domingo, 28 de fevereiro de 2010

Favoritos X : Reminiscências de Norma (1º)






Três em um, ou a convergência de três mestres: Alfred Brendel (1931), Franz Liszt (1811-1886), Vincenzo Bellini (1801-1835) nas "Reminiscências de Norma"(1841).

Memória 14 : Montaigne



Considerado o iniciador do "Ensaio literário", Michel Eyquem de Montaige nasceu a 28 de Fevereiro de 1533 e morreu em 13 de setembro de 1592. Entre as muitas coisas que escreveu, escolhemos cinco pensamentos que traduzimos a seguir:

Nada fica mais na memória do que aquilo que desejamos esquecer.

A idade traz mais rugas ao cérebro do que ao rosto.

Não há diálogos mais aborrecidos do que aqueles em que todos estão de acordo.

A menos que um homem sinta que tem boa memória, ele não deve arricar-se a mentir.

Prefiro a companhia de camponeses porque eles não são suficientemente cultos para se poderem dar ao luxo de pensar erradamente.

Era uma vez...






Parabéns!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Confluências



No panorama da poesia castelhana do séc. XIX, Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870) ocupa um lugar cimeiro. A sua poesia é uma confluência do romantismo, simbolismo e dos inícios do modernismo espanhol. Partilhava com o irmão, Valeriano (que lhe fez o retrato que ilustra este post), o gosto pela pintura, que também praticou, mas foi como poeta que Gustavo se notabilizou. Apesar da sua curta vida, cedo minada pela tuberculose, influenciou as gerações seguintes, de forma importante. Gustavo Bécquer que também teorizou sobre Poesia costumava dizer, citando Lamartine, que: "a melhor poesia escrita é aquela que se não escreve". As suas últimas palavras, pouco antes do Natal de 1870, foram:" Todo mortal".
Traduz-se de Bécquer um dos poemas das suas "Rimas, possivelmente inspirado numa das suas musas, Julia Espín, que cantava ópera.

Do salão, no canto mais escuro
Talvez esquecida por seu dono,
Coberta de pó, silenciosa
Podia ver-se a harpa.

Quantas notas dormiam nessas cordas,
Como pássaro que adormece pelos ramos,
Esperando a branca mão de neve
Que soubesse acordá-las.

Ah! pensei: quantas vezes o génio
Dorme assim no íntimo da alma
E, como Lázaro, espera pela voz
Que lhe diga: "Levanta-te e caminha!"

P.S.: para a "oliveira da eurídice", vai esta harpa fazer companhia ao prosaico "Teodoro".

Biblioteca Infanto-juvenil IV: Biblioteca Mocho


Mais dirigida a um público juvenil, a Biblioteca Mocho - de 110 x 75 mm - apresenta uma grande profusão de títulos. A colecção particular de APS, sendo incompleta, regista apenas os títulos até ao volume vinte.

Os voluminhos reproduzidos sugerem, a par de uma ilustração tosca, o esforço de divulgação cultural ao preço de 2$50 por semana.

Post de HMJ

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Citações XIV : Carl Sandburg



A poesia é o diário de um animal marinho que vive na terra, mas quer voar.

Carl Sandburg (1878-1967), poeta norte-americano.

Heresias Literárias



Aqui há uns bons anos, Giovanni Papini (1881-1956) era um escritor italiano, de Florença, muito lido. De um cepticismo inicial tinha passado a um catolicismo relativamente ortodoxo. Mesmo assim, foi quase sempre irreverente em tudo aquilo que escreveu. Uma das suas obras mais conhecidas é "Gog", tendo, mais tarde, escrito a sequência : " O novo livro de Gog". Por uma questão de melhor enquadramento, vou transcrever alguns fragmentos sequenciados de forma a situar a parte final da citação. E desafio, a quem me ler, a tentar identificar as "obras-primas" literárias de que Giovanni Papini faz uma descrição sumária e satírica - daqui a heresia... Aqui vai:

"Envergonha-me dizer onde conheci Gog: foi num manicómio particular. (...) e voltou para me entregar um embrulho de seda verde. - Leia - disse-me -, são folhas que salvei do último naufrágio." Papini refere depois que as folhas manuscritas eram uma espécie de diário em que Gog lançava apontamentos sobre o que ia vendo, lendo e vivendo. No primeiro capítulo ( intitulado "As obras primas literárias") escreve a dado ponto:

"Tive coragem para ler aqueles livros todos, menos três ou quatro, que, logo às primeiras páginas não pude suportar. Hostes de homens, chamados heróis, que se estripavam durante dez anos a fio, sob as muralhas de uma pequena cidade, por causa de uma velha seduzida; a viagem de um vivo à fossa dos mortos, com o fim de falar mal dos mortos e dos vivos; um doido héctico e um doido gordo que vão Mundo fora em busca de sovas; um guerreiro que perde o juízo por uma mulher e se diverte a arrancar azinheiros pelas selvas; um pulha cujo pai foi assassinado e que, para o vingar, faz morrer uma rapariga que o ama e outras personagens diversas; um diabo coxo que levanta os telhados de todas as casas para exibir as suas misérias; as aventuras de um homem de estatura média que faz de gigante entre os pigmeus e de anão entre os gigantes sempre de modo inoportuno e ridículo; a odisseia de um idiota que, através de ridículas desventuras sustenta que este Mundo é o melhor dos mundos possíveis; as peripécias de um professor demoníaco servido por um demónio profissional; a aborrecida história de uma adúltera provinciana que se enfastia e, por fim, se envenena; as surtidas loquazes e incompreensíveis de um profeta acompanhado de uma águia e de uma serpente; um rapaz pobre e febril que assassina uma velha e que depois - imbecil - nem sequer sabe aproveitar um alibi e acaba por cair nas mãos da polícia. ..."

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ainda as Portuguesas no séc. XVIII



Em 25/1/2010, sobre Mulheres Portuguesas no séc. XVIII, foi aqui colocado um "post" originado pela leitura do livro "Portugal - A Corte e o País nos anos de 1765 a 1767" de Giuseppe Gorani (1740-1819), traduzido, e abundante e exemplarmente anotado por J. A. Castelo-Branco Chaves (1900-1992). Nestas memórias de viajante, Gorani gabava a beleza das mulheres portuguesas desse século. Afirmação discutível, decerto, mas que Castelo-Branco Chaves, fundamenta, ainda mais, em nota (1) ao capítulo XXXI (pg. 290), e que passo a citar:

"Não é Gorani o único na longa lista dos viajantes estrangeiros em Portugal que com tão bons olhos viu a mulher portuguesa. Muitos outros lhe foram favoráveis. Dumouriez: « As mulheres são das que na Europa possuem uma mais bela carnação, mais bonitos dentes e cabelos mais belos... São galantes, espirituais e instruídas, mas vivem na mais austera solidão» (Ob. cit., p. 104); Carrère: «... as mulheres (portuguesas) são bem feitas, bem proporcionadas, cheias de graças e encantos; têm belos olhos, uma linda pele, uma estatura esbelta, fina, delicada e as suas palavras são doces, sedutoras, persuasivas. Reúnem tudo o que é preciso para agradar. São amáveis, afectuosas, meigas; sabem tornar-se interessantes; possuem um espírito natural que se desenvolveria vantajosamente se fosse cultivado, mas a sua educação está absolutamente desprezada; não recebem nenhuma e ficam abandonadas a si próprias. Só à natureza é que devem a amabilidade e a afabilidade das maneiras que nelas encontramos», ob. cit., p. 296; Murphy: « As senhoras portuguesas possuem muitas qualidades: são castas, modestas e extremamente fiéis às suas afeições». (Travels in Portugal, p. 204); o autor dos «Sketches of Portuguese Life»: « Amantilhadas, deste modo, e realçando o efeito de tão atraente modo de trajar, mercê da graciosidade dos ademanes, galgando com desassombro as imundas calçadas, por pouco que a natureza as haja favorecido, jamais deixam de inspirar interesse, a um ponto ao qual às mulheres de outros países se lhes tornaria sempre mais difícil atingir»..."


P. S.: Referem-se os nomes dos autores e respectivas obras citados acima, na nota de Castelo-Branco Chaves: Joseph B. F. Carrère - "Voyage en Portugal et particulièrement à Lisbonne"; Charles F. Dumouriez - "État Présent du Royaume de Portugal en l'Année de 1796"; James C. Murphy - "Travels in Portugal".

Receitas Poéticas 1



Um comboio pode esconder outro

evita os filmes de terror

deixa o Anapurna em paz

cuidado com o sal e as gorduras

não atravesses no amarelo


morrer é mais do que suficiente



F. Assis Pacheco(1937-1995)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A política, nos nossos dias



Isto não é uma citação, no sentido clássico do termo, mas são palavras que nos fazem reflectir. Aqui vão:

"...perdemos já toda a inocência, e dentro em breve perderemos até a esperança de nos lembrarmos como ela era."

Rui Tavares, in jornal "Público", de hoje.

O Eterno Poema



Aqui há uns anos, foi publicada a tradução de um livro, pela "Cotovia", que provocou algum ruído e discussão, por vezes, quase polémicos. Tinha por título "A Angústia da Influência - uma teoria da poesia" e o seu autor, Harold Bloom (1930). Li-o, não sem alguma irritação e, no final, pus a lápis, na 1ª folha branca, a indicação: «Irracional e provocatório!».

Por vezes, não estamos (ainda) prontos para lermos determinado autor ou obra. Aconteceu-me isso com Graham Greene, no início. Hoje, sou um incondicional. Em relação ao livro de Bloom decidi-me a reavaliá-lo. E recomecei a lê-lo. Sem ter ainda uma opinião reactualizada, deixo aqui o início do primeiro capítulo intitulado: "Clinemen ou Encobrimento Poético":

"Shelley especulou que os poetas de todas as épocas contribuiram para um Grande Poema em progresso perpétuo. Borges observa que os poetas criam os seus precursores. Se os poetas mortos, como Eliot insistiu, constituíram os avanços específicos do conhecimento dos seus sucessores, tal conhecimento é ainda uma criação dos seus sucessores, construído para as necessidades dos vivos. Mas os poetas, ou pelo menos os mais fortes entre eles, não lêem necessessariamente como até os mais fortes críticos lêem. Os poetas não são nem leitores ideais nem leitores correntes, nem arnoldianos nem johnsonianos. Ao ler, tendem a não pensar que «isto está morto e isto está vivo na poesia de X». Os poetas, na altura em que se tornaram fortes, não lêem a poesia de X, visto que os poetas realmente fortes só se podem ler a si próprios. Para eles, ser judicioso é ser fraco, e comparar, exacta e justamente, é não ser eleito. ..."


P.S.: para "c. a.", com simpatia, e por causa de T. S. Eliot.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bibliofilia 7 : Rubén Darío






Rubén Darío (1867-1916), nascido na Nicarágua, foi um poeta importante e influente nos países de língua castelhana, nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX. Viajante infatigável na América e Europa, desempenhou funções consulares e de embaixador em Espanha; ao mesmo tempo, foi um dos mentores do "modernismo" e da "Geração 98".


"Prosas Profanas y otros poemas", cujo rosto da primeira edição se reproduz, de 1896, foi editado em Buenos Aires na Imprenta de Pablo E. Coni ( Palau, 68469), e teve uma segunda edição, de Paris, acrescentada de cerca de uma dezena de poemas, em 1901. O meu exemplar foi comprado, em 1991, por Esc. 8.500$00 (cca. euros 42,50), em Lisboa. Tem uma dedicatória, de Janeiro de 1897, manuscrita por Darío, oferecendo o livro a José Chocano (1875-1934), poeta peruano e aventureiro. O seu segundo proprietário terá sido Juan Bautista de Lavalle (1862-1933), diplomata. Deste passou para o grande amigo de António Nobre (1867-1900), Alberto de Oliveira (1873-1940) que também foi embaixador. Finalmente, veio parar às minhas mãos.


Na livraria "Buenos Aires Libros" (Argentina) vem anunciado um exemplar da 1ª edição, igual ao meu, também encadernado, mas sem dedicatória. O preço indicado é de : euros 3.784,20 ( ou US$ 5.000,00) - o que, manifestamente, considero um exagero.

Citações XIII : G. B. Shaw



Todas as grandes verdades começam por ser blasfémias.

George Bernard Shaw (1856-1950)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Música e Poesia III : Oito e meio



"Otto e mezzo" de Fellini (1920-1993) é um dos meus filmes tutelares. Pelo amor à vida que transmite. Pela expressão barroca genial das suas imagens. E pelo envolvência da música de Nino Rota (1911-1979). Repare-se na sequência de imagens dos oaristos (mãe, amante, esposa) - dois deles, desencontrados...

Em Louvor e justificação

Este "post" peca por tardio. Há que destacar o nome de Mariana A. Machado dos Santos, autora do trabalho "Alexandre Herculano e a Biblioteca da Ajuda", inserto n'"O Instituto", donde extraí a carta do Historiador português que se reproduziu, antes. Estudo conscencioso, meticuloso e sério da competente investigadora que devo louvar, admirar e destacar, pelo seu profissionalismo exemplar.
P.S.: Sobre o atraso na publicação deste "post" complementar do anterior, há "que dar nome aos bois"(ou "boys"). Houve um apagão de mais de 2 horas (13,30/15,40 hrs...) que a EDP não soube colmatar ou resolver em tempo útil. Seria bom que o Sr. António Mexia, alto sonhador e gestor da nossa praça, se preocupasse um pouco mais com a eficácia da sua empresa. De que vale falar de inovação, quando nem de "mínimos" somos capazes...

Alexandre Herculano : uma carta




Para lá do seu interesse e gosto pelas práticas agrícolas - que o levou a produzir um dos melhores azeites de Portugal, na sua quinta de Val-de-Lobos (Ribatejo) - e do seu labor de escritor e historiador, Alexandre Herculano (1810-1877) foi também bibliotecário. Ainda e no decurso do cerco do Porto, D. Pedro IV (1798-1834) nomeou-o segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto. Herculano foi, também, perceptor de D. Pedro V (1837-1861) a quem o ligava um respeito e amizade, fraternos, que sempre foram correspondidos pelo jovem rei. Antes de se retirar para Val-de-Lobos, o historiador trabalhou na Biblioteca da Ajuda ou Biblioteca do Paço que tinha aumentado, grandemente, com as compras de livros efectuadas por D. Pedro V. D. Fernando II (1819-1885), viúvo de D. Maria II (1819-1853), após a morte daquele rei, quis reavaliar o que fazer com o acervo da Biblioteca. Para isso, em vez de ouvir Herculano em primeiro lugar, e como deveria ser, resolveu consultar Inocêncio F. da Silva (1810-1876), autor do "Dicionário Bibliográfico Português". O autor de "O Bobo" soube do facto e ficou sentido e ferido no seu orgulho pessoal e profissional, e escreveu a D. Fernando a carta que iremos transcrever. Nos tempos que correm, vale a pena recordar, como exemplo, esta tomada de atitude de quem não está agarrado ao poder ou mordomias e defende o seu bom nome e a sua honra com imperativos de ética sem perder o respeito pelos outros, não esquecendo, no entanto, o respeito humano que lhe devem. Esta carta de Alexandre Herculano é um belo documento, de claridade de escrita e pensamento. Foi publicada na revista "O Instituto" da Universidade de Coimbra (vol. CXXVII, tomo I, 1965). Aqui vai a transcrição:

" A opinião obriga. Em matérias d'honra é ella que determina a força e o sentido dos factos. Como o jury, as suas decisões tanto valem quando erra, como quando acerta. Posso entender, por exemplo, que o duello é bárbaro, anti-christão, absurdo; mas hei-de acceitar o duello nos casos em que a opinião o reputa forçoso, sob pena de deshonra. Eis o que torna o meu procedimento nesta conjuntura fatalmente necessário.
S. M. não me offendeu com a incumbencia que deu a Innocencio: não me offenderia mesmo quando a minha situação fosse a que geralmente se crê ser. Cada qual serve-se com quem mais lhe agrada ou melhor pode desempenhar o mister que lhe é incumbido. Seria absurdo que o rei não podesse governar a sua casa como qualquer outro cidadão. S. M. tinha-me falado por mais de uma vez neste negócio da organização de uma Bibliotheca real com os elementos que para ella há; tinha-me para isso chamado. Achou provavelmente más as minhas ideas a este respeito, boas as d'Innocêncio. Preferiu-as e preferiu-o. Fez bem. Usou de um direito que não chega a ser de rei, porque é simplesmente de dono de casa.
V. M. vê bem que não é essa a questão. O que eu lamento, e não o lamento por mim é que o facto, pela coincidencia e pela publicidade, tomasse um carácter politico, que, porventura, não era intenção de S. M. dar-lhe mas cujos effeitos, como questão pública, se tornaram completamente irremediáveis.
V. M. conhece o principio de philosophia juridica, de que a cada direito corresponde uma obrigação. Ao direito d'El-Rei corresponde uma obrigação minha. É a de me retirar. Mas, desde que o facto tomou, por aquellas duas circunstâncias da coincidencia e da publicidade, uma significação de ordem política em relação a mim, nasce tambem para mim o direito de manter illesa a propria dignidade.
Peço a V. M. que me deixe salvar este direito e cumprir aquella obrigação. Conceda-me V. M. uma licença illimitada, uma aposentação ou reforma, uma simples demissão; aquilo, em summa, que V. M. achar mais conveniente e razoável. Na última hypóthese, a minha gratidão para com V. M. não diminuirá um só ápice. Que me importa, de feito, um futuro que já não pode ser demasiado longo, se conservar a affeição de V. M. essa affeição nunca desmentida durante vinte e quatro anos, e até mantida mais de uma vez à custa de sérios desgostos? Posso eu nunca esquecer-me de que o que valho e sou, se valho e sou alguma cousa, o devo a V. M. que me creou, na mocidade e quási na obscuridade, uma situação tranquilla em que pude ser útil a mim e não sei se ás letras e ao paiz? Isto que digo aqui já o disse n'um livro que talvez viva mais do que eu; mas apesar disso, hei-de repeti-lo sempre perto ou longe de V. M.
Quando o Senhor D. Pedro V falleceu pedi a V. M. que me deixasse ir para um canto affastado daqui. Em vinte e quatro annos de tanta benevolência e amizade só pedi isto a V. M. Parece-me que não abusei muito. Conceda-mo V. M. agora. Seria um espinho que me pungiria de contínuo se, devendo inevitàvelmente abandonar a minha actual posição, porque o pundonor o exige, não obtivesse para o meu proceder a annuencia de V. M.
V.M. conhece-me bem para saber que esta carta não é, não pode ser resultado de um desses amúos artísticos de que a ambição turbulenta e a cubiça insolente costumam usar com prospero exito nesta terra classica de medrosos, e que é simplesmente inspirada pela consciencia de que tenho a cumprir um dever moral para comigo. Não espero, nem desejo fazer ruído. O ruído é próprio dos grandes concursos do mercado, e eu não estou no mercado. Ao pôr do sol, a sombra da arvore vai-se alongando e esmorecendo até se desvanecer de todo, e ninguem repara em que ella desappareceu. Procurarei imitar a sombra da arvore, se a ultima prova de indulgencia que peço a V. M. me consentir esse insensível desapparecer.

Pela mercê que supplico e com que desde já conto, beijo a mão de V. M.

Ajuda 31 de dezembro de 1862.

A. Herculano"


domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Madeira ( e Winston Churchill)



Apenas um pequeno apontamento pessoal para referir a Ilha da Madeira e, sobretudo, as suas gentes que viveram e vivem horas de sofrimento e tragédia. O que era um paraíso transformou-se num inferno, de um momento para o outro.

Foi o ambiente tranquilo e paradisíaco que levou, em 1950, Winston Churchill (1874-1965), depois de deixar de ser Primeiro-Ministro de Inglaterra, a fazer várias estadias na Ilha. Pintava e gozava a paisagem da Madeira. E pintou (ver fotografia, acima reproduzida) Câmara de Lobos, uma das localidades mais afectadas pela recente calamidade.

W. H. Auden


W. H. Auden nasceu em 21 de fevereiro de 1907, na Inglaterra, e faleceu em 1973. É um dos grandes poetas do século XX. Já aqui falamos dele a propósito das metamorfoses das Artes. Neste caso, sobre um quadro do "Musée des Beaux Arts", em 2 de Janeiro de 2010 (Fascínio de temas entre as Artes), que motivou Auden a escrever um poema sobre a obra de Brueghel,"A queda de Ícaro". Hoje, vamos traduzir o poema para português acompanhado de uma gravação em que o Poeta diz, em inglês, esta mesma poesia.
Quanto ao sofrimento não se enganavam
Os Velhos Mestres: como compreendiam bem
A sua humana condição; como ela tem lugar
Enquanto alguém abre uma janela, come
Ou passeia, aborrecidamente, por ali;
Enquanto, os velhos, esperam respeitosa
Ou apaixonadamente pelo nascimento milagroso,
Haverá sempre crianças, indiferentes, esquiando num lago
À beira da floresta:
Eles nunca esqueceram
Que , mesmo perante um sacrifício, tudo
Deve prosseguir o seu curso
Algures numa esquina, num lugar pouco limpo,
Onde vão os cães com propósitos caninos e o cavalo
Do verdugo coça o rabo inocente numa árvore.
No Ícaro de Breughel, por exemplo: como todos ignoram,
Displicentemente, o desastre. O semeador
Ouviu o baque na água, o grito desamparado,
Mas para ele isto não era um fracasso importante;
O sol brilhava como devia sobre as pernas brancas
Que desapareciam pelas verdes águas;
E do rico e gracioso barco devem ter visto
Algo de fantástico: um jovem caíndo do céu.
Mas o barco tinha um destino e seguiu, indiferente.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Favoritos IX : Vitorino Nemésio




Na RTP ou na Universidade, Vitorino Nemésio (1901-1978) era um deslumbramento, no seu verbo. As suas aulas na Faculdade de Letras, em Lisboa, eram sempre uma incógnita. Nemésio sempre foi um repentista, com uma capacidade de associação cultural quase infinita. Podia começar por evocar uma pequena tabacaria, em Alcântara, saltar para Alexandre Herculano, referir, a talhe de foice, Paris e a Inglaterra, depois regressar, modestamente, à Trafaria, para acabar, finalmente, em Raul Brandão. Saíamos do anfiteatro perguntando-nos o que deveríamos reter, pragmaticamente, para o exame final de Cultura Portuguesa...e não sabiamos a resposta. Mas, ainda entontecidos pela cascata cultural do verbo nemesiano, não nos sentíamos preocupados, nem infelizes, muito pelo contrário...

Vitorino Nemésio morreu faz hoje, precisamente, 32 anos. Lembro-o através dum dos seus mais enigmáticos e belos poemas. O que posso dizer para ajudar, eventualmente, a leitura é que «alcião» (Alcyone) é, na mitologia, uma ave fabulosa que punha os seus ovos sobre as ondas do mar. Hoje, e mais prosaicamente, é conhecido como «martim-pescador» ou maçarico, uma pequena ave com um longo bico. Com o nome de Alcyone existe, também, uma estrela da constelação "Taurus". Mas como qualquer grande poema, a sua interpretação é livre. Segue-se:

Pus-me a contar os alciões chegados
(Minha memória era água, água...)
Fez-me mal aquela alta tristeza
De bicos vagabundos,
Mas não chorei os alciões desterrados.

Sempre gostei de aves e de lágrimas.
Lágrimas, agora, não podia,
mas podia os alciões
- E dei-lhes meus olhos para ovos
(Que as fêmeas estavam cansadas
E vinham de terra fria).

Firme e condescendente,
Fechei as pálpebras pesadas
De contradição e de poesia
- E um mundo novo de alciões novos,
Esse era o meu quando as abria.

Biblioteca Infanto-juvenil III: Colecção Formiguinha


A Colecção Formiguinha, de tamanho ligeiramente superior à Colecção Tonecas, ou seja, 98 x 75 mm, encontra-se, felizmente, completa no acervo particular de APS.
Dos primeiros vinte números iniciais conservam-se, ainda, os estojos de cartolina para guardar os pequenos volumes números 1 a 10 e 11 a 20, conforme reprodução.
Escolhemos as capas de alguns títulos mais sugestivos. Ao Capitão Corneta apetece acrescentar:
"Ouvi perfeitamente!"

Post de HMJ

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Citações XII : O que é um clássico ?



Face a esta pergunta (O que é um clássico?), George Steiner respondeu: "É ser-se relido constantemente, continuar-se a ser inesgotável e a provocar desacordos profundos...mas é também ser-se mal lido. ..."

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Georg Trakl



Poeta expressionista de origem austríaca, Georg Trakl (1887-1914) nasceu em Salzburgo e veio a suicidar-se, depois de experiências traumáticas na frente da I Grande Guerra que levaram a que fosse internado, com profunda depressão, no hospital de Cracóvia. A sua poesia é complexa e difícil, embora muita rica nas sugestões que provoca. É considerado uma figura cimeira da poesia expressionista da língua alemã. Traduzimos de Georg Trakl o poema "An die Schwester (Para a Irmã)".

Para onde fores é fim de tarde e Outono,

Presas azúis selvagens se transformam

no arvoredo, único lago ao entardecer.


O voo dos pássaros ouve-se baixinho,

A melancolia desce nos teus olhos.

O teu sorriso escasso que murmura.


Deus franziu as tuas pálpebras.

Estrelas procuram noites, Criança

De sexta-feira santa, a tua fronte curva.


Nota: tradução conjunta de HMJ e APS.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Lisboa, séc. XIX, alguns números



Do livro "Reinado Florescente" de Eduardo de Noronha (1859-1948) retirei alguns excertos, estatísticos e curiosos, que se seguem, sem comentários.

"Em 1815, cruzavam a capital trezentas e cinquenta e uma ruas direitas, duzentas e quinze travessas, sessenta e cinco calçadas, cento e dezanove becos, quarenta e oito largos e doze praças iluminadas. (...) Em finais de 1864 havia em quatro bairros [?] de Lisboa 169.823 pessoas, sendo 84.924 do sexo masculino e 84.899 do sexo feminino. Dos 169.823 eram solteiros, homens: 53.815; mulheres: 50.533. Casados, homens: 29.659; mulheres: 21.515; viúvos, homens: 4.400 e mulheres: 12.851. De catorze a trinta e cinco anos existiam 19.968 mulheres. (...) Dessedentava-se a população em cinco poços e vinte e cinco chafarizes, que empregavam dois mil quatrocentos e oitenta e três aguadeiros e outros tantos barris. (...) Em 1871, as trinta e quatro freguesias de Lisboa formavam uma população de 155.246 pessoas. A freguesia mais populosa era Santos-o-Velho com 12.271 habitantes. (...) A população no continente do reino e ilhas adjacentes, em 1868, era de 4.360.974 almas, sendo do sexo masculino 1.993.960 e do feminino 2.152.733. Em 1879, a população de Lisboa era de 263.631. Aumentou em catorze anos 35.858. A do Porto era de 108.343 e crescera 19.020."

Nota : alguns números, comparados, e somas de outros, suscitam dúvidas e, talvez, interrogações sobre o rigor e exactidão destes dados...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Torre dos Clérigos versus Torre de Belém



Das tigelinhas, confesso que já não me lembrava, quando mão amiga me mandou, gentilmente, o livro "Heróis à moda do Porto"(seguido do)"Dicionário do Caraças" - Editora lugar da palavra, 2010. São 7 contos tradicionais adaptados à gíria portuense, seguidos de um glossário do calão tripeiro, muito embora algumas palavras, graças à globalização, sejam também usadas em Lisboa, hoje em dia. Do cimbalino ao café expresso, do aloquete ao cadeado já eu estava habituado. Mas um caso há que nunca consegui, cabalmente, esclarecer: o que, em Lisboa, se chama nêspera, chama-se no Norte (e no Porto também)- magnório (ou magnólio). Ora, no Norte, nêspera é um fruto muito concreto, no exterior castanho-chocolate, no interior de massa escura e mole, de sabor pouco definido e relativamente insípido. É um fruto de Outono/Inverno. Em Lisboa não existe ou, pelo menos, nunca o vi à venda. Voltando ao livro, genuinamente tripeiro, passo a transcrever do "Dicionário do Caraças", alguns exemplos que achei mais interessantes, quanto à correspondência ou significado.

"Amassos : troca de carícias; Avião : mulher jeitosa e bonita; Brou : amigo ou irmão; Andar de gunas : andar pendurado na parte traseira do eléctrico; Dar corda aos vitorinos : correr; Jeco : cão; Lafrau : ladrão; Noias todas cegas : ideias malucas; Pipi da tabela : janota; Tigelinha : pastel de nata(pastel de Belém); Trengo : atrasado, atoleimado."

P.S.: Agradecimento fraterno ao António d'Almeida Mattos.

Música e Poesia II : Zorba,o grego

Branco e Negro. Quando o calor do Sul vence o frio do Norte. Ou ainda, reaprender a viver.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Memória 13 : Barcelona




Mais que Gaudí, e em contraste com a estridência de Madrid, a gentil sobriedade das gentes de Barcelona ficaram-me na memória. Bem como descer as "Ramblas" e deparar com o Mediterrâneo, passear pelo "Bairro Gótico" na Cidade Velha, percorrer o fascinante Mercado de la Boqueria, o decadente Raval. Ou, no adro da velha Catedral, ao meio-dia de domingo, velhos e novos descalçarem os "sapatos de ver a Deus", trocarem-nos por calçado mais folgado, fazerem rodas e nós ouvirmos a música e vermos dançar "La Sardana"...

Citações XI : Carlos V



"Eu falo espanhol com Deus, italiano com as mulheres, francês com os homens e alemão com o meu cavalo."

Carlos V (1500-1558)

Salão de Recusados IX : a palavra "não"



Terrível palavra é o «non». Não tem direito nem avesso: por qualquer lado que o tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lêde-o do princípio para o fim, ou do fim para o princípio, sempre é «non».

Padre António Vieira (1608-1697)


Ao contrário do que diz Vieira, o «non» não é "terrível ". É uma palavra inteira, acabada, por qualquer lado que se tome. Mais brilhante que a afirmação é sempre a negação. Porque a negação é a afirmação que pára no limite dos riscos.

Vergílio Ferreira (1916-1996)


Ao homem restam sempre dois direitos: o direito de dizer não e o direito de se ir embora.

[citado de memória] Albert Camus (1913-1960).

domingo, 14 de fevereiro de 2010

São Valentim



São Valentim, que aparece acompanhado por Santa Úrsula no quadro reproduzido acima, terá sido queimado por ordem, e no tempo, do imperador romano Cláudio II, no séc. III. Santa Úrsula, patrona da cidade de Colónia (Alemanha), foi morta pelos bárbaros - segundo hagiografias - no séc. IV. Na parte inferior do quadro surge um menino que seria epiléptico. É possivel, por isso, que algum dos Santos fosse invocado em relação, também, à epilepsia.

Biblioteca Infanto-juvenil II: Tamanhos.Colecções



A bibliografia, quando associada a uma genuína bibliofilia, encontra sempre novos desafios, são os desvios por "semideiros escusos", no caminhar pela direita estrada, que nos aproximam de novos achados bibliográficos.
Iniciaremos, pois, a passagem por atalhos da literatura infanto-juvenil, começando por colecções minimalistas, no caso presente, de medida 73 x 58 mm, ou seja, o tamanho aproximado de um maço de tabaco tradicional português.

Apresenta-se a Colecção Tonecas, desconhecida dos catálogos electrónicos da BNP e PORBASE consultados.

Conforme o registo reproduzido, a colecção completa teria, ao todo, 68 títulos, conservando-se com ligeiras falhas, nomeadamente a partir do nº 39, na colecção particular de APS.

A problemática da conservação deste tipo de impressos - como no passado as cartilhas, folhas volantes e quejandos - obriga-nos, portanto, a um registo para as gerações vindouras.
As imagens sugestivas dos "voluminhos" incluem, ainda, um desvio pela edição de textos da "história pátria". Ao todo representam um imaginário que se destinava a construir um universo vivencial orientado por uma dicotomia do bem e do mal.

Custavam entre "40 e 50 CTVS".

Boas leituras !

Post de HMJ

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Simenon




Nascido em Liége, na Bélgica, a 13 de Fevereiro de 1903, Georges Joseph Christian Simenon veio a falecer na Suiça (Lausanne), em Setembro de 1989. Em 1922 fixa-se em Paris, como jornalista, chegando a entrevistar, na Turquia, Trotsky. Começa a intensificar a sua carreira de romancista. Entre 1945 e 1955, viveu nos Estados Unidos da América e, daí, o chamado ciclo de "romances americanos"muito prolífico, aliás. Simenon foi um grande criador de ambientes em tudo aquilo que escreveu; e as suas personagens, muito marcadas, são construídas, na sua obra, através de pequenos gestos que fazem, curtas frases de diálogo, apontamentos indirectos e, raramente, por descrições físicas ou psicológicas, ou adjectivos. O caso do inspector Maigret é um bom exemplo disso, nos 84 romances em que é a personagem principal. As histórias em que entra Maigret tiveram tanto sucesso que subalternizaram, injustamente, os chamados romances "duros" de grande qualidade, também, de que destaco, entre outros: "La neige était sale" de 1948, "Tante Jeanne"(1950) e "Le Président"(1958); ou ainda "La Maison des sept jeunes filles" que é um hino de alegria e frescura na arte de contar.

O primeiro Maigret foi editado em 1931, "L'affaire Saint-Fiacre", e o último, "Maigret et Monsieur Charles" (1972). Pelo meio ficou "Les Mémoires de Maigret", de 1951, brilhante exercício de estilo e desdobramento psicológico em que o célebre inspector pretende corrigir,com benevolência, as imprecisões do seu autor - Simenon. A quem tiver capacidade para digerir obras pesadas, no seu duplo sentido, (e ainda não conheça) aconselho, vivamente, a ler as "Mémoires intimes"(1978), escrito por Georges Simenon após o suicídio da sua filha Marie-Jo. E também a magnífica "Lettre à ma mére", de 1974, escrito três anos depois da morte de sua mãe, em Liége. É um livro-testemunho, de grande qualidade literária, em que o escritor trata e tenta clarificar, através da memória, as suas relações mãe-filho, ao longo da vida ("Nous ne nous sommes jamais aimés de ton vivant, tu le sais bien. Tous les deux, nous avons fait semblant...").

Simenon é um dos meus autores de referência. Nunca me cansei de o ler, ou reler.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Carnaval, Minho, ano 49



O Carnaval seguia, dentro de momentos, para "esta lavradeira minhota". E a réstia dos alhos, ao pescoço, até podia dar para afastar os vampiros...

Favoritos VIII : a elegância de Bergson



Não tenho ouvido, ultimamente, falar de Henri Bergson (1859-1941). A sua obra mais conhecida, "Le Rire", foi para mim, um livro muito gratificante. Pela finura do seu pensamento, pela elegância da sua escrita. Vou relembrar o seu início:

"Que significa o riso? O que é que existe no interior do risível? O que é que podemos encontrar, de comum, entre o esgar de um palhaço, um jogo de palavras, um "quiproquo" de revista, uma cena subtil de comédia? Que destilação nos dará a essência, sempre a mesma, a que tantos produtos diversos nos levam, pelo seu discreto aroma ou através do seu delicado perfume? Os maiores pensadores, depois de Aristóteles, abordaram este pequeno problema que sempre se desvanece perante o esforço, desliza, escapa-se, volta a surgir, como um impertinente desafio lançado à especulação filosófica..."

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sylvia Plath



Sylvia Plath (1932-1963) suicidou-se faz, hoje, 47 anos. Nasceu nos Estados Unidos da América e cedo começou a escrever. Excelente aluna - embora sujeita a depressões profundas que a levaram a uma primeira tentativa de suicídio, ainda na adolescência -, obteve uma bolsa de estudo para frequentar Cambridge. Aí conhece Ted Hughes (1930-1998), poeta inglês, com quem vem a casar em 1956. Com 2 filhos, separam-se em 1962. A 11 de Fevereiro de 1963 suicida-se na sua casa de Londres. Para os admiradores de Sylvia Plath, a figura de Ted Hughes é controversa, nomeadamente, por ter censurado alguns inéditos da ex-mulher, aquando da sua publicação póstuma. A poesia de Sylvia Plath, muito densa e sugestiva, tem uma grande riqueza de temas que vão dos mais intimistas aos panteístas, sempre dominados por grande tensão expressiva. Traduzimos o poema " A Better Ressurretion" em seguida:

Não tenho juízo, nem palavras, nem lágrimas;

O meu coração como se fora uma pedra

Está blindado contra medos ou esperanças;

Olho à direita, olho à esquerda, vivo só;

Os meus olhos erguem-se, mas sombrios de dor

Por não ver mais as colinas infinitas;

A minha vida é como a folha caindo;

Jesus, apressa-me.

Enjoo de Papa


Do livro "Reinado Florescente" de Eduardo Noronha (1859-1948), editado pela J. Romano Torres & Cª(1928?), e em que o autor refere várias histórias ocorridas e balizadas pelo reinado de D. Luís (1838-1889), vou transcrever um excerto, que achei curioso e bem humorado, sobre o Papa Leão XIII (1810-1907), conservando a ortografia original:

" O pintor francez Chartran fez o retrato do pontífice Leão XIII. Relatava, a propósito desse trabalho, o seguinte: No decorrer de uma sessão veem prevenir o Padre Santo que uma peregrinação o espera, que traz dinheiro e pede para o ver. Leão XIII desce e Chartran segue-o. Quando volta para continuar o retrato, o artista não se pode conter e diz: - Vossa Santidade foi admirável; o seu gesto para abençoar essa multidão, soberbo. Como eu desejaria pintá-lo assim com os dois braços estendidos e com a cabeça erguida, com os olhos no céo.

O papa não responde, mas coloca-se em frente dum grande espelho que ornava a sala. Estende os braços como se lançasse a benção, ergue a cabeça, fita o olhar no tecto e, em seguida, com voz doce, em francez, commenta:

«- Oui, je suis pas mal ainsi!»

Chartan teve outra ocasião de se entusiasmar. Viu o papa na «Sedia gestatoria», passeado por quatro homens, em volta de S. Pedro.

- Ah - declara no dia seguinte o artista a Leão XIII,- que espectaculo maravilhoso me proporcionou Vossa Santidade! Sentia-me profundamente impressionado com o grande acto que realizava! O rosto de Vossa Santidade estava lívido, tão branco como o seu hábito branco. Essa palidez era dum efeito grandioso. Exprimia tudo quanto se passava no espírito de Vossa Santidade. O papa retorquiu, também em francês:

«- Quand on me prómene comme ça, ça me donne le mal de mer. J'ai envie de vomir. Alors je deviens trés pâle.»

P.S.: o nome correcto do pintor é Théobald Chartrand (1859-1948), retratista francês muito popular na época. Retratou além deste Papa, Victor Hugo, Garibaldi, Verdi e Gounod.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Eugénio de Andrade : Carta inédita








Apenas uma breve nota. Quando Eugénio de Andrade (1923-2005) escreveu esta carta, revia as provas do volume "Poemas" da Portugália (Colecção Poetas de Hoje, nº23) que veio a sair em Novembro de 1966. Tinha 43 anos. O poema de que ele fala veio a ser publicado por mim no "DL-Juvenil", com o título "Limão". Juan Ramón que ele refere é, obviamente, Juan Ramón Jimenez (1881-1958), prémio Nobel de 1956.


P.S.: Este é o centésimo "post" de Arpose. Quis preenchê-lo com algo de precioso para mim - esta carta inédita manuscrita de Eugénio de Andrade. E, também, para a partilhar e dedicar a Todos os que...


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Goya visto por Juan Ramón Jimenez






Não sou um admirador incondicional de "el Sordo", mas sou um indefectível leitor de Juan Ramón Jimenez (1881-1958). Dito isto, acho que vale a pena compartilhar algumas notas do Poeta sobre Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828). Em tradução livre que fiz, aqui vão:


"Para além de ser um dos três grandes pintores espanhóis, Goya é o primeiro inglês. Passou, de raspão, pela pintura inglesa e recebeu de maneira surpreendentemente espanhola o que devia ficar. Diz-se que a pintura de Goya é delgada. (...) A retórica do Renascimento. Perfeição. A outra margem: os primitivos. (...) Sabe da perfeição, mas desdenha-a. Goya, o democrata. A sua ternura pelo aristocrático é como a de um homem do povo pelo rei: compaixão e ternura pelo que é débil. Perdão cheio de harmonia e ternura. Pinta sorrindo sempre: de amor, de ironia ou de pena."

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Memória 12 : Carmen Miranda


Amanhã, 9 de Fevereiro, completam-se 101 anos sobre o nascimento de Carmen Miranda (1909-1955) numa pequena freguesia de Marco de Canavezes. Fez carreira de sucesso no Brasil e Estados Unidos da América. Antes de Amália Rodrigues foi a cantora de origem portuguesa mais conhecida, universalmente.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Mercearias Finas 2




A Bélgica está-me sempre associada a boa comida e a bons vinhos, embora os não produza. Importa, normalmente, brancos da Alemanha e tintos de França. Além disso, a Bélgica tem uma das cidades europeias de que eu mais gosto: Gand ou Gent. Para além da gastronomia belga ser de grande qualidade, os temperos são utilizados de forma sábia e bem doseada. A dominação espanhola deixou marcas na alimentação, neste caso, de forma positiva. Mas a criatividade belga é infinita. Bastará falar de banda desenhada, cervejas (uma variedade enorme) e de Georges Simenon (mais de 300 romances) que nasceu em Liége ou Lüttich. Por outro lado, tenho a sorte de ter família belga, por afinidade. Moram em Antuérpia. A Rosane, além de ser uma excelente cozinheira, muito criativa, faz uma sopa de peixe, "zucchini" ou aipo, com queijo "Boursin" que é um espanto!...

O Gerhard, por sua vez, deu-me a conhecer um vinho tinto francês desconhecido por mim: o Châteauneuf du Pape que é produzido numa área restrita, entre Orange e Avignon. As castas preferenciais usadas neste vinho são a Grenache e a Syrah, entre outras. É, habitualmente, um vinho de guarda: 5 a 20 anos. Os anti-Papas de Avignon eram abastecidos (a partir de João XXII) deste vinho que é conhecido desde o século XIII. É robusto (como os nossos do Douro), mas macio e tem um aroma inconfundível - da casta Grenache, creio -, e vai lindamente com assados, caça ou com um bom queijo da Serra português. Quando há, no "Intermarché", e passe a publicidade, custa à volta de euros 10,00. Mas há marcas do Châteauneuf du Pape muitíssimo caras, também. As garrafas têm sempre no rótulo, ou gravadas no vidro, as armas-brasão do Papa.

Música e Poesia I


Há duas razões, pessoais, para este "post": a primeira é um verso de Keats, no início do seu poema incompleto "Endymion" - "A thing of beauty is a joy for ever (Um momento de beleza é uma alegria eterna)"; a segunda razão é o facto referido de que o Papa Pio XII, ao morrer, pediu para ouvir este "Allegretto" da 7ª Sinfonia de Beethoven. Jorge de Sena refere o caso num dos seus poemas, também.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Bibliofilia 6 : "Luzes da Poesia..."






Manoel da Fonseca Borralho (1661-1731) nasceu em Santarém e era "perito nos preceitos da gramática latina, e nas regras da poética", segundo Inocêncio (Tomo 5, pág. 435). "Luzes da Poesia descubertas..." editado em Lisboa, em 1724, é uma espécie de vade-mécum - excepto no formato - das regras da poesia barroca. Inocêncio refere, também, que é "livro não muito commum, do qual comprei um exemplar por 480 réis."


O exemplar que possuo, comprado em Lisboa por volta de 1990, por Esc. 4.500$00 (cca. euros 22,50), está completo, em razoável estado de conservação, embora com vestígios de traça que não afectam o texto.


No próximo dia 17 de Fevereiro será leiloado um exemplar desta obra pela Livraria Antiquária do Calhariz (Leilão 74, lote 139), tendo uma estimativa de venda de euros 50/100,00.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

William Blake : poeta iluminado


William Blake (1757-1827), gráfico, autodidacta, místico laico e visionário, poeta e criador do, porventura, mais célebre poema da língua inglesa ("The Tyger"), foi redescoberto, após um certo apagamento literário, pelos "pré-rafaelitas" britânicos, mercê das geniais gravuras que produziu para ilustrar os seus livros. Só para o poema referido acima, Blake fêz três desenhos diferentes em que o tigre aparece com um "rosto" afável numa, indiferente noutra, agressivo e feroz na terceira versão. É um poema misterioso, este, até pelas inúmeras interrogações (14) que coloca, sem dar respostas. Traduzimos "The Tyger", sem rima, tentando ser mais fiéis ao Autor. Na dúvida sobre as 3 ilustrações de Blake, optámos por uma quarta, mais actual, obra de Júlio Pomar.

Tigre! Tigre! incandescente
Pelas florestas da noite
Que olhar ou mão vai domar
Tua feroz simetria?

Em que vales, remotos céus
Arde o fogo dos teus olhos?
Em que asas se projecta?
Quem circunscreve o teu fogo?

Em que ombro e de que forma
Forçará teu coração?
E se mesmo assim bater
Quem o trava? Pé ou mão?
 
Que martelo? Que correntes?
Em que fornalha o teu cérebro?
Que bigorna? Que prisão?
Afronta o terror mortal?

Lancem estrelas seus raios,
E do céu húmido lágrimas,
Vai sorrir ao ver a obra
Que criou: Cordeiro e a ti?

Tigre! Tigre! incandescente
Pelas florestas da noite
Que olhar ou mão vai domar
Tua feroz simetria?

Biblioteca Infanto-juvenil I : A carochinha



Em almoço de amigos, ontem, vieram à baila as nossas primeiras leituras. O primeiro livro que eu li - tinha seis anos - reproduzo-lhe a capa, para que conste. E devo confessar que me demorou 3 dias e, no final, tinha lágrimas nos olhos. Não de comoção, mas do esforço visual a que não estava habituado.

P.S.: dedicado, com afecto, a HMJ.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Tomaz de Figueiredo



Nunca lhe falei, mas ouvi-o de perto - voz rouca ou áspera, rosto queimado ou moreno intenso. Ao fundo, no canto esquerdo, depois do jantar ia tomar o café à "Pastelaria Ceuta", na Avenida da República: Lisboa, anos 60. Esperava ou esperavam-no a Maria do Céu Guerra (1943), ainda não conhecida como actriz, e o Mendes de Carvalho (1927-1988), poeta já publicado. Ela sardenta (?), ele, de barba cerrada e pele muito branca, contrastavam com o moreno acentuado de Tomaz de Figueiredo (1902-1970) e por lá ficavam discreteando, mais o escritor do que o casal jovem que lhe fazia companhia. Verdadeiramente, só o li mais tarde, a este bracarense ilustre que vem da linhagem de um Camilo e de um Aquilino, embora menos dotado, mas com o mesmo amor à língua portuguesa. Por isto se me fêz referência incontornável, com os seus profundos conhecimentos do linguajar minhoto, a mim que o sou apenas de adopção. De Tomaz de Figueiredo, ao "Nó Cego" e "Dom Tanas de Barbatanas", prefiro, sem dúvida, os contos de "Tiros de Espingarda" ou o inclassificável, mas bem pitoresco "Dicionário Falado" em que, através das memórias minhotas da infância, vai explicando termos e palavras (quase) perdidos no tempo. Para se ver - quem não conheça - o estilo do Autor, aqui vai um "cheirinho" do "Dicionário Falado", publicado postumamente em Dezembro de 1970.

"Neste caso, o que nem sempre acontece, a razão da palavra entende-a à primeira todo o provinciano, maiormente caçador, se lhe forem os cães companhia, tanta vez derradeira família, de quem já só receberia amor.

Visual e sonora, vem a razão do beber dos cães. Língua de fora, lingua de colher, lape-lape, «lapam» os cães, em três tempos, um panelão de caldo. Para «lapar», com a sabida fome canina, eles! E até o que nem se esperaria «lapam», os «lapadores»!

Da canzoada lá da minha casa constou um diabo de cão, linda pinta, espetada orelha, pelagem de avelã, mas um morcão, um pastelão, que só comia, dormia e amava, que apenas para ofício de corpo presente levávamos ao monte. Maus narizes decerto: a esgana, em cachorro, lhos secaria, coisa de que desconfiava o «Marquês», curador de gado e outros animais, que, com o Armada, o Tinente e o Mata-Leões, também desfechava a escopeta de fósforo em coelhadas pelas bouças da Toca..."

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Em louvor da Calhandra


Não é todos os dias que tenho o grato prazer de me deparar com uma palavra desconhecida ou nova para mim. Da calhandra sabia eu que era uma pequena ave da família da cotovia. E, não sendo muito frequente em Portugal, pode encontrar-se na Beira Interior e no Alentejo. No entanto, e segundo o Dicionário de Houaiss, calhandra pode ser também: "mulher pouco asseada". Calhandro, além de ser o macho da calhandra, é, simultaneamente, "vaso grande onde se colocam dejectos e águas sujas"(vulgo, penico). Ou seja, calhandrice é, à partida, uma palavra inquinada, embora possa ser apenas, e volto a Houaiss:"sucessão de intrigas, boataria, falatório".

A simples palavra lacão pode ser "presunto ou pernil de porco" e ainda "habitante da Lacónia"; finalmente o vocábulo crespo pode ser sinónimo de "agitado, encapelado,eriçado", mas, segundo Houaiss, pode também significar: "indecente, indecoroso e escabroso". Parece que, por mais voltas que demos, nos aproximamos sempre da escatologia que, por sua vez, também tem 2 significados distintos, no Dicionário de António Houaiss...

No meio destas traiçoeiras ambiguidades da língua portuguesa, louve-se a calhandra que não tem culpa nenhuma destas calhandrices. Que ela possa continuar a voar, livre e ligeira, nos céus de Portugal!

Memória 11 : Jacques Prévert



Surrealista independente, quase sempre com um olhar endiabrado sobre as coisas e os animais a que não faltava uma certa ternura compassiva, Jacques Prévert nasceu a 4 de Fevereiro de 1900 e morreu 77 anos depois, em Abril. Foi um poeta extremamente popular, não só em França ("Rappelle-toi Barbara / Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là..."), escreveu muitos argumentos para realizadores franceses (Autant-Lara, Marcel Carné...), e "Les Feuilles Mortes" proporcionou uma canção célebre de J. Kosma.

Que restará hoje, em França, da memória deste homem? Já não é, com certeza, o autor de culto que foi nos anos 50/ 70 do século passado. Ainda é editado e lido?

Lembro-o com o pequeno poema intitulado "O Grande Homem":


"No gabinete de provas do alfaiate de pedra

onde o encontrei

ele tirava as suas medidas

para a posteridade."


Recordo-o, hoje, com a grata lembrança da boa disposição e alegria com que li os seus livros ("Paroles", "Spectacle", "La Pluie et le Beau Temps"...) na minha adolescência.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sobre a criação em Poesia



Thomas Stearns Eliot (1888-1965), norte-americano naturalizado inglês em 1927 e, mais tarde, convertido ao catolicismo, foi um poeta e notável ensaísta. Num estudo importante sobre os poetas metafísicos ingleses, de 1921, incluído depois nos seus "Select Essays", T. S. Eliot diz o seguinte:

"Para Donne, um pensamento era uma experiência, modificava a sua sensibilidade. Quando o espírito de um poeta está perfeitamente organizado para o seu ofício, ele ocupa-se, continuamente, a entrelaçar os dados díspares da sua experiência. Os dados da experiência do homem comum são caóticos, irregulares, fragmentados. Quer ele se apaixone, quer leia Espinosa, estas duas experiências nada têm a ver uma com a outra, ou, pelo menos, não mais que o ruído da máquina de escrever com os ruídos que vêm da cozinha; mas, no espírito do poeta, estes dados reúnem-se sempre para formar uma nova coerência."