sexta-feira, 26 de março de 2010

Frase do dia : ? ("o Inimigo Público")



" Vaticano abafou casos de pedofilia para evitar que Deus descobrisse"


in "Público", de 26/3/2010.

Receitas poéticas 2 : remake



De Alexandre O'Neill, para Manuel Bandeira, no seu octogésimo aniversário, dedicado pelo portuga ao brasuca:

Remessa


Drinka, trinca
connosco, Manuel,
sem autógrafo nem coquetel,
que nós não podemos ter os teus oitenta,
nem com uísque, nem com água de Juventa,
Manuel!


P. S. : aos brasucas, intrépidos insistentes revisitantes (da "criativa"?), por esse "Google" fora...

Mais Rosa : em jeito de aperitivo



Um dos livros de João Guimarães Rosa (1908-1967) que mais afecto literário me desperta é "Tutaméia - terceiras estórias". Este livro de pequenos contos tem nada menos de quatro prefácios que iniciam e, depois, intercalam as narrativas. Neles, Rosa aborda o tema anedota. Com as suas implicações diversas, mas sempre naquele tom de menino que saboreia as palavras, maravilhado pelas sua magia e virtualidades. Diria mais, o Escritor deixou larga "prole" de filhos e netos, mas de menor qualidade: Luandino, Agualusa, Mia Couto...e que não sabiam tantas línguas como Guimarães Rosa, nem dominavam o português arcaico como ele o sabia manejar. Seguem alguns pequenos excertos de "Aletria e Hermenêutica" que é o primeiro prefácio do livro que referi acima.

"...A anedota, pela etimologia e para a finalidade requer fechado ineditismo. Uma anedota é como um fósforo; riscado, deflagrado, foi-se a serventia. (...) A vida também é para ser lida. Não literalmente, mas em seu supra-senso. E a gente, por enquanto, só a lê por tortas linhas. Está-se a achar que se ri. Veja-se Platão, que nos dá o «Mito da Caverna». Siga-se, para ver, o conhecidíssimo figurante, que anda pela rua, empurrando sua carrocinha de pão, quando alguém lhe grita: -«Manuel, corre a Niterói, tua mulher está feito louca, tua casa está pegando fogo!...» Larga o herói a carrocinha, corre, vôa, vai, toma a barca, atravessa a Baía quase... e exclama: -«Que diabo! eu não me chamo Manuel, não moro em Niterói, não sou casado e não tenho casa...» Agora, ponha-se em frio exame a historieta, sangrada de todo burlesco, e tem-se uma fórmula à Kafka, o esqueleto algébrico ou tema nuclear de um romance kafkaesco por ora não ainda escrito..."


P. S. : Para MR, porque sim.

A lágrima do Filósofo





Mão atenta de um Amigo fez chegar, até mim, um pequeno artigo de Pierre Assouline. Apontamento breve e conciso, grave no tom, humano de conteúdo. Entre várias informações interessantes, conta que a George Steiner foi permitido folhear, no Château de Chantilly, em França, um exemplar dos "Comentários da Guerra da Gália", de César, que tinha sido pertença de Montaigne. E que tinha anotações, nas margens, do próprio punho do senhor de Eyquem. Perante a preciosidade bibliográfica, George Steiner não conseguiu reter uma lágrima, comovido - conta Assouline.



P. S.: Com agradecimentos a H. N. .

quinta-feira, 25 de março de 2010

O silêncio antes da morte


Marcos António Portugal nasceu em Lisboa, a 24/3/1762 e veio a morrer em 17/2/1830, no Rio de Janeiro. Tinha acompanhado a família real portuguesa para o Brasil, aquando da sua fuga, perante as invasões francesas. Em Lisboa, tinha sido organista da Sé Patriarcal. E viveu largo tempo em Itália. Foi compositor prolífico mas, curiosamente, parece ter feito a sua última obra, 13 anos antes de morrer. Nesse último período da sua vida, provavelmente, optou pelo silêncio. A ária "Carlota" pertence à ópera "Le donne cambiate" que foi composta em 1797.

O absurdo e o mistério



De há um tempo a esta parte, tenho observado que, ou seja pela idade ou pela instabilidade do mundo em que vivemos, uma boa parte das pessoas com quem mais convivo se preocupa, de uma forma mais intensa (lendo, interrogando-se e interrogando), com a religião, a morte, e o depois... Isso fez-me lembrar François Mittérrand (1916-1996) que, pouco antes de morrer, mas já com a morte anunciada, pelo avanço crescente do cancro da próstata, quis e promoveu diversos encontros e diálogos com várias personalidades, sobre o além. Uma das pessoas, com quem falou, foi Jean Guitton (1901-1999), escritor e filósofo francês, católico. Este diálogo deu origem a um livro, editado em 1997, sob o título "L'absurde et le mystére". O então ainda Presidente de França foi, de helicóptero, até à residência do filósofo e começou a conversa do seguinte modo: " Guitton, o senhor que é filósofo e tem fé, tem dez minutos para me dizer qual é o sentido da vida... Aparentemente, tudo é absurdo ou, então, tudo é mistério."

Ficcionalmente, João Guimarães Rosa terá escolhido a segunda. Não era ele que dizia que " as pessoas não morrem, ficam encantadas"? Também no seu magnífico conto "Cara de Bronze" ilustra uma situação afim que, resumidamente, passo a lembrar. Um rico fazendeiro, vendo a morte aproximar-se, encarrega três dos seus melhores vaqueiros a irem pelo mundo descobrir, para depois lhe contarem, qual era a razão da vida. Passa-se algum tempo, e dois deles desistem de procurar. O terceiro prossegue e, mais tarde, regressa à fazenda e, junto ao leito do moribundo, diz-lhe: " A noiva tem os olhos gázeos!" O resto é silêncio.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Salão de Recusados XII : O alheio




1. "...Té que vão os Portugueses
por venderem junto, e bem:
mais modo no trato têm
que Veneza, e Genovezes..."

Século XVI, Garcia de Resende.


2. "...os nossos, às vezes, falam de Germânias e de Américas, com linguagem de ervilhaca e olhos de pacóvios deslumbrados..."


Século XIX, José Policarpo da Sylva.


3. "...quem se entretem a falar dos outros países fá-lo, muitas vezes, por ignorar ou para esquecer o nosso...."

Século XXI, M. Tavares da Cruz.


Favoritos XV : Aquilino Ribeiro






"...A bolota taluda ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir?! Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem o sabe?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim? Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas? Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava no flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser.
Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de Outono..."


Aquilino Ribeiro (1885-1963), in "A Casa Grande de Romarigães".

terça-feira, 23 de março de 2010

Carta a um Amigo que faz anos





23-24/3/2010

Meu Caro:
Estive a consultar canhenhos, memória e, é certo, que foi em 1970, que nos conhecemos. Outubro, provavelmente. Vachsel Lindsay versus John Updike, ao contrário das nossas vocações..., é curioso. Depois, a geografia sentimental: Av. de Roma, São Sebastião da Pedreira, S. João do Estoril, "As Gaivotas", Azarujinha (e aquele arroz de mexilhões que deram à praia...), Rodrigo da Fonseca, Algés; mas antes, houve a noite de Lisboa, o Cunha Telles, o "Continuar a viver", cujo argumento, ele nunca pagou, salvo as CR&F e o Whisky que lhe bebemos em casa, para abate... E ainda, e agora o "Rio Grande", a Lisboa queiroziana. Claro, "Os Cornos de Cronos", "O Rei dos Lumes", "A Última Ceia" e o teu desencanto literário, depois de "Shadows in a Dream" a duas (?) mãos. As abóbodas da Bertrand com o Vergílio Ferreira ou o "Espelho de Água", a ver o Tejo, à noite. Tanta coisa, tantos anos: quase 40.
Vai a carta, com música. Pensei no Mahler de que tu gostas (mas que eu não aprecio, particularmente), depois no Marcos Portugal que fazia anos no teu dia - se puderes, ouve a ária "Carlota" de "Le donna cambiate", que é muito bonita. Mas tu andas numa de Rameau... por isso vai um bocadinho de "Les Indes Galantes". E, no que diz respeito ao "outro capítulo", apetece-me glosar o rei espanhol, pela positiva, e perguntar: "Por que te callas?"
Também segue um velho e amigo abraço de parabéns, e lembranças à "merryl". Até quinta!
A. S.

Citações XVIII : Jean Cocteau



Na conversação, se a alma circula, sucede que esqueço os meus desgostos, um mal de que sofro, esqueço-me até de mim mesmo, tanto as palavras me inebriam e se inflamam nas ideias.


Jean Cocteau (1889-1963), in "La Difficulté d'être".

segunda-feira, 22 de março de 2010

Escrita criativa : remix Cesariny de Castro O'Neill...




e as palavras sentadas inúteis à porta dos dias
antes de todo o intervalo para o crime
Das pirâmides reais ultrapassando a ponta
Mais durável que o bronze, um monumento fiz.
Manuel abre a oficina e recomeça a mesa
que talvez acabe para mim
com lavores finos e olhos de princesa
põe um ponto final, a dizer que sim.

Música e Poesia V : Evita


Lloyd Webber faz hoje 64 anos. Quando as tropas inglesas embarcaram para os navios que seguiriam para as Malvinas (Falklands), marcharam ao som de "Don't cry for me, Argentina" - na melhor tradição do humor britânico...

Curiosidades 2



Por vezes, detenho-me a observar e tentar interpretar os elementos que tenho, disponíveis, sobre as visitas do "Arpose". Não consigo retirar conclusões muito específicas, mas há dados insofismáveis. Tirando Portugal - o que é óbvio -, o maior número de visitantes, vem do Brasil. A seguir, U. S. A.. Depois, Inglaterra e Alemanha. Os números estatísticos dos restantes países-visitantes são residuais. Mas há visitas de cidadãos, de 2 países, que me intrigam: Finlândia e Turquia (1 visita de cada um destes países). Por que é que teriam chegado ao "Arpose"? E não sei responder, com garantia de rigor...
O campeão de consultas (e da parte do Brasil) foi um post que intitulei "Receitas Poéticas" e que fala de Fernando Assis Pacheco, reproduzindo um poema do autor. Outro, muito escolhido, é o "Poema autógrafo" sobre Lisboa, de Eugénio de Andrade. Diz-me uma voz amiga que isto se deve, provavelmente, às modernas cadeiras universitárias de "Escrita Criativa". Como se fosse possível fazer, à partida, de um cidadão comum, mulher ou homem, uma futura Sophia ou um próximo Eça... Mas lá que o Rui Zink se esforça, lá isso é verdade...
Mas esta globalização das visitas dá-me que pensar... A mais curiosa, ultimamente e do Brasil, tinha por "search word": "o que pensa Quevedo de Carlos V". Ora, não pensa nada, porque o autor de "El Buscón" já morreu. E o "Arpose", coitado, também não deu uma resposta satisfatória ao ilustre visitante brasileiro. Recorda-me, outra vez, a voz amiga, sobre esta globalização, os versos de Cesário Verde, com ironia:"...Madrid, Paris, S. Petersburgo, o mundo..." Et sic transit ...
Nota: este post é dedicado a todos os Visitantes (sempre benvindos) e Amigos (sempre estimados) do "Arpose", cordialmente.

domingo, 21 de março de 2010

Para o dia da Poesia," in extremis"


Este "post" é, simultaneamente, uma lembrança a Paulo Quintela (1905-1987) que, não sendo poeta, traduziu, com escrúpulo profissional e sensibilidade de transmontano, alguns dos grandes poetas alemães (Rilke, Hölderlin...). "Die Rose", de Friedrich Hölderlin (1770-1843), antes desta minha versão, já fora traduzido, em 1944, pelo professor de Coimbra.

A Rosa

Doce Irmã!
Onde buscar, se for Inverno,
Flores em grinaldas para os deuses?
Como se ignorasse o que é divino
Já que de mim se foi o espírito da vida;
Quando oferendas para os deuses procurar,
As flores, no estéril campo,
E não te encontrar.

P. S.: Com agradecimentos à Renate, pela aguarela, e a HMJ.


Primavera


Na primavera quando as tardes se arredondam
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar...

Ruy Belo

P.S.: para "c. a.", que teve nostalgia do mar da Arrábida, este mar de António Carneiro (1872-1930), possívelmente nortenho, com palavras de um poeta do Sul.

Biblioteca Infanto-juvenil VII: Colecção "O Encanto das Crianças"


Poucos volumes da colecção "O Encanto das Crianças" - com dimensões de 220 x 150 mm - se conservam no espólio de APS.
O encanto das ilustrações, designadamente do volume dedicado às Aventuras do Manecas, tornou difícil a opção da reprodução das imagens. Por fim, decidimo-nos pela imagem da capa do volume nº 5, O Papagaio Mágico, esperando ir ao encontro dos leitores.

Post de HMJ

sábado, 20 de março de 2010

Primavera chaplinesca

Como a Primavera e o sol não dão um ar da sua graça...

Duplo Aniversário





Beniamino Gigli (1890-1957), grande cantor italiano, nasceu a 20 de Março.

Alice Vieira (1942), amiga de juventude e do "DL-Juvenil", também nasceu nesta data. Como ela dizia, no seu livro de estreia literária "De Estarmos Vivos" (1962): "(recordar só é bom / quando para lá do silêncio há um pássaro deslumbrado)". Parabéns, Alice!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Bibliofilia 10 : Francisco Manuel de Melo





Além de grande prosador e poeta, Francisco Manuel de Melo (1608-1666) é o elo central de uma linha ética de portugueses distintos que, tendo início em Francisco de Sá de Miranda, passa por ele e ressurge na figura moral de Alexandre Herculano. Privaram com reis, com o Poder, mas isso nunca os inibiu de dizer o que pensavam e criticar os actos régios com que não estavam de acordo. O livro "Aula Política, Cúria Militar" foi publicado, postumamente, em 1720, por Mathias Pereyra da Sylva, e não é frequente aparecer à venda. Creio que nunca foi reeditado.
O meu exemplar, comprado em Lisboa, em 1991, custou Esc. 20.000$00 (cca. euros 100,00), está em bom estado, tem uma bela e austera encadernação em pele, com ferros a seco. O único e pequeno senão: uma pequena falha de papel no canto superior direito do frontispício, restaurada.
Em 1935, a Livraria Coelho vendeu um exemplar (lote 596) por escudos 150$00. Em 1977 a Livraria Camões anunciava no seu boletim (nº 2710) um outro exemplar por Esc. 5.000$00 (euros 25,00). O Palácio do Correio Velho num seu leilão de 1993 (lote 499) vendeu um exemplar da "Aula Política, Cúria Militar" por Esc. 42.000$00 (cca. euros 210,00). Finalmente, esta mesma casa leiloeira, em 2006, noutro leilão (lote 434), tinha uma estimativa de venda, para um outro exemplar, entre euros 300/600,00.

Parábola do velho Brueghel



E se a Grécia nos levar a todos?!...

Fernando Echevarría


Fernando Echevarría (1929) não é um poeta fácil. Muito menos para ler muito depressa. Há que pensar, saboreando, em cada verso a sequência que vai abrindo até ao interior de nós mesmos. Sem pressa alguma. Até despertar um eco de entendimento gradual.
Do poeta e do livro "Epifanias"(2006), transcreve-se "Oração para antes do estudo":
Dai-nos, Senhor, um coração humilde.
A inteligência de aceitar agora
que só a si o estudo se ilumine
e nele se esqueça o estudante. A cópia
do que estudarmos em nós viva, a fim de
que apenas o estudado seja porta.
E luz aberta por onde entrem livres
aqueles cuja alegria é obra
de compenetração que, sem limites,
se entrega. Fica com seu dentro fora.
Ilumina, Senhor, a inteligência de ir-se
esquecendo cada qual no que se mostra.

quinta-feira, 18 de março de 2010

apud



Quem anda na blogosfera tem de preparar-se para tudo. Principalmente, com bonomia, em relação a gente pequenina que, para parecer mais alta, trepa despudoramente para os ombros dos outros. Acontece. Mas também é conveniente sacudir estes mosquitos anões.

A "lebre" de Dürer (1471-1528), para mim, é tão perfeita e bonita que não resisti a reproduzí-la, mediocremente é claro, pelo meu traço de amador, para oferecê-la a 2 ou 3 pessoas que mais estimava. Só que tive o honesto cuidado de ,antes de assinar, escrever "apud (ou cópia de) Dürer"...

John Updike



Se fosse vivo, John Updike (1932-2009) completaria, hoje, 78 anos. Com Mary Mccarthy, Salinger e Truman Capote pertence à geração de lídimos sucessores directos da geração de Hemingway, Steinbeck e Faulkner, grandes renovadores do romance norte-americano. Updike é, no entanto, aquele em que a cultura europeia mais se faz sentir. Vermeer, a Inglaterra e a França aparecem na sua obra. Até os Açores surgem num seu poema. Para além duma obra em prosa vasta, foi também crítico de arte e literatura, em colaborações regulares para a revista "The New Yorker". A série de romances que têm por personagem central "Rabbit" (Harry Rabbit Angstrom), "The Poorhouse Fair", "The Centaur" ilustram claramente os seus temas centrais: pequenas cidades de província, classe média, conflitos pessoais ou sociais. Para a poesia deixou as preocupações religiosas, os sentimentos e a morte. As suas figuras tutelares, do ponto de vista filosófico ou religioso, foram S. Kierkegaard e o teólogo Karl Barth. Da poesia, de John Updike, escolhemos um dos seus últimos poemas, publicado em "The New Yorker", em 2003. Intitula-se "Evening Concert, Sainte-Chapelle". Esta Igreja de Paris é uma construção gótica de 1248, celebrada pela luz e cor intensas que se filtram através dos seus altos e belos vitrais. É frequentemente escolhida para recitais de música clássica.

Concerto ao fim da tarde, Sainte-Chapelle

As célebres janelas afogueadas na luz
que vem do norte, derramada através do Sena;
ocupamos, sussurrantes, os lugares. É então que os violinos
celebrando o vigor estridente de Vivaldi, depois Brahms
parecem sorver com doçura apaixonada,
pouco a pouco, a força do vermelho,
o azul de luz intensa, para que o olhar audível
possa ver as duras linhas negras em forma de cruz
e de escudo, suporte e anel que entrelaçam
a sagrada, luminosa fantasia.
A música surgindo; o brilho como leite,
um sussurro para os olhos, reflexo atenuado
até que o bater dos corações, os nossos violinos
se vão cobrindo por finas, mas sólidas folhas de chumbo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O leão, a águia, o galo de Barcelos, e a cabra (ou vaca de Míron)





Antes de mais, uma declaração de interesses: sempre fui mais anglófilo do que germanófilo, desde que comecei a pensar, politicamente. Em 1973, quando pela primeira vez fui a Inglaterra, um discurso de Harold Wilson, de cerca de 5/7 minutos, que vi e ouvi na BBC, convenceu-me de como em política se pode ser breve, lógico, verdadeiro e, racionalmente, conclusivo. Infelizmente, Blair com o seu virtuosismo "palhaciano" abalou-me, profundamente, nas minhas convicções pró-britânicas. Esperei muito de Brown, mas tem-me sido uma grande desilusão...
Por outro lado, Kohl ( aquela mão dada com Mittérrand, não me sai da memória!) e, agora, a Sra. Merkel, não sendo do meu quadrante político, têm-me convencido da sua "bondade" pragmática: realismo, solidariedade e razoabilidade de princípios.
Hoje, no "Público", Teresa de Sousa, jornalista que leio sempre com atenção e que, francamente, admiro a tratar as questões europeias, faz a pergunta : "O que quer a Alemanha da Europa?" No que escreve, estou em profundo desacordo, e acho que é a primeira vez em que tal acontece. Então a Alemanha é que tem de pagar os dislates, incontinência, gastos e consumo perdulários de alguns outros países europeus? Será que temos de ter sempre um "paizinho" protector e um guarda-chuva emergente e providencial para a nossa inconsciência e erros?

Curiosidades 1






Segundo Eduardo de Noronha (1859-1948), no seu livro "Reinado Florescente", 1928?, para o casamento do futuro rei D. Carlos (1863-1908), com a princesa ( mais tarde rainha) Maria Amélia de Orleães (1865-1951), a mãe do noivo, raínha D. Maria Pia (1847-1911) usou: " um vestido, cópia admirável, feita por Worth, do quadro do Louvre «O triunfo de Maria de Medicis» de Rubens. A raínha, que conta apenas 42 anos, sem ser formosa, desprende de si uma distinção e um garbo que a todos domina..."




Nota: (Charles Frederick) Worth (1825-1895), costureiro inglês que se fixou em França, é considerado o pai da "Alta-Costura" moderna.

terça-feira, 16 de março de 2010

Os 4 Cavaleiros do Apocalipse



Só para lembrar a data, amanhã. Da entrada destes 4 cavalheiros pela porta de serviço da História. Ainda para mais nos Açores que têm ilhas tão bonitas - dizem...

Citações XVII : François Mauriac



A felicidade... Quando, no declínio, queremos seguir a sua pista desde a infância, definir-lhe os traços, fixamos o pensamento sobre alguns dos nossos sucessos que foram animados por esses encontros. Mas nada reaquece, agora, essas geladas recordações. Lembro-me de ter sido feliz. Suponho que o fui em determinadas circunstâncias. No entanto, a sensação de felicidade está muito menos ligada a factos do que a atmosferas, sobretudo a uma determinada estação que não era ainda a das férias grandes, mas à sua aproximação.


in "Mémoires Intérieurs", François Mauriac (1885-1970).

segunda-feira, 15 de março de 2010

Favoritos XIV : Norma


Completa-se com este "post" a trilogia sobre "Norma" de Vincenzo Bellini (1801-1835) que iniciei com as transcrições de Franz Liszt (1811-1886) executadas por Alfred Brendel. A ária "Casta Diva" é cantada por Cecilia Bartoli (1966).

Arrábida sacro-profana



Século XVII : Elegia II, da Arrábida


Alta serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda.
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saudade, que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saudosa, e branda?

Daqui mais saudoso o Sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo se reparte...

Frei Agostinho da Cruz



Século XX (196?) : Arrábida


A solidão apurada,
firme gume frente à serra

onde nascemos, e o nome
que recebemos da terra.

Alberto Soares



Século XXI (15/3/2010) : Portinho da Arrábida


Segunda-feira de (quase) Primavera. De tal modo ameno era ficar na esplanada deixando pairar o olhar pela beira-mar. Verdes e azúis até ao infinito. Atrás: a pousada explorada, nos anos sessenta, pelo irmão de Sebastião da Gama, é pertença, agora, da "Casa do Gaiato". O mar puríssimo, ainda de Inverno mas, hoje, sereno, é perturbado apenas pelas vorazes e visíveis taínhas. Não havia hipocampos à venda. Nem vestígios de Frei Agostinho da Cruz; de Sebastião da Gama, apenas um pequeno obelisco, à margem da estrada, e os meus anos juvenis já vão tão longe... Ficaram estes azúis infinitos: escuros, verde-azúis, celestes, pálidos onde o mar toca o azul claro do horizonte. Azul-arrábida...

Memória 17 : Carolina Michaelis de Vasconcelos



A 15.3.1851 nasceu, em Berlim, Carolina Michaelis de Vasconcelos, vindo a falecer, a 16 de Novembro de 1925, no Porto.
Nesta data, pretende-se, tão só, evocar a memória de uma investigadora que escolheu Portugal como país de realização pessoal e profissional.
Não é este o lugar, nem o propósito, para falar, de forma aprofundada, sobre a vida e a obra de Carolina Michaelis de Vasconcelos.
No entanto, numa altura em que as investigações na área das Humanidades carecem de reconhecimento público, sobrepondo-se o material ao valor matricial do pensamento, convém recordar a figura de CMV e o seu labor paciente, documentado e, frequentemente, desinteressado. O mesmo não se poderá dizer de todos aqueles que, nos dias que correm, se alimentam do seu trabalho em "cópias de vão de escada" disfarçadas.

Post de HMJ