sexta-feira, 6 de março de 2015

Não sei se estarei de acordo...


A fazer fé na recensão de Anna Katharina Schaffner, no TLS (nº 5838), ao livro Twee, de Marc Spitz (1969): "Desde a II Grande Guerra, argumenta Spitz, que tem vindo a impor-se uma «revolução suave» nas nossas sensibilidades, estética e gostos, provocada por um ethos de gentileza e uma busca de pureza, num mundo impuro. Sendo inicialmente um fenómeno circunscrito, a estética e a ética dos Twee acabou por infiltrar-se na mainstream do cinema, na moda, literatura, música e alimentação. Spitz define as questões-chave como uma celebração incontestada da beleza, o fetichismo celebrado da infância de par com uma sexualidade cautelosa, bem como a glorificação do estranho e do excêntrico." Daí se explicaria o culto de coisas e pessoas tão diferentes como os Peanuts, o filme "Música no Coração", os livros de Salinger, a slow food, Sofia Coppola, Walt Disney, Anne Frank...
Tenho sérias dúvidas sobre esta tese de Spitz. Se a globalização ajudou imenso a um determinado tipo de padronização de comportamentos, que se podem encontrar tanto na América, como na Europa, não é menos verdade que tem havido - parece-me - uma tentativa deliberada para retardar o crescimento e maturação do ser humano. Através da escola, dos pais, dos meios de comunicação, cerceando-lhe, pela tentação da facilidade rósea e do "conforto" doméstico, a independência desejada e desejável, em nome de um salutar equilíbrio e desenvolvimento. E isto pode observar-se quer na Inglaterra como em Portugal. O império da criança e da juventude acaba por criar, por outro lado, uma vassalagem e uma menoridade mais fácil de manobrar. Perigosa, no entanto, e francamente desequilibrada. Não me parece haver por aqui um progresso, uma "revolução", mas um lamentável retrocesso civilizacional.

5 comentários:

  1. Concordo consigo. Proporcionar mais áreas de interesse e maior facilidade de acesso à informação nada tem a ver com o facilitismo do ensino e a permissividade dos pais.

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    1. Esta cultura do "delicodoce" (à falta de melhor, para traduzir "Twee") não me parece prometer nada de bom. A uma competência precoce tecnológica, das crianças, do nosso tempo, engendra, simultaneamente, uma imaturidade emocional desajustada à idade...

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  2. Os pais bem deviam preparar os filhos para a vida, que não lhes vai ser nada fácil.

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    1. As perspectivas futuras são bem piores do que as que herdámos dos nossos pais..:-(

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