domingo, 14 de março de 2010

Bibliofilia 9 : António Sérgio



Sobre o pequeno livro "O Navio dos Brinquedos" de António Sérgio (1883-1969), nada melhor que o texto exemplar de Raul Rêgo (1913-2002) que o situa e descreve, e que reproduzimos do "Diário de Notícias" de 1/9/1983; quanto à história de como me veio parar às mãos, é outra coisa... Nessa noite chuvosa de Dezembro de 1976, assisti a um dos últimos leilões tipo-"ancien régime" ( que dava direito a café - começava às 21,30hrs. - e, depois, aguardente velha ou whisky, à escolha), na Afra Filhos, ali, na esquina da Av. Duque de Loulé com a Praça José Fontana, em Lisboa. Estava muito pouca gente e os preços quase estavam a saldo.

Comprei 3 lotes. O primeiro adquirido, "Cidade Triste e Alegre" de Victor Palla e Costa Martins, dei-o, aqui há uns anos, ao meu filho mais velho, por razões de maior afinidade dele que minha, com o livro; custou-me, na altura, Esc. 253$00 (cca. euros 1,25) e o último que se vendeu em leilão, há poucos meses, atingiu o preço de euros 800,00. Saíu, entretanto, uma reedição.

A terceira compra (lote 369) foi "O Navio dos Brinquedos", de António Sérgio, que justifica este "post". Estava e está danificado , sobretudo, no canto superior direito, mas tem boas margens e texto completo e não afectado. Custou-me Esc. 17$30, ou seja, euros 0,90. Parece ridículo, mas em 1976, daria para almoçar, razoavelmente.
Nota: na foto reproduzida, António Sérgio está ao centro, Aquilino Ribeiro à direita, e Ferreira de Castro encontra-se à esquerda.


P. S. : para MR, pelas mais óbvias razões, cordialmente.

Biblioteca Infanto-juvenil VI: Colecção Pequenina



Da Colecção Pequenina, com uma dimensão de 148 x 100 mm, restam poucos exemplares no acervo de APS.

Apresentamos, no entanto, o índice dos títulos até ao nº 31, em reprodução, assim como as capas mais sugestivas.

Estas "Histórias para as Crianças" vendiam-se ao preço de 3$50 e, segundo consta na folha de rosto, provenientes da Secção de Edições, Ricardo Falcão, Calçada do Combro, 99, Lisboa.

O que existirá, actualmente, no nº 99 da Calçada do Combro ?


Post de HMJ

Mercearias Finas 4






A primeira vez que comi rodovalho ("scophthalmus rhombus, Linnaeus") foi no Porto. Ou no "Abadia" ou no restaurante "Palmeiras", ambos de boa memória, mas que ainda lá estão, creio que na mesma rua tripeira. Quando íamos ao Porto, a minha Mãe e eu, era num deles que almoçávamos. Sempre gostei dos peixes espalmados, de águas profundas (como Mário Soares "classificava" Jaime Gama), de carne branca, sólida e macia: linguado, badejo, patêlo (Póvoa de Varzim), menos um pouco - a solha. Mas o meu preferido é, sem sombra de dúvida, o rodovalho. E não o comi, mais do que uma dúzia de vezes, na minha vida. Em Lisboa, não aparece muito; mais a Norte. E a melhor época para o apreciar, devidamente, é de Setembro a Abril. No Sul, lembro-me de um enorme e magnífico rodovalho que saboreei, gostosamente, numa pequena quintinha, em Dona Maria, pequena localidade da linha de Sintra, grelhado, e muito bem, pela anfitriã que era uma excelente cozinheira. Foi acompanhado por um modesto mas honesto branco, feito na propriedade.

Mas, ontem, matei saudades. Com bons amigos, em ambiente familiar. O rodovalho é um peixe ósseo, de carne muito branca e tem a particularidade de ter os dois olhos quase colados um ao outro. É uma espécie de peixe estrábico - como bem humoradamente dizem... E chega a atingir quase um metro de comprimento. HMJ encomendou dois, pequenos, no mercado do Monte da Caparica (fresquíssimos que eles estavam!) e, grelhados, com batata cozida, fê-los acompanhar com espargos verdes laminados e salteados com cebola e "bacon". Estavam divinais!...

Escolhi para parceiro líquido um "Herdade Grande", alentejano quase da Vidigueira, branco, da colheita de 2008 (castas: Antão Vaz, Arinto e Roupeiro). Eramos seis à mesa e foi ouro sobre azul... No final, uma sericaia que, em vez de ameixas de Elvas, casou com frutos do bosque, em calda. Nota máxima. Para conclusão, uma tabuazinha de queijos, com destaque para o "Serra" e um "Brugge vieux", acompanhados por um Dão, "Quinta das Maias", tinto, de 2000. Que, apesar da provecta idade de 10 anos, se portou com honra, brio e galhardia! Que convívio...

sábado, 13 de março de 2010

Qu'est-ce que signifie «apprivoiser»?



Quando reencontro Amigos, lembro-me sempre da raposa de Antoine Saint-Exupéry (1900-1944), em "Le Petit Prince", que dizia:

"...Se tu vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, desde as três que eu começarei a sentir-me feliz..."



P. S. : para a "oliveira da eurídice".

Favoritos XIII : Léo Ferré

sexta-feira, 12 de março de 2010

Em louvor da língua portuguesa

A língua portuguesa, não sendo tão simplória como a língua inglesa, nem tão complexa ou filosófica como a língua alemã, é, no entanto, muito mais precisa e exacta nos afectos.
Para "despedida" podemos usar, minuciosamente: adeus (hipoteticamente definitivo e eterno), até sempre, até depois, até amanhã (ver E. de A.), até logo, até já.
Não precisamos de "ciao" para coisa nenhuma. E, o resto, é silêncio...
Para HMJ.

Citações XVI : Erasmo



Nos seus "Colóquios", Erasmo de Roterdão (1469-1536), referindo-se a Sócrates (470-399 a. c.), escreve, a dado ponto:

" Que admirável ousadia de espírito num homem que não conhecia Cristo, nem as Escrituras. Quando o leio, tenho que me conter, para não exclamar: santo Sócrates, orai por nós!"

Raul Brandão






Raul Brandão (1867-1930) nasceu a 12 de Março, na Foz do Douro, mas está intimamente ligado a Guimarães: casou com uma vimaranense da Rua Val de Donas e, a partir de cerca de 1897, mandou construir em Nespereira (próximo da cidade-berço) a denominada Casa do Alto onde passaram a viver. Maria Angelina Brandão - que ainda tive o gosto de conhecer em 1962 - transcreve, num livro de memórias, "Um Coração e uma Vontade" editado em 1959, o retrato do Escritor, enquanto jovem. Fá-lo, através da carta de um amigo (Duarte do Amaral Pinto de Freitas), pelas seguintes palavras: "...um belo moço, muito alto, louro, de olhos azúis, falas mansas, bastante nervoso, um tanto tímido e pouco comunicativo."

Vimaranense por adopção e afecto, Raul Brandão reflecte, quase sempre, nos seus livros de ficção, e em pano de fundo, esses invernos minhotos rigorosos, lúgubres e sombrios onde o cinzento nublado se cruza com o granito lavado pela chuva monótona e insistente. "Húmus" é disso exemplo, até à saciedade. Faz precisamente o contraponto com o homem do Sul que foi Teixeira Gomes, seu contemporâneo, em cujas obras (e títulos: "Inventário de Junho", "Agosto Azul") a claridade é dominante.

Relembro, aqui, Raul Brandão neste dia que era dos seus anos pelo gosto que me deu ler "Os Pescadores", "As Ilhas desconhecidas" ou essa obra notável, de amor ao seu país, intitulada "Portugal Pequenino" que escreveu em conjunto com sua mulher, Maria Angelina Brandão.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Música e Poesia IV : Vermelho, Branco e Azul


A trilogia de Krzysztof Kieslowski (1941-1996): "Vermelho", "Branco" e "Azul" tem, por origem simbólica, as cores da bandeira francesa, usadas pelo cineasta polaco. A Polónia "emprestou" à França, pelo menos, dois artistas notáveis: Chopin e Kieslowski. Mas também não posso deixar de comparar a figura do juiz reformado, desempenhada por Jean-Louis Trintignant, com a do juiz-penitente de "A Queda" de Albert Camus. As obras de arte nunca são tão simples nem tão isoladas de influência como, às vezes, parecem...

quarta-feira, 10 de março de 2010

Em Louvor de Buarcos



Há quem diga que Sá de Miranda nasceu, não em Coimbra, mas em Buarcos. No entanto, é certo que lá passou grande parte da meninice e, quando regressou de Itália, lá estacionou, reflectindo e compondo. Está, com certeza muito diferente, de quando a conheci, em 1977. Fiquei-lhe afeiçoado, por aqueles quase 15 dias, que por lá andei, com alguns banhos de mar frios (era Junho), pelos passeios tranquilos que dei, pela faina piscatória que vi e por outras coisas " que terei pudor de contar seja a quem for...",como dizia o José Régio. Mas também pela " raia de pitau", especialidade gastronómica local de Buarcos, que nunca tinha provado e muito gostei. E nunca mais voltei a comer, para saudade e pena minhas.
P. S.: Para a Ana, que mora lá perto.

O Silêncio



"...Nós precisamos de silêncio. E isto não são coisas muito profundas. O que é terrível é que se tenham tornado coisas profundas! São coisas evidentes! Estou-me a lembrar de um amigo etnólogo, francês, a trabalhar no Senegal. Acontecia que um dos homens da região onde ele trabalhava no terreno vinha a Paris, batia à porta de casa dele, entrava, sentava-se e parece que ficava cinco horas sem dizer uma palavra. Cinco horas depois, levantava-se e dizia adeus, ia-se embora. É outra maneira de estar. Tinha feito o que era necessário: retomar a amizade, no silêncio... Portanto, estamos a falar de coisas simples e que, de repente se tornam coisas esotéricas..."

José Gil, em entrevista ao "Público" de 10/3/2010

Favoritos XII : Domingos Sequeira



Domingos António de Sequeira, pintor português, nasceu em 10 de Março de 1768. Reproduz-se o quadro que fez de sua filha, Mariana.

terça-feira, 9 de março de 2010

Jorge de Sena sobre Sá de Miranda






Num pequeno ensaio intitulado "Reflexões sobre Sá de Miranda ou a arte de ser moderno em Portugal", Jorge de Sena (1919-1978), entre outras coisas, refere o seguinte:


"...Todos esses altos espíritos sofreram a contradição entre uma lucidez e uma cultura que os fazia viver como seus os problemas e as soluções da Europa do seu tempo, e as formas da sociedade em que viviam de facto, na qual a situação era sempre grave em função de contradições anteriores, para eles já intelectualmente ou até socialmente resolvidas. A arte poética de Sá de Miranda, que aflora logo como um sopro novo nos seus poemas «tradicionais» do «Cancioneiro Geral» é precisamente esta, de que não digamos que estamos isentos, apesar dos suicídios expiatórios de Antero e Sá-Carneiro terem propiciado a heteronímia conservada em álcool até aos limites do fígado de Fernando Pessoa: a arte, dolorosa e triste, de ser «moderno» em Portugal." (...)


Sá de Miranda é, na poesia portuguesa, não, como se tem insistentemente dito para salvá-lo de quanto na sua obra irremediavelmente morreu - as alusões, as exposições e discussões de princípios sob o disfarce pastoril, etc., mais importantes para uma história viva das ideias que para uma sobrevivência autêntica da poesia - não um poeta filósofo (isso é reservado aos Dantes e aos Lucrécios e aos Goethes nas suas horas melhores), nem especificamente um poeta moralista (isso é inevitavelmente peculiar a todo o poeta português que se eleva acima da condição de «poetisa», tão certeiramente assacada por Pascoaes ao típico António Nobre), mas um poeta especulativo, isto é, um homem em que a meditação social do concreto é indissolúvel da emoção lírica. Há nos seus versos um condão de abstraccionismo, um dom de ascender do factual que o inspira à metafora que o exprime, um tipo de metaforização não imagética mas discursiva, que todos em um só o definem como um lírico de primeira plana, suficientemente «impuro» para sobreviver ao peso morto do lirismo fácil ou do intervencionismo ingénuo e virtuoso, que ainda hoje, apesar de tudo e pelo muito que do seu tempo terrivelmente subsiste (nós ainda não vimos acabar o que ele angustiadamente viu começar), nele nos comove e toca profundamente.


A sua humilde consciência de não conseguir dominar, embora nem sempre saiba porquê, as contradições implícitas por uma forma extrema no homem solitário e eminentemente social que ele foi (« ora o que eu sei tão mal, como o direi?»);..." (1958)

uma Senhora da cultura



Tive o privilégio de a ter tido como professora, em Coimbra, no início dos anos sessenta, ainda a Profª. Dra. Maria Helena da Rocha Pereira (1925) não tinha completado 40 anos. Era também clássica no trajar e, raramente, dava as aulas com o cabelo a descoberto. O sorriso muito discreto, quando falava da "aurora de dedos róseos", não me permitia adivinhar - na ignorância própria da minha juventude - que ela gostava muito de poesia. E, só muito mais tarde, o vim a perceber. Por isso, quando a manhã de hoje me trouxe a boa nova de que a minha Professora de Coimbra tinha sido agraciada com o prémio "Vida Literária", da A. P. E., reconciliei-me, uma vez mais, com o meu País. Mesmo quando a notícia é postergada para a nona página do suplemento do "Público"; e os Óscares tenham direito à 1ª página: no jornal e no suplemento.

Eu sei: estamos em Portugal. A cultura grega ou a cultura portuguesa o que valem?...face à cultura de Hollywood?..., bem pequena coisa, infelizmente...Por uma uma vez, no entanto, este país parôlo e, tanta vez, provinciano, reconheceu, através duma das suas Instituições, a qualidade enorme desta Senhora da cultura. Não é de perder a esperança no futuro...

" A la minoría siempre", como dizia Juan Ramón Jimenez, longa vida à Professora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira! E obrigado.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais um Poeta : João de Deus



Algarvio, João de Deus (1830-1896) foi um pouco, e à boa maneira portuguesa, antes de Guerra Junqueiro, uma espécie de Victor Hugo nacional, na devoção que o povo lhe consagrava. Teve honras de ser sepultado, até, no Panteão Nacional, tal era a popularidade e respeito que despertava. Era um homem bom. Por outro lado, quando jovem, teve nos estudos um percurso coimbrão errático de boémia, tendo levado 10 anos para se formar. O "Jornal de Notícias", pouco antes do Poeta falecer, definiu-o assim:"...João de Deus é uma das personificações mais belas do nosso carácter peninsular; vivo e indolente, devaneador e apaixonado, crente e sentimental..." E não só. Quem conhecer as "Cryptinas", sabe do que estou a falar...

Mas as suas obras mais emblemáticas e conhecidas foram, e são, a "Cartilha Maternal" ( um método criativo e inovador, na época, para aprender a ler) e "Campo de Flores", livro de versos muito simples e límpidos que, pela frescura e naturalidade, ainda hoje se podem ler com muito agrado. Como se tivessem sido escritos por alguém, entre um Tolentino e um Nobre, actualizados. Aqui vai um pequeno exemplo:

Arrecebo

Indo-se a casar um gebo,
Que era gago e não podia
Pronunciar bem: Recebo,
Gaguejava e só dizia:
Arre...Arre...cebo...cebo...

Alguém supõe que o dizia
Com intenção. Não percebo.

Memória 16 : Ruy Cinatti



Ruy Cinnatti nasceu em Londres, a 8 de Março de 1915, estudou em Lisboa, doutorou-se em Oxford e veio a falecer, em Outubro de 1986, na capital portuguesa. Era um apaixonado por Timor onde viveu alguns anos e que lhe mereceu três livros publicados. Sobre S. Tomé e Príncipe editou também: "Lembranças para S. Tomé e Príncipe". No posfácio ao seu livro de poemas "Sete Septetos" (1967) escreveu: "...Por agora, firmo-me no que está acontecendo. O mistério envolve-me. A poesia é a autobiografia do poeta ou do nómada em escala de partida: o seu cântico. O homem, porém, não pode convencer-se da sua invulnerabilidade, para que, sobretudo, o poeta não se tome demasiado a sério e cristalize... E Deus lhe valha..." Do seu livro "Nós não somos deste mundo" (1941) são os versos:

"Gritam todos : venham!

E os outros : tenham!

Aqueles que estão comigo

Sonham. Não querem, nem partem,

Encantados..."


P. S. : Para o J. S., em Cambridge, que faz hoje anos.

domingo, 7 de março de 2010

Salão de Recusados XI : José Mattoso



De José Mattoso (1933) e de um seu depoimento intitulado "Uma ideia para Portugal" vamos transcrever alguns excertos que nos parecem significativos.

"A História só sabe o que aconteceu. Ignora o futuro e o condicional. (...) Haverá ainda lugar, no mundo de hoje, para uma concepção humanista da existência? Seja qual for o sentido que demos ao conceito, o que quero dizer é que não acredito numa ideia para Portugal senão baseada no respeito pelo Homem e pela sua dignidade. O domínio da técnica ameaça o Homem porque dá o poder mas não garante o seu bom uso. (...) Só conheço uma resposta: aquela que se deduz da «conversa» entre Javé e Abraão antes da destruição de Sodoma e Gomorra: «Será que vais exterminar ao mesmo tempo o justo e o culpado? Talvez haja cinquenta justos na cidade: matá-los-ás a todos? Não perdoarás à cidade por causa dos cinquenta justos que nela podem existir?» (Génesis.,18.23). Só Deus sabe que proporção de "justos" no conjunto de cada cidade é suficiente para ela subsistir. Pelos vistos, Javé até se contentava com dez. Mas ninguém sabe.

O que a vida me tem ensinado é que existem mais "justos" neste mundo do que se pode saber através dos jornais. Há muitas formas de santidade oculta, nem que seja por meio do sofrimento assumido, do apaziguamento, da noção do dever. A religião católica aliada ao individualismo atrofiou o conceito de "justo". A história do Génesis propõe que se creia no efeito da acção do "justo" sobre a comunidade a que pertence em virtude do princípio de solidariedade. Os "justos" são a porção viva e sã, mas escondida, da comunidade a que pertencem. Garantem a sua capacidade de regeneração. O fundamento da esperança no futuro é o reconhecimento dos "justos" que nos rodeiam, seja qual for o meio em que vivem e o apoio que somos capazes de lhes dar na sua luta pela "justiça". Talvez isso sirva de antídoto contra a desilusão que nos causam os poderosos da finança, da política ou do espectáculo."

in "Público" de 6/3/2010.

Para MR: Viagens, chocolates e bonecos


Parabéns.
Post de HMJ

Triplo Aniversário






A 7 de Março de 1872, nasceu o pintor holandês Piet Mondrian (1872-1944).


A 7 de Março de 1875, veio ao mundo o compositor Maurice Ravel (1875-1937).


Feliz Aniversário, MR!


sábado, 6 de março de 2010

Bibliofilia 8 : Francisco de Quevedo y Villegas



Nos séculos XVI e XVII o intercâmbio cultural entre Portugal e Espanha era concreto e real. Por outro lado, grande parte da elite portuguesa era bilingue. Muitos dos nossos melhores autores também escreveram em castelhano: Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, Francisco Manuel de Melo... Assim, é perfeitamente natural que a obra poética de Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1640) tenha sido publicada, em Lisboa, pelos Craesbeeck, na sua 4ª edição e, primeira portuguesa, em 1652 (Palau, 244332; Sousa Viterbo, pgs . 368/9). Não é caso único.

O meu exemplar de "El Parnasso Español, Monte en dos cumbres...", de Quevedo, que, apesar de algumas manchas de humidade, se encontra em bom estado de conservação, tem apenas um senão: no frontispício tem o canto inferior direito restaurado; boas margens, no geral, com anotações coevas manuscritas.

Comprei-o, em 21/6/1993, por Esc. 8.000$00 (cca. euros 40,00), em Lisboa. No próximo dia 10 de Março será posto à venda um exemplar igual, no leilão do Palácio do Correio Velho (lote 752), que tem uma estimativa de venda de euros 400,00/800,00.

Citações XV : E. M. Cioran



E. M. Cioran (1911-1995) nasceu na Roménia, mas a maior parte da sua obra foi escrita em francês. Sobre este bilinguismo cultural disse:

" Mudar de língua é como escrever uma carta de amor usando o dicionário."

sexta-feira, 5 de março de 2010

Biblioteca Infanto-juvenil V: Colecção dos Miúdos



Da Colecção dos Miúdos - volumes de 95 x 75 mm - reproduzimos alguns títulos dos livrinhos, publicados pela Editora Educação Nacional, que se encontram incompletos na colecção particular de APS.
As imagens demonstram bem que, nos idos de 1943, se disfarçava mal a ideologia do regime.
No entanto, a História do Livro também se faz desses momentos menos felizes em que se integra a colecção em apreço, afastando-se de um conceito mais elevado de "mercadoria espiritual".

Post de HMJ

Frase do dia : Mário Soares



A política é como o vinho: há anos bons e anos maus, gerações boas e outras menos boas.

Mário Soares in "Público" de 5/3/2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

Animais de estimação literários 2






Na sequência do anterior "post" com o mesmo tema e da gentil contribuição de MR (com António Osório - gato) e HMJ (com o rouxinol de Bernardim Ribeiro), nos comentários, a quem agradeço, verifiquei um esquecimento imperdoável e injusto, da minha parte. Então não é que me esqueci do "Porquinho-da-Índia" de Manuel Bandeira?! Em desagravo do Poeta brasileiro e em agradecimento às contribuintes do "Arpose", aqui vai o poema:

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-Índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...


- O meu porquinho-da-Índia foi a minha primeira namorada.

Mercearias Finas 3






Em 2005, mais ou menos por esta altura do ano, tivemos de ir a Viseu, à Biblioteca municipal da cidade, ver e consultar um livro raro de que há muito poucos exemplares em Portugal. Era um post-incunábulo. Tratava-se do "Catecismo / pequeno..../ copilado pollo reverendissimo senhor dom Dioguo ortiz bispo de çepta...", editado em 1504, em Lisboa. E impresso por Valentim Fernandes e João Pedro Buounhomini de Cremona. A bibliotecária-chefe recebeu-nos gentilmente, levou-nos a uma pequena sala, abriu um cofre monobloco, e entregou-nos o precioso volume, para consulta. Mais tarde, ainda teve a amabilidade de retirar do cofre, para nos mostrar, o original do primeiro foral de Viseu, maravilhosamente iluminado.


Ao fim da tarde, e pelo meio de um nevoeiro intenso e "sebástico", fomos à procura do "Clube dos Caçadores", em Lordosa. O restaurante está inserido numa vivenda de médias dimensões e tem uma decoração interior alusiva à caça, equilibrada e simples, mas, e como dizem os ingleses, muito "cosy". Feita a consulta da ementa, optamos pelo arroz de perdiz. O empregado, pouco depois, veio pedir desculpa por já não haver míscaros - que faziam parte da receita - mas disse que os substituiriam por uma qualidade muito aceitável de cogumelos. De seguida: a carta de vinhos. Devo dizer que a minha região demarcada preferida é a do Dão. Infelizmente, o Dão nunca teve um enólogo inspirado como o Douro teve, e que criou o "Barca Velha", até porque a região vinícola tem potencialidades para isso. Mesmo assim os vinhos desta zona são, quando bem feitos, pelo menos, elegantes e de grande equilíbrio gustativo. E, como eu andava com curiosidade em provar o "Vinha Paz", tinto, a escolha recaíu num "Reserva de 2003".


Que estava magnífico. Bem como o arroz. E esta - e para lembrar o Abade de Jazente - é toda a "história da(s) perdiz(es)", nessa noite no limiar da Primavera, por entre um nevoeiro em que o D. Sebastião não chegou a aparecer...

Memória 15 : Antonio Vivaldi






Antonio Vivaldi (1678-1741) apelidado, na sua época, de "Padre vermelho" devido à sua farta cabeleira ruiva, nasceu a 4 de Março. A caricatura do compositor, aos 45 anos, é de autoria de Pier Leone Ghezzi.


quarta-feira, 3 de março de 2010

As tenras folhas de Março


Os trevos não escolhem
estação, nem dia,
rompem insolentes
verdes de alegria.

Virão frutos distintos,
rugosos, mas serenos,
ácidos citrinos,
coroar a Primavera.

Azedas, amarelas
as frésias que ela trouxe,
e flores pálidas, brancas
nas suas cores singelas.
Para HMJ

Um poema "explicado" pelo título


De Um Desagravo Desencantado
No Jornal Por J. A. França,
Logo Recuperado, Como Inventário,
Por Alexandre O'Neill



Os bons portugueses de Alcantarilha.
Silva, modesto empregado de escritório.
As irmãs Albuquerque, aposentadas.
Uma aluna da Universidade de Lisboa.

terça-feira, 2 de março de 2010

Animais de estimação literários 1



Todos os temos ou tivemos. Terrestres, aéreos ou aquáticos. Rastejantes, trotadores, cantantes, se não os temos, já os tivemos, pelo menos, na infância. E, se não foi ao vivo, pelo menos de peluche, andaram ao nosso colo, dormiram connosco, viveram parte das nossas aventuras imaginadas... O meu é o canário e o último que tive dava, pelo menos, um conto ou uma fábula.

O primeiro ofereceu-mo o meu tio Joaquim que tinha uma enorme criação de pássaros. E cantava lindamente, logo pela manhã, ao nascer do sol.

Dos literários, Eliot escolheu o(s) gato(s) ("Old Possum's Book of Practical Cats"), Cristovam Pavia fez uma belíssima e sentida elegia à morte do seu cão e Torga, que era caçador, devia ter, em particular estima, os cães, também. Nicolau Tolentino tem aquele soneto admirável intitulado "Deitando um cavalo à margem". Mas Juan Ramón Jimenez fez mais : universalizou o seu animal preferido em "Platero y yo". Aqui vai o início, para quem não saiba ou não se lembre da história desse burrito simpático.

"Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro. Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal... Come o que lhe dou. Gosta de tangerinas, das uvas moscatéis, todas de âmbar, dos figos roxos, com a sua cristalina gotita de mel... É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra."

Pequena história




No seu livro "Diario de um Poeta reciencasado", de 1916, Juan Ramón Jimenez (1881-1958), no decurso da sua visita a Filadélfia, num pequeno episódio intitulado "A cama de Franklin" conta, sobre Benjamim Franklin (1706-1790), o seguinte: "Vi ontem a cama de Washington, a de Lafayette e de outros.

- E a de Franklin? - pergunto eu na mesa do Arcadia. (As senhoras escondem um sorriso e os cavalheiros calam-se um pouco, sorrindo. E fala-se de sobremesas esquisitas, do vinho, da água que cai...). Logo, Mr. W...t se acerca de mim e diz-me ao ouvido: - Franklin não dormiu sequer duas noites na mesma cama...e nenhuma era a dele."