sábado, 13 de julho de 2013

3 greguerías ramonianas para o fim-de-semana


1. O melhor das estátuas jacentes é que não é preciso fazer-lhes as camas todos os dias.
2. Era um homem sofrido e calado que tinha nuca de figo seco.
3. As pombas tornam claro que o amor é um queixume incessante.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Zbigniew Preisner


Curiosidades 75


Na sua missão evangelizadora e purista já a UE tinha obrigado e legislado no sentido de que cada maço de tabaco tivesse inscrito nas suas embalagens aqueles avisos cristãos, para dissuadir os fumadores, sobre a morte, a saúde, a impotência - perigos terríveis a que já nos fomos habituando. Pelo menos, a ler...
Não satisfeita com a anterior cruzada de pureza pulmonar, agora prepara-se para proibir, total e terminantemente, a comercialização e fabrico de cigarros mentolados. Pergunto-me eu, porque é que a UE, tão puritana e pura, não legisla contra a droga e pela moralização dos costumes? Era bonito...
Como muita gente sabe, Helmut Schmidt (1918) é um grande fumador...de cigarros mentolados. Pois o simpático ex-Chanceler da Alemanha não esteve com meias medidas e mandou comprar 200 volumes deste tipo de cigarros (cerca de 4.000 unidades), preventiva e antecipadamente, para atravessar a "lei-seca".
Pensarão esses perfumados e impolutos legisladores da UE que, com isto, e com 94 anos, Helmut Schmidt irá, em breve, para o inferno. E eles, os puros de pulmões, poderão voar um dia para o reino dos céus.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Osmose (45)


O homem foi enumerando: Monte Athos, as Cartuxas que há por esse mundo, os diversos tons de cinzento, alguns castanhos puros e duros, a sua despensa escura de infância, todos os momentos de espera, em antecâmaras silenciosas e brancas; referiu ainda essas, raras, transformações nocturnas que ocorrem, três ou quatro vezes numa vida e que,  sendo solitárias, são também radicais. De alguma forma, falava do silêncio ou de tudo aquilo que é intransmissível.
Por fim, citando Sartre, rematou: "O inferno são os outros".
Eu estava aturdido e, embora não concordasse inteiramente com ele, fiquei silencioso.

Regionalismos minhotos (43)


1. Trafangada - miscelânea, mistura de várias coisas desconexas.
2. Trangalheiro - trapalhão.
3. Trapoleiro - intrujão, mentiroso.
4. Trascar - diz-se do tipógrafo que, à caixa, compõe bem e depressa.
5. Tratéria - palestra, conversa.
6. Trau-catrau - onomatopeia para exemplificar as pancadas na eira, por ocasião da malha.

Revivalismo Ligeiro (?) LXIII : Carlos Paredes (1925-2004)


Gerardo Diego (1898-1987)


Y tu infancia, dime...

E a tua infância, diz-me?, onde está a tua infância?,
porque eu quero-a.
As águas que bebeste,
flores que pisaste,
as tranças que entrançaste,
os risos que perdeste.
Como é possível que não sejam meus?
Diz-me, que estou triste.
Quinze anos só teus, que nunca foram meus.
Não me escondas a infância que foi tua.
Pede a Deus que faça regredir o tempo.
Há-de regressar a tua meninice e brincaremos.

Gerardo Diego, in Hasta siempre (1948).

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Adagiário CXLIV


"A burra de vilão, mula é no Verão."

Sem título (2)


Entre a charada e o oráculo metafísico, a última perlenga do inane Sr. Nim tem, mais uma vez, alguma coisa de circense, não fora feita num momento trágico para o País e, sobretudo, se não fosse feita para os portugueses, que tão abusados têm sido, nos últimos tempos, por uma série de criaturas, no mínimo, grotescas. Irrealidades, despropósitos, criancices ao mais alto nível, tem sido o nosso dia a dia.
Deveria ser proibido brincar com Portugal, como Charlot, neste filme - embora por outras razões - brincava com o Mundo.

Junqueiro


Anda o meu Jornal diário, neste período de férias, a fazer umas reportagens sobre casas onde habitaram escritores portugueses. Hoje, calhou a vez ao poeta de "Os Simples", muito embora a casa onde paira a sua memória seja uma reconstituição fiel, na decoração e arranjo, noutro lugar, da moradia autêntica, na Rua de Santa Catarina, no Porto. Esta, adquirida pela Filha, no Centro Histórico portuense, foi inaugurada em 1942. A informação do Jornal é ampla e interessante, e talvez seja uma boa altura para eu voltar a falar de Guerra Junqueiro (1850-1923).
Até porque gostei muito de o ler, na minha juventude, e não sou ingrato nem esquecido. Muito embora, pelo caminho até aqui, eu fosse descobrindo outros poetas que se me foram impondo como preferência. Mas também convém lembrar que, em grande parte da poesia do séc. XX português, há reminiscências, sementes ou ecos de Junqueiro: de José Gomes Ferreira até Ary dos Santos, para falar dos mais conhecidos. E uma parte dos versos neo-realistas muito lhe devem, com aqueles pontos exclamação, revoltados e sofridos.
Foi só nos anos 90 que eu visitei, pela primeira vez, e guiado pela mão de um Amigo, a Casa-Museu de Guerra Junqueiro, no Porto. E me apercebi, com evidência, que a sensibilidade e gosto do Poeta se alargava, com conhecimento, a outras manifestações artísticas: pintura, louça (Delft e Companhia das Índias, principalmente), mobiliário, arte sacra... Dois El Greco, que foram seus, estão hoje no Museu de Belas-Artes, de Budapeste, porque o Estado português não lhos quis comprar por tuta e meia - ontem, como hoje...
Para quem não conheça, é uma sugestão que fica: visitar a Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto. Vale a pena.

Memória (81)


"...Por vezes o oceano ocupava quase por completo toda a minha janela, acrescentado como era por uma tira de céu limitado unicamente por uma linha que era do mesmo azul que o do mar mas que, por isso mesmo, eu julgava ser mar ainda, e que não devia a sua tonalidade senão a um efeito de reflexão. ..."

O texto transcrito, acima, é retirado de À l'ombre des jeunes filles en fleurs, de Marcel Proust (1871-1922) cujo aniversário do nascimento passa hoje.
No mesmo dia, mas 41 anos antes, tinha nascido o pintor Camille Pissarro (1830-1903), um dos criadores do Impressionismo. E que tem a particularidade, pelo lado do pai, de ter ascendência portuguesa.

terça-feira, 9 de julho de 2013

François Adrien Boieldieu (1775-1834)


A par e passo 48


O princípio de esperar o pior é uma doença que provoca enormes danos quando o doente nada pode contra esse mal que pensa provável.
...
A vaidade, grande inimiga do egoísmo, pode engendrar todos os efeitos do amor ao próximo.
...
Não se deve tratar os outros de imbecis - a palavra incompletos será geralmente mais adequada.

Paul Valéry, in Tel Quel II (pgs. 257/8).

Os novos astrólogos...


...ou : cada político tem a D. Maria que merece; ou o jornalismo imitativo e cego, também já chegou a França, ou...a silly season já se instalou em pleno, na Europa.

com agradecimentos cordiais a AVP.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Interlúdio 33


A morte dos lobisomens e o desaparecimento das bruxas explicado pela consumada divulgadora cultural, D. Mariana Monteiro. Depois desta explicação, ficamos todos muito mais descansados. Eu, pelo menos, fico!

Uso pessoal 9 : Lápis


São alguns, apenas,  dos muitos lápis que tenho a uso, em simultâneo. Objecto simples e muito útil, que adquiriu direito de alforria e configuração final, por alturas da Revolução Francesa. Uns mais macios no traço, outros mais ásperos na escrita, facilitam as emendas e rasuras, sempre que necessário, através das safas ou borrachas de apagar. Dois ou três já são só e apenas cotos, mas pela macieza do traço não tive coragem, ainda, para os deitar fora. Do alemão Staedtler e do checo Hardtmuth até ao portuguesíssimo Viarco, aqui ficam em imagem.

Divagações 50


Eu sei que estamos no tempo da desmemória. Ou, em pleno, no tempo da leveza que Kundera inaugurou, para título de livro. Mas fomos, entretanto, muito mais longe em direcção ao conforto da leviandade, à ausência de vergonha, ao desprezo pela palavra dada, na relação para com os outros. Em suma, instalámo-nos, por infantilismo serôdio, num estádio muito próximo da completa irresponsabilidade humana. E já nem falo sequer da boa educação...
A telenovela lumpen a que assistimos, na última semana, de alguns actos pueris deste (des)Governo português, estão aí, na sua magnificência chula, para o provar. Como podemos, pois, pedir ao comum da terra, ao ruano, ao cidadão anónimo, que faça melhor, ou se conduza, com ética, responsavelmente?
Se ele, também e provavelmente, já se esqueceu daquilo que deve ser a conduta de um ser humano.

Ennio Morricone (1928)


Capas e Prémios


Sempre fui sensível à qualidade (ou falta dela) estética das capas dos livros. E, aqui no Blogue, algumas vezes falei disso. Do meu ponto de vista pessoal, e talvez  injustamente, considero os anos 60 como a idade de ouro da ilustração portuguesa, de que salientaria os nomes de Sebastião Rodrigues, Victor Palla, Lima de Freitas, Bernardo Marques, José Cândido, entre muitos outros.
Lá fora, a editora britânica Penguin Books criou até um prémio anual para o melhor design de capas de livros que, em 2013, galardoou o inglês Hayley Warnham, pelo seu trabalho para uma nova edição do policial "The Big Sleep", de Raymond Chandler. Embora não faça o meu gosto, aqui fica a notícia e a imagem do design da capa de livro premiada. Bem como um cartaz, do mesmo designer britânico, executado para o "Print Club Londons".

domingo, 7 de julho de 2013

Sebastião Salgado (1944), sobre a Vida, a Morte e a Fotografia


Uma fotografia, de vez em quando (9)


De autor desconhecido, esta fotografia poderá ser datada, com alguma segurança, dos anos 30 do século passado, e terá sido tirada algures no norte de Portugal (No Carnaval? Na passagem do ano?).
Um carimbo, no verso, refere Foto-Londres, Rua 31 de Janeiro, 148 (Porto?). Tudo o resto é mistério, ou fica entregue à especulação, ou imaginação de cada um...

Antecipadamente


É talvez muito cedo, mas já fica a notícia de uma exposição de Miguel Navas, a inaugurar em Setembro (oxalá esteja mais fresco!...). Na galeria Bloco 103, à Rua Rodrigo da Fonseca, 103 (frente ao Ritz).

Outras músicas : Philip Glass


sábado, 6 de julho de 2013

Dos inconvenientes deste Verão português, com música pimba


Não bastasse este calor excessivo, para ter de assistir, ainda, ao canto desafinado de dois rapazelhos de coro, quais apostólicos Pedro e Paulo, numa rábula mesquinha, pouco antes do jantar. O regente do coro, inane como sempre, deve ter-se acobertado à sombra de Belém. Não veio ao Tivoli...
Em sintonia, na região outrabandista, há festa na aldeia. As vozes indigentes dos carreiras, dos barreiros e doutros pimbas de serviço atroam os ares e fazem-se ouvir em altíssimos decibéis. Pagos decerto pelo presidente da Junta de freguesia - felizmente em vias de extinção.
Irra!, que não há sossego, nem pachorra, nem orelhas para viver, continuamente, nesta opera buffa à portuguesa! É só música, e da pior...

Luz e trevas, em metáfora fotográfica e real


Talvez, pelo menos, desde o séc. XVIII, que a luz e as luzes  eram sinónimo de conhecimento e mesmo sinal de beleza: Paris foi considerada, por exemplo, a Cidade da Luz. E, vista de cima, de avião, durante a noite, é realmente um foco de luz intensíssimo.
Daí que seja notório, nesta fotografia por satélite, da imagem, reproduzindo a Península Coreana, o contraste violento entre a luminosidade da Coreia do Sul e as trevas que escurecem quase totalmente a Coreia do Norte.
Numa flagrante metáfora da escuridão em que os governantes, desta ditadura  irracional e aberrante, mergulharam os seus concidadãos.

Citações CXLIII


Gosto dos homens que têm futuro e das mulheres que têm um passado.

Oscar Wilde (1856-1900).

Mais 2 aguarelas de D. Carlos


Para um dia que promete ser de Verão excessivo, a sugestão de frescura destas aguarelas de D. Carlos.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Astor Piazzolla

Mercearias Finas 74 : pratos de peixe e castas dos vinhos verdes


Se, para alguns, quanto a vinho, só reconhecem o tinto e, ainda outros, se contava, por graça, que à pergunta: "Que vinho?", respondiam: "Muito!...", também, por vezes, a escolha da bebida certa para acompanhar determinados pratos, se houver critério, põe algumas questões. É certo que já vi muita coisa...até já vi um cavalheiro, para acompanhar uma perdiz estufada, pedir coca-cola. Matou a perdiz, pela segunda vez. E não a merecia, absolutamente.
A gama de vinhos verdes brancos, pela sua variedade de castas e  sabores, em matéria de pratos de peixe, permite alternativas amplas e opções acertadas. Pessoalmente, um rodovalho, um peixe-galo grelhado ou um linguado justificam a abertura de uma garrafa de alvarinho. Mais seco ou mais untuoso, consoante o gosto das pessoas à mesa. Mas, já um bacalhau assado, pede, no mínimo, um branco encorpado, ou até mesmo um tinto, em que pode entrar o espadeiro minhoto. 
Quanto às sardinhas, já não estou tão seguro e tudo fia de mais fino... Na minha modesta opinião, tudo depende da época e do ano. E, também por aqui, o vinho tinto pode ter uma palavra a dizer. Como este ano elas estão gordas, rechinam e pingam para o pão, a casta loureiro pode bem impor-se. Ou, em boa alternativa, o sempre seguro "Muralhas" de Monção, com os seus 90% de alvarinho e 10% de trajadura. Que é, quase sempre, uma escolha acertada e compensadora.

Dois haiku japoneses traduzidos, e uma nota breve


Na ponta duma erva
ante o céu infinito
uma só formiga.

Ozaki Hôsai (1885-1926).

Noite de Verão -
o som das minhas socas
sobressalta o silêncio.

Matsuo Bashô (1644-1694).

Nota: Foram já vários os haiku japoneses traduzidos, aqui, para o Blogue. Mas é importante relembrar a sua gramática muito particular. Na sua brevidade (5-7-5 sílabas) de três versos, de origem (que uma tradução raramente consegue manter), confrontam, com frequência, o fugaz com o eterno, no espaço de uma só respiração. Equilibram-se entre o mutável e o imutável, entre a natureza e o espírito.
Os 2 haiku traduzidos, foram-no em terceira mão: do francês, mais concretamente.