sexta-feira, 10 de abril de 2015

Lembrete 27


Quase não valeria a pena anunciar que vi as primeiras, anteontem, entrados que já fomos por Abril. Terão vindo assim tão tarde, ou fui eu que andei distraído?
Mas as andorinhas lá andam, em voos baixos sobre o rio e sob o céu fechado e cinzento. E assim baixas, como dizem, prenunciam chuva, que era, de todo, dispensável... 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Apontamento 66: Pare, escute e olhe


[Despesas sociais, da Alemanha, numa comparação com outros países]

Há dias, em que a pessoa não consegue alcançar o essencial, perdendo-se nos acessórios, ridículos, sem interesses. De repente, sem saber o motivo, surge, ou por imagens, ou por estatísticas ou outra base de informação, a essência do pensamento sobre determinado assunto.

Neste caso preciso, sobre umas impressões de viagem pela Alemanha, recentemente.

Mesma à distância, sabia que o “slogan” merkeliano: “Então, não estamos tão bem”, exaltando o bem-estar, generalizado, da população alemã, tanto se distanciava da realidade, objectiva, da Alemanha, como os benfazejos daqueles que nos pretendem pintar, por cá, a retoma e outras maravilhas quejandas em Portugal.

O quadro, acima, demonstra e comprova o que observa, na Alemanha, sobretudo aquele que sabe parar, escutar e ver. A desigualdade acentua-se, a degradação rompe – apesar do “manto diáfano da aparência” – a CULTURA e a CONSCIÊNCIA CÍVICA – definham.

Confesso que não gostei do que vi.

Para os admiradores de fora, poderá ser um país que funcione, ao ritmo da Economia e da Finança, com um aspecto organizado que impressiona o forasteiro, facilmente iludível, mas os que sabem escutar, sentem a decadência social e cultural.


Um país considerado rico, que perde a essência cultural e a ambição social não poderá estar ou viver bem. E, lá como cá, os “slogans” ocos não conseguem disfarçar a realidade, preocupante e triste.

Post de HMJ

Divagações 85


Parece haver cada vez mais dinheiro, no mundo. Na posse de cada vez menos pessoas. Não sei que autor clássico dizia que: o pobre, raras vezes, rouba o rico, mas os ricos roubam quase sempre aos pobres.
Se tivesse que referir o tema mais importante do último TLS, que ando a ler, eu diria, que o assunto temático mais significativo e dominante, é: África. Provavelmente o continente mais rico em matérias primas; e, tirando a Austrália, o menos populoso.
Mas, também, o mais mal sucedido, depois da era colonial. E a China, paciente e subtilmente, aproveita e até dá uma ajuda...

Chopin / Cortot

Citações CCXXXII


Quando um escritor começa a negociar o seu talento, não tarda muito que suspenda os pagamentos.

Armando Palacio Valdés (1853-1938).

Uma louvável iniciativa (39)

Foi em 2009. E a homenagem, nacional, foi levada a cabo pela Esquadrilha de França, para celebrar os 50 anos do início da publicação (1959) da banda desenhada de Asterix e Obelix. E contou com a presença de Albert Uderzo (1927), sobrevivente, que, com René Goscinny (1926-1977), foi responsável pela célebre banda desenhada gaulesa, que correu mundo.

os melhores agradecimentos a C. S..

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Confirmar ou renegar


"Numa altura em que os partidos políticos se preparam para a disputa das eleições gerais de 7 de Maio, os seus candidatos olham selectivamente para os seus passados. A grande maioria dos Tories escolhe Margaret Thatcher, purificada pela morte, mesmo para aqueles que a odiavam enquanto viva. Tristemente, para os Trabalhistas, o seu equivalente e bem sucedido líder, Tony Blair, é ainda um produto tóxico e assim continuará..."

Do editorial de The Times Literary Supplement (nº 5844, de 3 de Abril de 2015).

Mais 1 poema de Antonio Gamoneda


El vigilante en la nieve (X)


Ia veloz por sobre as ervas brancas.

Um dia sentiu asas e parou a escutar
uma outra idade. Certamente que latiam pétalas
negras, mas em vão: viu os resistentes estorninhos
afastarem-se por entre os ramos afilados pelo Inverno

e voltou a ser veloz, e sem destino.

Iconografia moderna e laica (23)


"E Deus disse, faça-se luz: e houve luz."

Génesis 1, 3.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O impensável acontece


Não, não é uma mentira do 1 de Abril.
Mas ainda há coisas que me surpreendem: hoje, houve um apagão em Washington e a Casa Branca ficou às escuras...

Revivalismo Ligeiro CXVII


Percy Faith (1908-1976) nasceu a 7 de Abril.
Com Mantovani, a sua orquestra de violinos era das mais ouvidas nos meus tempos de juventude. E um dos seus maiores êxitos foi este "A Summer Place", da banda sonora do filme homónimo, que estreou em 1959.

Símbolos, dissimulações, necessidades...


Aí pelos anos 70 do século passado, e na empresa multinacional onde eu trabalhava, havia um pequeno jornal interno, mensal, onde, entre outras coisas publicadas, era costume fazer breves entrevistas aos colaboradores. As pequenas conversas davam, também, direito a fotografia. Desses retratos, que recordo, bem à vontade a grande maioria dos entrevistados aparecia a falar ao telefone (fixo). Creio que pretendiam (ou pretendia-se) dar a ideia que eram funcionários muito activos, sempre ocupados, diligentes no seu trabalho diário. Hoje, o telefone terá dado lugar, seguramente, ao emblemático computador pessoal, nas fotografias...
A acolher, como rigorosa, uma informação, que li recentemente, um sexto da humanidade é míope; e, entre os que lêem e/ou utilizam computador, o número sobe para cerca de 24% dos seres humanos - considerável, a miopia!
Os óculos, que atenuam esta debilidade humana, são uma invenção recente, se compararmos os anos com a idade do Mundo. Terão surgido, apenas, no século XIII, em Itália, pela primeira vez - o seu inventor é desconhecido, embora se aventem várias hipóteses. A primeira pintura em que aparecem óculos, usados pelo cardeal Hugo de Saint Cher, surge no ano de 1352, num quadro do pintor Tommaso da Modena (1326-1397).
Por curiosidade, posso informar, com alguma garantia de rigor, que o primeiro artista, neste caso poeta, a aparecer retratado com óculos, terá sido Quevedo, num quadro de Juan van der Hamen (1596-1631), que dizem ser cópia de um outro de Velásquez, anterior. Não sei se esse adereço útil acrescentava, ao grande poeta castelhano, um halo simbólico de sabedoria, ou se provocava, na altura, estranheza ou exotismo, nos observadores. Seria talvez, pelo menos, um sinal de distinção e singularidade. Não teria, com certeza, a mesma carga simbólica, do omnipresente cachimbo nas fotografias de grande parte dos intelectuais do passado século XX. Nem sequer o volume e importância objectiva do telefone e do computador, em anos recentes, para sublinhar a hiper-actividade simulada dos colaboradores, numa empresa de sucesso, destas, portuguesas.


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Filatelia CI


Os dois inteiros postais portugueses, em imagem, são da segunda década do século XX. São raros, e eu nunca os tinha visto: dei por eles, na net, inesperadamente.
Não serão da responsabilidade oficial dos CTT, até porque não constam do catálogo especializado, elaborado por Cunha Lamas e Oliveira Marques, e editado em 1985. Também não são referidos por Américo M. Pereira, na sua obra sobre a mesma temática.
Serão, portanto, devidos a impressão particular, mas tiveram circulação atestada, pelo menos, no caso da denominada 1ª série de sellos da Incursão de Paiva Couceiro, postal que terá sido impresso pela Lithographia Universal - Porto.
Terá sido breve o seu uso, porém, uma vez que a Monarquia do Norte (ou Reino da Traulitânia, assim denominado pelos seus detractores republicanos) teve curta duração, no Porto: de 19 de Janeiro a 13 de Fevereiro de 1919. Breve foi também o consulado de Sidónio Pais (1872-1918), que decorreu de 28 de Abril a 14 de Dezembro de 1918.


2 poemas de Antonio Gamoneda (Oviedo, 1931)


Estou despido perante a água imóvel. Deixei a minha roupa no silêncio dos últimos ramos.

Era esse o destino: chegar à margem e ter medo da água em quietude.

..........................

Atravessei as crenças. Durante muito tempo
nevou sem esperança.
Mães havia que, ao amanhecer, enlouqueciam: oiço os seus gritos amarelos.

Ainda neva. Creio no desespero.
Acredito na ira.

Considerações de K. Kraus, (provavelmente) a propósito de um seu retrato por O. Kokoschka


Kokoschka fez-me um retrato. É bem possível que não me reconheçam, aqueles que me conhecem. Mas, certamente, hão-de reconhecer-me os que não me conhecem.
...
O verdadeiro retratista serve-se do seu modelo, um pouco como o mau retratista se serve da fotografia do seu modelo.
...
Ele pinta sem parecenças. Não reconheceram nenhum dos retratados, mas reconheceram-nos todos como originais dele.
...
Num verdadeiro retrato, deve-se reconhecer qual o pintor que o fez.


Karl Kraus, in Pro domo et mundo (pgs. 91/2).


domingo, 5 de abril de 2015

L. Cohen


Será uma redundância, um lugar comum, uma evidência mas, e depois de G. F. Händel?...

A par e passo 131


Não será aqui o lugar mais próprio para abordar completamente o processo ortográfico (francês). O absurdo da nossa ortografia que é, na verdade, uma das fabricações mais ridículas do mundo, é bem conhecido. Ela é uma recolha imperiosa ou imperativa de uma quantidade de erros de etimologia artificialmente fixados por razões inexplicáveis. Deixemos o processo de lado, (não sem sublinhar até que ponto a complicação ortográfica da nossa língua a coloca numa posição de inferioridade, em relação a algumas outras. O italiano é perfeitamente fonético, enquanto o francês possui duas formas de escrever f, quatro de escrever k, duas de escrever z, etc.)

Paul Valéry, in Variété III (pg. 279/80).

Duas breves notas:
1. Não leve esta citação, meu caro Artur Costa, como uma picardia minha, ou tomada de posição em relação ao novo AO, de que é um intransigente defensor. Este poste é uma mera sequência, natural, dos anteriores, que tenho vindo a traduzir.
2. Olhando para as lombadas dos dicionários que uso, apercebi-me da aparente maior riqueza do vocabulário português, em relação ao da língua francesa. Enquanto o dicionário de Português-Francês tem  752 páginas, o de Francês-Português tem, apenas, 628.

Jan Erik Vold (Oslo, 1939)


hokusai, o velho mestre, que pintou uma onda como ninguém tinha pintado uma onda antes dele

Hokusai
chegou
quase aos 90 anos. Quando tinha 75
anos, disse
dos seus quadros: Comecei a desenhar
coisas quando tinha
6 anos. Tudo aquilo que consegui fazer
antes dos 50, não vale
nada. Quando cheguei aos 70
ainda não tinha feito
nada
de bom. Aos 73 anos
comecei a compreender
as formas básicas
dos animais
e das plantas.
Quando chegar aos 80, terei
compreendido mais, e quando atingir os 90
conhecerei
os mistérios da arte
até ao fundo
- assim, se chegar aos 100,
produzirei
coisas dignas de elogio. Para não falar
dos anos
seguintes.
Por agora, o essencial
é seguir em frente.



Uma boa Páscoa, soalheira!


Quem diz Páscoa, dirá, ou imaginará (creio): cabrito, amêndoas, folar, vinho fino, coelhos...
Pois aqui fica o nosso coelho gigantone, para desejar uma boa Páscoa, a todos os que nos visitem.

sábado, 4 de abril de 2015

C. Chaplin / J.-A. França


"...Se o burlesco, o efeito grosseiro de um jogo de bolos de creme está ligado a uma idade infantil do espectador cinematográfico, não se pode ignorar que um ludus infantil é uma condição essencial para a formação e a admissão do «cómico». Lembremo-nos das rasteiras de «Lady Eve», de Sturges ou dos desastres que acontecem ao marido ciumento de «Unfaithfully Yours», de Sturges também, ou das cenas dos filmes de Jacques Tati, ou da batalha dos bolos em «O Ditador», de Charles Chaplin, que reabilitam, de uma maneira irrecusável, a óptica da farsa dos anos 1915-20, «idade infantil do cinema». E a «idade infantil do cinema» - que pode querer dizer, se no cinema vamos procurar a poesia, que é a essência da farsa?..."

José-Augusto França, in Charles Chaplin - O "Self made myth" (Inquérito, 1963).

Regionalismos transmontanos (77)


1. Torqueira - o m. q. cepa.
2. Tortino - aquele que tem as pernas tortas.
3. Trabola - pessoa trapaceira, velhaca.
4. Tralhar - mudar a água de rega de um rego para outro. Coagular, solidificar. O m. q. talhar (leite, etc.)
5. Tramousana - doença, ataque.
6. Trapizonda - bebedeira.

Joseph Haydn / Seraphic Fire and Spektral Quartet


sexta-feira, 3 de abril de 2015

2 esculturas (modernas) para uma Sexta-feira da Paixão


A primeira escultura, em imagem, foi executada pelo argentino León Ferrari (1920-2013), no ano de 1965, tendo sido intitulada: "Civilização ocidental e cristã", numa flagrante crítica ao imperialismo norte-americano.
A segunda, do artista argelino Adel Abdessemed (1971), é uma Crucificação, trabalhada entre os anos 2011 e 2012, em arame farpado.

Pinacoteca Pessoal 94


Charles Auguste Émile Durand (1835-1917), mais conhecido pelo nome artístico de Carolus-Durand, foi um pintor francês importante e muito considerado, no seu tempo, sobretudo, pelas figuras da Terceira República que retratou, para a posteridade. Mas não só. Grande admirador de Velásquez, foi também mentor e mestre de um grande número de artistas, como por exemplo, John Singer Sargent (1856-1925) que lhe pintou o retrato que encima este poste.
Da sua técnica apurada, melhor falarão as suas obras, que, também, aqui ficam: "Homem adormecido", de 1861, e o retrato de "Madame H. Fouquet", pintado no ano de 1876.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

F. Liszt / L. Berman

Divagações 84


Economista afável e simpático, frontal e realista, acabo de saber que José da Silva Lopes (1932-2015) morreu hoje, no mesmo dia em que Manoel de Oliveira desapareceu do ecrã da vida. Homens de princípios, representantes de uma ética que já não existe e já ninguém recomenda...
O dia parece-me estranho, na sua circunstância de obituário carregado. Ao alto, no céu desta noite morna de Abril, até a Lua cheia parece envolvida num halo verde insólito e inexplicável, que se projecta sobre o rio. E lembro-me de uma greguería de Ramón Gómez de la Serna, a propósito:

A lua é um banco arruinado de metáforas.

Era assim ... e assim foi...

Foi a única maneira de o proibirem de filmar...


...ou não? Quem sabe se não há películas etéreas e celestiais, que não de celulóide, onde o céu e deus caibam por inteiro?
Manoel de Oliveira (11/12/1908-2/4/2015): Fim.

Planando por um jornal espesso e pesado


Houve tempo (30/40 anos) em que o comprava e lia, quando era leve e grácil, e tinha aquela frescura da juventude derramada pelas suas páginas escorreitas e elegantes. Com o tempo, porém, foi-se tornando enxundioso e obeso, como hoje uma boa parte dos jovens portugueses. E deixei de lhe dar atenção.
Recentemente, porém, a meio da semana, faz-se uma troca, entre amigos: eu passo o TLS, "L´Obs." e a ípsilon, já lidos, recebendo "Le Monde-Livres", uma boa parte do Expresso e, muitas vezes, o JL. Tenho lugares cativos de leitura, no Expresso: as acutilantes crónicas de Clara Ferreira Alves, as desconcertantes reflexões surrealistas de Ana Cristina Leonardo, as magníficas pequenas histórias, sobre cinema, de Manuel S. Fonseca. Porque Mexia é muitíssimo irregular nas suas crónicas, e as de Sousa Tavares, com a idade, também começaram a ganhar peso excessivo... O resto, no Expresso, é paisagem.
Que, a propósito das últimas eleições franceses, tenham preferido ouvir Marine Le Pen, em entrevista, em vez de, por exemplo, Jean-Luc Mélenchon, é um sintoma, um estado de espírito. E um sinal dos tempos, pesados, enfim...

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Rectificativo


Aos que em mim confiam (e quanto lhes agradeço!), mas também aos mais incautos visitantes (que me não conhecem...), há que repor a verdade, por uma questão de lealdade e coerência humana: o poste de hoje [ Palavras do dia (8)] foi a minha contribuição para o dia das mentiras (1 de Abril).
Aqui fica o competente desmentido ou rectificativo.