quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Falar simples, falar barato


Talvez o que melhor distinga a crítica ou recensão crítica de origem anglo-saxónica é que, após a sua leitura, não se fica de todo ignorando o enredo ou tema do livro que foi analisado. Noutras críticas de origem europeia, muitas vezes, a citação erudita ou os malabarismos pseudo-intelectuais correm paralelos, mas nunca convergentes, ao teor da obra e, frequentemente, ficamos sem saber aquilo de que o livro trata, na realidade. É, talvez por essa razão, que a crítica portuguesa tem má fama. Assim, achei que talvez fosse útil traduzir e citar, do TLS (nº 5832), o início da recensão que o editor Adam Begley fez sobre o livro "The Republic of Imagination", de Azar Nafisi. Portanto, aqui vai:

Uma das muitas maneiras de ler Adventures of Huckleberry Finn é prestar cuidadosa atenção ao papel desempenhado pelos livros e pela leitura - atenção que é prontamente recompensada logo pela frase inicial do romance: "Não saberão nada de mim, se não tiverem lido um livro que tem por título The Adventures of Tom Sawyer, mas isso não será muito importante. Esse livro foi escrito pelo sr. Mark Twain e, a maior parte das vezes, ele falou verdade". Esta metaficção prepara-nos para o Capítulo II, no qual Tom Sawyer esplica aos seus rapazes amigos que irá orientar o seu bando de acordo com o sanguinário precedente estabelecido pelos "livros de piratas" e dos "livros de salteadores". Matar as suas vítimas seria o melhor, afirma Tom - mas ele aceita também o resgate, que será uma alternativa possível... Quando um dos rapazes lhe pergunta o que é um resgate, Tom confessa a sua ignorância: "Eu li isso em livros; por isso é aquilo que devemos fazer". A atrevida ironia de Mark Twain dá um nome feio à literacia. E, à medida que formos avançando na leitura, iremos  descobrir que muitas das aventuras de Huck apontam na mesma direcção: para a perniciosa influência daquilo que aprendemos nos livros que lemos. ...


8 comentários:

  1. Sinceramente, se me permite o atrevimento, o parágrafo que citou deixou-me confuso. Como assim, a crítica anglo-saxónica coiso e tal? Então a recensão sobre o livro "The Republic of Imagination", de Azar Nafisi, fala de Huckleberry Finn, de Mark Twain? Onde estão as luzes sobre o enredo ou tema do livro que foi analisado?
    Vá lá, seja gentil e traduza-nos o resto!

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    1. Traduzir tudo é complicado, porque o texto é longo, mas vou tentar explicar melhor. O título do texto da recensão é "Books that made America". O livro de Nafisi ("The Republic of Imagination") aborda um conjunto de obras literárias que marcaram, ou esclareceram, a formação identitária dos E.U.A.. Começa assim pela infância, com Mark Twain, até chegar ao "Lolita", de Nabokov. Pelo meio, passam Henry James, Fitzgerald, James Baldwin, com destaques especiais para "Babbitt" de Sinclair Lewis e "The Heart is a lonely hunter", de Carson McCullers.
      Espero ter dado uma ideia mais clara, assim.

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    2. Isto era uma brincadeira. Como disse que os críticos anglo-saxónicos nos dão alguma ideia do enredo ou do tema, e naquele parágrafo não temos nada disso - a menos que se tratasse de uma crítica ao Huck Finn...

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    3. Aceito que a minha citação no poste não tenha sido a melhor escolha, para o caso..:-)

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  2. Gostei foi da ironia na «perniciosa influência daquilo que aprendemos nos livros que lemos». :)))

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    1. M. Twain, nesse aspecto, é incomparável..:-))

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  3. Muitos desses livros tb me ajudaram a formar, a começar pelos de Mark Twain.

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