Ontem, durante o Festival ao Largo, e enquanto ouvia a talentosa Elisabete Matos em excertos da "Tosca" e da "Turandot", dei-me conta de que o bombo, os timbales e correlativos estavam a cargo de uma frágil e jovem música que, com alegre e intensa energia, os percutia com duas imparáveis baquetas.
Depois, também as harpas (2) eram dedilhadas por mulheres. E, pelo menos, um dos violoncelos era tocado por uma senhora música, de meia-idade. Confesso que não reparei no piano... E, talvez, a conclusão tivesse sido um pouco precipitada, mas pensei que os instrumentos musicais maiores e mais pesados tinham cabido às senhoras. Porque os flautistas eram quase todos homens.
Louvavelmente, de há uns anos a esta parte, o Teatro S. Carlos leva a efeito o Festival ao Largo, no seu adro, e de forma gratuita para quem quiser assistir. Sabem os frequentadores que os lugares sentados não são muitos e, para quem quiser estar sentado, terá que ocupar o seu lugar antes das 20h00, com sorte...
Pois tive o desprazer de constatar, eram 17h36, que cerca de 1/3 das cadeiras tinham a legenda democrática de : RESERVADO.
Como eu costumo dizer: "Quem tem amigos, não morre na cadeira."
Pese embora a deficiente gravação e imagem, o vídeo tem a particularidade rara de ter sido registado em Lisboa, no Teatro S. Carlos, em Março de 1958, aquando da actuação de Maria Callas e Alfred Kraus, em "La Traviata", de Giuseppe Verdi.
"Temos um Rolls-Royce a apanhar ferrugem, sem gasolina ou mecânico"
Alexandre Delgado sobre o Teatro S. Carlos.
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"Ele (A. Ramos Rosa) foi inteiramente poeta, exasperadamente poeta (mas não no sentido depreciativo e kitsch que a palavra pode ter), inapto para a vida pragmática de funcionário, como observou o seu amigo Vergílio Ferreira."
António Guerreiro sobre Ramos Rosa.
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"Portas fez «contacto prévio» com equipa de Woody Allen em Nova Iorque"
Uma vez mais, o Teatro S. Carlos, com alguns apoios mecenáticos, promove em finais de Junho, e até final de Julho, uma série de Concertos ao ar livre, gratuitos, de que se dá parte do programa, em imagem. Denominado Festival ao Largo, estas iniciativas têm congregado numerosa assistência, nas noites de Verão lisboetas. São justificamente de saudar estes acontecimentos culturais, e quem os faz acontecer.
Controverso, como todos os homens que deixam obra feita e útil, Diogo Pina Manique, nascido em 1733, era uma pessoa de vontade férrea, mas fortes tendências autoritárias. Foi ele que impulsionou a construção do Teatro S. Carlos, a ele se deve a criação da Casa Pia para acolher "mendigos e orfãos", que inicialmente funcionou no Castelo de S. Jorge. E o início da iluminação das ruas de Lisboa, fez-se também por sua vontade. Para que, nas ruas escuras e nocturnas da Capital, diminuisse a criminalidade.
A concretização desta sua ideia contou com a viva oposição do Marquês de Angeja, ministro do Reino, que contrapunha o alto preço e peso de tal medida, no orçamento do país. Acrescentava o Marquês que as pessoas não tinham nada que andar, de noite, pelas ruas lisboetas - que recolhessem mais cedo. Mas o Intendente Pina Manique não se calou e perguntou quantos latoeiros havia em Lisboa. Responderam-lhe: 129.
E obrigou cada um deles a fabricar 6 candeeiros, no prazo de uma semana. Legislou, também, no sentido de que cada morador que ficasse com a casa iluminada deveria pagar 100 réis ao erário público.
Assim, na noite de 17 de Setembro de 1780, data de aniversário da rainha D. Maria I, Lisboa apareceu iluminada com 774 candeeiros, a azeite. Afastado do poder, por influência dos franceses, em 1803, Pina Manique viria a falecer, pouco tempo depois, a 30 de Junho de 1805.
Faleceu, há poucos dias, este tenor italiano que muitos consideravam digno sucessor de Pavarotti. Paolo Pinamonti trouxe-o ao S. Carlos, em 2004, e referiu-se-lhe como um tenor dramático verdiano, com grande sensibilidade e inteligência na sua Arte.
Pequenas chinesices nos podem infernizar os dias. Mas também pequenas coisas, muitas vezes, nos bastam para alegrar a noite. Ou, simplesmente, uma breve frase pela manhã, dita por alguém.
Já passava das 20, quando chegamos. O restaurante era tranquilo, discreto, até no serviço atento, e distante daquele quitche habitual de dragões, vermelhos e dourados berrantes, dos lacados excessivos. Nem parecia chinês. A cozinha era boa, as doses generosas e apaladadas. E depois, a dona era muito simpática e prazenteira, de rosto alongado (Aquariana?) à Virginia Woolf, que nos disse, com orgulho e num inglês com sotaque (estivera em Londres uns anos), que era natural de Xangai. Ao despedirmo-nos, ficamos todos bem dispostos com a sua alegria oriental.
Depois, na Avenida, ainda havia coroas de flores em volta da estátua de Bolívar (restos da festa nacional da Venezuela) e três incas (?) rodeavam o pedestal, confraternizando bem dispostos. Soube-me bem. Mas foi também agradável aquela meia-hora na esplanada do D. Maria, tendo em frente o D. Pedro IV ( ou o Maximiliano?), com poucas pessoas e carros em volta, beberricando o café e a caipirinha na noite de Julho.
Perto do Largo do Picadeiro, à frente do S. Carlos, esperava-nos um quarteto chinês tocando, por instrumentos exóticos, estranhas músicas do seu País. Até deu para assimilar o seu cantar insólito e profundo que "parecia vir dos pés" (obrigado, HMJ!).
De pouca coisa, realmente, se pode fazer a noite tranquila dos homens.