quarta-feira, 23 de julho de 2014

A par e passo 99


O acidental, o superficial e as suas mais vivas variações excitam, iluminam o que há de mais profundo e de constante numa pessoa verdadeiramente destinada aos altos voos espirituais. Tem-se prazer na independência da alma e no gozo de existir para ver melhor e mais claramente. Tudo aproveita à consciência organizada. Tudo se destaca, tudo converge; ela nada recusa. Quanto mais ela absorve ou se reflecte das relações, tanto mais ela se reforça em si mesma e ainda mais se liberta e dilui. Um espírito inteiramente religado será bem, até ao seu limite, um espírito infinitamente livre, uma vez que a liberdade não é, em suma, senão o uso e fruição do possível, e que a essência do espírito é um desejo de coincidir com o seu todo.

Paul Valéry, in Variété II (pg. 15).

terça-feira, 22 de julho de 2014

Aaron Copland (1900-1990)


Divagações 70


"Perdigão perdeu a pena  / não há mal que lhe não venha...", dizia Camões que, pelas medidas de hoje, não morreu velho - atendendo aos dados de que dispomos, não terá chegado aos 60 anos. Sena, que morreu com 58, no seu magistral conto Super Flumina Babylonis, deixa supor que Camões sofria de dores na próstata, ou que alguma blenorragia, mal curada, lhe afectava as partes, de forma dolorosa e cruel, nos seus últimos dias.
Conto a generosidade das primaveras e verões, pelos fins de tarde que passo na varanda a leste. E, este ano, tenho de concluir que o tempo foi avaro. Porque posso enumerar pelos dedos, os dias que vi a esvairem-se, pela noite dentro, e as aves, em voos finais, a despedirem-se da luz. E já vamos no fim de Julho, com dias cada vez mais pequenos.
Terminaria, um pouco a propósito, com a epígrafe de um livro que não há:

Aqueço-me ao vagar da minha sede
por onde a arte é mais triste...

Regionalismos transmontanos (46)


1. Impolborar - empoeirar.
2. Impontar - despedir, pôr na rua.
3. Indébem - frágil, franzino.
4. Inguarina - vestimenta semelhante a uma blusa. Sobrepeliz, opa.
5. Intojado - entusiasmado. Antojado, entejoado, desejoso, com grande apetite.
6. Inzoável - pessoa afectável na forma de falar, pessoa pretensiosa.

Retratos de noivas régias


Não seria tarefa fácil, em tempos antigos, para um pintor, manter a estima dos seus mecenas régios, ao retratar as filhas e princesas casadouras. E, isto, porque normalmente o noivo, antes de se comprometer, em definitivo, pedia ao eventual e futuro sogro que lhe enviasse o retrato pintado da pretendida. Tal facto poderá ser visto sob diversas perspectivas: se a noiva fosse feia, a tentação, para o artista, seria aformoseá-la para agradar ao pai-mecenas e convencer o futuro noivo; mas incorreria, certamente, na fúria futura do pretendente régio, quando descobrisse o logro e o estratagema para o convencer a casar, quando visse, ao vivo, a princesa...
Hans Holbein (1497-1543), ao que parece, era intransigente: se a princesa era feia, feia a retratava. Mas nem todos os pintores assim procediam.
A terceira mulher do nosso D. Manuel I, Leonor de Áustria (1498-1558), irmã mais velha de Carlos V, que, além de rainha de Portugal, o foi também de França quando, depois de enviuvar, se consorciou com Francisco I, em 1531, foi retratada por várias vezes e por diversos pintores. O retrato, que encima este poste, foi executado por Joos von Cleve (1485-1541), por volta de 1530, e antes de Leonor se ter casado com o rei de França. E é possível que Francisco I o tivesse visto, antes do casamento. Não sei, também, se o Venturoso requereu um retrato da irmã de Carlos V, antes de tomar uma decisão. Devo lembrar que, a princípio, ela fora escolhida para noiva de D. João III, mas o rei viúvo enamorou-se dela, e foi ele que a desposou...
Mas D. Manuel I era arguto e pediu informações a  quem confiava, sobre a fisionomia, maneira de ser, e aspecto de Leonor de Áustria. O nosso embaixador em Espanha, Pedro Correia, escreveu-lhe assim:
"...Madama Leonor não é muito formosa, nem lhe podem chamar feia; tem boa graça e bom despejo, e julgo-a de condição branda e avisada; não tem bons dentes, é pequena de corpo, parecendo-o ainda mais porque usa chapins só da altura de dois dedos; e é grande dançadeira."
Era um diplomata, este Pedro Correia!...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

John Field (1782-1837)


Para MR e Artur Costa, e em resposta aos seus comentários no poste "Nada se perde, tudo se transforma"


Os dois postes de hoje (Manguel/Koons) tinham, propositadamente, embora de forma pouco perceptível, uma relação reflexiva e umbilical, de denúncia do mercado e seus agentes, na sua venalidade oportunista e  actual. O medo, a insegurança e a falta de sentido crítico permitem que o "rei vá nu", mas todos, ou quase todos, se calem.
No fundo, e de forma rude eu diria que se quer, por motivos óbvios, mas inconfessáveis, confundir estética com consumo, quantidade com qualidade. A arte que, na sua essência, deveria "elevar" e fazer pensar, desceu ao "lumpen" da facilidade literal, à indigência banal de poder ser compreendida por todos, sem ajuda nem explicação, porque a sua superficialidade não o exige. E o motivo é simples: vender, vender sempre e mais a toda a gente. As editoras fazem o mesmo... E os meios não importam. Cicciolina foi uma forma de Koons chegar a um nicho de mercado de difícil acesso e onde a "arte" não ia muito além do chinelo e da colorida lingerie. Com isso alargou, grandemente, o seu leque de clientes.
Depois, há uma legião de curadores, marchands, editores e "artistas" que precisam de ganhar vida, mesmo que seja a vender banha da cobra.
A benefício de inventário, há que dizê-lo: no panorama de desemprego e miséria actuais, Koons e J. Vasconcelos dão trabalho a muita gente e são uma espécie de mini-centro-de-emprego. Leve-se isso em conta dos seus pecados, até porque, se eu fosse elitista, teria que dizer que a Arte ou a Literatura são outra coisa...

Citações CLXXXVII


Do estratega dos departamentos de marketing editorial ao comprador para as grandes cadeias livreiras e também, talvez menos conscientes da sua responsabilidade, aos editores e professores de escrita criativa, quase todas as partes da indústria livreira se tornaram, em grande medida, peça de uma linha de produção visando a criação de artefactos para um público, não de leitores (no sentido tradicional), mas de consumidores.

Alberto Manguel, in O Monitor de Hal (pg. 123).

Nada se perde, tudo se transforma


Com uma restrospectiva, no Whitney Museum, que seguirá depois para o Centre Pompidou, Jeff Koons (1955) soma e segue... Em imagem, Split-Rocker, uma espécie de escultura-brinquedo gigantesca, composta de cinquenta mil flores.
A aceitarmos Koons, teremos que ser complacentes para com Joana Vasconcelos (1971).

domingo, 20 de julho de 2014

Marcadores 22


Já foi mais verdadeira esta epígrafe: Gutenberg lebt! (Gutenberg vive!), em branco, sobre o fundo vermelho do marcador, em imagem. Porque o livro deixou de ter apenas suporte no papel. E para as novas gerações, que hão-de nascer, o lado manuseável do objecto singular e "precioso" deixará de ser o mais comum, sendo apenas a imagem visual o elemento essencial e conhecido. Eu não quero tomar partido, porque nunca serei isento. 
Este marcador simples, mas digno, acompanhava um dos anuários da Sociedade Gutenberg (Mainz), que saem pela época do Verão, divulgando estudos novos sobre livros antigos.

E para não dizerem que eu sou elitista, que siga a dança!...

Escolhi este vídeo, porque coloca dois ou três problemas metafísicos bem importantes... E tem mensagem, e tudo.

A sociedade lisboeta do sempre em festa & companhia


Quem está triste ou preocupado que não salte, nem se levante do chão! Que a leveza é dos felizes e aéreos saltitões.
Ontem, à tarde, foram as bifanas populares do porco assado, à porta do S. Luís. Com rancho folclórico e tudo. À noite, foi música erudita, promovida por várias instituições da Capital. E, hoje de manhã, cerca das 10 horas, irrompeu do Largo do Camões a música pimba sul-americana, para fazer dançar aí uma vintena de adolescentes, numa aeróbica tonitroante e desenfreada, patrocinada pela Misericórdia de Lisboa.
Dois sem-abrigo, deitados nos bancos de pedra do Largo, acordaram estremunhados, sobressaltados e espavoridos. Mas, ingratos, nem saltaram, nem acompanharam a dança matinal... 

Considerações (talvez) abusivas sobre a condição feminina


Ontem, durante o Festival ao Largo, e enquanto ouvia a talentosa Elisabete Matos em excertos da "Tosca" e da "Turandot", dei-me conta de que o bombo, os timbales e correlativos estavam a cargo de uma frágil e jovem música que, com alegre e intensa energia, os percutia com duas imparáveis baquetas.
Depois, também as harpas (2) eram dedilhadas por mulheres. E, pelo menos, um dos violoncelos era tocado por uma senhora música, de meia-idade. Confesso que não reparei no piano... E, talvez, a conclusão tivesse sido um pouco precipitada, mas pensei que os instrumentos musicais maiores e mais pesados tinham cabido às senhoras. Porque os flautistas eram quase todos homens.

Oaristo(s) 2


Fecha, quiçá, com chave de ouro, esta curta rubrica (Oaristos) iniciada a 17/7/2014, através deste postal da pombinha mensageira. Que o Luís enviou a Mademoiselle Fátima, em 16/1/1904.
De conversas com H. N., de perguntas de MR, e de uma ligeira investigação, talvez seja legítimo concluir que o emissor das missivas tenha sido o major Luiz Alberto de Oliveira (Coruche, 1880-1956), irmão do Presidente do Conselho que antecedeu Salazar: o general Domingos Oliveira (1873-1957). A donzela Fátima Tamagnini Barbosa seria sobrinha (por afinidade?) do político que foi, por 3 vezes, governador de Macau. Iconograficamente, Luiz e Fátima estão representados na fotografia abaixo, embora numa fase já mais avançada das suas vidas, e casados.
Este último postal diz assim, em jeito de oaristo: "L'amour a eté donné a l'homme pour savoir ce qu'il peut souffrir au monde" (sic). Não se pode dizer que o Militar não tivesse um estro poético...

Uma vez mais, o grato reconhecimento a H. N., que permitiu estas revelações ternas e românticas.

sábado, 19 de julho de 2014

Impromptu (6)


Eu devia ter desconfiado...
Primeiro, passou sub-reptício um alto autocarro da Câmara de Valença, cheio de gente no interior.
Depois, no Chiado, começou a cheirar a queimado e, para meu espanto, apercebi-me que estavam a assar um grande porco, num espeto, junto ao S. Luís.
Finalmente, estava eu em casa "posto em sossêgo", quando as vozes, os instrumentos e as socas do Rancho atroaram os ares com a sua música alacre e minhota.
Então, é que se me fez luz, no espírito. E foi mais ou menos assim:

Relíquias...


Improvavelmente encontrado no fundo de uma gaveta, este horário escolar do ano lectivo de 1955-56, permite-me concluir que, neste preciso momento, há 58 anos atrás, se ainda houvesse aulas (pouco provável), eu estaria numa aula de Francês, orientada pelo Dr. Carvalho. Que era de Braga, e um excelente professor que usava uns óculos de aros dourados.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

De três palavras que aprendi hoje


Os últimos raios de sol marmoream de branco, ao longe, o casario do Seixal, em contraste com o azul quase cinzento, ao fundo, da Arrábida. O Tejo vai de verde, para o mar.
E eu aprendi hoje o significado de mais três palavras, que encontrei pela leitura de Histórias de Reis e Príncipes, de Alberto Pimentel. Como as não conhecia, foi ao dicionário saber-lhes o significado. Assim:
- Barjoleta - bolsa grande ou mochila;
- Alcoveta - alcoviteira (desta suspeitei o significado);
- Apolegar - premir com os dedos, palpar. 
Não se pode dizer que delapidei o meu tempo, por inteiro...

Pinacoteca Pessoal 81 : Sigmar Polke


Considerado um dos pintores mais significativos do post-guerra alemão, Sigmar Polke (1941-2010) tem, presentemente, no MOMA, uma exposição retrospectiva da sua obra, que seguirá para a Tate, no Outono.
Influenciado pela Pop americana (Andy Warhol, Lichtenstein...) soube reconstituir uma identidade própria, onde a provocação andava paredes meias com um libertário anarquismo de expressão, servido por um profissionalismo e cultura exemplares. Na década de 70, passou a dedicar-se à Fotografia, regressando, na década seguinte, à Pintura, parecendo, com isso, querer sublinhar a sua inteira autonomia, bem expressa pela sua frase provocatória: Wir wollen frei sein wie die Väter waren (Queremos ser livres como os nossos Pais foram) - numa alusão cruel e irónica à geração alemã que viveu e acompanhou o nazismo. 
O quadro Frau Herbst und ihre zwei Tötcher (A senhora Outono e as suas duas filhas), da segunda e terceira imagem do poste (conjunto e pormenor), pintado por Sigmar Polke no ano de 1991, em que a Mãe corta papel com uma tesoura e as filhas lançam os pedaços como se fosse neve artificial, parece, no entanto, querer expressar uma reconciliação entre tradição e modernidade, a que um cenário, confundível de esboços-paisagens à Turner, cauciona uma estética fragmentária, mas muito singular.

Cesária Évora

Ainda a língua portuguesa, e seus derivados (alguns, tóxicos...)


Falam-se crioulos de base portuguesa em Cabo Verde (onde têm servido de instrumento a uma literatura de importância considerável, há mais de 50 anos), na Guiné-Bissau, numa pequena zona do Senegal (Casamance) e nas ilhas de S. Tomé, Príncipe e Ano Bom (antiga Guiné Equatorial)... [Ivo Cruz, in Territórios e Comunidades Linguísticas, 2006].
Ora, é por isto (língua), pelo petróleo, pelo Banif e pela venalidade internacionalista do sr Machete que, mais tarde ou mais cedo, a Guiné Equatorial, do cleptocrata sr. Obiango, virá a integrar a C. P. L. P. ...

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Curiosidades 30


A leitura de A Cidade das Palavras, de Alberto Manguel, levou-me a destacar e sublinhar este pequeno extracto: "Por muito que lamentemos o facto, a linguagem escrita, quando surgiu há mais de cinco mil anos, não foi criação de poetas, mas de contabilistas. Viu a existência por razões económicas, para registar existência de factos: possessões, transacções comerciais, acordos de compra e venda." (pg. 65)
Esta afirmação, realmente, encontra suporte, por exemplo, nos considerados mais antigos textos em língua portuguesa, referidos por Ivo Castro (Introdução à Historia do Português) que,  baseando-se nos trabalhos de Lindley Cintra e Avelino de J. Costa, aponta:
- Notícia de Fiadores
- Notícia de Torto (c. 1214)
- Testamento de D. Afonso II (datado de 27 de Junho de 1214)
-  Auto de Partilhas
- Testamento de Elvira Sanches,
todos eles conservados na Torre do Tombo, e que tratam, maioritariamente, de sucessões e transmissões de bens.

Uma ironia de Jean Daniel, sobre F. Hollande


"...Ele é feito dessa fibra e temos que nos resignar. (...) E, no entanto, eu encontrei, neste 14 de Julho, um François Hollande melhor do que o habitual. Com o risco de parecer indulgente, ou até mesmo complacente, descobri que, nele, mesmo os seus defeitos não deixavam de ter uma certa robustez. ..."

Jean Daniel, no Editorial de Le Nouvel Observateur (nº 2593).

Oaristos


Esta escalada contígua, porfiada e crescente pressupõe um antes e um depois. O meio terá sido em 1904.
Não sei se o Luís, posteriormente, terá juntado os seus trapinhos com Mademoiselle Fátima, que morava num primeiro andar lisboeta, na rua de S. José. Mas, se foi o caso, só posso desejar, retrospectivamente, que tenham sido muito felizes...

P.S.: o texto do primeiro postal reza assim - "L'oiseau sait ou il voler pour trouver le bonheur, tandis que les ames volent dans l'inconnue, la tristesse et l'inquietude" (sic).

com agradecimentos iconográficos a H. N. .

Léo Ferré

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Apontamento 50: Livros Infantis e Escolares



Recuando algumas décadas, e recorrendo à experiência pessoal, acontece que houve livros de infância e escolares – já que abomino o jargão “Manuais” – que nos ficaram na memória visual pelo grafismo. Outros recordo pela ambiência das histórias que nos contavam e o insólito de promover a leitura em idade escolar.

Jamais me esquecerei das “aulas de lavores” em que a professora, depois de explicar as tarefas a executar - bordados, costura, malha ou “crochet” – se recolhia sentada na sua secretária, pegando num livro, começava a ler uns livros. À distância, pouco interessa um fundo ideológico das histórias, mulheres de um lado e homens do outro, porque o crescimento mental procedeu à actualização em conformidade com a evolução da sociedade. O que ficou, de facto, foi um ambiente estimulante de encontrar na palavra escrita outros universos do que o quotidiano conhecido. O que importa,  para promover a leitura, são momentos únicos em que a criatura descobre que o mundo se poderá  abrir através dos livros e sem sair do lugar de origem.

Quanto ao grafismo, não tenho dúvida de que os livros infantis ganharam imenso em qualidade de imagens. De tempos recuados apenas me lembro do aspecto do meu livro de “Primeira Classe”, amarelinho com desenhos de bichinhos muito bonitos. Tenho pena de não o ter conservado.



Gosto de acompanhar a evolução do grafismo dos livros infantis. Não faço colecção por falta de espaço, mas tenho pena, porque alguns livros são uma tentação.

Sucede que, ontem, por mão amiga nos entraram vários livros infantis e escolares, em casa. Numa junção perfeita, primam pela qualidade das imagens e do conteúdo. Alguns, na sua fina ironia e observação do quotidiano, parecem um “animatógrafo” em que o leitor, muito para além da boa disposição, aprende a olhar de forma diferente para o presente e o passado.


Este último "Livro de Leitura" aconselha-se a quem queira desenvolver, precocemente, a capacidade de entender e explorar a riqueza da língua, sobretudo na sua capacidade de criar e jogar com "segundos sentidos". São jogos inofensivos e, talvez por isso, cada vez mais raros !

Post de HMJ, dedicado a A.J.Monteiro

Desabafo


Como em tudo na vida, ou acompanhamos alegre, caridosa, gentil e  servilmente, ou elevamos o tom. Embora nem todos nos comprendam ou perdoem, se escolhermos esta última opção. Em desespero de causa, há sempre o questionário de Proust que, creio, ainda não foi ultrapassado e será sempre uma alternativa digna.

Ribeira das Naus


Se dissermos toda a verdade, não incorreremos em perjúrio e tudo nos será perdoado - dizem, complacentes e bondosos, alguns livros sagrados. Mas há que ter em conta o fingimento dos poetas - Pessoa dixit.
Eu teria ficado por ali, pela Ribeira das Naus, a noite inteira, porque o entardecer estava tranquilo e ameno. Ficaria até de manhã, como fiquei, uma vez, emocionadamente, durante uma noite-manhã de Santo António, pelas imediações da Estufa Fria. A juventude tem destes arrebatamentos, seja qual for a geração...
Até porque, ali, junto ao Tejo, não havia já gaivotas agressivas, a noite ia descendo pouco a pouco e o ar morno nos acariciava a pele e nos adoçava a fala, facilitando o pensamento e o diálogo. Passámos por uma jovem sentada junto ao Tejo, que parecia cantar uma serenata ao rio, convincente e comovida. Eu teria ficado, por ali, a noite inteira, sentado junto ao guitarrista que, amorosamente, a acompanhava.
Mas as duas senhoras, que me ladeavam, iam de passo estugado em direcção ao Terreiro do Paço. E o Augusto, bragançano e mais ligeiro, ia bem uns 100 metros à frente, palrando, também, com uma jovem alemã. Só por isso é que apressei o passo.  

Citações CLXXXVI


"...a democracia é um jogo em que podemos concordar com as regras, mas não temos de concordar com o resultado. ..."

Rui Tavares, in jornal Público, de 16/7/2014.


Observação pessoal: eu teria preferido este final, mais feliz: "embora o devamos respeitar."

Gershwin / Sinatra

Retro (51)


Elitista, mas rural, este letrado cavalheiro gaulês faz a apologia (1919) da beleza idílica e da tranquilidade campestre. Pena é que não se possa adivinhar o que estava a ler...