é residual.
Mas, hoje, a RTP2 dá-nos a ver, à noite, "A Grande Farra" (22h42), de Marco Ferreri, e "Amarcord" (00h54), de Federico Fellini. Não vou perder a ocasião de os rever. E aqui fica o aviso, atempadamente.

Um Turner menor?




O fragmento, o inacabado e a incompletude têm, para os admiradores modernos da Arte, um estranho fascínio. A inacabada "Batalha de Anghiari", de Leonardo da Vinci, ou a "Venus de Milo", fazem algum sentido, neste particular.
Recentemente, numa sala da Clore Gallery (dedicada à obra de W. Turner) da Tate Britain, abriu uma  mostra do Pintor inglês, seleccionada pela artista americana Vija Celmins, preenchida por estudos e esquissos dos inúmeros (cerca de 300) sketchbooks de William Turner.
Uma cheia do Tamisa, em Janeiro de 1928, que atingiu a Tate, danificou gravemente muitos dos livros de apontamentos de Turner. No entanto, a curadora incluíu alguns esquissos afectados pela água, na exposição, e até escolheu uma ou duas folhas em que Turner quase nada traçou. E a polémica estalou. Em abono da liberdade da Arte, alguns críticos apoiaram Vija Celmins, lembrando uma exposição de Yves Klein, onde só havia molduras e o famoso 4' 33'' de John Cage, de 1957, em que o pianista silenciosamente se senta ao piano, sem tocar uma só nota musical, durante esses 4 minutos e 33 segundos. Viria à colação, eu referir aqui, também, um filme português de João César Monteiro...
A polémica sobre esta mostra de Turner acentua-se, porque fazem comparações com uma outra, mais clássica e menos ousada, de 2009, que teve como curador David Hockney.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Da janela do aposento 15: Os livros



A grande conquista alcançada com a passagem para o aposento foi, e continua a ser, a liberdade de dedicação a tarefas agradáveis e, preferencialmente, nobres. A nobreza da matéria já estava escolhida há muito, faltava o tempo para a dedicação exclusiva.
Vem este introito a propósito de uma conferência, proferida em 1948, por Romano Guardini, na Universidade de Tubinga, sobre o Elogio do Livro. O autor interpela o auditório com a seguinte pergunta inicial: "Tendes amor ao livro?" para dissertar, de seguida, sobre o livro como objecto e "mercadoria espiritual". 
Por coincidência, respondi, nas últimas semanas, positivamente, a uma segunda interrogação do autor: "Ocorreu-vos já, alguma vez, meus amigos, que maravilhosa criação do trabalho humano é um livro?" Fi-lo, com convicção, porque tive o privilégio de "toma(r) nas mãos uma coisa assim chamada - impressa em papel e encadernada em tela, ou em pele, ou em pergaminho -, com um sentimento de calma familiaridade. Sente-o como uma criatura, por quem se tem respeito e de quem se cuida, e cuja presença corpórea é causa de alegria. Para ele não é apenas um meio para atingir um fim, seja este o mais espiritual de todos, mas uma coisa perfeita em si mesma, prenhe de múltiplos significados e capaz de oferecer com largueza."
E, assim, termino com uma gravura de um dos mais belos livros que vi ultimamente.


Post de HMJ, dedicado a H.N. e JAD

Henry Purcell (1659-1695)


Bibliofilia 69 : Napoleão




O livro, não fora demasiado grande e difícil de manusear pelo tamanho e peso, encher-me-ia as medidas. São 886 páginas profusamente ilustradas, algumas delas a cores, reproduzindo gravuras e quadros da época e sobre o tempo de Napoleão. Foi dos primeiros livros que comprei, num dos primeiros  leilões a que fui, em finais de 1975. Organizado por Arnaldo Henriques de Oliveira, na Liga dos Amigos dos Hospitais, ao Príncipe Real. A sala era esconsa, com mesa grande e bancos corridos, mais meia dúzia de cadeiras, pouco cómodas. O livro custou cerca de Esc. 730$00 (3,65 euros) porque, infelizmente, em cerca de 1/3 está muito afectado pela humidade, e algumas páginas foram descoladas precipitadamente, danificando texto e imagens. Ainda assim é um livro estimado e muito procurado pela sua beleza gráfica, e conteúdo. A obra "Napoléon et son Temps", de Roger Peyre, foi editada em 1888, pela Libraire Firmin-Didot.

Variações sobre um retrato antigo


Não haverá muitas maneiras de pegar o dia. Pelos cornos. Nem mesmo de cernelha, hoje. No dia seguinte às pegas do fim-de-semana, C. B. arrastava os pés pelo corredor, num ruído surdo, plangente, dorido. Embora jovem ainda, o rosto denunciava rugas fundas de cruzamentos de sangue não aconselhados, nem legítimos. E o Inverno era, para ele, uma estação desencontrada, embora fosse verdade que descendia do navegador da Índia, pelo irmão Paulo.
Lembrei-me dele, hoje, em que parece que não temos por onde agarrar o dia. Pelo humor, será manifesto mau gosto, dadas as circunstâncias; pela poesia, afastamento imperdoável  dos rituais da realidade. A opção dramática, recuso-a. Seria aceitável, apenas, a raiva de caras, com o touro, pegado pelos cornos como C. B. fazia. Num misto de desespero e alegria irada que lhe deixava sangue no rosto, mãos e peito, e os pés massacrados de dor, arrastando a vida. E um peso insustentável sobre os ombros.
Por motivos ponderosos, acabou por ser expulso da Comunidade. Estaria bem na Legião Estrangeira - pensei eu, na altura. Mas não foi assim. Apagou-se, por entre a multidão anónima, numa existência comum e sem história. Estou a vê-lo de costas, hoje, arrastando os pés, dorido, pelo corredor deste país, de rastos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Um golpe de sorte


Ao que parece, a senhora, americana, encantou-se da moldura, numa feira da ladra do estado da Virgínia. Lá marralhou o preço e conseguiu comprar tudo, quadro e moldura, por apenas 7 dólares.
Veio a descobrir-se, depois, que a obra era um quadro desaparecido desde 1926. Fora pintado por Auguste Renoir, em 1879, e intitulava-se "Paysages bords Seine". Contactada pelo "Huffington Post", uma casa leiloeira deu-lhe o valor e estimativa de venda de cerca de 100.000 dólares. Ele há horas felizes...

Favoritos LXVIII : Carlos Paredes - Mudar de Vida


Jogar o reino


As notícias são surpreendentes, logo pela manhã. A senhora de paupérrimas feições, grande amiga do nosso PR, convida os deputados do seu partido à insurreição, incitando-os, aguerridamente, a votarem contra o orçamento - inesperado, pelo menos. Entretanto, diz quem sabe, cerca de 600 farmácias vão fechar, a breve prazo. Negócio que era tão rentável, a notícia enche-nos de fundados receios. Será que a população se voltou para as mezinhas tradicionais e anda pelos campos à procura de ervas grátis e curativas para as suas mazelas e doenças? De qualquer forma, são sinais evidentes da crise e do desnorte.
Mas eu queria falar de coisas mais inocentes, porque, ontem, ao subir as escadas de uma casa amiga, à direita, numa taça vi uns objectos coloridos e simpáticos que, no Sul, dão pelo nome de berlindes. No Norte, jogava-se o reino. E os berlindes chamavam-se bolas de reino. Em longínqua infância, quando cimentaram o passeio da nossa rua, o meu amigo Fernando e eu desenhámos um círculo imperfeito, antes que o cimento secasse. E calcámos, no meio da circunferência, o nosso maior berlinde para, no futuro, à beira das nossas casas, podermos jogar o reino, em campo "privativo" e já marcado. Julgo que ainda lá está.
Eram jogos inocentes e baratos, estes, como jogar ao reino e jogar às "sameiras", ou caricas. Sameiro era o nome de uma laranjada muito em voga, no Norte, e as cápsulas com que brincávamos, herdaram-lhe o apelido. Em cima de pequenos muros ou, na praia, em longos montículos de areia, eram os nossos jogos de Verão preferidos. E baratos.
Hoje, andam a jogar o nosso reino. E sai-nos bem caro este jogo de altas esferas...

para os amigos anfitriões de ontem à noite.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Os sinais inequívocos


A saga Loff/Ramos prossegue, para entretém de um pequeno grupo de intelectuais que preferem ocupar o seu tempo e palavras em "guerras de alecrim e manjerona", em vez de se preocuparem com a res publica portuguesa actual.
Aqui há algum tempo, mas não muito, citei, aqui no Blogue, Henrique Granadeiro que dizia: "Estamos a viver um PREC de direita". Hoje, gostaria de referir um desabafo do arquitecto Siza Vieira que, na Bienal de Cádiz, disse: "...ultimamente, a sensação em Portugal é de se viver de novo em ditadura". Não se poderá dizer que a questão do momento histórico, que se vive no País, seja, nos 2 casos, vista do mesmo ângulo, porque são duas personalidades políticas distintas. Mas é um facto que:
- Nunca houve, nestes últimos 40 anos, tão manifesto desrespeito pela Constituição e pelos Direitos Humanos, como hoje, em Portugal.
- A última vez que houve diminuição de salários, decretada pelo Governo, foi há cerca de 80 anos, no início do consulado de Salazar. E agora.
Poderia alongar-me em exemplos, mas não quero. Por outro lado, afirmar-se que não há grandes diferenças entre esquerda e direita, é mera falácia de alguns pseudo-apolíticos - situação civil e ética que não existe - por mero comodismo mental. Em abono do que disse, creio ser vantajoso ler-se uma carta-aberta que Eugénio Lisboa (ver Blogue "Da Literatura", de Eduardo Pitta, 10/9/12) dirigiu ao PM e um artigo esclarecedor de José Vítor Malheiros, no Público de ontem, intitulado: "O sonho de Pedro Passos Coelho" - que vai em imagem, neste poste.

A par e passo 9

Envelhecer consiste em experimentar a mudança do que é estável.
...
Os livros têm os mesmo inimigos que tem o homem: o fogo, a humidade, os animais, o tempo; e o seu próprio conteúdo.
...
Dignidade do verso: uma única palavra que falte, impede tudo.

Paul Valéry, in Tel Quel I (pgs. 159, 173, 188).

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Para bem acordar: Pino de Vittorio e a tarantela de Sannicandro


Uma 1ª página polémica


O sr. Bernard Arnault (1949), milionário francês, dono das marcas Vuitton e Moët Henessey, para evitar a taxação de 75% sobre as grandes fortunas, que o Governo Francês vai instituir, pediu a naturalização belga. O jornal Libération não esteve com meias medidas, e fez uma primeira página como se pode ver na imagem. Se a moda pega...