quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Curiosidades 53


Passando, no presente ano, o 4º centenário da morte de William Shakespeare (1564-1616), o Arquivo Nacional Inglês, em Kew (próximo de Londres), vai inaugurar, a 3 de Fevereiro, uma exposição documental, subordinado ao título de By me William Shakespeare, sobre grande dramaturgo e poeta britânico.
De sublinhar o contínuo e persistente culto de que Shakespeare sempre tem sido objecto na Inglaterra, bem como os estudos interessantes, muitas vezes inovadores, que a sua obra continua a despertar, através de investigações e análises críticas muito frequentes, que vão sendo editadas.
Da exposição, referida acima, consta o seu testamento, firmado pela sua assinatura, no ano da morte - 1616. Assim como mais três, dos 6 documentos conhecidos e conservados, que têm o seu autógrafo autêntico. A mostra shakespeariana inclui ainda mais 30 documentos do Arquivo Nacional Inglês, dos 75 mundiamente reconhecidos como importantes sobre a vida e para a biografia do escritor. Outros 30 encontram-se em Stratford-upon-Avon, no Shakespeare Birthday Trust. Donde se conclui que apenas 15 estarão fora da Grã-Bretanha. O que, de algum modo, indicia o interesse e o acrisolado culto (para não dizer, amor) que Shakespeare sempre despertou nos ingleses.

René Aubry : "Passing Time"


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Idiotismos 34


 A expressão perder a cabeça pode ter duas realidades significantes. A mais imediata será: uma pessoa exceder-se, ou num sentido mais extremo, e ainda em português, enlouquecer. Mas, em língua francesa, a primeira associação será com a guilhotina e com o período do Terror, ocorrido após a Revolução. Terá vindo de França, para Portugal, a referida expressão? Não o sei dizer, mas seria credível.
Dizem que D. Maria I (1734-1816) terá enlouquecido, gradualmente, ao saber das atrocidades cometidas em Paris. Mais uma proximidade com a expressão, em si. E é curioso, também, que muitos loucos encarnem a personagem de Napoleão, num excesso indicativo de megalomania interior. Aliás, é no período da Revolução Francesa que a psiquiatria começa a ganhar a importância de ciência estudada e respeitada.
Há que nomear, para o efeito, o físico francês Philippe Pinel e J. Esquirol, como precursores destes estudos. Do primeiro, e não confirmadamente, se cita a história de ter libertado das correntes, as loucas do hospício de La Salpêtrière, em 1795. Esses estudos vieram a ser acompanhados por desenhos e retratos de loucos, feitos pelo pintor miniaturista George-François-Marie Gabriel (1775-1835).
Nenhuma destas 3 últimas personalidades, acima referidas, perdeu a cabeça, ao que se saiba...


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

8 versos de Pessoa, num eco de Blake


O que o seu jeito revela
sabe à vista como um gomo,
e a vida tem fome dela
nos dentes do seu assomo.

E nêle mesmo, vibrante,
a êsse corpo de amor,
espreita próximo e distante,
o seu tigre interior.

(1932)


Fernando Pessoa - Obra Poética ( Ed. Aguilar, 1960).

A par e passo 160


Mas como fazer para pensar - quero eu dizer: para repensar, para aprofundar aquilo que parece merecer ser aprofundado - se nós temos a linguagem por essencialmente provisória, como é provisória uma nota de banco ou um cheque, a que nós chamamos "valor", que exige o esquecimento da sua mesma natureza, e que é apenas a de um bocado de papel habitualmente sujo? Este papel que já passou por tantas mãos... Mas as palavras que também já passaram por tantas bocas, por tantas frases, por tantos usos e abusos, que as preocupações mais sérias se impõem para evitar uma excessiva confusão nos nossos espíritos, entre aquilo que pensamos e procuramos pensar e o que o dicionário, os autores e, de resto, todo o género humano, desde a origem da língua, querem que nós pensemos...

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 133/4).

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Revivalismo Ligeiro CXXVIII

Dia de S. Valentim


Hoje, não embarquei...

Glosa (6)


Domingo. No tempo em que eu ia à missa, e já começara a pensar, embora impreparadamente, apreciava bastante aqueles oficiantes (raros, aliás) que, depois da leitura do Evangelho, glosavam de forma inteligente e clara aquilo que tinham acabado de ler para os paroquianos, através de uma interpretação pessoal comentada. A grande maioria dos padres, no entanto, limitava-se a reproduzir a história do Evangelho, de forma canhestra, vacilante, como que num eco desfasado e paupérrimo de palavras banais. O que me dava um grande tédio, quando não, bocejo e sono...
Há dias, e durante cerca de 25 minutos, na SIC-notícias, a propósito do recente terramoto de Taiwan, uma inepta e verborreica jornalista tentava, por palavras, comentar as parcas e repetitivas imagens que iam aparecendo no ecrã sobre a tragédia. O que ela dizia não ultrapassava, em nada, o que íamos vendo, porque decerto não sabia chinês, nem lho traduziam para ela poder acrescentar um pouco mais de explicação a essas imagens que, continuamente, iam passando no ecrã. Repetiu, assim, as mesmas banalidades umas quatro ou cinco vezes, num péssimo trabalho jornalístico.
Mas não é caso único. Já me habituei, também, a que depois de um corriqueiro discurso político (do PR, por exemplo) o(a) inefável jornalista de serviço, imediatamente e durante quase outro tanto tempo, comece logo a debitar em sotto voce, como que a explicar aos palermas dos telespectadores, as sábias palavras da mensagem política ouvida. Tudo isto me provoca um inenarrável tédio e uma cansada irritação.
Para não falar da multidão de comentadores minorcas que pululam por aí e que glosam dias e dias, interminavelmente, aquilo que vai acontecendo (política, futebol...) numa linguagem de pau seco e num eco de plágio sistemático que, mesmo muito espremido, não traz sequer uma ideia nova ou uma única achega original. Será que isto nunca mais muda? Será que esta gente não tem um mínimo de sentido crítico?

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Uma definição excêntrica de G. K. Chesterton (1874-1936)


Uma cadeira é um dispositivo de quatro pernas de pau para um aleijado de duas.

citado por Alberto Manguel em "Uma história da curiosidade".

Mais uma interpretação (e notável versão) de Eva Cassidy


Da leitura (10) : o livro e o marcador


Eu queria dar uma última oportunidade ao homem, porque até simpatizo com ele, no seu ar canhestro ao dar entrevistas, na sua aparente simplicidade desarrumada, no seu discurso gaguejante e pouco objectivo.
E a oportunidade surgiu. Numa loja próxima do Largo do Rato, que se dedica, principalmente, à venda de material informático usado, há uma pequena secção de livros, daqueles de capas berrantes e que são efémeros best-sellers por cerca de um mês, e que também podem ser vistos nos transportes públicos a serem lidos por leitores anónimos e muito variados... E, de repente, vejo numa das estantes um dos mais badalados títulos de Patrick Modiano (1945), publicado antes mesmo (1997) de ele ter sido premiado com o Nobel, em 2014. A obra, Dora Bruder, foi publicado pela Edições Asa, em 1998, e estava ali, naquele improvável alfarrabista, ao preço simbólico de 50 cêntimos, ainda por cima com o marcador original e tudo...
E eu, que tinha lido, desalentadamente, Pedigree (2004), que me parecera um relatório repetitivo e cheio de nomes, resolvi dar uma segunda e última oportunidade ao homem, e lá trouxe o livro para casa, para o ler e tirar conclusões sobre o romancista francês. De uma coisa, estou eu certo: o homem sabe escrever, e contar. Mas é sempre a mesma sensaboria desinteressante, o itinerário das mesmas ruas de Paris por onde lhe passeia a memória, o registo desordenado e repetitivo, numa burocrática nostalgia que mais se assemelha a um balanço seco de um contabilista de uma firma envelhecida no tempo. Quanto a Modiano, resumindo, fiquei vacinado...

P. S.: da leitura, retenho o mais interessante, que é uma carta, comprada por Modiano a um alfarrabista das margens do Sena, e que ele transcreve na íntegra (pgs. 104/9), quase no final da novela Dora Bruder. Trata-se de uma missiva de recomendações e despedida de um tal Robert Tartakovski, judeu, em trânsito para um campo de concentração, onde veio a morrer. O mais curioso é que ele não tem nada a ver com Dora Bruder e nem sequer é seu parente ou conhecido... Essa carta, em itálico, é assim uma espécie de colagem despropositada, um apenso sem justificação. Embora um documento humano tenso de desespero com grande qualidade dramática. Penso que é a melhor parte do livro... Hélas!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Citações CCLXXIX


É difícil imaginar figuras tão diversas como Hitler, Barack Obama, ou Jeremy Corbyn alcançarem a chefia, sem a sua habilidade para inspirar esperança.

Clare Carlisle, in TLS (nº 5885).

Comic Relief 121


O enfraquecimento da vista, ou as consequências da idade...


com agradecimentos muito bem dispostos a C. S..

Da metafísica e da estatística dos blogues


Claro que podemos reflectir sobre ninharias - é essa a liberdade dos blogues, sobretudo, os nossos...
Dos últimos 100 postes, colocados no Arpose, o mais frequentado foi "Uma coutada, na Faculdade de Direito de Lisboa" (24/1/2016). Teve nada menos do que 71 visitas, até agora.
Entretanto, num espaço de pouco mais de uma semana, houve 2 postes com quadras populares: "Femininas e alentejanas" (3/2/16) e, ontem, "Mais 2 quadras populares alentejanas". Enquanto o primeiro teve apenas 16 visitantes, o que coloquei na quinta-feira (11/2/16) já soma 25 visitas, em apenas um dia.
Se o mais antigo foi ilustrado com uma bonita aguarela de Alberto de Souza, o de ontem contou com uma interessante fotografia da planície alentejana (com um monte e um sobreiro, ao longe). E digo isto, porque as imagens - já me habituei - têm uma importância e atracção, fundamentais, sobre os visitantes...
Como interpretar esta discrepância no número de visitas, sendo o tema, exactamente, o mesmo? Não sei. Só me ocorre um provérbio popular: "Mais vale cair em graça, do que ser engraçado"...
E vou à vida!...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Bipolaridades


a)  "O humor literário de uma nação é a sua mais frágil e perecível exportação: nalguns casos, isto acontece por razões linguísticas, noutros pelo contexto cultural, e ainda noutros porque algumas anedotas não têm mesmo graça nenhuma." (Barbara Heldt, TLS, nº5887)
Eu acrescentaria que, de país para país, o humor difere bastante: por razões regionais, pelo clima, pelo ADN secular, pelo momento histórico que, eventualmente, atravessam. Seria uma enormidade, no mundo anglo-saxónico, por exemplo, associar-se o sentido de humor britânico ao alemão...

b) É salutar e útil diminuir as importações. Assim o recomenda a economia nacional, ou a "austeridade de esquerda".
Pululam na net e em blogues nacionais as citações em línguas estrangeiras, talvez por preguiça ou, muito simplesmente, porque os citadores, na sua timidez e pudor linguístico, não ousaram traduzi-las. Aceito e compreendo.
Mas também as anedotas (brasileiras, sobretudo) inundam os e-mails (abra-se uma excepção!), e são o prato substancial de muitos blogues, a quem falta graça. E os bloguistas (lusos), preguiçosos e desleixados, nem sequer se dão ao trabalho de transformar, às vezes, o brasileiro macarrónico, rupestre e pedestre, num português de lei...
Irra!

Eva Cassidy (1963-1996)

Mais 2 quadras populares alentejanas


As moças do Sagraçal
todas são sagraçaleiras,
são bonitas, bailam bem,
prestam-se para as brincadeiras.

...

Não há amor como o primeiro,
nem lenha como o azinho,
nem filhos como os do padre
que chamam ao pai padrinho.


Nota: uma vez mais, as quadras foram colhidas na obra "A sul do Tejo", de Manuel Mendes (1906-1969).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Lembrete 32

Excessivo. Seria o adjectivo que eu usaria para sintetizar o filme de Marco Ferreri, La Grande Bouffe (A Grande Farra), de 1973, com desempenhos notáveis de Marcello Mastroiani e Michel Piccoli, entre outros. Hoje, na RTP2, pelas 22h48.

Osmose 60


Da brumosa manhã não se consegue dobar uma ideia. Como do exterior, o interior é vago, circunscrito e orientado para pequenas tarefas domésticas, mecânicas, que não exigem novos planos ou uma planificação mental excessiva. Só o ordenar das palavras, agora, obriga a alguma reflexão prévia, uma articulação de dados mais precisos, uma intuição de vocábulos a haver, um caminho para sair do nevoeiro. Ou, melhor, da bruma instalada que, do exterior, por osmose, veio ocupar o interior, numa empatia indesejada, embora mansa e nada incómoda. Neste vagar do ser.

Pinacoteca Pessoal 109



O sobreiro, a que os alentejanos chamam chaparro, é uma das mais emblemáticas árvores nacionais e, também, das mais longevas. Predomina no Alentejo e Algarve e, embora com menor mancha florestal, no Ribatejo. É por ela que somos o primeiro e maior produtor mundial de cortiça, que dele se extrai. E da bolota muito porco preto se alimenta, na planície alentejana.
A árvore inspirou, pelo seu aspecto singular e sugestivo na paisagem, inúmeros pintores portugueses, desde o rei D. Carlos (1863-1908), até, mais recentemente, o alentejano Dordio Gomes (1890-1976), que se radicou no Porto, e aí veio a falecer. São deles as imagens de sobreiros que acompanham este poste. Quer na sua forma naturalista ou clássica, quer numa visão mais modernista.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Pequena história (40)


Era moroso no cumprir das obrigações, o poeta algarvio João de Deus (1830-1896). Ou seria preguiçoso? Por Coimbra se arrastou 10 longos anos, para se licenciar...
E, nas férias, se a mãe o não acordasse, ficava na cama, a dormir até às tantas.
Um dia, já o Sol ia alto, a mãe para o fazer levantar, gritou-lhe:
"Levanta-te, meu filho. Olha que por se levantar cedo achou o nosso vizinho uma bolsa de dinheiro!"
Ao que João de Deus respondeu, com voz ensonada:
"Mais cedo se levantou quem a perdeu, minha mãe!"

Lisa Gerrard (1961)



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Casas de morrer


Agora, têm nomes floridos, folclóricos e apelativos: Cantinho da Paz, O Jardim dos Avós, A Idade da Razão... Quando eu era menino e moço, eram nomeados de forma muito mais prosaica - Ordem Terceira de... E havia poucos; hoje, são como cogumelos, nos subúrbios, muitos deles, e são negócio rentável, em vivendas adaptadas, nem sempre licenciados. Fora dos centros das cidades, como lazaretos. Porque a necessidade é muita, e os velhos cada vez são mais, naquela falácia dos hipócritas que falam da qualidade de vida, de viver até mais longe.
Não se vem de lá feliz. A fragilidade humana extrema, os corpos inertes como de flébeis passarinhos que já não cantam e jazem por terra, o olhar desbotado e sem brilho, o silêncio pesado de gente que conhecemos nas suas plenas faculdades, e que agora parecem vegetais sem nome, nem identidade. Fomos depois até à praia, para espairecer e ganhar forças. Difícil. Porque estarmos no Carnaval até parecia uma ironia despropositada e aberrante.
Por isso, Testamento Vital ou Eutanásia Assistida, para mim, fazem todo o sentido. E podem ser um acto humano misericordioso, pragmaticamente justo. E que vão para o diabo as virgens ofendidas e os hipócritas do costume e de serviço, com os seus pretensos sentimentos piedosos e moralistas.

Sinopse de viagens régias portuguesas, por um modesto amador de História


Talvez por extremos, na Europa, foram os nossos reis parcos viajantes. Se a capital oficiosa portuguesa foi descendo pelo mapa e no tempo, de Guimarães até Lisboa, passando por Coimbra e Leiria, e chegando a Évora, nos últimos reinados da segunda dinastia, as deslocações para fora do território nacional, tirando Espanha (por negócios políticos, tratados, escaramuças ou batalhas, e casamentos) e o norte de África (pela conquista), foram sempre raras e episódicas, por parte dos nossos monarcas.
Se o conde D. Henrique, pai do nosso primeiro rei, veio de França, e D. Afonso III lá esteve, antes de subir ao trono, terá de se esperar até D. Afonso V, para que um rei português pise, de novo, o solo gaulês, se exceptuarmos o regente D. Pedro, seu tio, duque de Coimbra, que esse, sim, cumpriu as "sete partidas do mundo", para depois vir a morrer em Alfarrobeira, ignominiosamente. Sublinhe-se, também, na primeira dinastia, o triste destino de D. Sancho II que foi morrer a Toledo, por exílio, onde está sepultado. E o único rei luso que nem depois de morto regressou a Portugal.
De resto, só os Braganças, da quarta e última dinastia, viajaram mais. D. João VI, em direcção ao Brasil, para escapar aos exércitos de Napoleão, e D. Pedro IV que por lá andou e gerou numerosa prole. Mais um grande intervalo, para registar, as visitas diplomáticas de D. Carlos pela Europa, bem como as viagens de D. Manuel II, nosso último rei, que acabou por morrer exilado na Inglaterra.
Mais domésticos e sedentários do que cosmopolitas, os nossos reis foram-se ficando, quase sempre, pelo terrunho pátrio. O que também terá contribuído, porventura, para uma certa estreiteza de horizontes mentais, em muitos casos.

Manoel de Barros (Brasil, 1916-2014)


A Disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso a menos.
Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.

Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.

Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância
aos passarinhos do que aos senadores.


Manoel de Barros, in Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Fé, café e música


16.000 igrejas abandonadas ou encerradas, no Reino Unido, segundo refere George Steiner, em entrevista concedida a Laure Adler, em 2015. A escassez ou ausência total de fiéis assim o justificou.
Em Antuérpia, ainda não há muitos anos, na paróquia de Sint-Norbertuskerk, na Dageraadsplaats, o padre da paróquia, em emergência, convocou os fregueses católicos para lhes dar conta que a igreja poderia vir a ser transformada em mesquita. Perante a fraquíssima afluência de fiéis, a autarquia ponderava a decisão, a pedido da comunidade islamita da zona, de a entregar para readaptação a mesquita. A reunião da comunidade católica decorreu com alguma preocupação e dramatismo, mas foram tomadas medidas, ajustadas à questão, para debelar o problema candente.
Ainda hoje, Domingo, depois da missa das 11h00, foram servidos bolinhos e café, aos fiéis que quisessem retemperar forças e também aos que se encontrassem em jejum, por causa da comunhão. A música passou também a ter lugar cativo (Cantatas de Bach, hoje) durante os ofícios divinos. A assistência de fiéis e frequência recompôs-se satisfatoriamente, nos últimos tempos...

Por falar na Arrábida, as aves...


O sossego de terra deserta faz daquela ponta de areal o paraíso das aves marinhas, que no tempo primaveril vêm brincar para as praias abandonadas, principalmente do lado do rio, e ali chapinham na água, correm à desfilada pela areia dura da baixa-mar, ou aprazidamente se catam ao sol, gozando a tranquilidade dos entardeceres tão lúcidos e silenciosos. Os maçaricos andam aos bandos, correm num passinho lépido, levantam em voos súbitos; as gaivotas pairam alto, ou poisam à beira das ondas, paradas e soturnas; mas entre a bicheza que por aqui abunda, a mais cativante é decerto a garça, de uma alvura estreme, compassada e mesureira no seu andar de bicho pernalta, quedando-se às vezes estática, a remirar-se, a presumida, no espelho de alguma poça. Parece um reino encantado. O mar, o céu e a praia, o fresco hálito salino que de tudo transpira e a espaços se alterna com o respirar resinoso das matas próximas, sobretudo o sossego e isolamento, tão apetecido destas aves, suspicazes em seus modos, ao mesmo passo que serenas, tudo imprime ao lugar um sabor edénico - surpreendente e aprazível cantinho de um mundo de sonho.

Manuel Mendes (1906-1969), in A Sul do Tejo (pgs. 55/6).

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Impromptu (23)


Mercearias finas 110


Na Arrábida (Portinho), em meados dos anos 60, no café-esplanada existente à beira-mar havia, apenas e sempre, um único tipo de bolo disponível: um industrialíssimo e sensaborão pastel de feijão, embrulhado em celofane (ou seria em papel manteiga?). Quanto a vinhos, brancos, se por lá almoçássemos, não havia escolha: apenas o canónico Casal Garcia, para peixe grelhado, da região marítima.
Pela mesma altura e década do século XX, uma leitaria-mercearia da rua Brancaamp, em Lisboa, costumava fazer montra, ciclicamente, com garrafas de Barca Velha, a seiscentos e tal escudos (para comparação, na mesma época, o Grão Vasco, tinto, custava cerca de 7$50, creio). Eu cobiçava o vinho de Fernando Nicolau de Almeida (1913-1998), mas não lhe chegava, nas minhas fracas posses...
Com os anos, porém, os vinhos brancos foram ganhando quota nas minhas preferências. E, recentemente, vim a conhecer dois de magnífica qualidade, quase em simultâneo. Num almoço de anos, foi-me presente um Vinha Paz (2013?), com 14º, lotado com Encruzado, Malvasia-Fina e Gouveio. Da família do meu tinto preferido do Dão, com o mesmo nome, enólogo (António Canto Moniz) e marca. Elegantíssimo, acompanhou um Pargo assado, à maneira.
Depois, veio este Senhor D'Adraga, branco, de 2014, com equilibrados 12,5º (preço: 4,39, numa média superfície), que é feito, numa propriedade já muito próxima do Cabo da Roca. Dir-se-ia que é o vinho mais extremo-ocidental da Europa... E se é bom! Bateu-se, dada a sua requintada personalidade, cavalheirescamente, com uma Garoupa, pescada à linha no Atlântico. Quanto a castas, o rótulo disse nada. E eu fiquei intrigado pelo seu sabor especioso e nobre. Inclinei-me, não totalmente convencido, para que tivesse Arinto que, ali por perto (Bucelas), atinge a suprema excelência e elegância, em bons anos de colheita. Mas não descansei enquanto não soube de que castas era feito. Procurei, procurei e, para minha grande surpresa, dei de caras com duas castas minhotas, raríssimas no Sul: Alvarinho e Loureiro - quem diria!...
O resultado é excelente. O que contraria, de algum modo, os puristas ortodoxos do Terroir, como eu.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Da Janela do Aposento 63: Ordem para Formatar


A estatística reproduzida na imagem acima parece-me bastante clara quanto aos tempos que vivemos.
Relativamente a explicações para o facto da “melhoria de resultados” dos Bancos, vieram-me à memória vozes cândidas – nacionais e europeias – a quererem impor uma nova disciplina escolar: formação económica e financeira.
Esse objectivo de formação neoliberal situa-se na sequência de posturas bem mais autoritárias, de um tal “senhor sonae”, querendo impor, ao corpo docente nacional, uma sua “ordem para formatar” funcionários diligentes e submissos.
A este senhor, cá do burgo, também não interessa um ensino que se centra na sua essência, i.e., fazer pensar e, sobretudo, falar e escrever bem e correctamente. Quanto às lições neoliberais económico-financeiras, tenho dúvidas que pretendem explicar a jogada por detrás dos números acima representados.

Para mim, bastam-me as lições paupérrimas dos malfadados “gestores de conta” que se intrometam na nossa vida de forma abusiva.

Post de HMJ