sábado, 31 de março de 2012

Joseph Haydn / Alfred Brendel

Barbosa Machado


Cumprem-se hoje 330 anos sobre o nascimento de Diogo Barbosa Machado (1682-1772), abade de Sever, verdadeiro iniciador e pai da bibliografia portuguesa, através da sua monumental Bibliotheca Lusitana, iniciada em 1741, e composta por 4 grossos volumes. Antes dele houve, é certo, tentativas parcelares ou muito incompletas, mas que ficaram muito aquém do propósito e ambição do projecto, como por exemplo a carta 414 (Cartas Familiares, 1664) de Francisco Manuel de Melo, datada de 24 de Agosto de 1650, escrita da prisão do Castelo de S. Jorge.
Depois de Barbosa Machado, teremos o notável Dicionário bibliographico portuguez, iniciado por Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876), que veio a atingir os 23 volumes, mas que tomou como ponto de partida o trabalho pioneiro do abade de Sever, e o desenvolveu.

Pinacoteca Pessoal 28 : Victor Leydet


Provençal e conterrâneo de Char, pelo nascimento que não pela época, Victor Leydet (1864-1904) nasceu em Isle-sur-la-Sorgue. A sua pintura denuncia pelo traço definido o autor de cartazes que também foi. O movimento dinâmico e decidido dos operários, de costas, contrasta com o olhar melancólico do jovem sobre as águas pressentidas, mas não visíveis. Apenas por esse sinal discreto se pode entender o título deste quadro que Leydet apelidou de "O Desesperado". O quadro, que se manteve na posse da família Leydet, a partir de 1986 integra o acervo do Palácio Roure, em Avinhão.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Revivalismo Ligeiro LXX : Spencer Davis Group

A este sucesso musical dos anos 60, associou-se-me depois na memória, indelevelmente, anos mais tarde, a cena rocambolesca e divertida do filme "Notting Hill", em que um livreiro tímido (Hugh Grant) e apaixonado, juntamente com a família e amigos, num pequeno carro, inicia uma frenética e trepidante viagem pelas ruas de Londres. Para tentar reencontrar "Pocahontas" (Julia Roberts), antes que ela abandone, definitivamente, a Inglaterra.

Fraquezas humanas


Francamente, não sei se ainda terei parede onde possa, condignamente, expôr esta curiosa gravura francesa do séc. XVIII. Recém-pousada, pelo alfarrabista, na mesa de exposição e venda, hoje, desde logo me tentou. Sobretudo pela expressão do rosto que permite, à imaginação, mil e uma interpretações possíveis...Perguntei o preço: era módico, possível para o meu bolso, nesta altura do mês. E não resisti a comprá-la...Tentarei, agora, ver, onde a posso colocar. Mas, desde já, a partilho, aqui no Blogue, com os meus amigos, seguidores e até anónimos visitantes ocasionais. Espero que gostem dela, tanto como eu gosto.
Em prol da completude, aqui fica a citação, em francês, que vem a seguir ao nome de Demócrito:

Joyeux Censeur, je m'aperçois
Que tu veux compter par tes doigts
Les extravagantes saillies
Les égaremens les folies,
Qui regnent parmy les humains;
Mais tous les efforts seront vains,
Aucun nombre n'y peut suffire;
Crois-moy, contente-toy d'en rire. 

Produtos Nacionais 6 : Vinho do Porto


Localizada a sua existência a partir do séc. XVIII, o Vinho do Porto (ou Vinho Fino, assim chamado quando era produzido em quintas particulares, e não comercializado) é, seguramente, o produto português mais célebre e mais conhecido, mundialmente. No entanto, a partir da segunda metade do séc. XIX, a filoxera (insecto hermafrodita, muito nocivo às cepas de uvas) começou a infestar os vinhedos da Europa, destruindo-os, gradualmente. No Douro, a filoxera foi localizada, pela primeira vez, em Sabrosa, por volta de 1860, alastrando por toda a região, progressivamente, e estendendo-se a todo o Portugal vinhateiro. Sobretudo no Douro contribuiu para a ruína do negócio e dos produtores do Vinho do Porto. Apenas uma parcela da Quinta do Noval foi poupada ao flagelo, mantendo ainda hoje as chamadas vides pé-franco, ou seja, não enxertadas em cepas norte-americanas, que são mais resistentes à filoxera. Daí que os Vinhos do Porto desta quinta sejam mais apreciados, embora escassos, e mais caros.
Para os apreciadores do famoso néctar dá-se, em imagem, uma lista das colheitas dos últimos 108 anos, com a respectiva classificação de qualidade (pena que seja em inglês!...).

Paul Verlaine (1844-1896)


O tempo parece ter-se curvado à memória de Verlaine, pela passagem do dia do seu aniversário: 30 de Março de 1844. Cessaram os dias luminosos de quase todo o mês de Março, para convocar o início do conhecido poema simbolista que diz:

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?

Filatelia XXXVII : Circulação de 1º dia


Como se sabe, celebram-se este ano os 250 anos do nascimento de Marcos Portugal, compositor português. Pelo facto, ocorrerão algumas iniciativas culturais, nomeadamente, na Biblioteca Nacional de Portugal, uma exposição alusiva. Também os CTT fizeram sair uma série filatélica para comemorar a efemeride, com início de circulação a 27 de Março de 2012.
A peça filatélica, em imagem, tem uma particularidade que a torna rara: é, provavelmente, uma das apenas 4 que foram expedidas da BNP, com a data de circulação do 1º dia, em envelope da ilustre Instituição.

com os melhores agradecimentos a JAD.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Joan Cabanilles (1644-1722)

Alguns versos de "Filodemo", de Luís de Camões


"...Irei mas não por jantar
que quem vive descontente
mantém-se de imaginar.

Pois também co'as minhas dores
me não deixam comer pão
nem come minha afeição
senão sopadas de amores
& mil postas de paixão
das lágrimas caldo faço
do coração escudela
esses olhos são panela
que coze bofes & baço
com toda a mais cabidela. ..."

Nota : procedeu-se a pequenas actualizações ortográficas.

Apontamentos da Baixa


1. Duas orquestras romani, pelo menos, e ainda mais um solista romeno, plantam-se a tocar nas várias esplanadas da Baixa, frente aos turistas estrangeiros. Os "camones" e os "bifes" hão-de pensar que são músicos portugueses, assim tostados de pele; e os temas, dos anos 50 e sul-americanos, se calhar, serão tidos como folclore musical português... É curioso que não haja orquestras portuguesas a fazer o mesmo, para ganhar uns cobres.
2. De novo, e já há dias, avariado mais um lanço das escadas do Metro (Est. Baixa-Chiado). Nem o mecenato da PT blue station (a quem eu daria o 1º prémio da estupidez saloio-criativa, pelo nome) conseguiu alterar o estado de mau serviço da empresa de transportes lisboeta. Os administradores vão ser reduzidos, com a junção Metro/Carris. Também, para o que fazem... ou nem fazem.
3. No Solar dos Presuntos, mantém-se o anúncio do "Mês da lampreia", nas suas duas modalidades mais conhecidas: à bordaleza, e arroz da dita. Este ano, decerto, vou deixar passar... Lembro-me, no entanto, de uma das melhores que comi, até hoje: Costa da Caparica, n'"O Capote", Fevereiro de 1984. Saborosíssima.

A explicação das cores - Vincent van Gogh


Passa amanhã mais um aniversário do nascimento de Vincent van Gogh.
Os seus quadros de interiores têm, quase todos, uma tensão muito acentuada pelas cores que o pintor holandês utiliza, mas neste "Café nocturno, na rua Lamartine, em Arles" essa expressividade é ainda mais notória. Em abono desta afirmação, vamos transcrever duas explicações do facto, em si. A primeira, consta  da biografia de van Gogh, da autoria de Steven Naifeh e Gregory W. Smith; a segunda, de uma carta escrita pelo pintor ao seu irmão Theo. Como se segue:
1. " Vincent...tentou captar em cor e no quadro o sentimento de isolamento e marginalização que encontrava ali. Fosse qual fosse a cor que (o proprietário) Ginoux tivesse escolhido para o interior do seu bar, Vincent viu somente a dor do vermelho e do verde. Do vermelho-sangue das paredes até ao jade do tecto, da malaquite da mesa de bilhar até à sua sombra vermelho-alaranjada, do suave «verde Luís XV» do balcão do bar até ao delicado colorido do cravo das flores, insólito, e cada canto da sala foi refractado pelas «lentes» de Vicent transmitindo uma visão de tormento interior..."
2. Na carta ao irmão Theo, van Gogh refere: "Na minha tela...tentei exprimir a ideia que o café é um lugar onde qualquer um se pode arruinar, enlouquecer, ou cometer um crime. Por isso tentei expressar, como era, o poder das trevas num local público de baixa qualidade, através do macio verde e malaquite Luís XV, contrastando com o verde-amarelo e os ásperos verde-azúis, e toda aquela atmosfera de fornalha do diabo, de pálido sulfúreo."

Mata-borrões 3


Fósseis de um passado ainda recente, auxiliares imprescindíveis da escrita a tinta, actualmente, escassa e cada vez mais rara, os mata-borrões tinham um papel importante e um lugar útil nas secretárias de escriturários e de escritores. Hoje, serão talvez um anacronismo, mas agradável de recordar. Apareceram em muitos romances policiais para detectar e reconstituir mensagens desaparecidas, através do seu reverso e, assim, resolver mistérios complicados.
Este mata-borrão, na imagem, foi oferecido por um laboratório a um médico, que não chegou a usá-lo. O verso, absorvente, está ainda imaculado. E, provavelmente, nunca virá a ser usado.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A subtil burocracia da ditadura


Será para isto que serve a Polícia, numa democracia? Entre os bastões contra jornalistas e as minudências burocráticas, a PSP - estes homenzinhos e mulherzinhas fardados - ali pela "Brasileira", ou brincando nas "segways" ou trotinetas que não tiveram em pequenos, vão, abjecta e cegamente, cumprindo os desígnios de uma crescente ditadura dissimulada e encomendada de cima.

Beethoven / Kempff

Um fragmento de Nelly Sachs (1891-1970), em terceira voz


Tu és o adivinho dos astros
Seus segredos se libertam do teu ser invisível
Luz de sete cores dum sol velado.
Já o dia e a noite estão perdidos
E de novo se aproximam, por entre as bandeiras da verdade,
Confissões submersas de vulcões sob os meus pés -

Nota: a tradução foi feita da versão francesa de Martine Broda.

A estreiteza das definições


Face à pergunta: "que coisa é a poesia?", Jacques Derrida (1930-2004) enumera duas questões essenciais - a economia da memória e o coração. Muito embora "coração" vá num sentido de ambiguidade ou duplo no significado: saber de cor, e afecto. Depois, o filósofo francês gasta mais três páginas tentando, infrutiferamente, definir Poesia. Retenho, no entanto, o que ele começa por referir, para explicar a "economia da memória", mais concretamente. Diz Derrida: "um poema deve ser breve, por vocação elíptica, qualquer que seja o horizonte objectivo ou aparente."
Não lhe gabo o esforço, porque a poesia é um espelho de muitas faces.

Conglomerados


Mais do que centenária, porque foi fundada em 1876,  a editora francesa Flammarion que, desde 2000, pertencia ao grupo italiano Rizzoli, está de novo à venda. Lá, como cá...
Anote-se, como curiosidade, que o seu último best-seller foi  Je suis faite comme ça, livro de memórias de cantora Juliette Gréco.

terça-feira, 27 de março de 2012

Para uma noite primaveril

Um postal quase centenário


O postal, embora de origem norte-americana, teve circulação, pelo carimbo do verso, em Portugal, no mês de Fevereiro de 1918. A imagem pertence (nº 35) a uma colecção de aguarelas de "Twelvetrees" - pseudónimo, com certeza. Impressa pela Edward Gross Co., NY.
O mais que posso acrescentar é que foi enviado (do norte?), por uma tal Inês, para um senhor Marçal Pacheco que morava em Lisboa, na Praça do Rio de Janeiro, nº 23. A Inês, pela missiva, estava com saudades do Marçal, e manda-lhe um abraço apertado.

Astrologias (11) : Áries/Carneiro


Corajoso até à extrema temeridade, entusiasta, estimulante mas impaciente, egocêntrico, mas generoso, o  nativo do signo de Carneiro tem, em si, enormes potencialidades humanas, contudo necessita de grande disciplina e perseverança para as usar, objectivamente, e não as delapidar por múltiplos projectos e coisas inúteis. Para ele, o amor é uma espécie de guerra, afectuosa (Jacques Brel).
Bem sucedido em muitas artes (Haydn, Zola, Van Gogh, Goya, Descartes) é, provavelmente, o pior mentiroso do Zodíaco, devido à sua espontânea franqueza, e a alguma ingenuidade natural. Políticos competitivos (Bismarck, Nikita Krushchev, António de Spínola), detestam perder. Bem como costumam desprezar, radicalmente, a astrologia pelo determinismo que, à partida, comporta e que eles, natural e visceralmente, rejeitam. Um dos maiores mágicos de sempre, era do signo de Áries: Harry Houdini. Normalmente bem sucedidos na 7ª arte (Charlie Chaplin, Bette Davis, Marlon Brando, Francis F. Coppola), são também deste signo alguns ilustres escritores (Verlaine, Gorky, Almada Negreiros). O nosso rei D. Pedro I e o seu filho natural, D. João I, que iniciou a dinastia de Aviz, eram também nativos do Carneiro, que tem Marte por patrono.
Cidades sob a sua influência: Birmingham, Florença e Marselha. Países: Alemanha, Inglaterra e Japão.

Johann Stamitz (1717-1757)

EDP - Aviso de Insegurança

Segundo a máxima: "quem te avisa, teu amigo é", lanço um aviso de insegurança relativamente ao serviço - "competentíssimo" - da edp.pt, designadamente o envio de facturas electrónicas.
Sucede que o envio vem acompanhado de um vírus informático "Trojan horse". Além disso, o e-mail do portal do cliente devolve as queixas, vão para o lixo do "mailer do demónio" e a página principal do Senhor Mexia está inacessível !
Ora, para quem ganha 300,00 euros/hora, como parece que o dito senhor recebe, o preço de mercado está mal calculado em virtude da insegurança dos serviços prestados. Basta dizer que, até hoje, foi o primeiro "cavalo de Tróia" informático que me ameaçou, vindo directamente de uma empresa de referência (!).
Como nota final, sublinho que não tenho inveja dos "patacos". Tenho, isso sim, uma enorme estima por todos aqueles que se dedicam ao progresso da Humanidade e desejo que se lhes reconheça o devido valor.
Com efeito, não costumo confundir o "preço de mercado" de determinadas criaturas com valores e princípios. Talvez por isso considero obsceno o preço de 300,00/hora pago a um Mexia ou qualquer outro basbaque, sobretudo quando invadem o meu espaço em nome de um "serviço" que, afinal, é uma ameaça no sentido mais lato.
Post de HMJ

segunda-feira, 26 de março de 2012

Mercearias Finas 50 : vinhos velhos e a mal-amada Baga



Tenho dois amigos que, como eu, apreciam vinhos velhos. Esta preferência tem, no entanto, os seus riscos e é um investimento a longo prazo que, sendo bem sucedido, compensa - e muito.
Duas das castas portuguesas que proporcionam, muitas vezes, longevidade aos vinhos, são a Baga, na Bairrada, e a Ramisco, que está confinada à região de Colares. Mas estas castas autóctones produzem vinhos que, nos primeiros anos, são quase intragáveis - ásperos, amargos, muito adstringentes e fechados no aroma: é preciso ter paciência, esperar e deixá-los, se a colheita foi boa, uns anos na "adega" (garrafeira) a amadurar.
Esta garrafeira magnum (Encosta dos Mouros) de 1997, da Adega Cooperativa da Mealhada (em imagem), com os seus pródigos 13º, foi-se... há dias. Monocasta de Baga, na sua melhor expressão e de um bom ano de colheita, nos seus quinze anos de idade, tinha atingido a maioridade gustativa, e não iria aprimorar mais. Foi sacrificada a um magnífico Queijo da Serra babão, num prandial convívio de 6 amigos. Honra lhe seja: acabou por bem!

Para que conste

É apenas um fait divers, mas sintomático da sabedoria dos americanos, no tocante a Geografia. Eu sabia como é  cândida, um pouco tosca e ignorante a rural alma americana e, às vezes sorria, comovido, pela sua ingenuidade quase pueril.
Acontece que o Arpose teve hoje, e pela primeira vez, uma visita de Chipre, Nicósia, mais concretamente. E o sitemeter americano, em toda a sua candura situou Chipre, e a proveniência da visita, na Ásia...

Balzac


Saíu recentemente, na Pléiade, o segundo dos três volumes da correspondência de Balzac (1799-1850). Graham Robb (1958), que recenseou o livro, no TLS (16/3/2012), achou-o pouco interessante. Justifica-o pelo facto de ser composto por cartas de uma época de febril actividade do escritor francês, que vivia da pena, e que por essa razão o que sobrou, para a correspondência, são quase só banalidades que nada acrescentam, em qualidade literária, ao legado de Balzac.
Mas Graham Robb faz um apanhado (interessante) daquilo que, através da correspondência, é possivel perceber das necessidades mínimas de que o escritor precisava, e do ambiente que desejava, para poder produzir os seus romances. Passamos a citar, traduzindo: "Um lugar tranquilo para escrever; uma casa cheia de belos e caros objectos para «criar um sentido de felicidade e de liberdade intelectual»; café suficientemente forte para manter o fluxo de inspiração durante dois meses; um contrato com cláusulas draconianas que penalizasse duramente os atrasos de pagamentos dos editores; vários lugares e esconderijos onde o escritor se pudesse abrigar dos credores; e um estado de constante excitação romântica, sem excessivos gastos de tempo, ou exigências, por parte desse amor."
Convenhamos que não era pouco...

Um paradoxo de Chesterton


"Um homem de ciência não pretende provar nada. Procura descobrir coisas que se provem por si próprias."
Gilbert K. Chesterton (1874-1936).

domingo, 25 de março de 2012

Béla Bartók (1881-1945) : Sonatina

Salão de Recusados XLII


Teve algum nome e era falado, nos anos 50 e 60 do século passado, este poeta, António de Sousa, nascido no Porto em 1898, e que veio a falecer, quase em clausura, após a morte da Mulher - ao que dizem -, em Oeiras, no ano de 1981. Pertenceu ao movimento literário da Presença, publicou vários livros e traduções, colaborou nas revistas Vértice e Seara Nova.
Em jeito de epígrafe de "Livro de Bordo", o amigo Vitorino Nemésio dedicou-lhe dois poemas, e diz num deles:

Agora, amigo, a morte
Só tem de separar
O que nos nega a sorte
Do que Deus apurar.

António de Sousa está hoje esquecido. São ínvios os caminhos da eternidade literária e as selectas têm de ser restritas, com usura, na memória dos nomes que retêm. Talvez com alguma premonição do esquecimento, António de Sousa escreveu:

Meu coração - velha sanfona rouca -
tudo o que diga é um luar vencido.
O mel de amor amarga-me na boca
e a minha vida é um caminho ido.

Mas a luz não se acaba neste sono,
e a manhã tem a graça do menino.
Que eu chore o meu romance de abandono
- o que importa aos destinos do Destino?

Nota pessoal: faleceu, hoje, com 68 anos, em Lisboa, o escritor Antonio Tabucchi, nascido em Pisa, no ano de 1943. Amigo de Portugal e dos portugueses, o seu desaparecimento é uma grande perda, para nós.


Gostos


Com a velhice, as coisas simples vão ganhando mais valor, muito embora, ao longo da minha vida, a exuberância, a excessiva perfeição, o alambicado quitche e o bonitinho sempre me tenham desagradado.
Na minha modesta opinião, há muito poucos poetas cuja poesia possa acompanhar, integralmente, as idades do Homem: Sá de Miranda, inteiramente, algum Eugénio de Andrade, Yeats, Quevedo, Jimenez e pouco mais.
Na pintura, Angelo e Resende também souberam acompanhar as idades, até pelo seu despojamento característico, numa ascese gradual que quase se diria arte "povera", que também teve as suas épocas de moda.
Em relação à música, de que sou um ignorante amador, diria que o meu gosto tem evoluído ou, simplesmente, se tem modificado. Mantenho o gosto pelos clássicos consagrados e por Liszt mas, nestes últimos tempos, venho gostando cada vez vez mais de Philip Glass e Preisner, de que não gostava, em anos mais tenros. Compositores que, não sendo clássicos, com o tempo, poderão vir a ser considerados como tal. São gostos...da idade.

Philip Glass (1937), da banda sonora do filme "As Horas"

Curiosidades 51 : as medidas do Tempo


Mudou a hora, cresce a luz sobre o dia. Se não estou em erro, esta medida foi tomada, inicialmente, durante a II Grande Guerra, para poupar energia, fazendo coincidir o mais possível, assim, o horário de trabalho e o período de actividade humana com a luz solar.
A contagem do tempo, em Portugal, passou a ter como referência o ano de nascimento de Cristo, apenas a partir de 15 de Agosto de 1422, por uma decisão legislativa do rei D. João I.
Os romanos dividiam os meses em calendas, nonas e idos. Os dias iniciais de cada mês eram os primeiros das calendas. O sétimo dia, era o primeiro das nonas e o décimo quinto era o primeiro dos "idos", nos meses de Março, Maio, Julho e Outubro.
Entretanto, as coisas foram-se simplificando, gradualmente, e estas medidas deixaram de ser usadas.

Técnicas e números


É sabido que, no séc. XX, as técnicas de persuasão política se desenvolveram grandemente e, hoje, há até várias agências que vivem disso, aconselhando temas, táticas e formas mediáticas de exercício para o sucesso de carreiras. É sintomática a expressão, aqui há uns anos, de um jornalista da televisão que afirmou que se poderia "vender" às massas um político, como se promovia e vendia um sabonete, mediaticamente.
Há dias, num zapping entediante pelos diversos canais televisivos, apanhei umas declarações interessantes de um teórico sobre o tema. Dizia ele que, num discurso político, o ritmo do sermão deveria ser entre 140 e 180 palavras por minuto. Menos de 140 palavras, o ouvinte começava a ficar com sono; e mais de 180 palavras provocavam, no auditor, um cansaço progressivo que conduziria à sua desatenção e dispersão.
Acho bastante provável esta teoria e lembrei-me logo de alguns exemplos. Mas também penso que, previamente, há desde logo uma predisposição de cada ser humano, instintiva, de aceitação ou rejeição de uma figura política, quando ela começa a aparecer e crescer como notícia. E, isso, creio que nenhuma agência consegue alterar, de forma radical. Felizmente.

sábado, 24 de março de 2012

Incursões Culinárias 11: Bolachas


Como o prometido é devido, aqui vai a imagem de um livro de receitas inteiramente dedicado à feitura de bolachas. O livro foi-me oferecido a pensar em certos "amiguinhos" que até já têm umas caixinhas próprias para repor o que vai saindo da produção caseira. 
Para MR, reproduzo duas receitas para uma próxima tarde de produção caseira com os "infantes".


A receita de cima, areias, é acompanhada pela foto ao lado. Escolhi a receita em baixo porque dá, como eles dizem, para usar com forminhas.

Post de HMJ, dedicado a MR e os seus "infantes" Michelin

Constatação pragmática da crise


De há um tempo a esta parte, algumas pequenas arribas outrabandistas começaram a ser trabalhadas, quero eu dizer: cavadas e semeadas. Lembram, minimalistas, as margens alcantiladas, em socalcos, do Douro. E estas bermas da estrada, a sul do Tejo, com a Primavera começaram a ficar verdes pelas couves progredindo, a folhagem das favas, os tomateiros ainda insípidos, as alfaces...
Estas pequenas hortas, subtraídas ao poder autárquico que as deixava maninhas, dão um ar útil e pragmático à terra até então desocupada e inútil. As courelas diminutas são trabalhadas, sobretudo, por mulheres africanas, no seu labor sacrificado de horas livres. São raros os homens, são poucos os brancos a aproveitar estas leiras fecundas que o progresso foi inutilizando. Mas, como dizia Garrett, "a necessidade pode muito".

Pelos 250 anos do nascimento de Marcos Portugal (1762-1830)

À margem


Ficar de lado, estar ao lado, pôr-se de lado - não sei optar, preferencialmente, por uma delas, para classificar os que se colocam à margem, por desvio da norma.
Sejam eles, os sem-abrigo ou os serial-killers, seja em Braga, em Oslo ou em Toulouse. Para nossa tranquilidade, poderemos atribuir-lhes uma graduação de loucura. Mais leve ou mais pesada, consoante o isolamento social ou o hediondo dos seus actos. Mas será, com certeza, uma forma simplista de arrumar os factos ou esquecer as origens e razões.
Seja como for, é esta sociedade que os segrega. E o "sistema" que nos rege, que os provoca.

Zbigniew Preisner (1955), novamente

sexta-feira, 23 de março de 2012

Poema inédito de António de Almeida Mattos



Só à beira do abismo a vida faz-se
instante. O tempo corre muito lento.
Na memória do momento o sol promete
um brilho que se teme que arrefeça.
É um aturdimento, quase névoa
por tudo que em esperança se contava.
E depois vem a mão que nos segura.
Pouco a pouco tornamos a correr
à beira-mar e temos horizontes.
Voltamos a sorrir de ser contentes,
acabamos a chorar de gratidão.

Porto, 22/3/2012

para o Prof. Jorge Ferreira.

Em geminação com MR, no Prosimetron


A propósito de pesquisas "arqueológicas" que um ilustre Prosimetronista anda fazendo, pela cidade-berço, MR colocou, no Prosimetron, algumas pistas sobre o local objectivo das consultas (vide: O Tesouro dos remédios de alma- 8). Concretamente, a rica biblioteca que Martins Sarmento doou à Sociedade homónima, sita em Guimarães. Recordo, saudoso, que ainda adolescente me facultaram, na sala de leitura, e com a maior das facilidades, uma primeira edição, seiscentista, de D. Francisco Manuel de Melo, para que eu a consultasse. Foi a primeira vez que tive nas mãos um alfarrábio.
Dá-se, em imagem, neste poste, uma visão evolutiva do edifício próprio da Sociedade Martins Sarmento, com um desenho anterior do local onde foi construído, em 1905. Do lado esquerdo do desenho, pode ver-se ao fundo a torre e Igreja de S. Pedro, no Toural; e do lado direito, apenas a parte superior da torre sineira da Igreja-convento de S. Domingos.

para MR e JAD, cordialmente, e em geminação.

Osmose (31)


De momentos extremos saem, quase sempre, muito poucas palavras. Formais, esperáveis, de uma banalidade que já nada significa ou expressa, de tantas vezes dita. E que, talvez, acabe por agredir quem as recebe.
Seria mais consentâneo o silêncio, um toque de mão no ombro, ou outra qualquer forma de gesto fraterno - que, muitas vezes, não há.
Nunca saberemos bastante, e totalmente, sobre o que vai no outro. O que pensa, o que sofre, tudo aquilo que dói, nesses momentos extremos.
O humor é, frequentemente, uma fuga para a frente: por isso se contam tantas anedotas nos velórios. Sobretudo quando vimos cá fora, para fumar um cigarro.

Está na moda!


São às dezenas, nos últimos dias, as visitas sobre esta pintura de Juan Gris (postada há longo tempo - 23/3/2011). E, embora não lhe saiba a origem (alguma central proxeneta e sugadora de imagens de blogues alheios?), incomoda-me esta massificação seguidista dos cibernautas preguiçosos, nesta época de globalização acéfala. Era tão bom que cada um pensasse e escolhesse por si!... Infelizmente, há sempre mais carneiros do que pastores. Virtudes da net.
Aqui  recoloco a imagem, para memória futura dos tempos pobres que correm.

Nota: o "pimp" sanguessuga, acabei por descobrir, é um tal pomposo "Museum Quality Hand Made - Oil Painting Reproductions" que, central mercenária de língua inglesa (americana, decerto), parasitariamente, vive à custa do trabalho dos outros, vendendo-o, à boa maneira "liberal", aos que, por preguiça não se querem dar ao trabalho de procurar.

As conversas de surdos ou os equívocos surrealistas do ciberespaço


Os equívocos surrealistas gerados entre os pesquisadores, através de search words desleixadas, e o motor de busca Google, com as suas indicações grosseiras, muitas vezes, continuam a chegar ao Blogue, abundantes e ridículas. Quase seria necessário formatar um critério rigoroso, a exemplo do alfabeto simbólico dos surdos-mudos, para que esta babel de disparates deixasse de progredir. Vamos dar nota das últimas tolices hilariantes.
1. O investigador escreve: "vincent neil ilha vongo" e o Google, todo lampeiro, indica o poste: "Citações XXXII: Vincent van Gogh", de 17/6/2010, para consulta.
2. Outro curioso refere: "manoel batam lopes" e, logo, o motor de busca lhe aponta "Não batam mais na ceguinha da Justiça, à portuguesa", poste de 4/3/2012.
E, agora, mais dois equivocos, provavelmente, a rondar o fescenino, pelo menos da parte dos consultores:
3. Escreve, para o Google, o malandro: "conto como comi mnha etiada firge"(sic); e o motor de busca aconselha o poste: "Indecência e Ética", de 14/3/2011, em que se fala de uma catástrofe no Japão...
4. O malicioso voyeur indica como search words: "mulher pelada dançando virgem se casilha" (?); e a indicação proficiente do Google foi "Iconografia moderna e laica (11) : a queda", poste de 15/2/2011, em que se associa a música de Philip Glass a fotografias de Sebastião Salgado sobre a mineração, em condições desumanas, na Serra Pelada.
E, por hoje, é tudo, quanto aos disparates.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Jean-Baptiste Lully (1632-1687)

Filatelia XXXVI


Figura incontornável da cultura germânica, Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) faleceu a 22 de Março, em Weimar. Aquando do bicentenário do seu nascimento, em 1949, a Alemanha, nos seus diversos territórios, celebrou a efeméride, também, filatelicamente.
Assim, na imagem, podemos ver na primeira fila, um selo de Berlim. Na segunda linha, a emissão postal da Alemanha Federal e, finalmente, na última posição, a série de três selos da República Democrática Alemã, ex-RDA.

A estética do passado



As imagens não carecem de legendas. Pertencem a capas de livros dos finais do séc. XIX e início do séc. XX, e do mais fino gosto, para a época. Algumas são de Alfredo de Morais e, outras, de Alberto de Sousa. Pertencem a uma colecção de postais, em estojo de cartão, que a BNP editou sob o título "Antes das Playstations - 200 anos do romance de aventura em Portugal". A qualidade do grafismo português manteve-se, progrediu e aperfeiçoou-se até aos anos 70 do século passado. Depois, e até hoje, foi um fartar vilanagem de mau gosto quitche, quase generalizado, a puxar para o chinelo da indigência estética ou da nula criatividade.

com os melhores agradecimentos à estimada ofertante.

Interlúdio 7 : Marcel Marceau (1923-2007)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Bach


Precisamente na transição, ou cúspide entre o signo de Peixes e o signo de Áries (Carneiro), ambos complexos e ricos, nasceu Johann Sebastian Bach, a 21 de Março de 1685.

Divagações 22


Dou de barato que o melro da Gulbenkian, de que fala Fernandes Jorge, e um outro que vi, hoje, no espaço livre da Biblioteca Nacional, sejam parentes afastados. E possam ter, ambos, preocupações mais altas, culturais até. Embora não o ouvisse cantar, gostei muito de o ver, embora repetitivo, entre uma e outra, mesmas árvores. De vez em quando descia à terra, esgaravatava no relvado, mas nada apanhou do colóquio. Preferia o sol ameno e primaveril a bater-lhe nas penas negras e luzidias. Parecia jovem, contente e nervoso à luz intensa da tarde. Dava, seguramente, para uma fábula erudita.

para MR, anfitriã, sempre discreta.

Citações XCV : Édouard Glissant


"Age pelo teu lado, pensa com o mundo."
Édouard Glissant (1928-2011).

terça-feira, 20 de março de 2012

Revivalismo Ligeiro LXIX



Estas são algumas das músicas, recriadas, provavelmente tocadas a bordo do Titanic, em 1912. Na sua viagem inaugural, e final, também.

Despojos


O azul já não é o anémico anil de há um mês atrás. Está mais firme, lá no alto, e o sol já nos aquece num débil ainda calor primaveril.
Vinha eu a pensar nos talheres do "Titanic" que, alguns, foram dar a Ílhavo, em casas de descendentes de pescadores bacalhoeiros. À deriva, um mês e meio depois do naufrágio do transatlântico, encontraram um móvel que tinha dentro vários talheres. Que vieram a ser distribuídos, depois, pelos pescadores do "Trombetas", veleiro da Figueira da Foz.
Vinha eu a pensar nisso quando, na Rua do Carmo, vejo três pessoas a arrumar volumosos pacotes de livros, numa carrinha Volkswagen. Depois, reparei donde vinham: da encerrada Livraria Portugal. Que ainda tinha, nas montras, letreiros a indicar descontos de 70%. O prédio já estava com andaimes e deve ir para obras. Os livros iriam, decerto, para fundos de alguma congénere.
Dos talheres do "Titanic", nem todos foram ao fundo. Há ainda facas, colheres e garfos de prata espalhados por algumas casas de Ílhavo - dizia o jornal.
Despojos...

René Char dito por ele mesmo



Nem todos os artífices saberão trabalhar, devidadamente, com as ferramentas que produziram. Nem todos os poetas são perfeitos a dizer os seus poemas, ou os poemas dos outros. O meu amigo António é exímio, em ambos os casos. Eugénio de Andrade e David Mourão-Ferreira diziam muito bem. Já Sophia, na minha opinião, era excessivamente pernóstica e hierática, a ler os seus próprios versos.
Mas René Char, como poderemos ouvir por este vídeo, também dizia muito bem os seus versos. E com grande simplicidade.

com os melhores agradecimentos a ms.

Produtos Nacionais 5 : Casa de Saima


Já em matéria de bibliofilia, os portugueses desunham-se, nos leilões, para adquirir livros antigos da temática "Portugal visto pelos estrangeiros". Ficamos em suspenso para saber o que os estrangeiros pensam de nós. Os novo-ricos portugueses pelam-se por mostrar, todos ufanos, produtos da Cartier ou da Hermès, para fazer inveja aos amigos e inimigos: é o fado português ou, melhor dizendo, o parolismo nacional. A tradicional falta de sentido crítico que nos vem acompanhando, desde há séculos. Mostra suficiente do nosso subdesenvolvimento mental, que afecta grande parte da população nativa do extremo ocidental da Europa.
Damos os olhos da cara para comprar roupas estrangeiras, calçado inglês ou italiano "pour épater le bourgeois", quando temos produtos nacionais da mais alta qualidade. Pagamos exorbitâncias parvas para ter em casa whiskies de duvidosa qualidade ou conhaques franceses que estão na moda mas, em compensação, não temos uma boa aguardente velha portuguesa para oferecer a um amigo, numa noite fria de Inverno - é uma tristeza!...
Mas, hoje, é para mim uma alegria anunciar e recomendar, sinceramente, uma aguardente velha portuguesa, excelente. É produzida pela Casa de Saima. Macia, nos seus equilibrados 40º graus, mete no bolso qualquer whisky dos melhores ou qualquer conhaque francês aureolado por várias estrelinhas. Em elegantes garrafinhas de 50cl., com bom aroma e linda cor, custa cerca de 13,00 euros. Por favor, olhem e provem os produtos nacionais! Ajudam a combater a crise e ficam melhor servidos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Estética contemporânea, segundo Eco

João Rui de Sousa




Corpo de Ambiguidade

posso e não posso ir-me noite fora
nestes pilares do medo  desta dor
- é quando os dedos ferem (não se tocam)
é quando hesito e coro

é quando vou não vou neste mergulho
em seco a imergir em pobre chão
de caos e flor e vinho e confusão

é quando sem chorar me escondo e choro


Nota: voz discreta e poeta pouco disposto às arenas literárias, João Rui de Sousa (1928) foi galardoado, pela A. P. E., com o Prémio Vida Literária 2012. Merecidamente.

Favoritos LXIII : Dinu Lipatti


Compositor esquecido e intérprete notável de Chopin, o romeno Dinu Lipatti (1917-1950), que foi discípulo de Cortot e herdeiro até no gosto e rigor, na execução das obras do compositor franco-polaco, morreu "cruelmente jovem", como refere o folheto da EMI Références, na Suiça, de leucemia. Era um ser humano de grande dignidade, com respeito pela palavra dada e com um enorme sentido de responsabilidade e rigor na execução profissional do repertório que escolhia para os seus recitais. Já muito debilitado, três meses antes da morte, não quis deixar de cumprir, quase na íntegra, o seu último concerto, em Besançon (França).
Dinu Lipatti nasceu a 19 de Março de 1917, na Roménia, e faleceu na Suiça, em 1950.

Retro (9)



Desta vez, os anúncios publicitários vinham no Magazine Bertrand, de Outubro de 1931 (nº 58), cuja publicação era mensal. A revista era de natureza cultural, mas também recreativa, e custava Esc. 5$00. Quanto a estes Lithinés du Dr. Gustin que, provavelmente, não deixaram memória, fez-me lembrar a "Água de Juventa" de que fala O'Neill, num poema dedicado a Manuel Bandeira, pela sua longevidade - nos seus 80 anos, creio. Tenho dificuldade, entretanto, em aceitar sequer a ideia de misturar água no vinho e não acredito na bondade profilática do conselho. O nosso rei D. Duarte, que costumava misturar água no vinho, antes de o beber, morreu com apenas 46 anos de idade. 

Aurora


Havíamos de cobrir essa música, como se fosse nossa. Dar-lhe um rosto inesquecido, da memória. E celebrar, mesmo que fosse em elegia pobre e simples, esse tempo fresco e jovem, e a brancura da manhã na geada inesperada sobre os pequenos charcos do quintal - quebrá-los, como se estalassem os espelhos. Sobre a relva húmida, deitados, veríamos levantar e pousar pequenos pássaros coloridos - e faríamos nosso esse aeródromo minimal e verde. Olhando, depois, por entre a túrgida floração do limoeiro e as folhas ainda tenras, os pequenos azúis, no alto, também seriam nossos. Quase poderíamos ouvir, por entre a turbação caótica, a música de esferas de anjos inexistentes. Mas possíveis.
Saíamos para a vida e para a rua, vencedores, na ignorância do futuro, confiantes e inexpugnáveis, seguros da força dos sentimentos mais obscuros e na certeza quase adolescente. O desejo era, nessa altura, um mundo desconhecido, inofensivo na pele da ternura. E não deixaríamos sequer que uma palavra ou um milímetro pudesse perturbar a divina proporção das coisas. Apesar do excesso que trazíamos connosco.

Nota: o desenho, que encima este poste, é de Manuel Ribeiro de Pavia, nascido a 19 de Março de 1910.

domingo, 18 de março de 2012

Philip Glass (1937)

Salão de Recusados XLI : de "Memória de Outro Rio", E. de A.


Allegretto Scherzando

Aqui tenho as árvores próximas, posso ir à varanda, a luz crepuscular costuma demorar-se nos ramos. Mas hoje, mal abri as persianas, um estorninho entrou na sala, deu algumas voltas rápidas a reconhecer o terreno, depois pousou no piano, próximo de Mozart. Cheio de curiosidade, perguntava-me o que iria acontecer. Qual deles começaria a cantar? Mas o telefone tocou, fui atender, queriam saber se naquele lado do mundo se avistava no céu algum objecto brilhante, e quando voltei já o Mozart e o estorninho haviam partido.

Eugénio de Andrade, in Memória de Outro Rio.

Livrinhos 7 : shakespereana


Entre as duas peças de teatro de William Shakespeare (1564-1616) e o livrinho de sonetos medeiam cerca de 100 anos. A edição dos dois dramas shakespereanos é de 1898 e, ambos, têm um estudo-prefácio de Henry Morley. Usados, os livros foram comprados na Livraria Académica (Porto), no início dos anos 60 do século passado. O  livrinho dos sonetos de William Shakespeare foi editado nos finais do séc. XX, e por essa altura foi adquirido, dentro de um pequeno e simples estojo dourado, em Stratford-upon-Avon, terra natal do dramaturgo inglês.

Narcisos para LB


De uma varanda outrabandista seguem estes narcisos, com agradecimentos.

Post de HMJ

Citações XCIV : William Shakespeare


" Não sabeis que sou uma mulher? Quando eu penso, tenho que falar."
William Shakespeare (1564-1616), in As you like it.