sábado, 10 de abril de 2010

Bibliofilia 13 : Correia Garção




Pedro António Correia Garção (1724-1772) foi um dos elementos mais dinâmicos da Arcádia Lusitana, mas a sua obra (incompleta) impressa só veio a sair, postumamente, graças ao cuidado do filho, em 1778. Pouco mais de um século depois, em 1888, J. A. de Azevedo Castro fez editar na Typographia dos Irmãos Centenari as "Obras Poéticas e Oratórias de P. A. Correia Garção", com um estudo importante, inéditos, e dedicatória a D. Pedro II, Imperador do Brasil. A edição, de grande apuro gráfico e estético, não é muito frequente aparecer à venda.
O meu exemplar, encadernado e em perfeito estado de conservação, foi comprado em Dezembro de 1989, por Esc. 8.332$50 (cca. euros 41,00), no leilão Silva's/ Pedro Azevedo (lote 311). Em Novembro de 1991, um exemplar brochado, foi vendido num leilão de José Manuel Rodrigues, por Esc. 14.800$00. Mas pouco depois, em Janeiro de 1992, num leilão de Luís Burnay (Livraria D. Pedro V), um exemplar semelhante foi arrematado por Esc. 6.500$00, ou seja, euros 32,50. Também há flutuações, como na Bolsa de Lisboa...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Citações XXI : O que é ser provinciano?



"É aquele que copia." (e eu acrescento: mas não cria.)
Paulo Rocha (1935).


P. S. : com agradecimentos a A. G. de S. que mo citou, de memória.

Da wikipedia : " animal peludo, longas orelhas, rabo curto e fofo"



Já lhe estão a fazer a cama, ou o ninho, ou a toca. É só ler os jornais, ouvir os babados "pivot" 's, nos seus antecipados e melífluos, discretos juramentos de lealdade, pelo veludo na voz que se derrete quando lhe fazem perguntas. Todos sonham ser mexias ou penedos...
E eu que estava habituado aos líderes feios - mesmo que fossem de direita : De Gaulle, Churchill, Adenaur. E, depois, me fui habituando aos da minha geração... E ainda aos Versace e aos Armani.
Que diabo!, que mal fiz eu a deus?!, para mais um golpe de rins, tão contrariado.
Que se cuide o "nosso filósofo grego" com a cicuta que já lhe verteram na taça. Os nossos jornalistas estão a engordar um coelhinho, com muito mimo, e a menos que apareça, por aí , uma sábia tartaruga, do lado esquerdo...,oxalá!

Favoritos XVII : Catrin Finch

A Primavera no Largo



A tarde primaveril e amena convidava à dispersão pela calçada portuguesa. Falou-se da Foz, do Algarve, da Praia do Meco. Por ordem inversa, na contiguidade: Francisco Sousa Tavares, Cândido Guerreiro (sem lhe dizer o nome) e Sophia. De provocação, generosidade e heroísmo. E, eu tinha defronte o chafariz - que, de útil, passou a monumento seco -, onde um rosto imóvel de pedra me fitava e uma boca aberta que já não era fonte. À noite, em casa, vieram as palavras:

...e a sede foi secando pelas fontes
onde as bocas sorveram o vazio.

Daí veio o Juan Ramón Jimenez. Depois o comentário. Eugénio e Sophia para fechar o rectângulo do Largo soalheiro ("...estes dados reunem-se sempre para formar uma nova coerência.", T. S. Eliot). Também o meu interlocutor dissera: "Estamo-nos a atropelar na conversa...", e eu pensara: tal é a força da Primavera e da amizade. Ficou-me também uma zoada de italiano e espanhol na esplanada, mas o mais forte foi o riso que rimos e o bem que estavamos falando de coisas tão dispersas que iam de Lagos a Matosinhos, depois dos filetes de linguado com arroz de pimentos vermelhos. Com um Evel branco, muito fresco. Do passado ao futuro que ia acordando, imperceptível, da morte do presente. A Primavera no Largo...

P. S. : para "c. a. ", em diagonal.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Palavras íntimas de um Poeta



De uma carta de Juan Ramón Jimenez (1881-1958) a seu amigo Ramón Gómez de la Serna (1888-1963) transcrevo, e traduzo, dois pequenos excertos:

"...Há uma realeza íntima, que não se contamina de ouropel, que é muda ou fala baixo, que, com todos os espelhos que tem dentro, multiplica os sonhos até morrer de verdadeiras enfermidades de emoção e de fantasia. (...) Os poetas fazemos uma vida dentro da corrente da vida universal, temos códigos próprios, ideais comuns, que estão escritos numa língua única, estranha ao vulgo em todos os países, igual e compreensível em todos eles, mas apenas para os eleitos. É algo assim como se a pintura ou a música fossem um idioma preciso... Esta é a palavra muda, a voz secreta. ..."

Caminhos na Encruzilhada


Há muito de comum entre Paul Gauguin (1848-1903) e Jacques Brel (1929-1978). Ambos, entre os 34 e os 35 anos, abandonaram uma vida familiar e financeira estável, para seguirem as suas vocações artísticas. Quer o pintor, quer o cantor belga, deixaram a França e foram viver para ilhas do Pacífico (Taiti e Marquesas). Ambos estão sepultados, creio, nas Ilhas Marquesas. De Gauguin falou pela ficção, e superiormente, Somerset Maugham em "The Moon and six-pence". De Jacques Brel, que hoje completaria 81 anos, as suas canções ainda podem falar por ele. Escolhi "Quand on n'a que l'amour" que foi o seu primeiro grande êxito, em Paris.
P. S. : para a "oliveira da eurídice" que, tal como Brel, também nasceu nos inícios da Primavera.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Estética, gostos e o amarelo



Esta poderia ser uma carta ao Director (de um jornal), porque no fundo é, apenas, o exercício de um direito ao contraditório. Mas prefiro deambular por aqui, nesta "casa" e num espaço virtual, efémero, que, até certo ponto, é meu e dos amigos que me visitam.
O "clic" foi um pequeno artigo no "Público", de ontem, com autoria de Jorge Marmelo, e de aconchegado título: "Kate e Kiki". O ponto de partida do jornalista é o facto de Kate Moss, para além de ter servido de modelo a vários artistas, (e passo a citar), "...vai agora aparecer num pequeno papel d' «A Tempestade», de Shakespeare, no londrino teatro "Old Vic", onde será dirigida por Sam Mendes. Acontece de vez em quando: uma mulher sem nenhuma beleza especial transforma-se, pela arte, num ícone do seu tempo..."
Ora, a minha mãe gostava do amarelo, e eu não desgosto, esteticamente, de Kate Moss. Talvez a pele, talvez o olhar, talvez alguma intencional languidez, nas poses. Que sei eu?, que sabemos, nós, daquilo que nos atrai?
Até pelo sórdido, às vezes, há atracção: basta ler um poema que João Xavier de Matos dedicou ( sem dedicar) a uma suja lavadeira - e, este toque de contrários, faz deste poema, um dos mais interessantes e curiosos de «Albano Erithreo» -, para perceber aonde pretendi chegar. Afinal: o que é a beleza?

2 em 1, sem mais



"Uma religião é tão verdadeira como a outra."
Richard Burton (1821-1884).

"Há uma única religião, embora existam centenas de versões dela."
George Bernard Shaw (1856-1950).

terça-feira, 6 de abril de 2010

Por entre Bibliofilia e Mercearias Finas


Li hoje, com grande deleite, Regra e Estatutos da Ordem de Santiago, numa edição de 1548, impressa por Germão Galharde ( ? -1561?). Não só os caracteres tipográficos (góticos) são de grande perfeição técnica e estética, como o texto, em português antigo, supervisionado, seguramente, por D. Jorge de Lencastre (1481-1550), Grão-mestre da ordem, é de uma limpidez e escorreiteza singular admirável. Até aqui, história e bibliofilia.
Vamos lá às Mercearias Finas. Por entre os pecados capitais referidos na Regra e Estatutos ..., há, adequadamente uma caracterização e advertência à Gula. Para que, como pecado, seja evitado pelos cavaleiros da Ordem de Santiago. Reza assim

"Se pôs sua bemaventurança em comer e beber.
Se comeu e bebeu muitas vezes por deleitação.
Se por muito comer ou beber esteve doente.
Se bebeu de maneira a que saísse de seu sentido."
Ora pro nobis!
P. S. : para JAD, naturalmente.

Salão de Recusados XIII : Triálogo literário



1. " O amor é apenas um episódio na vida de um homem, mas é toda a história na vida de uma mulher."

Madame de Staël (1766-1817).


2. "But I love you, sir:
And when a woman says she loves a man,
The man must hear her, though he loves her not."

Elizabeth Barret Browning (1806-1861), in " Aurora Leigh".


3. " Os homens querem ser sempre o primeiro amor de uma mulher. Nós mulheres temos um instinto mais subtil acerca das coisas. O que nós queremos ser é o último amor de um homem."

Oscar Wilde (1854-1900), in "A Woman of no Importance".



Um grande Compositor por um grande Intérprete

Com lembranças à Ana que me fez recordar este grande pianista. Sendo que Bach é, pela excelência, o genial compositor da época pascal.

Citações XX : J. W. Goethe



O talento alimenta-se sempre da solidão,
Mas o carácter só por entre as tempestades do mundo.


Johann Wolfgang Goethe (1749-1832).

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Seamus Heaney (2) : caridade e impiedade


Às vezes, tenho a tentação de chamar aos irlandeses os latinos do Norte, embora celtas - suponho que não será difícil perceber porquê...
Quero voltar a abordar o discurso de Seamus Heaney, em Dezembro de 1995, quando recebeu o Nobel, em Estocolmo, porque ele é rico de conteúdo, e sábio pela simplicidade das palavras que proferiu. Nele conta 2 histórias, uma sobre caridade e amor, outra sobre a impiedade e o ódio. A primeira sobre São Kevin, frade irlandês que terá vivido entre o séc. VI e VII; a segunda história é sobre uma acção do IRA, nos anos 70 do século XX. A primeira narração pode muito bem ser uma lenda que, como tantas outras, ajuda a solidificar a imagem de um santo nos altares da Igreja católica. A segunda é real. Contá-las-ei pelas minhas palavras, e resumidamente.
São Kevin: a caridade. O Santo estava em contemplação e rezava. Deitou-se, olhando o céu, como em posição de crucificado, as mãos abertas. Veio um pássaro negro e, achando a mão macia e morna, lá poisou. O Santo apercebeu-se e ficou imóvel, sem se mexer. Poucos minutos depois o pássaro começou a pôr ovos na mão de Kevin e, quando acabou, voou para longe. O Santo aguardou, pacientemente, dias e semanas até os ovos abrirem e os passarinhos nascerem...
Segunda história: o IRA. Anos setenta. Um pequeno autocarro leva, para casa, um grupo de trabalhadores, depois do trabalho. A meio do percurso, um grupo de encapuzados manda parar o veículo. Estão armados de metralhadoras. Depois, abrem a porta e dizem: "Os católicos que saiam, todos!" No grupo de trabalhadores há apenas um católico que faz um gesto imperceptível para se levantar. Mas o vizinho, protestante como todos os outros, segura-lhe a perna, com força. Todos os trabalhadores pensam que os encapuzados são para-militares ("lealistas") protestantes e que querem matar os adversários. Apesar da cumplicidade silenciosa, o católico, talvez por orgulho, corajosamente, levanta-se e dirige-se para o grupo de mascarados. Estes mandam-no para trás deles e, em seguida, metralham todos os outros trabalhadores do autocarro - os encapuzados eram, afinal, do IRA.

Uma sequência Irlandesa


Para acompanhar Seamus Heaney (1939).

Seamus Heaney (1)


Seamus Heaney, poeta irlandês (como insiste em ser considerado) de língua inglesa, completará, no próximo dia 13 de Abril, 71 anos. Em 1995, foi agraciado com o Nobel de Literatura. O seu discurso de Dezembro desse ano, em Estocolmo, é um documento humano, muito vivo e interessante em que percorre a sua geografia sentimental, os seus afectos e experiências. A sua infância e adolescência passadas numa quinta do norte da Irlanda onde o barulho dos cavalos, no estábulo junto à casa, se misturava com as vozes das pessoas; fala da chuva sobre as árvores, nos ratos do celeiro, nas vozes dos locutores da BBC que, na infância e na sua invisibilidade radiofónica, lhe pareciam "divinas"... Refere Keats, Yeats, Hopkins para vir a centrar a sua intervenção, quase no final, na poesia. O seu discurso, na Academia Sueca, termina assim:
"... A forma do poema, ou por outras palavras, é decisivo para a força da poesia fazer aquilo que é e sempre foi a sua credibilidade: o poder de persuadir aquela parte vulnerável da nossa consciência da sua legitimidade, a despeito da evidência do fingimento que existe à volta dela, para nos lembrar que somos perseguidores («hunters») e coleccionadores de valores, e que a nossa própria solidão e angústia são credíveis na medida em que são, também, o que há de mais autêntico no ser humano."

domingo, 4 de abril de 2010

Bach, encore


Finalmente, "Oster-Oratorium", BWV 249, de Johann Sebastian Bach.

In Memoriam : pouco antes da Páscoa



Foi pouco antes da Páscoa. Pouco antes das dez da noite. O Tio Lourenço telefonou de longe. Que não conseguia abrir a porta de casa da Irmã. Que ela não atendia o telefone. Estava a pensar ir à Polícia, para arrombar a porta, entrar e saber o que se passava.
Pedro regressou à sala onde a televisão estava ligada, e disse: "- Vou engraxar os sapatos, temos de seguir para o norte. Chico, vou levar-te a casa da tua mãe. Lígia, não te importas de fazer as malas?"
Pelo caminho, juntaram-se também a Fernanda e o João. Chovia. A noite foi longa, mas já perto da Cidade, na penúltima paragem do comboio, o amigo André veio buscá-los, aos quatro. Era uma força que vinha de longe, parecia que sempre estivera ali, à espera dele, fosse o que fosse que viesse a acontecer. E Pedro, perante o que já era inevitável, ganhou um alento inesperado. As relações com a Mãe nunca tinham sido pacíficas, mas isso era apenas o que sobra do lume: as faúlhas que desaparecem no ar, e se perdem. O incêndio fora sempre o mesmo, desde a infância: um ódio racional a equilibrar o amor natural.
Quando chegaram a casa, do grupo, um grupúsculo mais pequeno subiu com ele os dezanove degraus, até ao andar de cima. A luz, vinda da Penha, iluminava o rectângulo onde o corpo, em decúbito dorsal e inerte, permanecia. A força, a energia contagiosa, o desafio, a controvérsia e o movimento tinham, agora e apenas, um nome: nada. Um cheiro adocicado gravou-se, para sempre, na memória de Pedro. Depois, no alto do cemitério, virou-se para o filho mais velho e disse: "- Passaste à segunda linha. Eu, à primeira!". O sol, entretanto, abriu. As gotas da chuva perlavam as folhas dos ciprestes e cegavam de luz. Então, Pedro olhando, viu, no azul do céu, agora limpo e lavado, a primeira andorinha dessa Primavera.

Memória 19 : Herbert von Karajan

Herbert von Karajan nasceu a 5 de Abril de 1908. A música de Bach parece-me ser a melhor forma de começar a manhã deste domingo de Páscoa de 2010.

Biblioteca Infanto-juvenil IX: Colecção Gato Preto



Da Colecção Coelhinho Branco passamos para a Colecção Gato Preto, uma vez que as medidas, o autor e ilustrador, assim como o editor são idênticos. O que difere é o preço, pois custava 4$00. E é pena que tenham sobrevivido somente os números 1, 4, 8 e 11 nas caixas infanto-juvenis.

Dedicado a JAD, por motivos óbvios.

Post de HMJ

sábado, 3 de abril de 2010

Uma ficção pascal


Integrada na celebração da Paixão de Cristo, parece oportuno relembrar A Relíquia, obra de Eça de Queiroz, injustamente relegada para segundo plano.
As reproduções de diferentes pintores, lembrados a propósito da Paixão de Cristo, tanto no Prosimetron como no Arpose, trouxeram à memória o "sonho" do Teodorico queiroziano. Eis alguns trechos:
"Mas vêr Jesus ! Vêr como eram os seus cabellos, que pregas fazia a sua tunica, e o que acontecia na terra quando os seus labios se abriam ! ...
(...) A lenta aragem que balançava na janella o ramo de madresilva, e lhe aviviva o aroma, acabava talvez de roçar a fronte do meu Deus, já ensanguentada d'espinhos ! Era só empurrar aquella porta de cedro, atravessar o pateo onde gemia a mó do moinho domestico, - e logo, na rua, eu poderia vêr presente e corporeo o meu Senhor Jesus tão realmente tão bem como o viram S. João e S. Matheus." (...)
Ao terminar o "sonho", o amigo Topsius remata:
"- Theodorico, a noite termina, vamos partir de Jerusalem ! ... A nossa jornada ao Passado acabou ... A lenda inicial do christianismo está feita, vai findar o mundo antigo !" (...)

P.S.: citação com base na edição de 1902, Porto, Livraria Chardron.

Dedicado aqueles que partilharam comigo a leitura d'A Relíquia.

Post de HMJ

Favoritos XVI : Albert Schweitzer

Para o tempo que decorre.

Contra a corrente : Papas e Papados



Sendo agnóstico, mas tendo sido católico praticante quase até ao fim da minha adolescência, o "meu" Papa de referência é João XXIII. E nasci ainda e durante o Papado de Pio XII. Sempre achei Paulo VI excessivamente "florentino" e diplomata, para o meu gosto. João Paulo I foi apenas a promessa de um sorriso, de tão breve. João Paulo II incomodou-me, sobretudo, pela exposição da sua agonia, em público, e o seu "ronco", quase final, pela Praça de S. Pedro, quando já não conseguia falar - e o quis fazer. Era preferível, sem dúvida e no meu entender, um apagamento discreto e gradual, humildemente cristão. Evitando aquela exposição que sempre me fez lembrar os pedintes, na rua, a mostrar as suas chagas. Havia algo de exibicionista, em tudo aquilo. E o "voyeurismo" da nossa sociedade do espectáculo é o que se sabe.

Ontem li, no "Público", um artigo de opinião do ex-director do jornal, José Manuel Fernandes, intitulado "É arriscado escrever sobre estas coisas. Não estão na moda", sobre o actual Papa. Tirando um ou outro pormenor, estou de acordo no essencial. Daí, sendo eu agnóstico, avaliar o ainda curto Papado de Bento XVI, de forma positiva. É um Papa do espírito, ao contrário de João Paulo II que foi um papa do corpo e da carne. E este período pascal é uma boa altura para que um Papa que pensa e pensa, muitas vezes, connosco, seja bem acolhido ou, pelo menos, escutado. Quanto ao resto já sabemos, a Igreja é sempre lenta e morosa quanto a mudanças. Há que ter paciência e caridade...

Curiosidades 3



Era no sábado de Aleluia que se queimava o Judas na Cidade, ao meio-dia. E, pelo menos, em dois locais: na Rua da Raínha e junto ao Mercado. A figura do Apóstolo traidor parecia um espantalho vestido de roupas velhas e gastas, suspenso de um arame, no meio da rua. Sempre com a saca dos trinta dinheiros, numa das mãos de madeira, coberta por luva tosca. O costume era antigo e passou também para o Brasil. Nessa época, porque o dinheiro gasto na "Queima do Judas" era contado, espalhavam-se, pelas roupas garridas mas gastas do boneco, pequenos sacos com sal para provocar estalidos fortes quando o fogo lhes chegasse. Mas a saca dos trinta dinheiros era o sítio onde se concentrava maior quantidade de sal, e estava bem presa ao "esqueleto " de Judas, para arder até ao fim. E, no final, eram palmas que nunca mais acabavam. Neste sábado, na Cidade, li que vai haver "Queima de Judas", mas à noite, às 22 horas. E, se calhar, usando mais sofisticadas tecnologias...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Resposta a um desafio do Prosimetron





Esta história do soldadinho perneta, que Andresen pôs em letra de forma, de um conto de tradição popular, foi o 2º livro que li, por mim mesmo. E que me despertava ternos sentimentos infantis. Ao contrário de "A Princesa dos sete pares de sapatos" que me acordava para vagos terrores, antes de adormecer. É, pelo menos essa, a memória que tenho hoje dessas leituras. Este último conto pertencia a uma colectânea (Colecção da Criança) de novelas, volume II, cujos fascículos eram publicados semanalmente. O conto "A Princesa...", dizia-se no início, era: "adaptado da novela mágica que se contava na freguesia de Pousa (Barcelos) em 1870". E foi passado a escrito por Abílio de Pombeiro (pseudónimo?). O livro, já encadernado e em 2ª mão, foi comprado no Porto, no princípio dos anos 50 do século passado. Mas a impressão, publicação e venda inicial data, creio eu, ainda dos anos 30 (Editor António Teixeira de Sousa Braga), por causa dos anúncios publicitários, muito toscos e primitivos, que intercalam as novelas. Os desenhos, preciosos, na capa que se mostra e entremeando os textos das histórias, são de Augusto Gomes (1910-1976) - pintor portuense cuja obra muito aprecio, ainda hoje.


P. S. : para MR que lançou o desafio, pelo Dia Internacional do Livro Infantil.

Intermediação : Bach

Depois de Grünewald, Bach, para seguirmos para coisas mais profanas. Dentro de pouco tempo.

Pouco antes da Páscoa : a Crucificação de Grünewald





Mattias Grünewald (1470-1528), pintor alemão, ilustra bem esse Jesus Cristo com seus pés (quase) assentes na Terra. Nesta sexta-feira de Paixão.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Macau : um inventário de Bocage



O lado insólito de poemas com números sempre me despertou interesse e atenção. Há-os nas "Poesias" do Abade de Jazente, e Alexandre O'Neill, pelo menos. Hoje, descobri um de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) que andou por Macau, entre Outubro de 1789 e Março de 1790. Provavelmente, terá sido neste período da sua vida, que fez o soneto que se segue:

Um governo sem mando, um bispo tal,
de freiras virtuosas, um covil,
três conventos de frades, cinco mil,
Nh's e chins cristãos, que obram mal;

Uma Sé que hoje existe tal e qual,
catorze prebendados sem ceitil,
muita pobreza, muita mulher vil,
cem portugueses, tudo em um curral;

seis fortes, cem soldados, um tambor,
três freguesias cujo ornato é pau,
um vigário-geral sem promotor,

dois colégios, um deles muito mau.
Um Senado que a tudo é superior,
é quanto Portugal tem em Macau.

Dia da Espiga : a Todos os que



Estes ramalhetes pequenos que se vendem, ainda hoje, para celebrar a quinta-feira de Ascensão, têm uma simbologia própria. As folhas de oliveira, a paz; as papoilas, o amor; as flores amarelas, a boa fortuna (o ouro), etc... Ao ramalhete se deve juntar um pãozinho pequeno ( pão da espiga) que algumas padarias antigas e "boutiques" de pão ainda oferecem aos clientes, no dia de hoje, muito bem cozido, para ter pouca humidade e poder durar um ano, até ao próximo dia da espiga. Do conjunto, a papoila é, no entanto, a que terá vida mais breve...

Adagiário VI : Abril



1. A três de Abril o cuco há-de vir, e se não vier até oito, está preso ou morto.

2. Inverno de Março e seca de Abril, deixam o lavrador a pedir.

3. A sardinha de Abril, é vê-la e deixá-la ir.

4. Vinha que rebenta em Abril, dá pouco vinho para o barril.


Nota pessoal: apeteceu-me substituir, no primeiro provérbio, cuco por melro, porque este último já me canta, nas redondezas, lindamente, há mais de 15 dias, e logo pela manhã...