sábado, 15 de outubro de 2011

Os cristianíssimos calamentos


Não suporto, nem aceito o silêncio caridoso e cristão que se cria, normalmente, em Portugal, à volta das lentas agonias. Bastou-me a pesada cortina de ferro que se abateu sobre a figura de Eugénio de Andrade, nos últimos anos de vida, remetido à imobilidade física de uma cama. Ele que escrevera dos mais belos poemas de amor que se fizeram em Portugal, para sempre. Não teria sido possível relembrá-lo, de vez em quando, publicando um poema ou um texto em prosa? Não, calamento absoluto, nos media. Mas quando ele morreu, foi uma autêntica girândola de elogios à obra, nos jornais e revistas portugueses, com publicação de inéditos, testemunhos, citações... É atávica e hipócrita esta atitude cristã portuguesa. Como também o uso estúpido da expressão, ainda frequentemente utilizada de: "...após doença prolongada..."
Fartou-me também, já mais recente, a rasura do nome de Júlio Resende, pela fragilidade dos seus últimos anos, e a omissão do Pintor portuense no dia-a-dia noticioso. Felizmente, falei dele, aqui, quando completou os seus 93 anos. Não faz mal lembrar - é bom e é preciso. Pesa-me, também e muito, o esquecimento deliberado e cristianíssimo que fazem sobre Óscar Lopes, espírito agudíssimo e crítico, e co-autor duma belíssima e pertinente História da Literatura Portuguesa. E Óscar Lopes está vivo.
Nos meus tempos adolescentes fui leitor atento de Agustina, quer dos seus romances, quer da sua coluna "oracular" e semanal no "Diário Popular"; hoje não serei o mesmo incondicional, que fui, da sua obra, mas respeito o que escreveu e quero lembrá-la. Agustina Bessa-Luís completou hoje 89 anos. Quem o disse?

2 comentários:

  1. O Publico (em papel) publicou um texto inédito, escrito quando era directora do D. Maria II. E, tanto quanto me parece, foi tudo...

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  2. É verdade, no P2. Os restantes, ou se esqueceram, ou eram cristianíssimos..:-(

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