sábado, 19 de março de 2011

Lua cheia de Março


Como a borboleta em direcção à luz, parece não haver alternativa para os passos errantes, senão seguir em frente rumo ao disco luminoso. Que, primeiro, parece apoiar-se nos telhados mais baixos, depois sobe, para finalmente se libertar, como um balão, das mãos de uma criança.
É um fascínio natural esta lua plena, enorme a princípio, mas que vai perdendo volume, na subida rápida, no limiar da noite. Talvez como outrora, homens primitivos a terão olhado, da treva e das cavernas, ou de casas toscas de granito, a esta Lua cheia, num azul distante e escuro de Março. Procurando sinais, resposta aos mistérios da sua inquietação, prenúncios de cataclismos na sombra das suas crateras mais sombrias. Ou, quem sabe?, tentando adivinhar, muito simplesmente, numa percepção genesíaca e instintiva, o tempo mais propício para as sementeiras e as colheitas do futuro.

Citações LXI : Alexander Pope


"Dois princípios governam o homem: o amor de si que o arrebata e a razão que o sustém."
Alexander Pope (1688-1744), in "Ensaio sobre o Homem".

As Rolinhas Diamante


Vivendo normalmente próximas, as rolas ganham às pombas a minha preferência, por várias razões. Antes de mais, pela sua rareza de número, mas também pela discreção e fidelidade conjugal; e ainda pela compostura alinhada das suas penas, como se fora um penteado, constantemente vigiado e arranjado. Pese, embora, na comparação com as pombas, a pouca variedade das suas cores. Que podem ir do azul cinzento ao cinzento claro, e branco. Mas sempre com aquele "colarzinho" negro que lhes rodeia o pescoço fino, alto e elegante.
Pois, aqui há dias, tomei conhecimento, pela primeira vez na minha vida, de uma classe de rolas que desconhecia em absoluto - as rolas ou rolinhas diamante (Geopalia cuneatas) nativas e originárias da Indonésia e Austrália. Terão sido introduzidas na Europa, onde se dão bem, durante o século XIX. E têm a particularidade de serem rolas "miniatura": pesam cerca de 20/30 gramas e medem, geralmente, pouco mais de 20 centímetros.
Ao que me disseram, fazem mais do que uma postura, por ano e, de cada vez, põe 2 ovos. São pacíficas, discretas e acamaradam bem com outras aves, no mesmo aviário. São é lindíssimas. Fiquei fascinado com as duas que vi, em cativeiro, numa casa de Guimarães. E ficaram bem no retrato (creio) que encima este poste, que lhes é dedicado; a elas, rolinhas diamante.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Douro Fabuloso

Da antiga Confluentia recebemos uma notícia do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, datada de 6.3.2011, que nos fala de um vinho com o rótulo "Douro Fabuloso". Motivo de alegria pelo facto de o jornal diário dedicar uma página inteira aos vinhos do Douro, sobretudo os produzidos pelo "inovador" Dirk Niepoort e dos seus "Douro Boys".
A comercialização dos vinhos de Niepoort, na centro da Europa, desenvolveu-se com base em campanhas de promoção adaptadas aos países respectivos. Os mesmos vinhos têm rótulos e nomes diferentes em Portugal, Noruega, Dinamarca, Inglaterra, Holanda e Alemanha.
Assim, a garrafa acima reproduzida corresponde ao vinho de Dirk Niepoort comercializado na Alemanha. O rótulo conta uma história muito popular na Alemanha, sendo o seu autor Wilhelm Busch, em que um menino traquinas - Hans Huckebein - leva uma "avezinha" a embebedar-se. São episódios que se enquadram nas conhecidas histórias de Max e Moritz.
Como o rótulo reproduz apenas as imagens 4 a 7 da história de Hans Huckebein, resolvi apresentar a malandrice completa do menino, levando a ave a degustar um vinho generoso.
No final não falta, como é óbvio, a tia a repreender o traquinas "Joãozinho".
Belo aproveitamento da cultura local para promover vinhos portugueses !

Post de HMJ

Memória 53 : Luciano Pavarotti

Pavarotti canta a ária "Ch'ella mi creda" da ópera "La fanciulla del west", de Giacomo Puccini.

Cromos 13 : A conquista do Oeste


Pouco poderei informar sobre esta colecção de cromos "A conquista do Oeste", até porque a memória, neste caso, não me ajuda nada. Creio que nunca terei comprado as cadernetas, uma vez que, na rectaguarda dos cromos (na totalidade: 576), se identifica se são do 1º ou do 2º álbum. Tenho apenas 15 números, sendo que 3 são duplos cromos. Oito pertencem ao primeiro álbum e 7 ao segundo. A colecção deve datar do final dos anos 50, ou logo do início dos anos 60 do século passado. Foram produzidos pela Editorial Ibis, Lda., de Lisboa.

O "Canta-claro" das Bahamas


O "Canta-claro" desfraldou o seu cantar, logo pela manhã, enquanto a Consorte se enroscava na rectaguarda, por causa do frio. As camélias caídas atapetavam-lhe o chão do terreiro. Não que ele precisasse, com aqueles polainitos de penugem branca e espessa até às patas... Disse-me quem sabia que o casal de galináceos era da raça Bahamas. E o "Canta-claro" foi assim o nosso despertador tonitruante durante quase 10 minutos, a afinar a voz! Morfeu fugiu assustado...

António de Almeida Mattos


Quando te digo entende que me digo:
o entender-me vem pelas palavras
neste monólogo contigo.
Um lento haver de busca, e combinar
sentidos que consigo, a decifrar
o linear abismo que persigo.



António de Almeida Mattos, in "A Ilusão do breve" (pg. 14)

quinta-feira, 17 de março de 2011

Citações LXI : Francisco Manuel de Melo (4)


"...Outro mais escrupuloso, dizia que em quatro partes lhe pareciam bem os religiosos; altar, púlpito, confessionário; e perguntando-lhe qual fosse o quarto lugar? respondeu: «pintados»."

Francisco Manuel de Melo, in Carta de Guia de Casados.

Divagações 3


Seja embora um pouco desconexo o fio da conversa, feito de nuvens, nomes e números, onde as memórias se atropelam, a caligrafia e a mão que a traça são firmes, e correm em simultâneo. Coisas ditas ou escritas que já não se usam, hoje em dia, mesmo que formalmente.
Na manhã rósea e luminosa os ruídos amortecidos confundem-se num caos harmonioso. O cantar do galo, os pavões das dinastias perdidas, os garnisés de crista meio-cegos e os patos deambulantes. Em fundo, o surdo trânsito omnipresente, logo após os buxos e muros que cercam a casa. Um melro, harmonioso no seu canto, sublinha tudo isto. Coroa de negro e laranja a luz da manhã de Março, onde as folhas tenras e verdes da Primavera vão rompendo.

Elis Regina


Na passagem do aniversário de Elis Regina (17 de Março de 1945).

quarta-feira, 16 de março de 2011

O minhoto Tomaz de Figueiredo, e os cães


"...Literariamente, nasci livre. Abraçado a esta liberdade, minha luz e minha cruz, irei até que feche os olhos, se tiver quem mos feche. E penso ainda, questão de querer ( o mais custoso, a quem pode querer ), tornar-me lá à minha casa do Minho - hoje casa de fantasmas -, aos meus horizontes de rio e de penedos, aos meus limoeiros e laranjeiras, ao meu retiro entre buxos, à minha fonte só minha, ao meu silêncio que assombram vozes antigas. Lá, arranjar um perdigueiro, mas de raça, afeito a pensar, nem que por ele dê uns contos. Pategos, nem cães! E seja-me ele companheiro, fale-lhe e entenda-me, queira-me o afago na cabeça, conte-lhe doutros da sua raça, que em tempos lá preguiçaram às mesmas sombras e me acompanharam pelas mesmas serras, alguns que por lá deixaram descendência. Netos, hoje, em que grau? E levá-lo ainda comigo às perdizes e galinholas, ser digna dele, ainda, a minha espingarda. Primeiramente, conversaremos os dois, entender-me os olhares, contar-lhe que também precisei de morder, porque amei, que também eu tive uma vida de cão."

Tomaz de Figueiredo, final do prefácio do livro de novelas Vida de Cão .

Andamos por aqui

Não fora a morriña rosaliana, até seria agradável. Assim, os montes em volta cobrem-se de nuvens baixas, como um nevoeiro fantasmático e persistente. No terreiro as cameleiras alternam de brancas para vermelhas, cujas folhas caídas e já um pouco meladas, um garnisé debica por desfastio. Três gerações de patos volteiam sobre o pequeno tanque. E um casal galináceo de grande porte, como eu já não via há muito, faz ronda à casa, e vai picando o chão. Penas abundantes, de um branco sujo da terra, que os cobrem até às patas, parecendo usar polainitos.
Não fora o ruído surdo dos carros, um pouco ao longe, ninguém diria que estamos na Cidade.

Adagiário XXXII


1. Ao alcaide e à donzela, ninguém diga: se eu quisera.
2. Ao homem rico, a fama lhe casa os filhos.
3. Ao homem aventureiro, nasce-lhe a filha primeiro.
4. Ao amigo que não é certo, um olho fechado, outro aberto.

terça-feira, 15 de março de 2011

Camilo : um episódio bibliográfico



É sempre uma diagonal que nos divide. Pode ser Norte/Sul, Benfica/Sporting ou Camilo/Eça. Somos dicotómicos de essência, ou não fosse Portugal do signo dos Peixes (como Camilo, aliás) - mas isto são metafísicas baratas e irracionais, e é melhor começar (e repetir) pelo que o geógrafo Estrabão dizia: "Os Lusitanos são um povo que não se governa, nem se deixa governar".
Camilo Castelo Branco nasceu a 16 de Março de 1825, e veio a suicidar-se em Junho de 1890. Dos seus livros, a peça bibliográfica talvez mais rara é "A Infanta Capelista", mas também aquela que tem a história mais enigmática. Em 1872, Camilo mandou destruir as folhas, já impressas, desta sua novela. Não se sabe ao certo se a decisão do romancista se deve a um pedido de D. Pedro II, imperador do Brasil, ou se a alguma interferência de D. Pedro V, que terá visitado Camilo Castelo Branco, quando o escritor esteve preso, no Porto. O enredo da novela, ao que parece, ampliava um escândalo que chamuscava a sereníssima Casa de Bragança, na época.
Acidentalmente, as folhas impressas e desconjuntadas foram parar a um merceeiro da Rua de Santo António, na cidade Invicta, que começou a utilizá-las para embrulhar vitualhas para os seus fregueses. Alguns deles, talvez leitores de Camilo ou bibliófilos, repararam e começaram a agrupá-las. O que permitiu completar alguns, raríssimos, exemplares da obra camiliana.
Pragmaticamente, e alguns meses depois, e ainda no ano de 1872, Camilo Castelo Branco fez publicar, via o editor Ernesto Chardron, uma versão soft de "A Infanta Capelista", sob um novo título: "O Carrasco de Vítor Hugo José Alves". E que seria muito mais benevolente para com a sereníssima Casa...

Osmose (13)


O espírito e o corpo são desarrumados.
A paz nunca vem para ficar, na Terra. Nem no coração dos homens; porventura, apenas com a morte. Assim como a simetria, que não é um estado geométrico natural. Basta olhar as árvores e o desequilíbrio frequente dos seus ramos. Não chega que os homens (ou mulheres) as podem, para lhes dar aquele conforto do círculo, ou do oval perfeito. No ano seguinte, irreverentes, os ramos voltarão a ser desiguais, na sua liberdade. Na violência pura de continuarem a florir.

Filatelia XVII : Japão


Dos crisântemos do séc. XIX às aves do séc. XX, a estética exemplar dos selos japoneses, em homenagem solidária e sentida.

Curiosidades 31 : dependências e energias


É um facto que nos últimos 30 anos nos tornamos mais dependentes do ponto de vista alimentar e industrial. E talvez ainda mais dependentes da energia que consumimos por um acréscimo substancial do seu uso humano. Vejo recentemente e no entanto, cada vez mais no último ano, por estes baldios outrabandistas, seres humanos a sachar e plantar pequenas hortas, até pelos declives de terreno mais hostis. Para seu sustento, pelo que vejo de favas a crescer, de couves, tomates, quiçá, batatas e cebolas. Agrada-me o facto: é uma ajuda; mas não chega para diminuir a nossa crescente dependência alimentar.
Por outro lado tenho visto, como positivo, o crescimento do nosso parque eólico, sobretudo na região saloia e arredores. Quando via aquelas gigantescas pás, como velas de moínhos, a rodarem, pensava: sempre é menos petróleo que importamos e dinheiro que gastamos. Mas o sonho extinguiu-se, breve. Há 3 ou 4 dias soube que, em Portugal, o vento é muito intermitente e, dada a sua força ser caprichosa e errática, o equipamento (que é caro) é apenas aproveitado a 25% da sua capacidade. Por isso, também não é por aí...
Há também os painéis solares que se intensificaram, nos últimos anos, pelos telhados de muitas moradias portuguesas. Mais uma desilusão: a Alemanha, neste momento, já parou de incentivar o projecto nacional a favor da energia solar e as Seguradoras germânicas já não apoiam, nem correm o risco de fazer seguros a estes domicílios particulares. Acontece que o cádmio, utilizado no fabrico destes equipamentos, é como se fosse um rastilho, no caso de uma calamidade da Natureza, como aconteceu, há dias, no Japão.
Resta-nos a Água. Mas os nossos rios já quase esgotaram a sua capacidade energética, pela sucessiva construção de barragens. Talvez o Mar...
Nuclear, não, obrigado!

Para LB, com parabéns, Cioran e Matisse


Para além de Matisse e os melhores votos pelo seu Aniversário, quis trazer-lhe um Autor do nosso gosto comum. Mas o Luís sabe como é difícil encontrar, em Cioran, algo de optimista. Há umas palavras dele, quase neutras (?), sobre Valéry ( nos "Exercices d'Admiration"), que vou tentar traduzir, o melhor que posso. Aí vão, com os meus parabéns, na passagem do seu dia.

"...O homem, tal como ele (Valéry) o concebe, não vale senão pela sua capacidade de não-consentimento, pelo grau de lucidez que tenha atingido. Esta exigência de lucidez faz supor um grau d'éveil que inclui toda a experiência espiritual, e que será determinada pela resposta que se dará à interrogação crucial: «Até onde foste na percepção da irrealidade?»".

segunda-feira, 14 de março de 2011

Karl Jenkins

Este excerto do compositor galês Karl Jenkins (1944) pertence à obra que lhe foi encomendada e que tem o título "The Armed Man", com o sub-título: "A mass for Peace", tendo tido a sua estreia a 15 de Abril de 2000. O tema e motivo remontam ao séc. XV. Mas Josquin Des Prés e Palestrina também abordaram o mesmo tema. Há quem diga que estas missas para "homens armados" eram um incentivo aos Cruzados para lutarem contra os Turcos.
A sofisticação e "progresso" do Homem acrescentou aos conflitos bélicos, os embargos e guerras económicas, e o estrangulamento financeiro de países. Quando não é um deus menor que, para se entreter, porventura, incendeia de aflição um povo, ou um país como o Japão.

Indecência e Ética

Das notícias e das fotos sobre a catástrofe natural que se abateu sobre o Japão, escolhi as duas imagens reproduzidas. A herança genética do passado impede-me a devassa humana e reproduzir rostos de testemunhos num dos momentos extremos da sua passagem pela terra.
Assim o exige a decência mínima de que, mais uma vez e de forma mais revoltante, carecem esses mercados financeiros, cujos "jongleurs" permanecem, para o cidadão comum, na sombra, invisíveis, avançando com uns "rapazitos" para o público ver.
Resta ao cidadão que, segundo Habermas, ainda recebeu uma formação de vontade democrática, pronunciar-se sobre a argumentação desumana do económico e financeiro, agindo, na medida do possível em conformidade.
Com efeito, e tal como recebi há dias, e por mãos amigas, uma informação valiosa sobre negócios de um "Botton" róseo da nossa praça, torna-se imprescindível incluir semelhante "gentinha" numa lista de "devedores" éticos a fim de os evitar compulsivamente num momento de consumo.


Post de HMJ

Regionalismos minhotos (2)


Aqui vão mais 6 regionalismos minhotos com o respectivo significado:

1. Andeja - vadia.
2. Encanhado - enfeitiçado.
3. Erisipela - inflamação da pele (creio que Camilo a usa).
4. Estonar - descascar a batata, depois de cozida.
5. Sábado filhoeiro - sabado de aleluia, em que se comem as filhós.
6. Tarraxa - parafuso.

Antiqualhas minhotas


Houve um tempo em que a "indústria" do Linho e o seu cultivo, na zona de Guimarães, eram extensos e importantes. Havia 3 ou 4 lojas na cidade-berço, muito conhecidas, que vendiam roupa de linho. E vinham pessoas do Porto, Lisboa e até do Estrangeiro comprar enxovais de linho para as filhas casadoiras. E, em casa, faziam-se papas de linhaça (semente do linho) para pôr, aquecidas, sobre o peito congestionado dos familiares engripados e acamados.
Atrás e antes, havia campos e campos de linho floridos do azul das suas pequenas flores. E havia que fiar o linho e dobar as meadas para depois o vender. Era um trabalho moroso e lento que as mulheres faziam. Estas actividades eram, muitas vezes, acompanhadas por cantorias populares. Foi uma destas cantigas, de quadras, que encontrei no livro de Maria Palmira da Silva Pereira ( de que já falei aqui, no Arpose), sobre Várzea Cova, Fafe e arredores. A beleza muito simples das quadras populares leva-me a que as deixe transcritas, a seguir:

Doba, doba, dobadoira,
P'ra crescer o novelinho;
Eu queria urdir a teia,
ao cantar do passarinho.

Doba, doba, dobadoira,
Não te canses de dobar!
Aí vem o Março quente
P´ra minha teia curar.

Doba, doba, dobadoira,
Não te ponhas a chiar;
Eu queria urdir a teia
P´ra levar para o tear.

Doba, doba, dobadoira,
Não m' enguices a meada!
O novelo está pequeno
Minha mão já 'stá cansada.

O novelo era pequeno,
Não me cabia na mão;
Doba, doba, dobadoira,
Amor do meu coração!

para o António de A. M..

3 Haiku devolvidos à origem


1.
Difícil morrer,
viver é difícil -
a luz do fim de Verão.

Mitsuhashi Takajo (1899-1972)

2.
Se o desespero falasse
seria um grito
dos patos selvagens.

Hokamoto Hitomi (1928)

3.
A chuva começa a cair -
são as batidas
do coração da noite.

Sunitaku Kenshin (1961-1987)

Beethoven : Raridades

domingo, 13 de março de 2011

O Limoeiro (quase) nos Idos de Março de 2011


Conforme compromisso assumido, anteriormente, aqui dou notícia visual do Limoeiro, em florescência, a 13 de Março de 2011, na varanda a Sul.

Olhóó desastre !!!


Era assim (com as palavras do título deste poste) que os ardinas, em Portugal e aqui há uns bons anos, costumavam apregoar a venda dos jornais, para aguçar a curiosidade dos putativos compradores, na rua. Claro que o faziam apenas naqueles dias em que algum acidente de grandes proporções tingia de vermelho sanguíneo as notícias a negro dos jornais.
Ora eu, hoje, ao passar revista às visitas do Arpose tive um "sobressalto cívico" (como diz o nosso PR) e fiquei consternado. Não é que um simpático cidadão ou cidadã de Taipé (Taiwan) teve a infeliz ideia de pedir ao Google que traduzisse para chinês o poste do Arpose "Macau: um inventário de Bocage", que eu coloquei em 1 de Abril de 2010, no Blogue. Ninguém me poderá tirar da alma este sentimento de culpa terrível! Estou a ver o pobre do utente a ver traduzido (Abade de) Jazente por "laid prostrate" - como o Google já fez uma vez; as palavras do poste Uma Sé transformar-se-ão provavelmente, na cabecita louca do Google, em qualquer coisa chinesa que signifique, em inglês, "A If"; e nem consigo imaginar como será traduzido aquele início de verso bocagiano "Nh's e chins cristãos", do soneto do poste.
Estragaram-me o dia... Só peço a deus que o utente da Ilha Formosa (Taiwan), que requereu a tradução ao Google, repare na data do poste do Arpose: 1 de Abril de 2010. E que, naquela ilha do Oriente, a data seja também o dia das mentiras. Se não for este o caso, o utente de Taipé, perante a desastrosa tradução googlesca, irá ficar, no mínimo, com os olhos em bico...

Miguel Hernández


O verbo é viril em quase toda a sua poesia, mesmo quando lírica ou empenhada politicamente. Miguel Hernández (1910-1942) que, em criança e jovem, foi pastor de cabras e leiteiro, nasceu em Orihuela (Alicante). Mas leu muito, sobretudo poesia. Depois combateu pela República Espanhola. Em 1939, após a derrocada, em fuga, tentou entrar pela fronteira portuguesa, mas foi "devolvido" aos franquistas. De prisão em prisão, muito abalado de saúde, acabou por morrer em Março de 1942, com 32 anos incompletos, de tuberculose pulmonar.
É dele o soneto que, agora, traduzo:

Como um touro eu nasci para o luto
e para a dor, como um touro estou marcado
por um ferro infernal no meu costado
e por varão na virilha como um fruto.

Como um touro o encontro diminuto
todo o meu coração desmesurado
e do rosto do beijo enamorado
como um touro o teu amor disputo.

Como um touro cresço no castigo
a língua no coração tenho banhada
e levo ao colo um vendaval sonoro.

Como um touro te sigo e te persigo
e deixas meu desejo numa espada
como um touro enganado, como um touro.

Revivalismo Ligeiro XLII : Oh Carol!

Neil Sedaka nasceu a 13 de Março de 1939. A canção "Oh Carol", de 1959, foi talvez o seu maior sucesso.

sábado, 12 de março de 2011

Um Homem honrado


Quando se fala da Índia, os nomes que, normalmente, ocorrem são: Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. Um, o descobridor, o outro o controverso, mas genial estratega. Na sombra, fica D. João de Castro, que poucas vezes é lembrado. Nasceu em Lisboa em 1500, e foi morrer a Goa, na presença de S. Francisco Xavier, em Junho de 1548, relativamente pobre. Foi o 4º vice-rei da India (dita Portuguesa), notável cartógrafo (discípulo de Pedro Nunes), bravo guerreiro. E homem honrado.
Acresce que, às suas qualidades, eu prezo sobremaneira, os retratos escritos das personagens da História. Porque, para além dos traços e cores dos retratos pintados, as palavras desvendam um pouco mais da alma dos homens, mesmo que de forma oblíqua. Ora, D. João de Castro, numa carta ao rei D. João III, datada provavelmente de 1539, escrita em Goa, faz o retrato de si mesmo e revela a sua mais íntima vontade:
"...Eu, Senhor, vim rico a esta terra e estou pobre; sou eu muito cobiçoso de natureza, e mal inclinado, porém falta-me habilidade para executar minha condição. De 18 anos tomei as armas em seu serviço; 6 vezes passei em África e lá me nasceram as barbas; mandou-me na armada de levante contra Barba Roxa; fui pessoalmente na tomada de Goleta, onde minha caravela ficou cheia de pelouros de bombardas, de que o muito excelente príncipe D. Luís é boa testemunha; vim em socorro da Índia por seu mandado, a resistir ao ímpeto e cruel fúria dos Turcos; fui em ajuda de se lançarem fora destas suas terras tão pestilenciais inimigos; nunca a opinião e honra dos Portugueses foi por mim diminuida, nem maculada; 20 anos tenho gastados no seu serviço, os melhores e mais estimados da vida; por amor de Deus e em paga destes trabalhos peço a V. A. que me dê licença para me ir desta terra a caminho de Portugal, a fazer vida com minha mulher e filhos, e a acabar estes breves e perturbados dias, que me ficam por passar, na serra de Sintra. Nosso Senhor acrescente a vida e real estado de V. A.."
O rei e o destino não lhe satisfizeram o desejo. D. João de Castro acabou por morrer em Goa.