segunda-feira, 15 de abril de 2013

Haim Shapira : "Hommage for Alfred Schnittke" (1934-1998)


Filatelia LXIV : Raul Rego, BNP e Liberdade


No panorama algo desolador, pelas circunstâncias, de acontecimentos culturais de relevo promovidos por instituições públicas, a agenda da BNP (Biblioteca Nacional de Portugal) é uma honrosa excepção, revelando um dinamismo digno de louvor e admiração. É certo que lhe anda associada imaginação, apoios desinteressados ou mecenáticos, e muito trabalho de quem lá exerce o seu labor quotidiano.
Hoje, foi a vez de uma exposição para celebrar o centenário de Raúl Rêgo (1913-2002), bibliófilo distinto, jornalista e combatente pela Liberdade. Mostra que incluía algumas obras da sua vasta e importante biblioteca. Em boa hora, os CTT de Portugal se associaram, muito justamente, à efeméride, emitindo um selo alusivo e proporcionando um carimbo de 1º dia, aposto na BNP.
O acontecimento contou com a presença sempre simpática de Mário Soares, que lembrou alguns episódios das suas lutas comuns pela causa da Liberdade, em Portugal. E de João Alves Dias que ilustrou, com afecto e sapiência, a figura exemplar de Raul Rêgo nos seus amplos aspectos de humanista.

Recomendado : trinta e oito - Bluteau


Para acompanhar e melhor fundamentar a sua exposição sobre o magistério e obras de Rafael Bluteau (1638-1734), em boa hora fez a BNP editar (2013) este magnífico catálogo organizado por João Paulo Silvestre.
Entre muita outra informação, lá encontraremos explicações sobre a origem, significado e uso de palavras tão diversas como: meco, pachorra, resmonear, trabucar, xué...
Aqui fica a recomendação. A tiragem é de apenas 750 exemplares.

domingo, 14 de abril de 2013

Revivalismo Ligeiro LX : Nat King Cole


De associação em associação ou as palavras são como as cerejas...


Dizem-me que António José Seguro venceu as eleições no PS com um score de 97% dos votos - é obra!
Em 1967, na Exposição internacional de Montreal (Canadá), o pavilhão da Checoslováquia provocou uma enorme admiração nos visitantes. Sobretudo, porque lá se exibia, pela primeira vez, aquilo que se viria a chamar cinema interactivo.  Produzido pelo cineasta Radúz Cincera, o filme (Kinoautomat) era composto por vários pequenos sketches, com histórias cujo desfecho, alternativo, era escolhido pelos espectadores, através de votação.
Como se estava em plena Guerra Fria (a invasão da Checoslováquia dá-se no ano seguinte), houve logo quem parodiasse o filme democrático, criando um pastiche humorístico, com imagens das votações unânimes que ocorriam, sempre, nos países de Leste. É esse vídeo-colagem que aqui deixo.



Obsv.: a vinheta checoslovaca que encima o poste é apenas para lhe dar mais cor...

De D. Ramón, 5 greguerías


1. O menino com o arco na mão vai ao jardim do colégio como que a brincar com a circunferência e a tangente.
2. O consommé é uma água benta quente.
3. Quando uma bicicleta passa no alto do caminho, parece que a paisagem pôs os óculos.
4. O macaco parece provir do peludo coco como do seu ovo.
5. A tragédia da gota de água que pinga toda a noite, no lavatório, angustia como nada o coração humano.

Silenciamentos


De algum modo, o TLS (nº 5739) dedica, não intencionalmente, uma boa parte das suas páginas a dois tipos de silêncio: o formal ou de apagamento social, e o sagrado ou religioso, nas suas formas de consentido, mas também imposto, por vezes.
Lembro-me, na minha juventude, de como algumas famílias "escondiam" em casas isoladas ou quintas afastadas, os seus filhos diminuídos ou mentecaptos, de forma a fazê-los escapar à irrisão social, mas também por vergonha ou conveniência - e para sua maior comodidade familiar. Muitas vezes, uma criada acompanhava este sepultamento em vida, dedicando-se por inteiro a estes seres humanos. Frequentemente, acontecia, em alternância, serem internados, para sempre em instituições psiquiátricas.
Mas segundo o TLS, na época vitoriana, com restritas normas de comportamento, essas instituições proliferaram e albergaram, muitas vezes com a cumplicidade de médicos, pessoas cuja extravagância, conduta (sexual, às vezes) e comportamento se afastavam da regra vigente. Mas não só em Portugal e na Inglaterra, a diferença se castigava com o silêncio. O caso da escultora Camille Claudel (1864-1943), em França, é exemplar, porque foi "sepultada" viva em hospitais psiquiátricos, desde 1913 até à morte. O caso - escandaloso para a época - do seu romance tempestuoso com Rodin, contribuiu também para justificar o seu apagamento social, imposto pela família.
Depois, há o silêncio religioso que, de algum modo, se religa, intrinsecamente, ao sagrado. Que, na sua forma mais visível, é observado nas Cartuxas. Mas também aqui houve um aproveitamento social para muitos apagamentos humanos, em Portugal, por conveniência familiar, pelo menos, até ao séc. XIX, e maioritariamente atingindo mulheres que se desviaram da norma. E mesmo que, no interior desses mosteiros e conventos, o diálogo fosse permitido, era-o apenas nessa comunidade. O contacto com o exterior era vedado, em princípio.
Nos dois casos, o silêncio foi sempre uma forma de punição social ou familiar.

sábado, 13 de abril de 2013

Ludovico Einaudi : "The Earth Prelude"


Da Janela do Aposento 32: Álbion, a caminho da Hibérnia



Nos últimos dias, e por razões diferentes, surgiu-me, de novo, essa aversão que tenho contra os ingleses. Quando, há décadas, passei pelo Sul da Inglaterra, a caminho da Irlanda, ficou-me uma primeira má impressão. Pelo contrário, gostei da Irlanda e dos Irlandeses e compreendi a sua revolta surda contra a sobranceria da vizinha Álbion.
Mais tarde, numa viagem a Londres, tive a oportunidade de sair do "circuito turístico" e entrar em algumas casas de súbditos de sua majestade. E o que me ficou, até hoje, é um ambiente pobrete de espírito, profundamente provinciano e "kitsch", ingredientes que costumam alimentar poses sobranceiras de alguns políticos - e políticas - actuais ou recentemente falecidas.
No meio destes pensamentos veio ter comigo um texto, publicado ontem no DIE ZEIT, a propósito da visita de Cameron a Berlin, cheio de ironia sobre alguns senhores actuais que se passeiam pela Europa.
Eis a súmula da parábola.
Partindo do princípio de que cada família tem os seus hábitos e formas de convivência, o jornalista passa a caracterizar a "família europeia". Imaginemos, então, uma mãezinha alemã severa e um papá francês meigo que traçam o caminho para a família quando estão de acordo, o que nem sempre acontece. Os restantes membros da família seguem, em regra, as ordens dos papás, provocando, frequentemente, desavenças familiares. Apenas um, o tio de Londres - que já foi tia - costuma colocar-se à margem. O tio quer participar vivamente no debate familiar, insistindo, contudo, no seu menor contributo para o orçamento familiar e ressalvando o seu estatuto especial de apenas cumprir as regras estabelecidas quando ele assim o entender.
Bela harmonia familiar !
E foi assim que compreendi, finalmente, porque não gosto do tio de Londres.

Post de HMJ

Pérolas, e a cultura dos coelhos e dos porcos


Podemos até não apreciar excessivamente a obra de Paula Rego mas, daí a esquecer que ela é uma referência portuguesa na pintura europeia, será uma tola e crassa ignorância. Quando os animais retratados nos seus quadros forem ainda apreciados e estudados, na Tate Gallery e em muitas colecções particulares, os nossos coelhos de hoje, os cavacos e os gaspares estarão esquecidos e sepultados sob o pó do tempo, como lixo inútil e tóxico de uma época nociva, em Portugal.
É por isso que a extinção da Fundação Paula Rego, em Cascais, bem como o encerramento provável da Casa das Histórias, com quase duas centenas de obras suas, não me deixa indiferente. As obras ser-lhe-ão devolvidas e, provavelmente, hão-de obter guarida de consideração condigna na Inglaterra. Mas tudo isto não deve perturbar, minimamente, o sono do nosso pequenino comissário de cultura e dos seus próceres mesquinhos, alarvemente ignorantes...

Apontamentos 6: Negócios da China



Por acaso, não tenho nada contra pessoas que ganhem o seu dinheiro, honestamente. Não suporto, contudo, os patrões da "nova escravatura", para quem o actual salário mínimo devia baixar, nem os famigerados "CEO's", como o da imagem. Com os exemplos citados, Mexias e Catrogas, já ficamos a saber para onde foi o aumento na factura da electricidade e qual foi a recompensa do negócio da China.
Sendo co-responsáveis pelo empobrecimento do país, pergunta-se, no entanto, o que faz o Estado - uma suposta pessoa de bem - para proteger o cidadão de semelhante quadrilha ?

Post de HMJ

Retro (27) : Lisboa, anos 30, por Leitão de Barros


Descontando alguns propósitos ideológicos, este filme de Leitão de Barros (1896-1967), de 1930, parece-me um testemunho interessante, do tempo em que os fascismos se iam implantando na Europa. E de uma Lisboa de modos e costumes já esquecidos.
E, como tem a duração de 1 hora e 27 minutos, é para se ir vendo...

sexta-feira, 12 de abril de 2013

De Alberto de Lacerda, para a Primavera


Diotima

És linda como haver Morte
depois da morte dos dias.
Solene timbre do fundo
de outra idade se liberta
nos teus lábios, nos teus gestos.

Quem te criou destruiu
qualquer coisa para sempre,
ó aguda até à luz
sombra do céu sobre a terra,

libertadora mulher,
amor pressago e terrível,

Primavera, Primavera!


Nota pessoal: este poema, de Alberto de Lacerda (1928-2007), aparece pela segunda vez no Blogue - a primeira, foi em 21/3/11. Mas, assim como muitas vezes repetimos a leitura de poesias, será legítimo que eu volte a colocá-lo, uma vez que a Primavera terá, agora, vindo para ficar. E, apesar do verso final do poema ser excessivamente redutor, ou banal, ensombrando a beleza alta dos versos 1 e 2, bem como do sexto e sétimo, este é, porventura, o poema, de Alberto de Lacerda, de que mais gosto.


J. S. Bach / Mª João Pires


A par e passo 37


XCIX
Dos Sons e dos Odores

Os encadeamentos. Não se pode, e por isso não se sabe como reter os perfumes. Se se pudesse e soubesse, que música!
Em relação ao ouvido a variação é entendida - e há encadeamentos, prolongamento possível, música.
Como é possível?
Uma sucessão de odores não provoca senão uma pura sucessão de ideias (no máximo). Mas uma sucessão de sons pode definir um novo ser, porque ela pode corresponder a um acto complexo.
Um som isolado é mais nulo (em geral), do que um odor isolado.

C.
Os odores ignoram-se entre si.

Paul Valéry, in Tel Quel II (pgs. 225/6).


A pergunta (-título de Jornal) mais parva da semana


Respostas, para quê?!

Regionalismos minhotos (36)


Segue-se a segunda parte das palavras começadas por S, seleccionadas do II volume da obra de M. Boaventura, que temos vindo a seguir:

1. Santola - beatarrão, muito beato.
2. Sapunchar - suspirar, dar ais, chorar.
3. Sarafinalho - esperto, fino.
4. Sargalhota - chila (Viana do Castelo), abóbora gila.
5. Sarrafacana - intrujão, meliante.
6. Sarriscar - acender lume.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Bibliofilia 79 : Herberto Helder


Já depois de ter lançado, hoje, o poste sobre o próximo leilão de livros, a cargo da Livraria Luís Burnay, quis confirmar, na minha biblioteca, a existência do exemplar de Poemacto, de Herberto Helder. Realmente, existia, mas o que eu não me lembrava é que o livro tinha dedicatória do Poeta - como se pode ver na imagem. O que, indubitavelmente, o torna mais valioso.
A obra, de grafismo muito sóbrio e boa qualidade estética, é uma produção artesanal da editora Contraponto, orientada, muito bissextamente, por Luiz Pacheco. Sendo, como é, o quarto livro de Herberto Helder, e de tiragem pequena, a obra é rara. Tê-la-ei comprado no início dos anos 90, em Lisboa. Dei, pelo livrinho, Esc. 2.500$00 (o equivalente, hoje, a 12,50 euros). Pelo valor previsto de venda, no próximo leilão de Luís Burnay, posso afirmar que foi um óptimo investimento... Embora não tenha sido essa a intenção da compra.

Beach House : "Walk in the Park"


Leilão de Primavera


Mais uma almoeda de livros oriundos, maioritariamente, de uma biblioteca particular (J. A. Ferreira de Almeida), promovida pela Livraria Luís Burnay, e que terá lugar nos próximos dias 22, 23 e 24 de Abril.
Dos 979 lotes, pessoalmente, eu destacaria as seguintes primeiras edições, com os números:
370 - Herberto Helder - Poemacto (Lx., 1961), com uma estimativa de venda entre 180 e 400 euros.
543 - Almada Negreiros - A Invenção do Dia Claro (Lx., 1921), entre 200 e 400 euros.
694 - Camilo Pessanha - Clepsydra (Lx., 1920), de 180 a 400 euros.
785 - Mário de Sá-Carneiro - Princípio (Lx., 1912), com uma estimativa entre 400 e 800 euros.
Mas há muitas outras raras edições de Fernando Pessoa, José Régio, Torga...

Divagações 44


Como cegonhas tristes e estáticas, as gruas metálicas debruçam-se por sobre as águas cinzentas deste Abril monocolor. Na manhã, só as gaivotas emprestam movimento ao ar parado e frio, coberto de nuvens. Parecem fazer tirocínio de aves de rapina, sobre o Tejo, e expulsaram todas as pombas da paisagem.
As grandes ausências não perdoam aos rostos esquecidos. Que se retalharam de sulcos e de manchas do tempo, com os anos. Mas reconhecê-los pode ser, ainda, um leve sinal de alegria, ou uma súbita emoção na pele, que nos reconcilia com a juventude perdida. E com o passado. Sem nostalgia.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Apontamentos 5: Gorduras do Estado




Ao fim do dia assisti, hoje, a uma audição parlamentar ao engenheiro em epígrafe. Convém lembrar a sua ligação às Obras Públicas, entre 1990 e 1995 – sob o reinado do actual PR – para além de artífice da Ponte Vasco da Gama e actual “não-executivo” (sabe-se lá o que isso significa para o caso) da Administração da Lusoponte que explora a referida travessia do Tejo.
De facto, tanto o “curriculo” como a imagem dizem tudo sobre as gorduras do Estado. Contudo, na audição da Assembleia da República, o Ministro – num passado talvez afastado, mas presente nos encargos – parecia um “menino de coro”, inocente quanto a questões concretas, mas solícito em afirmar que a Lusoponte, para além de satisfazer os accionistas, não pretende, claro está, lesar o Estado. Que ideia !
E não é que, pouco depois, numa notícia do “Expresso” surge o desabafo do então Ministro e actual Administrador da Lusoponte  – “não-executivo” – nestes termos: “As Parcerias Público-Privadas foram um desastre” (!)
Se eu fosse mago e me chamasse Gaspar, e com esta “comédia triste” do final do dia, não teria dúvida em lavrar mais um “despacho” para arranjar o dinheiro que falta nos cofres do Estado. Parece que são "gorduras intocáveis", para além dos senhores do IGCP – que, no passado, não passavem de simples directores-gerais- e outros quejandos,  como os "CEO's" das EDP’s, cheios de obesidades dispensáveis ao bolso do cidadão comum.
E o Tribunal de Contas ? Não será altura de contribuir para um esclarecimento dos cidadãos, cansados de tanta manipulação dos dados sobre a "real situação do país".

A única emergência é a sinceridade, a seriedade e a salvação da democracia e da paz. O resto é jogo que não se coaduna com os verdadeiros Homens de Estado.

Post de HMJ

Osmose (42)


Dezenas de carruagens passam. Centenas ou milhares de troncos nus ou decepados - como se fosse o cortejo e funeral absurdo de uma floresta -, transformados, talvez mais tarde, em alvíssimas folhas A4, ou no cheiro insuportável à volta de Cacia.
A curiosidade é, por vezes, tão premente e obsessiva que nos faz perder de vista o essencial, inquinando, de forma cega e quase absoluta, o rumo natural da imaginação.
É sempre salutar e vantajoso, em função dos mistérios, convocar o bom senso de Maigret, ou o exemplo das deduções inteligentes de Sherlock Holmes, perante a morte incompreensível dos outros. Júlio Dantas não nos servirá de nada, porque será uma mera redundância, mesmo com o cruel Pim! de Almada.
É importante guardar uma lágrima cativa para o essencial. Às almas simples convém nunca perderem de vista a realidade, a crueza dos números, a eternidade da morte.

Adagiário CXXVII


1. A conta dos mortos quem a faz são os vivos.
2. Entre morte e casamento cessa arrendamento.
3. O fim louva a vida, e a noite: o dia.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Franz Liszt - Concerto nº 1 para piano (Louis Lortie)

Para ir ouvindo, nos próximos dias...

Divagações 43


Como um pequeno novelo mal dobado, e talvez fruto de experiências mais recentes, cada vez mais a viagem é, antecipadamente, um longo incómodo, quase a rasar o desconforto físico e uma ligeira angústia embrulhada, que se não desata. Senão quando, arrumadas as malas, já sentado, as rodas do avião, do combóio ou do automóvel iniciam o seu movimento em direcção ao objectivo preciso. Que tem sido de morte, ultimamente.
Só então, corpo e espírito se reunem na serenidade, sem movimento, da viagem. Apesar das circunstâncias.

domingo, 7 de abril de 2013

Um pequeno poema de Eugénio de Andrade


Ao Lume

Nem sempre o homem é um lugar triste.
Há noites em que o sorriso
dos anjos
o torna habitável e leve:
com a cabeça no teu regaço
é um cão ao lume a correr às lebres.

Eugénio de Andrade, in Cumplicidades do Verão.

Gabriel Fauré / Robert Casadeus


O pianista francês Robert Casadeus nasceu a 7 de Abril de 1899.

Idiotismos 15 : jargão militar


Será caso excepcionalíssimo e raro, o eu poder localizar, no tempo e lugar, a entrada de uma palavra ou expressão no universo do meu léxico pessoal. Mas sei que a palavra pinchavelho me surgiu, pela primeira vez, em Janeiro de 1968, na então vila de Mafra. Pertencia ao jargão militar de um jovem tenente, Carneiro de apelido, instrutor do meu pelotão. E "pinchavelho" servia para tudo o que fosse pequena peça metálica (de parafuso a ponto de mira, ou cão) de uma arma, fosse ela a pesada Mauser, a leve metralhadora Uzzi, ou até a G3, que tinhamos de aprender a montar e desmontar.
Também o cultivo épico de um certo estoicismo físico era palavra de ordem, perante um acidente maior ou menor, um lanho leve ou profundo, uma dor. Diziam, logo: "Incha, desincha, e passa!" Fosse grave ou não, o desastre que nos atingisse. A expressão "tropa fandanga", para definir um grupo indisciplinado e tosco, veio-me ao conhecimento muito mais tarde. E só indirectamente por via militar. Mas a arte de guerra tinha, e ainda deve ter, um jargão amplo e expressivo, muito próprio.

sábado, 6 de abril de 2013

O dia seguinte


Não tenhamos ilusões. Porque eu não tenho grandes dúvidas que este ambiente de (aparente) desnorte, que se vive no país, interessa a muita gente. Antes de mais, convém à estratégia de caos pretendida pelos senhores do mundo e da finança; aos comentadores políticos, para a sua banal incontinência verborreica que vai pagando a sua vidinha videirinha. Mas interessa também, e muito, aos gurus estabelecidos, vulgo professores karamba, aos assessores desempregados, às agências de consultadoria, à Santa Casa da Misericórdia, aos anarcas renitentes - enfim, interessa a muita gente que, na prática, de útil nada produz. Para além de permitir intermináveis e suaves diálogos cristianíssimos nos feicebuques de várias paróquias provinciais. Que mais se poderia pretender?
Mas, hoje, eu estava sobretudo interessado em observar a encenação e o dramatismo ensaiado pelos agentes políticos, e quejandos, face à decisão de ontem, do Tribunal Constitucional. E a estratégia que iriam encetar, desenhando (pensei eu) uma tragédia à grega, ou uma tragicomédia à italiana, que viesse a permitir ainda mais abusos e desmandos. Tenho de confessar que saí desiludido: o nosso PM, pedindo previamente audiência, limitou-se a ir ao sarcófago de Belém, onde um mirífico faraó mumificado vai apodrecendo.
O que, como pose e estratégia governamental, me parece um ensaio mal preparado ou representação medíocre de uma companhia de teatro amador, de terceira ordem. Como se dizia nas casas nobres, em dias de festa: "Guardem as pratas, que vêm aí os cómicos!..."