quarta-feira, 12 de outubro de 2011

As andanças de Dürer


A saída definitiva de uma casa, para outra porventura mais pequena, pressupõe uma concentração de afectos, opções difíceis, o adeus final a coisas que, por atavismo, fomos conservando e nos foram companhia durante anos. Finalmente, por detrás das prateleiras e armários da velha casa, há sempre algum objecto ou livro perdido que aparece, por ter caído e estar escondido em recôndito lugar esconso. E, isso, no meio da taciturnidade do acto das mudanças, pode vir a ser um raro e pequeno momento de alegria.
As duas pequenas aguarelas de amador estavam na sala de jantar: um nu discreto, branco, castanho e ocre, e uma cópia sugerida do coelho (1502) de Dürer. Na parede, onde se suspendiam, não batia o sol e, por isso, as aguarelas mantinham ainda uma frescura tenra. Na nova e pequena morada, apanham agora luz, logo pela manhã, viradas como estão, a nascente. E o pequeno coelho inspirado por Dürer, que retouça a erva verde aguarelada, embora tímido, parece agora mais feliz. 

para HMJ.

2 comentários:

  1. O Sol dá vida, mas mata! Tanto nas gravuras, nos quadros, nos livros, como nas pessoas. Mas não conseguimos viver sem ele.

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  2. Bem verdade, JAD. O resguardo, acaba sempre por ser necessário. Para não falarmos em Ícaro...

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