quinta-feira, 22 de abril de 2010

Haiku do séc. XX em terceira mão



Minha esposa -
leva consigo o nosso filho
parece a lua em crescente.

Nakamura Kusatao (1901-1983)


Esmago uma formiga -
o olhar
dos meus três filhos.

Katô Shûson (1905-1993)


Atrás de mim
a primavera da vida
- esmago um morango.

Mizuhara Shûôshi (1892-1981)


P. S. : para MR, em eco do Prosimetron.

Sinestesias : em sequência de Elgar


O poema "Violoncelo" é um dos mais conhecidos de Camilo Pessanha (1867-1926) e onde as sinestesias ("produção de duas ou mais sensações sob a acção de uma só impressão") mais se tornam evidentes. Ao inverso dos metais que melhor expressam sentimentos de júbilo ou alegria, o Poeta escolhe o violoncelo, à partida, para exprimir sentimentos que ultrapassam a tristeza ("pesadelo", 5ºverso). As arcadas (sobre o violoncelo) interligam-se a pontes para a sequência da água - tema muito recorrente em Pessanha - em múltiplos aspectos: "caudais de choro, rio, lacustres, blocos de gelo". Mas o melhor será que o poema fale por si.

Chorai arcadas
Do violoncelo
Convulsionadas
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Nota : um aviso a quem tenha, da "Clepsidra", exemplares das Edições Ática. Na 4ªestrofe, 3ºverso, há uma gralha: "lemos" por lemes que é o correcto. Esta gralha deve ter-se perpetuado em sucessivas edições. É comum, pelo menos, nas edições que tenho: de 1969 e 1983.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Favoritos XVIII : Jacqueline du Pré

Esta escolha não exclui nem Edward Elgar (1857-1934) que compôs este Concerto para Violoncelo já na velhice, nem Daniel Barenboim (1942), antes se completa com eles. Mas a minha preferência vai, sem dúvida, para a interpretação de Jacqueline du Pré (1945-1987).
Obsv.: a única coisa de que não gosto, neste vídeo, é o corte de cabelo de Barenboim...

Em louvor do melro



Convivial e citadino, ou quase rústico e campestre, o melro acompanha-me desde cedo. Já não é o de Guerra Junqueiro, nem o da Gulbenkian que foi parar a um poema de João Miguel Fernandes Jorge mas, com certeza ,um parente afastado dos dois. Quer o melro urbano que vem do antigo jardim do Conde de Farrobo e que começa a cantar, do alto de uma velha chaminé no coração de Lisboa, antes de nascer o sol; quer este, "outrabandista", que, hoje, iniciou o seu trinado antes das cinco da manhã. Quem começa assim o dia, tão de negro e laranja, deve ser feliz. Saudêmo-lo, pois, na sua jovialidade e companhia matinal!

Revivalismo : Orfeu Negro

Porque Marcel Camus nasceu a 21 de Abril de 1912. Porque o Brasil, felizmente, já não é assim. Porque o "Orfeu Negro" foi um filme de que gostei muito. Porque o Vinícius de Moraes... porque..., porque sim.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Um homem dividido



A literatura espanhola conta com dois escritores de nome Garcilaso de la Vega. Um, poeta e o outro historiador. Aquele de que quero falar, para o distinguirem do poeta, chamam-lhe "El Inca Garcilaso de la Vega". Nasceu no Peru, em Cuzco, a 12 de Abril de 1539, filho do capitão espanhol D. García Lasso de la Vega e da princesa inca Isabel Palla Chimpu Occlo, filha do chefe Huallpa Tupac. Garcilaso viveu com a mãe até aos 10 anos e é dessas memórias e conhecimentos que irá falar na sua obra-prima intitulada "Comentarios Reales de los Incas", publicado pela primeira vez em Lisboa, em 1609. Garcilaso viera para a Europa aos 21 anos de idade. Estudou, combateu, escreveu e traduziu os "Diálogos de Amor" de Leão Hebreu. Dominava o latim, o italiano, o espanhol e o quechua. Homem da renascença espanhola, como militar serviu sob as ordens de D. João de Áustria, mas acabou por se retirar para um mosteiro, desiludido. Dividido entre duas culturas, dizia nos "Comentarios Reales...": "...Naquele tempo tive notícia de tudo aquilo que temos vindo a escrever porque, na minha meninice, me contavam as suas histórias (dos Incas, reis do Peru) como se contam as fábulas às crianças pequenas. ..."
P. S. : em complemento, para H. N..

Na perigosa curva dos 40



O último grande amor de Almeida Garrett (1799-1854) terá sido Rosa Montufar Infante, senhora de ascendência espanhola, Viscondessa da Luz, e casada. Garrett conheceu-a em 1845. Este idílio, ou paixão, veio a dar origem ao livro de poemas "Folhas Caídas", publicado em 1853.
As cartas de amor de Garrett, cerca de 300, foram quase todas destruídas. Restaram à volta de 20, milagrosamente, que se conservam na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, provenientes da biblioteca do bibliófilo açoriano José do Canto. Reproduz-se um pequeno excerto de uma delas, escrita por Almeida Garrett e datada de 5 de Agosto (1846?):
"...Principiaste o dia amando-me muito; acabaste-o não sabes como. - Eu principio todos os dias amando-te muito, acabo-os amando-te muito mais. Qual de nós ama melhor? Se te parece que sejas tu, ..."

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Almeida Garrett : retrato em palavras



A iconografia portuguesa de cidadãos ilustres é pobre, se comparada com a de muitos outros países europeus. Camões tem apenas dois retratos tirados do natural e considerados fidedignos, creio. De Sá de Miranda existe apenas uma gravura que o retrata, ainda em vida. Claro que há depois as efabulações e fantasias imaginadas, mas não é o mesmo. Felizmente, existe uma descrição física (e não só) do Poeta da Tapada, por palavras, incluída na 2ª edição das suas obras, em 1614, feita a instâncias, ao que parece, de D. Gonçalo Coutinho. A partir do séc. XIX, a situação iconográfica portuguesa melhora. Mas também é sempre vantajoso o complemento de um retrato por palavras que supre algumas lacunas do retrato pintado. De Almeida Garrett existem vários retratos pintados, e gravuras, mas é interessante dar a palavra a Gomes de Amorim, seu devotado biógrafo, que o conheceu e com ele conviveu, pessoalmente. Diz o biógrafo sobre Garrett:
"Completara a esse tempo quarenta e sete anos. Estava no vigor da idade; se tivesse tido sempre boa saúde, poderia dizer-se que era moço ainda. (...) Descobria-se o valetudinário, disfarçado em homem robusto. (...) Era de estatura regular ou antes mais alto do que baixo; tinha agradável presença, ar distinto e composto; a fronte alta e saliente; o nariz e a boca, apesar de grandes, não desarmonizavam as feições do rosto, que era comprido. Os olhos, entre garços e verde-mar, grandes, cristalinos, límpidos, e de um brilho ao mesmo tempo esplêndido e sereno! Estes e os lábios delgados, onde parecia, quando conversava, pairar de contínuo o sorriso de fina e delicada ironia, davam-lhe a pronunciada expressão de soberania, que a inveja e a ignorância traduziam por orgulho. Tinha cor pálida morena; usava suiça muito curta, e pequenina pera ou mosca; a cor preta da barba e a meia palidez do rosto realçavam-lhe certo ar de melancolia simpática. (...) Usava cabeleira postiça desde muito moço, em consequência de ter ficado com a cabeça defeituosa, pela queda que dera de um cavalo; mas não era calvo, como muita gente supunha." (Memórias, I, 10/11).

Aniversário do Prosimetron



Em louvor e regozijo, o Arpose saúda o Prosimetron, através de Henri Matisse.

O mais moço dos anjos



"No dia 5 de Dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus Mozart entrou no céu, como um artista de circo, fazendo piruetas extraordinárias, sobre um mirabolante cavalo branco./
Os anjinhos atónitos diziam: Que foi? Que não foi?
Melodias jamais ouvidas voavam em linhas suplementares superiores da pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos."

Este poema, (quase) em prosa, pertence ao livro "Lira dos Cinquent'anos" de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, mais conhecido por Manuel Bandeira, poeta brasileiro, que nasceu no Recife a 19 de Abril de 1886, e veio a morrer no Rio de Janeiro, em 1968. Deixando saudade. Para mim, é um dos pouquíssimos poetas de infância, como Sá de Miranda é dos raros poetas de velhice. Manuel Bandeira teve uma evolução poética lenta até chegar a ser um dos expoentes mais significativos do modernismo brasileiro. Os poemas dos seus primeiros livros devem muito a António Nobre e a um certo romantismo decadente. Ao poeta português, a quem Bandeira dedica um poema, unia-o uma mesma doença, a tuberculose. E ambos estiveram em sanatórios da Suiça. Manuel Bandeira conseguiu, no entanto, sobreviver e andar na Terra até aos 82 anos. Alexandre O'Neill apreciava-lhe a poesia, pelo humor e simplicidade dos seus versos ("Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado..."- dizia Bandeira). E disse também:

A arte é uma fada que transmuta
E transfigura o mau destino.
Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta.
Cada sentido é um dom divino.

domingo, 18 de abril de 2010

Dia Internacional dos Monumentos : 1 opção



Por boa lembrança, colhida no Prosimetron onde sou "compagnon de route", comentarista frequente e amigo, aqui vai a minha escolha de entre o nosso vasto Património.
Um pouco perdida, a norte, à esquerda na estrada que segue para Ponte da Barca, pode ver-se uma pequena igreja. Rústica, simples, mas nobre nas suas linhas de construção. É a Igreja de São Salvador de Bravães, românica, que data do séc. XIII. O seu interior é simples e despojado, mas tem um encanto muito especial que, eu próprio, não saberia definir. Mas é de não esquecer e para visitar. Para lhe conhecer o interior há que pedir a chave a uma vizinha da freguesia. Que a irá abrir com contentamento, modéstia e algum pequenino orgulho regional e português. Não percam!

P. S. : para os meus amigos do Prosimetron.

Space Junk

Miguel Soares, SpaceJunk from migso on Vimeo.

"...Na quarta parte nova os campos ara,

E, se mais mundo houvera, lá chegara."

Luís de Camões, "Os Lusíadas", Canto VII.

Biblioteca Infanto-juvenil XI: Colecção Pequeno Detective


A Colecção Pequeno Detective, na sequência das anteriores publicadas pela Editorial Infantil Majora, mantém o mesmo formato (185 x 125 mm), assim como o preço de 3$50. Desta Colecção conservaram-se, no acervo de APS, os primeiros quinze números. Sabe-se lá o motivo !
Apesar de o Pequeno Detective caminhar com uma arma em punho, ressalva-se a inocência dos textos quando comparados com a agressividade iconográfica de certas imagens virtuais recentes.
Não resitimos, por motivos óbvios, a reproduzir a capa d'Os Gorilas.


Para MR, como sempre

Post de HMJ

sábado, 17 de abril de 2010

O discreto perfume do tempo e das palavras


Para MS, em circuito fechado de entendimento e alegria.

Saúl Dias e a velhice nos poetas



Disse-o há dias, e mantenho. A poesia não é uma arte de velhice, embora haja (poucas) excepções: Sá de Miranda, por exemplo. Há muitos poetas de juventude: Régio, Gomes Ferreira, Alberto de Lacerda... Alguns, sem idade: Ramos Rosa, Herberto Helder. Muito poucos, também, da madurez, como Pessoa e Sena. E, um outro, esse estrangeiro que acabou a sua tarefa aos 21 anos, que foi Rimbaud. Claro que o traquejo de uma vida, em verso, dá balanço para uns trinados na velhice: Teixeira de Pascoaes. Mas é apenas um fiozito de água chilreante. Com alguma técnica que foi ficando de trás, à mistura. Enquanto a pintura se prolonga, em qualidade, até à morte - Picasso, Matisse, Resende, Pomar, para citar dois portugueses ainda vivos, felizmente. Ou os romancistas que, muitas vezes, escrevem obras-primas na velhice: Aquilino, Vergílio Ferreira, ou Lampedusa, para só referir alguns.
Mas eu queria falar de poesia, para chegar a um poeta que muito estimei e estimo: Saúl Dias (1902-1983), pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira. Não sendo um poeta de primeira linha, é talvez um dos melhores da segunda. Enquanto Régio, seu irmão, grita, esbraceja e aponta excessivamente (desculpem-me as metáforas!), Saúl Dias sugere, discretamente. E tem uma poesia muito simplificada e subtil, sensível e velada, elegante. Como se fosse de um Camilo Pessanha de segunda geração ("...E o gesto exangue e langue / dá cabriolas...O goivo / para mim é cor de sangue."), e ainda mais contido: "...- As tuas tranças, / quem as soltou e maculou de enganos?". Tenho para mim que Saúl Dias é um poeta de adolescência que escreve na idade adulta, com a paixão fria ou a voz medida, sobre o desvario juvenil dos sentimentos. Assim:

Música
ouvida
na paisagem de outrora,
sentida agora
tão intensamente...!

És bem a mesma
da perdida hora...!

E como és diferente...!


P. S. : para Luís, não por pirraça, mas à consideração...

Mercearias Finas 6




O vinho foi por acaso. Não lhe gostava do nome: "Egoísta". O mesmo que o Casino do Estoril produz, em revista literária. Mas foi ele (o vinho) que me colheu, numa média-superfície destas novas igrejas ou catedrais de consumo. É nelas que, nas manhãs de domingo, os subúrbios, em vez irem à missa, vão às compras e se despejam em massas contínuas, ávidas, com a fome de séculos do campesinato pobre que a C. E. E. promoveu, ilusória e temporariamente. E de lá saem com os carros atulhados de sumos, cerveja, etc. Mas voltando ao "Egoísta" de 2005, tinto. O preço era jeitoso, mesmo para mim, que não sou grande apreciador de vinhos alentejanos tintos. Eu explico: sempre me dei mal com a casta de uvas "castelão" (ou periquita) - sabedoria de alguns anos de experiência feita: cai-me mal. E os vinhos tintos "alentejões" têm, muitas vezes, castelão ou periquita, este último nome tomado de uma quinta ("Quinta da Periquita"), na margem sul do Tejo, próxima de Azeitão. Que pertenceu a José Maria da Fonseca. Ora, este cavalheiro trouxe, em tempos já antigos, duma viagem que fez a França, alguns bacelos de Bordéus (castelão francês, também lhe chamam) e plantou-os na Quinta da Periquita. A casta é e foi generosa para com o viticultor. E, como era resistente e pródiga, cresceu, proliferou. Os vizinhos pediram-lhe cepas e ele, também generoso, foi dando. E a casta castelão (francês) foi inundando as Terras do Sado, o Ribatejo e o Alentejo. Em abono da justiça e verdade, os vinhos lotados com castelão, e mesmo os monocasta, são sempre sápidos e gulosos. Mas chega quanto a vinho tinto e castas de uvas.

Passemos a queijos de pasta mole, amanteigados, e de ovelha. Num pequeno supermercado, aqui à beira, enamorei-me, à primeira vista, dum queijo de Fornos de Algodres, de aspecto pejado e pródigo que me olhava da vitrine frigorífica, com os seus olhinhos interiores, pequenos e matreiros. Pesadinho, carote, mas não muito...Não resisti. E fiz bem. Em casa, casei-o, ao almoço, na sexta-feira, com o tal "Egoísta" do Alentejo. E foi casamento perfeito (vide Clássicos Sá da Costa) como o do Diogo de Paiva de Andrada. Quem me acompanhou, concorda. Eu recomendo. Vivamente.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Força do Destino - Cómicas, burlescas e sentimentais


Dos jornais: Cavaco retido em Praga. Angela Merkel aterra em Lisboa, em emergência, por causa da nuvem de cinzas sobre a Europa.
A vingança serve-se fria, digo eu pelos islandeses.
P.S.: com lembranças a LB, do Prosimetron, que primeiro falou do assunto.

Música e Poesia VI : O Leopardo

"...o longo sono, o desejo da voluptuosa imobilidade"( do texto do diálogo do filme de Luchino Visconti).
Outras sugestões, mais subjectivas, de leitura : melancolia (malinconia), política, sabedoria, cepticismo, sul da Europa. E, do monólogo do Principe de Salinas, a mudança, no poder, do leopardo pelos chacais e as hienas.


P. S. : o texto é de uma riqueza enorme. E, embora em italiano, espero que seja entendível.

Memória 20 : Charlie Chaplin


A 16 de Abril de 1889 nascia, em Londres, Charles Spencer Chaplin Jr. que viria a ser conhecido, simplesmente, por Charlie Chaplin ou Charlot. Não é demais lembrá-lo quer pelo seu humor irreverente e original, quer pela simplicidade sensível de muitas das suas criações musicais ("This is my song"), ou ainda pela antecipação intuitiva com que previa os desvios perversos a que estava sujeita a Humanidade ("O Grande Ditador"). Realizador, argumentista, actor, compositor, em tudo deixou a sua marca inconfundível, onde a ternura e a alegria se conjugavam de forma perfeita.
P. S. : de notar a excelente réplica de Buster Keaton no pequeno vídeo tirado de "Limelight".


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Literatura Infantil Alemã


Wilhelm Busch nasceu, como ele próprio conta na sua biografia, a 15 de Abril de 1832, numa aldeia próxima de Hanôver. Era escritor e, sobretudo, desenhador e ilustrador. A sua formação artística levou-o, nomeadamente, a estudos na Academia Real de Belas Artes, em Antuérpia.
Faleceu a 9.1.1908.

O seu livro infantil mais conhecido é, sem dúvida, MAX und MORITZ, em que conta as sete diabruras dos dois rapazinhos. Nas suas narrativas não falta, obviamente, o fundo moralizante próprio dos livros infantis. Assim, no quarto episódio, dedicado ao professor Lämpel e ao seu ensino do A-B-C, sublinha a necessidade da instrução.



Terminamos esta recordação com uma pequena máxima de Wilhelm Busch:
"Nenhuma coisa é como parece e muito menos o homem, esse saco de couro cheio de malícia e manhas."

Para MR recordar

Post de HMJ

Citações XXII : Ezra Pound



"Não importa qual das pernas da mesa fizeste primeiro, contanto que a mesa tenha quatro pernas, fique de pé e firme, quando a acabares."


Obsv. : retirado e traduzido de uma epígrafe em inglês, in "O Livro do Nómada Meu Amigo" de Ruy Cinatti.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Curiosidades 4



Hoje, estou mais virado para números. Aqui há tempos, dei conta de alguns elementos acerca dos visitantes do Arpose ("Curiosidades 2") que eram, maioritariamente, portugueses. Seguiam-se os nossos estimados irmãos brasileiros. Os mais recentes dados vieram confirmar e intensificar esta tendência. No entanto, veio da Finlândia, inexplicavelmente para mim, outra visita. E vão duas... O post "Receitas Poéticas 1" (com um poema de Fernando Assis Pacheco) mantém-se, ainda, como campeão de audiências dos visitantes brasileiros. Seguido de perto pelo "Poema autógrafo" (de Eugénio de Andrade). Mas uma pequena colagem, no início do Arpose, de autoria de Henri Matisse, começou a ter uma insistente "search word" das terras de Vera Cruz (S. Paulo, Rio, Belo Horizonte, Guarulhos). O post "Bibliografia" sobre Rubén Darío também foi muito visitado e, nestas visitas inclui-se a 1ª entrada da Argentina. Tirando este último país, em estreia, há que saudar o surgimento, no Arpose, da primeira visita da Federação Russa que foi, direitinha, para "O Navio de Brinquedos" de António Sérgio. Vinha de um "blogger" russo que centraliza os seus interesses no transporte marítimo - e que, creio, ser de um português lá radicado. Do Brasil vieram, também, consultar o post sobre o azevinho que puz, por alturas do Natal. As visitas da Inglaterra diminuiram, mas aumentaram as provenientes da Alemanha. As últimas vieram de Bergisch Gladbach (Nordrhein Westfalien) e de Munique (Baviera), donde concluo que o Arpose gera consensos, pelo menos na Alemanha... Esta visita de Munique vinha em busca de "Pastelaria Portuguesa" (algum guloso ou gulosa). Foi parar ao meu post sobre Tomaz de Figueiredo, em que falo da Pastelaria "Ceuta", da Av. da República, em Lisboa: azar do meu visitante bávaro...
Finalmente, uma espécie de "big brother" americano de Mountain View (Califórnia) que, até há bem pouco tempo, de cada vez que eu punha um post novo me vinha ver, ansioso e curioso, tem rareado as suas visitas. Devia ser alguém que gosta muito de Portugal, e de saber o que aqui se passa, até porque eu não acredito nas teorias de conspiração, como o Mel Gibson... E, por hoje, é tudo.

Els Segadors

"Els Segadors" é, desde 1993, o hino nacional da Catalunha. A música de Francesc Alió baseia-se numa canção popular que celebra a revolta dos Ceifeiros no séc. XVII. A letra é de Emili Guanyavents. É, dos hinos nacionais (ou autonómicos), um dos que mais gosto.

P. S. : para MR que, do Prosimetron, me lembrou a Guerra Civil de Espanha.

Top ten : Romance português - Séc. XX



Destes recentes comentários (melhor diria, diálogos) sobre inícios e finais mais marcantes da nossa prosa literária do século XX, nasce este repto, aos meus Amigos e Visitantes do Arpose, para darem a sua opinião e preferências - daquilo que leram - em relação aos 10 romances portugueses, ou obras em prosa, que consideram maiores do nosso século XX. A minha escolha cronológica é:

1. "Húmus" - Raul Brandão
2. "A Casa Grande de Romarigães" - Aquilino Ribeiro
3. "A Escola do Paraíso" - José Rodrigues Miguéis
4. "Barranco de Cegos" - Alves Redol
5. "Sinais de Fogo" - Jorge de Sena
6. "A Manhã Submersa" - Vergílio Ferreira
7. "O Delfim" - José Cardoso Pires
8. "Finisterra" - Carlos de Oliveira
9. "Directa" - Nuno de Bragança
10. "O Memorial do Convento" - José Saramago.

P. S. : o deus da literatura me perdoe, se fui injusto ou esquecido...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Transforma-se o amador na coisa amada - Camões por Sena



É talvez o conto português que mais vezes reli. E é, para mim, o melhor momento de prosa de Jorge de Sena. Tem por título "Super Flumina Babylonis" e foi escrito em Araraquara (Brasil), a 27 de Março de 1964. É um documento brilhante sobre criação poética e, também, um "exercício de admiração" - para usar palavras de E. M. Cioran - de Jorge de Sena ao nosso Luís de Camões. Está integrado no livro de contos "Antigas e Novas Andanças do Demónio". São apenas 12 páginas de leitura, mas de grande tensão dramática e limpidez de escrita. Vou trancrever apenas o final, mas para quem nunca leu este conto de Jorge de Sena, aconselho vivamente a sua leitura integral. Até porque é um dos grandes momentos da literatura portuguesa. Para os que já leram a narrativa, venho só relembrá-la.
"...Levantou-se impelido por uma ânsia que lhe cortava a respiração, uma tontura que multiplicava a pequenina luz da candeia. Apoiado à mesa, arrastou-se até à outra ponta, e daí deixou-se cair até à enxerga. Remexendo nela, tirou de um canto umas folhas de papel, o tinteirinho, com a pena enfiada no anel, que se habituara, desde o primeiro embarque, a guardar assim. De joelhos, com as dores neles e nas partes aumentando muito agudas e em picadas de que cerrava os dentes, veio até à mesa, pousou nela o que trazia, e levantou-se. Ficou um momento, de olhos fechados, arquejando. Já as palavras tumultuavam nele, confundidas com as outras, inúteis e mortas, da tradução que tentara. Eram como uma tremura que o percorria todo de arrepios, com hesitações leves, concentrando-se em pequenas zonas da pele. Debruçando-se da mesa a que se apoiava, puxou para o seu lado a cadeira, e caiu sentado nela. Sentia um suor frio escorrer-lhe pela testa, e, ao abrir o tinteiro, viu que as costas das mãos brilhavam perladas. Uma onda de alegria o inundou, em sacões ansiosos. Os olhos ardiam-lhe e era de lágrimas. Tudo falhara, tudo, e a própria poesia o abandonara, receosa dos seus olhos de alma penetrantes que viam o fundo das coisas. O poço com as formas flutuando. Mas era um grande poeta, transformava em poesia tudo o que tocava, mesmo a miséria, mesmo a amargura, mesmo o abandono da poesia. Tremendo todo, mas, com a mão muito firme, começou a escrever... Sobre os rios que vão de Babilónia a Sião assentado me achei... Riscou, desesperado. Recomeçou. Sobre os rios que vão por Babilónia me achei onde sentado chorei as lembranças de Sião e quanto nela passei...
E ficou escrevendo pela noite adiante."

Cavaleiros-monges



Volta recente me fez andar por territórios que, antigamente, foram domínio, ou inspiração patronímica da Ordem de Santiago. E a compra e leitura do pequeno livro "Ordens Militares e Religiosidade - Homenagem ao Professor José Mattoso", de meu aproveitado gosto, anima-me a que partilhe, neste espaço, um breve excerto, de maior sabor e não menor curiosidade - a quem interessar. Assim, um pequeno estudo de Saul António Gomes ("Monges e cavaleiros de Portugal medieval: os horizontes espirituais"), no livro citado acima, refere algumas palavras de S. Bernardo de Claraval (1090-1153) sobre os cavaleiros Templários, que passo a citar:
"...Detestam o jogo de xadrez e o dos dados; aborrece-os a caça e nem sequer se entretêm com a caça por aves de rapina. Odeiam mimos e estriões, magos e jograis, canções profanas ou espectáculos de jogos, como outras falsas vaidades ou desaguisados. Tonsuram o cabelo, sabendo, segundo o Apóstolo, que é desonra deixar crescer a cabeleira. Raramente lavam o corpo, embelezam a face ou cuidam do penteado, andando cobertos de poeira, queimados pelo sol que os abrasa e pela loriga que os protege."

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A dieta do Ermita



Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), que foi, no século, conhecido por Agostinho Pimenta, era irmão de Diogo Bernardes e terá nascido em Ponte da Barca. O rio Lima, o Tejo e, finalmente, o Sado aparecem referidos na sua obra, mas é a Arrábida o cenário mais marcante dos seus poemas. Foi na serra que viveu os últimos anos da sua longa vida, e aí morreu a 14 de Março de 1619. Tinha vestido o hábito de capuchinho em 3 de Maio de 1560. Teria escrito poesias profanas, antes. Mas o que dele se conhece é, grandemente, de índole religiosa. A sua curta obra foi editada, pela primeira vez, em 1771. Em 1918, Mendes dos Remédios juntou-lhe o chamado "manuscrito conimbricense", o "manuscrito portuense" da Biblioteca Municipal do Porto, e fez publicar as "Obras de Fr. Agostinho da Cruz", em Coimbra. Em 1971, Aguiar e Silva, no seu livro "Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa", expurgou ou pôs, em dúvida, algumas das poesias que eram atribuídas ao frade capuchinho. Mesmo assim, o que dele fica, dá para perceber a fina sensibilidade de Poeta que foi, e o seu ritmo fluído, original e intenso. Da elegia V ("Ao fim da vida") retiramos alguns tercetos, onde também fala de vários mariscos, entre eles as perceves que, julgo, pela 1ª vez aparecem na poesia lírica portuguesa:


"...Tudo me cansa, já, tudo me peja,
E pouco basta já para suster
O pouco que da vida me sobeja.

A praia tem marisco que comer
Ameijoas, berbigões na branca areia,
Que facilmente posso revolver.

A pedra que dos mares se rodeia,
Cheia de lapas pardas aparece,
De negros mexilhões inda mais cheia.

A vermelha santola não falece,
Outro com seu pé curto revirado,
Seu não, antes de cabra me parece.

E, quando se mostrar muito alterado
O mar, que seu marisco me defenda,
O bosque está daqui pouco afastado.

Quer suba a planta nele, quer se estenda,
Escolherei no ramo o mais maduro
Fruto sem dano alheio e sem contenda..."

Aniversário : Montserrat Caballé

Montserrat Caballé nasceu a 12 de Abril de 1933, em Barcelona.

domingo, 11 de abril de 2010

Do real ao virtual - ligações metafísicas



De regresso. Por entre safira e verde, houve um castanho-cinzento que se impôs. Um Magritte florido e ligado à terra - não suspenso. À beira de uma espera de ninguém por sobre o mar. E sem mais palavras, senão o voo das aves invisíveis sobre as ondas serenas.

sábado, 10 de abril de 2010

Biblioteca Infanto-juvenil X: Colecção Salta Pocinhas




Seguindo o anúncio da Editorial Infantil Majora, na contracapa, passamos a apresentar, hoje, a Colecção Salta Pocinhas (medida: 185 x 125 mm) que se vendia ao preço de 3$50 e de que se guardam poucos exemplares na biblioteca de APS.
Aproveitamos, ainda, para informar que o exemplar acima reproduzido se encontrava à venda, a 2.4.2010, ao preço de 15,00 euros, conforme consta da página electrónica de um alfarrabista portuense.
O leitor interessado, menino ou graúdo, poderia passar, com proveito, para o outro Salta Pocinhas, i.e., a personagem criada por Aquilino Ribeiro, no seu Romance da Raposa:
E para recordar:


"Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas - raposeta matreira, fagueira, lambisqueira - corria por aqueles bosques, batendo, fairando, sem conseguir deitar a unha a outra presa além duns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir um soninho descansado." (...)
Boas leituras !
Post de HMJ