segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Dias e sabores


Bem se afanam os comentadores de vinhos e outros produtos naturais em tentar, surreal e caricatamente, classificá-los poeticamente, enquanto os especialistas afirmam que o ser humano só tem possibilidade de sentir quatro sabores básicos: doce, amargo, insosso e salgado. Ao que parece, haverá um quinto sabor, de origem japonesa, que aguça o apetite, mas de que eu não me lembro do nome. E é tudo.
Há sinais e sintomas que marcam os dias. Se os dias úteis nada têm que os distingam, salvo algum acontecimento fortuito que possa vir a acontecer e a marcá-lo na memória, já o domingo é reconhecível, logo ao acordar: há, quase sempre, mais silêncio em volta. E se eu fizer uma retrospectiva memorial, há, pelo menos, quatro pontos característicos nesses meus domingos provinciais: a manhã, que era um tempo espiritual, a carne assada e o leite-creme, ao almoço, o futebol e a reunião alargada de família, durante a tarde dominical.
Hoje, porém, este dia útil de segunda-feira, soalheiro, tem, por razões diversas, um sabor marcante e diferente. Porque o Verão quase parece ter voltado. E, por causas distintas, também regressou a esperança em melhores dias.

8 comentários:

  1. Quando eu era miúda, os domingos eram quase sempre iguais, com um passeio dos tristes, que normalmente não era assim tão triste. :)

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    1. O domigo não deixava de ser disciplinadamente colectivo, no programa. Nos dias de semana, sempre podia haver algum acontecimento ou surpresa individual.

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  2. De Timor.
    Só há quatro sabores básicos, mas da sua combinação nascem muitos mais. Como as cores também são apenas três, mas ao mesmo tempo são infinitas, ou as letras são vinte e poucas, mas os livros não têm conta.

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    1. Sem dúvida que há multiplicações, mas não deixam de ser variantes do básico. Como por exemplo o agridoce, ou o picante.
      Continuação de frutuosa estadia!

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    2. O mundo dos sentidos é enganador, e a nossa mente tende a simplificar para compreender. Na realidade, os quatro sabores básicos são uma tentativa de classificar o que, talvez, seja inclassificável. Na realidade, os "sabores" resultam de reações químicas nas nossas papilas gustativas, que depois o cérebro descodifica e o sistema nervoso transmite.
      Os sabores são, portanto, o resultado da interação de cerca de cem elementos químicos (naturais, que também há mais duas dezenas de elementos artificiais, que foram acrescentados a esse poema épico que é a tabela periódica de Mendeleiev e Meyer; para além dos inúmeros isótopos deles todos), combinados em moléculas, por sua vez associadas entre si... Algumas estão no que metemos na boca, outros na nossa boca, à espera de reagir...
      É por isso que existem os E-XXX nos produtos alimentares industriais. Os famosos "com sabor idêntico ao do morango", mas sem sem morango, que lemos nos rótulos. É a fingir, mas parece verdade.
      Portanto, eu direi, ao contrário de si, que o básico é, neste caso, a simplificação da multiplicidade, de quase 120 átomos diferentes, de milhões de moléculas possíveis.

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    3. Quem sou eu, não sendo especialista na matéria, para o contradizer? Embora me pareça, na minha ignorância, que é tudo uma questão de nomenclatura, na classificação dos sabores. Macro ou microclassificação, para usar termos económicos.
      E, já que falou em "poema épico", metafóricamente, avancemos por um exemplo noutra matéria. Não estaremos longe da realidade se, ao caracterizarmos a poesia, falarmos em 3 tipos: lírica, dramática e epopeia. No entanto, e se quisermos ir mais longe, ser minimalistas ou mais precisos, encontraremos um sem número de sub-classificações: sonetos, quadras, sextinas, éclogas, elegias, epicédios, poemas herói-cómicos, sátiras...eu sei lá!...
      Um bom resto de semana, seja ele europeu ou asiático!

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    4. Asiático ainda, mas já em trânsito.

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