quinta-feira, 31 de julho de 2014

Os anjos e os arcanjos


O descalabro, sem fim à vista, do grupo BES permite ver, claramente e à saciedade, a ineficácia e cegueira, para não dizer presunção asnática de economistas gurus, de comentadores dos media, e dos orgãos de fiscalização, nacionais e estrangeiros. Do Banco de Portugal do sr. Costa à Troika, passando pelos opinadores televisivos, ninguém terá previsto, metereologicamente, a tempestade...
Esse facto é o melhor atestado de incompetência total dessas entidades angelicais. E, estou convencido, que o tonsurado Bento, que agora preside à instituição, se meteu numa camisa de onze varas. E nem o amigo de Belém lhe vai valer, porque o vago economista que por lá anda, também já demonstrou que pouco percebe do assunto. É como o Jesus Cristo, de Pessoa: "não sabia nada de finanças, nem consta que tivesse biblioteca..."

Osmose (49)


Vieram, passaram. Cruzámo-nos, mas eles foram à frente, e deixaram memória: generosos momentos, luminosas palavras, passos conjuntos. Por vezes, alguns pequenos objectos preciosos, que guardámos. Depois, nós iremos também. E mais ninguém se há-de recordar, vivamente, destes cruzamentos fortuitos que, por agora, ainda nos parecem tão reais e inesquecíveis.

A par e passo 100


Eu não me sinto muito à vontade na filosofia. É sabido que não a podemos evitar, e que não se pode abrir a boca sem lhe pagar algum tributo. Como é que nos poderemos defender quando ela própria não nos consegue esclarecer completamente sobre aquilo que ela é? (...) Mas eu sinto-me na filosofia como um bárbaro se sentia em Atenas, onde reconhecia os preciosos objectos do cenário e tudo aquilo que havia de mais respeitável; mas no meio dos quais ele se perturbava, experimentava algum aborrecimento, misto de incómodo e veneração, e de fé supersticiosa, mas acompanhados por vontades incontroláveis de destruir tudo ou lançar fogo a tantas maravilhas misteriosas, e de que ele não conseguia reconhecer nada de semelhante na sua alma.

Paul Valéry, in Variété II (pgs. 16/7).

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Regionalismos transmontanos (47)


1. Jalapa - café fraco.
2. Jambelo - pequeno presunto.
3. Jarretos - crostas de lama na lã das ovelhas.
4. Jimbrinhas - homem de pouco valor. Homem fraco, homem magro.
5. Jota - bocado, nico, pouca coisa. Gota.
6. Juco - mulher de mau porte. Prostituta.

Retro (52)


Para celebrar a próximidade do pico mais alto da época balnear - o mês de Agosto - aqui fica esta imagem refrescante. Atente-se, no entanto, na elegância do cavalheiro da esquerda, que só terá perdido a compostura das ancas para baixo, mantendo-se inteiramente formal, para cima...

com agradecimentos a A. de A. M. .

John Field (1782-1837)

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eugénio na BPP


Na Biblioteca Pública do Porto, ao Jardim de S. Lázaro, bem próximo, aliás, da casa que foi a sua mais longa residência (R. Duque de Palmela, 111), encontra-se patente, na Sala de leitura dos Reservados, uma pequena, mas bem organizada, exposição evocativa sobre Eugénio de Andrade (1923-2005).
Do raríssimo "Narciso", seu primeiro livro (renegado, mais tarde) ainda subscrito pelo seu próprio nome (José Fontinhas), a cartas de Cocteau e Cernuda, passando por um vasto conjunto de fotografias do Poeta, algumas pouco conhecidas, é uma mostra que vale a pena ser vista, com atenção.
Embora o seu espólio não se encontre totalmente tratado e classificado, estou confiante que a BPP dará boa conta do recado. Ao contrário da ex-Fundação com o seu nome que se extinguiu, sem honra nem glória e que serviu apenas para dar notoriedade breve a uns quantos sujeitos de que já ninguém se lembra... Porque esses só gostavam de si, e Eugénio de Andrade foi, para eles, um mero acidente.
Dêmos a Eugénio, as últimas palavras deste poste: As cidades são como as pessoas, têm os seus segredos, e às vezes guardam-nos bem guardados. Há quem goste muito do Porto e há quem o deteste. ...

2 dos "Academic Graffiti", de W. H. Auden


Henry Adams
Tinha um medo terrível das mulheres:
Numa casa bem desarrumada
Sentava-se mais quieto do que um gato.
...
Quando ao jovem Kant
Disseram que beijasse a tia
Ele obedeceu à expressa ordem
Mas à justa.

W. H. Auden, in Homage to Clio.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Modos de ler


A fazer fé num texto a que tive acesso, recentemente, a leitura, mesmo quando individual, e até por volta do século IX, fazia-se em voz alta, motivando por isso inflexões de voz e pausas marcadas correspondentes à pontuação do texto. 
Sobretudo com a invenção da Imprensa, a leitura foi sendo, cada vez mais, um acto silencioso e intimista, além de individual. Apenas o movimento dos olhos e, nalguns casos, dos lábios indicia, para o observador, a actividade cerebral de quem lê.
As novas tecnologias vieram introduzir, mais recentemente, uma nova forma de leitura, com implicações, porventura singulares mas que, para já, desconhecemos na totalidade da sua extensão.

3 máximas não localizadas, de autores anónimos ou desconhecidos


1. O que não sabes, não te pode magoar.

2. Onde há uma vontade, haverá sempre um caminho.

3. O mito desenvolve-se melhor longe do lugar onde foi criado.

domingo, 27 de julho de 2014

A norte


Há que dizê-lo, de uma vez por todas: para além da língua (ainda que mais nasalada e, de quando em quando, mais áspera e despudorada), o Porto, na sua essência mais íntima, pouco tem a ver com Lisboa. Terá mais a ver com Antuérpia, que não Bruxelas, e com outras cidades do norte da Europa, nas cores e no feitio. Lisboa, luminosa, nos dias soalheiros e mediterrânicos, tem mais preguiça e sensualidade.
Neste Verão atípico, de fim de Julho, em que a humidade abafa o rio e até os altos e luminosos candeeiros da Batalha e de S. Lázaro se obscurecem envolvidos por nuvens diáfanas de cacimbo, teremos de regressar a Eugénio para sentir e entender o Porto. Ou a Jorge de Sena, que há pouco me ocorreu, na friagem do começo da noite, com a sua estóica e dura melancolia:

 Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio... 

É por aí que teremos de recomeçar.

Vamos andar entre aqui e acolá...


...oxalá faça bom tempo!...

sábado, 26 de julho de 2014

Ludovico Einaudi : "Walk"

De novo, as agências de ratos


Há muito que não falo, aqui no Arpose, das agências de ratos (rating agencies), que são uma espécie de organizações terroristas a soldo do capitalismo mais selvagem e que, segundo Paul Krugman, empregam um bando juvenil de cocainómanos e alcoólicos anónimos. Aparentemente, a racionalidade e a lógica dos factos não predomina nestes ratos da finança, mas eu suspeito que, no fundo, terão agendas escondidas com objectivos pré-determinados.
Ora, esta semana houve uma notícia que me surpreendeu. Então, não é que a Moody's nos subiu a nota de rating (muito embora ainda nos mantenha no lixo)?  Com as exportações a diminuir e as importações a aumentar, com o caso BES em desenvolvimento, com as anunciadas greves da TAP, isto é de doidos...  Ou talvez de drogados ou bêbados irrecuperáveis, que já nem conseguem raciocinar sobre a economia portuguesa.
(Na imagem, aparece o patrão da Moody's que, ao que parece, sofre de acne.) 

Uma fotografia, de vez em quando (43)


Nascido em Hamburgo, de pai inglês e mãe alemã, Bill Brandt (1904-1983) é considerado um dos fotógrafos ingleses mais importantes do século XX. A sua marca de água mais reconhecível são os nus distorcidos e alongados, numa temática de grande fascínio estético. Mas também fotografou paisagens de forma muito pessoal. E não se devem esquecer os magníficos retratos que tirou a Lowry, Ezra Pound, Francis Bacon, Henry Moore...

Citações CLXXXIX


As 3 citações, que vão seguir-se, foram retiradas da obra Elucidário de conhecimentos inúteis (Edições Salamandra, 1991?), de Roby Amorim, de que constituíam tripla epígrafe. Vêm em boa sequência do poste com o poema de Auden. E seguem:

"Na palavra verdadeiramente dita (...) existe a verdade primitiva, que é a origem de tal palavra, e logo, se desta Origem, é certo que, de idioma e de translacção em translacção, ou de participação em participação, iríamos dar na língua primitiva, da qual, diz a Eucarístia Santa, e infalível, «Omne enim, quod vocavit Adam animae viventis, ipsem est nomem e jus.»
Tratado da Ciência Cabala
D. Francisco Manuel

Perguntando a Lao Tseu o que pensava ser o mais urgente a construir, logo o sábio respondeu sem hesitar: «É encontrar o verdadeiro sentido das palavras».
Do Pensamento Chinês

«Saber é dizer o que é.»
Garcia de Orta.

Variações espúrias sobre um poema de W. H. Auden


A palavra cabelo pode ter inúmeros significados, embora o primeiro que nos ocorra não seja: "mola de aço finíssima, enrolada em espiral e que serve para regular o movimento de certos relógios" (Morais, I, 420).
Menos canónica não poderia ser esta versão, que trabalhei em português, sobre o poema Parable, de  W. H. Auden (1907-1973), inserto no livro Homage to Clio (Faber, 1960). Sabe-se como o Poeta raramente abandonava a rima, o que conferia, aos seus versos uma autoridade própria e tradicional, pelo menos, na forma, que não no conteúdo. Mas que dificultava bastante a sua tradução para outras línguas, se se pretendesse uma fidelidade literal, na versão dos seus poemas. Por uma questão de honestidade, e ao contrário do que é habitual, vou reproduzir a quadra original (em inglês) e a versão a que cheguei. Que Auden me perdoe o sacrilégio!

Parable

The watch upon my wrist
Would soon forget that I exist,
If it were not reminded
By days when I forget to wind it.

Parábola

O relógio por cima do meu pulso
Depressa se esquecerá que existo,
Basta que eu me não lembre,
Por uns dias, de lhe afagar o cabelo.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Jordi Savall

A arte da tragédia


É sabida a propensão e política de sigilo que os regimes ditatoriais têm para escamotear, aquando de catástrofes naturais, o número de vítimas resultantes. Aconteceu assim com as inundações gigantescas em Lisboa, em Novembro de 1967, em que só muito mais tarde se veio a saber que terão morrido cerca de 700 pessoas; assim acontece na Coreia do Norte, como na China aconteceu, em Maio de 2008, com o tremor de terra na região de Sichuan, em que terão sucumbido 90.000 pessoas, 5.000 das quais eram crianças que ficaram soterradas nos escombros das escolas.
Não sou grande apreciador da obra do artista e dissidente chinês Ai Weiwei (1957), até por ser um homem controverso em muitas das suas atitudes. Mas vou acompanhando o seu percurso. O Brooklyn Museum, de Nova Iorque, consagra-lhe uma exposição, até 10 de Agosto, das suas obras mais recentes. Uma das peças mais curiosas, em imagem, Snake ceiling foi construida com o material das malas escolares de uma parte das crianças que morreram no terramoto de Sichuan. Foi Ai Weiwei que recolheu esses despojos e criou essa escultura, em homenagem às vítimas infantis. A simbologia decorre da voracidade da serpente, mas também da perspectiva de nova vida que a queda e rejuvenescimento da pele do réptil representa.

Bibliofilia 107


A diminuição acentuada, em Portugal, do domínio da língua francesa explica, porventura, o baixo preço por que adquiri, ontem, os 6 volumes de L'Histoire de l'Empereur Charles-Quint (1788), de William Robertson (1721-1793), na sua versão para a língua gaulesa, impressa em Amsterdão. A edição original (em inglês) é de 1769.
Os volumes, em inteira de pele, encontram-se em bom estado e apenas o segundo livro tem vestígios de bibliófagos, mas que não afectam o texto. Não irei referir o preço da obra para não ofender alguns alfarrabistas briosos, nem provocar a  inveja desnecessária de quem se interesse por obras de História, em particular, pela figura singular de Carlos V - como é o meu caso. Mas posso adiantar que não dei mais pelos 6 volumes do que daria por um único daqueles tijolos berrantes que se vêem na montra da Bertrand, ao Chiado.
Numa busca breve, pela net, encontrei 3 alfarrabistas que também tinham esta obra (completa) para venda: na Suiça (Harteveld Rare Books), por 220 euros, em França (Libraire ancienne & Moderne Éric Castéran), ao preço de 230 euros e, finalmente, em Paris (Libraire de Sèvres), por 450 euros. A discrepância de preços talvez se possa explicar pelo estado de conservação dos livros.
Resta-me referir que William Robertson ( o chauvinisme francês é patente pela tradução do nome do autor, na versão gaulesa: Guillaume Robertson...) foi um probo historiador escocês e um iluminista importante, bem considerado, ainda hoje. Justificado pelas inúmeras edições desta obra, a última das quais foi publicada em 2010.

Régis Debray a "Le Monde"


São palavras de um homem zangado, que terá dado, ao longo da sua vida, para o peditório de um mundo melhor, talvez inutilmente. Que investiu em causas que, entretanto, perderam significado, que olha em volta e não gosta do que vê. Mas as suas palavras, em entrevista a "Le Monde"(18/7/2014), envoltas numa cortante e seca ironia, não deixam de ser objectivas, realistas e sábias. Por isso, traduzindo alguns excertos, aqui partilho algumas das respostas e reflexões de Régis Debray (1940). Como se segue:
- No Oriente, inventam a pólvora e criam os fogos de artifício. No Ocidente, fabricam canhões.
- Por outro lado, a França republicana tendo renunciado ao seu sistema de valores e à sua autonomia diplomática, acabou por integrar os comandos da OTAN, decisão anedótica mas simbólica do presidente gallo-ricain Sarkozy, imitado pelo seu sósia Hollande. Eis-nos, por isso, de regresso à "família ocidental". A dupla morte histórica de Jaurés e De Gaulle que deu a esta abdicação o sentido de um regresso à normalidade.
- ...uma coesão, sem precedente sob a égide de Washington, aceite, em definitivo, por todos. Num mundo multipolar, o Ocidente é o único conjunto unipolar. Jamais um Chinês se deixaria representar por um Indiano, e vice-versa. Jamais um Brasileiro por um Argentino ou um Nigeriano pela Áfica do Sul. O Ocidente não tem senão um número de telefone em caso de crise, o da Casa Branca.
- O Ocidente de Montaigne, de Levi-Strauss, de Zeev Sternhell e de Snowden, eu estou pronto a bater-me por ele. O Ocidente dos etnólogos, da curiosidade, da coragem cívica, para que o Outro exista, é aquilo que é preciso defender. O canto do mundo onde é permitido duvidar. Nós temos até o privilégio de poder absorver a negatividade crítica. Quando temos um dissidente, cooptámo-lo. Quando há um opositor, reintegrámo-lo. Repare, fizeram de Daniel Cohn-Bendit a grande celebridade da Europa neo-liberal.
- É preciso termos a noção de que a modernização é regressiva e que a mundialização é uma espécie de balcanização. Quanto mais o mundo se uniformiza pela técnica e pela economia, mais necessário será recuperar as identidades perdidas.

com agradecimentos a H. N..

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Franz Liszt

De uma crónica do jornal de hoje


"...Os media (veja-se o Huffington Post, 13.7.2014) mostram os moradores das colinas próximas de Gaza sentados em cadeiras de praia a aplaudir o espetáculo dos aviões e drones que bombardeiam Gaza. Trazem pipocas, fumam cachimbos de água - enquanto a poucos quilómetros de distância famílias inteiras ficam soterradas debaixo dos escombros, crianças são levadas em desespero para hospitais bombardeados, onde se operam feridos num corredor. ..."

Manuel Loff, in Gaza, o cinismo e os mortos (jornal Público, 24/7/2014).

Interlúdio 49


Brincando com o perigo...

Sonho, emoção e imaginação


Os sonhos têm, maioritariamente, uma natureza emocional. Dos pesadelos aos sonhos agradáveis, a razão pouco ou nenhum controlo neles exerce. Porque tudo se passa numa ficção do inconsciente, que parece originar-se, a maior parte das vezes, de forma autónoma, retendo do real apenas a hipótese da probabilidade envolvida por uma vaga verosimilhança possível. O sujeito-produtor faz parte do cenário e a sua vontade pouco ou nada interfere no desenrolar da "narrativa", pelo menos, de forma consciente.
Numa recensão, do TLS (nº 5807), ao livro Emotion and Imagination, de Adam Morton, Adrienne Martin refere, parafraseando o autor da obra: "emoção é um estado mental que liga uma representação da actualidade com representações de possibilidades. Para usar um dos exemplos de Morton: o medo é o elo de ligação entre a representação de uma criança que se aproxima de um precipício e o imaginar-se a criança caindo."
Destes dois postulados ressalta o papel da imaginação. E é legítimo inferir, ainda que numa conclusão ligeira, que a razão adormece no sono, mas a imaginação e a emoção se mantêm despertas no sonho.

Citações CLXXXVIII : Rivarol (3)


O medo é a mais terrível das paixões, porque ele exerce os seus primeiros esforços contra a razão; ele paralisa o coração e o espírito.

Antoine de Rivarol (1753.1801).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Recuperado de um moleskine (8)


Convenço-me, às vezes, que as gaivotas não dormem. Porque, em Lisboa, se acordo a meio da noite, com frequência lhes oiço os seus pios glaucos e desagradáveis, para não dizer: plangentes e agressivos.
Por agora e por aqui, na região outrabandista, passam no céu limpo pequeníssimas nuvens levemente afogueadas, quero eu dizer: de um laranja tímido flutuante, em direcção ao sul. Altas, as gaivotas vão caladas.
Mas será que eu vejo, com a atenção devida, o maravilhoso voo das simples andorinhas?
Uma, muito jovem com certeza, ensaiou com precaução um voo raso e, depois, a pouco e pouco, foi subindo, confiante. Outra, talvez mais velha, maior, ia alta, mas nervosa no seu voo tremido. Mas os pais (?) quase pairavam, numa calma magnífica e serena, num voo seguro, entrecruzado por afecto, mas sempre tranquilo.
De súbito, um bando indisciplinado de pardais "cruzou o céu azul num assobio", como o Eugénio disse, para sempre, e eu não saberia dizer.

Leonard Bernstein (1918-1990) : de "West Side Story" ("I feel pretty")


As diferentes perspectivas


Por mero acaso, e num espaço de pouco mais de 24 horas, tive conhecimento noticioso de 4 métodos ou perspectivas de encarar os reclusos: em Portugal, no Brasil, em França e na Inglaterra. Países que, todos eles, se debatem com o problema da sobrelotação das cadeias. E que o procuram mitigar. Assim:
1. o jornal Público, na sua edição de ontem, como se pode ver pela imagem, titulava a questão logo na primeira página. O título é que me parece mal enjorcado e presta-se a confusões de interpretação...
2. no "Obs." (nº 2593) colhi a informação de que, pelo menos numa prisão brasileira (Catanduvas), os reclusos são desafiados a ler um livro por mês e fazer o seu resumo respectivo. Por cada livro lido e resumido, terão uma redução de pena de 4 dias;
3. na mesma revista, dá-se notícia que a ministra da Justiça francesa, Christiane Taubira, apresentou, no Parlamento, um projecto de reforma penal em que se propõe, em relação aos presos que aceitem participar em actividades culturais, nomeadamente, leitura, que, em contrapartida, venham a ter, também, uma diminuição de pena;
4. ainda do "Obs.", em Março último, Chris Grayling, ministro da Justiça britânica, proibiu expressamente que os reclusos recebessem de ofertas ou encomendas exteriores os seguintes produtos: livros, selos, lápis e papel. Podendo, no entanto, adquiri-los no interior das prisões. "Para acelerar a sua reabilitação" - justificou-se ele.
Não quero fazer qualquer juízo de valor sobre a bondade destas diferentes medidas. As diversas perspectivas, que estão por trás destas decisões, parecem-me óbvias e decorrentes de formas de pensamento político e humano muito singulares.

Oficiais do mesmo ofício


Tenho, afortunadamente, cópia de uma carta pessoal de Herberto Helder, enviada a Eugénio de Andrade, em Dezembro de 2000, onde aquele faz observações pertinentíssimas e justas sobre a poesia dos, na altura, seus confrades poetas portugueses. De uma forma sucinta, mas arguta, classifica-os, através das suas qualidades e dos seus defeitos. É um texto precioso para uma melhor compreensão da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.
Saíu, recentemente, na Yale University Press, um volume de 606 páginas, da correspondência entre Leonard Bernstein (1918-1990) e Aaron Copland (1900-1990), intitulado The Leonard Bernstein Letters. As cartas combinam, harmoniosamente, um tom respeitoso com um registo sempre muito afectuoso. Mas que não deixa de lado a reflexão crítica e racional sobre outros compositores da época. Quem sai um pouco "chamuscado", desta correspondência, é George Gershwin (1898-1937), que Bernstein refere como sendo um autor de músicas descosidas (o adjectivo é meu) e sem unidade - em suma, com pontos altos, mas fragmentados e sem consistência de unidade.
Em determinadas áreas - e a Música e a Poesia são, porventura, dos melhores exemplos - não há nada como os próprios oficiais do mesmo ofício, para as avaliarem como deve ser. Ao leigo cabe, apenas, gostar ou não gostar.